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escreve Literatura

Escreve literatura

Expressa-te. Que digas, não importa o quê… Escreve, e não importa como, no entanto, expressa-te.

Escolhe as melhores palavras. Aquelas que dizem. As que te significam. As que revelam teus símbolos, escondem teus enigmas e tatuam teus emblemas. Prefere as  coloridas, saborosas, cheirosas… que cada qual traga plasmado teu universo interior.

Dispensa a línguagem geral, usa o teu dialeto, aquele que falas no teu mundo imaginário. Garanta-lhe a fineza artística da sutileza e da perspicácia para que seja agradável e que não perca o contato com o real.

Ama o dicionário e adora a gramática, mas não te entrega a eles! As letras são livres durante o sonho, logo, permite que algo primordial aconteça.

E, se quiseres que leiam, enfeita! Sejas artesão das belezas e  significados.

Deixa que teu fluxo desate na continuidade de um fio, cuja beleza em prosa habite nos meandros do desenredo ou, então, que imprima sua síntese em versos de poesia, tal pequenas pinceladas imbuídas de emoção e subjetividade. Mas, importa elaborar o percurso e fazer cadente e musical, tal as águas que quedam das pedras.

Veste-te das tuas figuras, das tuas pessoas, incertezas e anseios. Pontua para respirar entre cada emoção e mantém o ritmo. Quebra-o, quando preciso. A estética no palco da beleza é livre para cantar e dançar. É onde a liberdade da criação encontra a identificação com aquele que lê.

Sensibiliza-te para que saibas sensibilizar.


o sentido da poesia

o que há de belo na poesia?
poucos entendem a sua beleza
ela não segue a um padrão
sequer se conforma à razão

seja clichê de céu turquesa
ou estrelado de idiossincrasia
recorte instantâneo do dia
com alguma ou nenhuma certeza

poesia respira e inspira emoção
trajada na lógica ou na abstração
na sua forma revela a fineza
e até mesmo se acalma na rebeldia

poesia que brilha na ousadia
e nos encantos da delicadeza
no colo sagrado da construção
onde a beleza apreende a lição

mas ser poeta não põe mesa
então, qual o sentido da poesia?
É ser surpreendido algum dia
surpreso com a própria surpresa!

sacharuk



o descrente

o descrente

A razão, ainda que sobrepujada, é imbatível. A consciência, ainda que ultrajada, é inevitável. No confronto com a solidão um homem achou a inexistência divina, quando nenhuma criatura se apresentou para ocupar a vacância dos espaços e amainar as dores inexplicáveis. Finalmente entendeu que a crença é o indeclinável compromisso de enfiar um deus em todas as coisas. Subterfúgio humano institucionalizado. Sobrava ao referido deus a crença que faltava aos filhos, que faltava à árvore antiga, ao sorriso desdentado do seu avô. Era desperdício de foco. A crença passava dia todo sentada num trono comandando facções criminosas sob a adoração dos seus escravos. Morava nos parágrafos das deontologias que entoavam discursos medievais ao domínio das massas. Tanta súplica pela salvação dirigida a um deus surdo. Tal homem, agora, apenas admira aqueles vitrais cortados por feixes de luz e a persistência daquela poeira oculta nas sombras dos templos. Sabe ele que os artistas são deuses extraordinários, artífices das coisas belas, da música, da poesia, da pintura, da escultura. Nos signos da criação se guarda o verdadeiro embrião de divindade. Entendeu que o amor não é monopólio das crenças e é a chave que abre todas as portas. Agora ele é realmente feliz, sem nada pedir, sem nada dever.

sacharuk



vórtice ascendente

 vórtice ascendente

tremia corpo inteiro e assaltavam os poros toda vez que espocava faísca no cérebro. espiralada no ventre, a serpente maior que jibóia, menor que sucuri, verde, tal as algas. náusea não cabia, apenas a necessidade de chorar sem emoção, falar sem razão. mudava de pele a feiosa. naquela hora, a gosma viscosa desprendia da nojenta e ela, silenciosa, não se movia. despertar era o que queria. cada vez que a eletricidade percorria a espinha, impulsionada por forte assopro, a carne revirava ao avesso. quando acordou, nada de sobrenatural aconteceu, nada de dor, nada de medo. ocorreu que aquilo o que já se sabia passou a morrer. sem apegos e sem assombro.  apenas certezas transmutadas em escombros.

sacharuk






o alienígena

 o alienígena

Todas as manhãs o alienígena acorda e toca o próprio corpo para sentir que existe de fato. No quarto, o espelho embaçado pelo seu assopro é a certeza da sua interferência nas coisas do mundo. Roda e roda pelo submundo. Também visita lugares seletos, mas só ouve murmúrios incompreensíveis das pessoas que conversam em seus próprios dialetos. Alheio a tudo, suas ideias também não são acessíveis aos mundanos de qualquer lugar. Assovia uma melodia singular. Todavia, o alienígena voa, quando poderia simplesmente andar, mas prefere se locomover logo acima das cabeças dessa gente esquisita. Vez por outra, ouve vozes distantes e sons dissonantes e isso tudo o irrita. Também vivencia eventos antecipados nos sonhos premonitórios. Tudo ocorre da forma como sonhou. Seu olhar é um observatório, por isso vê as pessoas por dentro. Não tudo, mas os traços das personalidades e um tanto de seus pensamentos. Ele simplesmente sabe quando alguém é do bem. Além disso, lê os mais finos gestos de mãos, as falas mais rebuscadas, os sorrisos... Assim ele conhece vários níveis de qualquer pessoa e suas conclusões são infalíveis. Alguns o assustam, outros provocam tristeza, poucos o fazem sorrir timidamente. Ninguém o faz sentir-se contente, leve e cheio de asas resplandecentes.

sacharuk



Restituição de bagagem

Restituição de bagagem

No saguão do terminal 2 do aeroporto, o casal apressado para diante da grande tela eletrônica que exibe publicidade bancária junto às informações pertinentes ao desembarque dos voos. A mulher veste confortável traje esportivo e traz uma menina de cinco anos pela mão firme. Logo, o homem encaminha-se calado até a esteira de número seis, onde malas de diversas cores e tamanhos desfilam e exibem etiquetas brancas aos seus prováveis proprietários.

A mãe e a criança agora escolhem chocolates na loja próxima ao portão de saída, enquanto o homem acompanha atentamente o passeio caleidoscópio das malas, até que, num súbito, estende a mão esquerda em direção à alça da mala amarela que se exibe logo à sua frente. Ao mesmo tempo, outra mão impetuosa, ornada de anéis delicados e unhas vermelhas, tenta alçar sem sucesso a mesma mala. O disputado objeto escapa às vontades e segue seu trajeto mecânico, ao passo que os olhares surpresos dos dois interessados se entrecruzam. Suas faces sorriem constrangidas. O homem balbucia uma palavra curta e a mulher responde com outra. Andando sem graça, afastam-se alguns poucos metros.

Quando o mecanismo retorna a mala amarela, a mulher decidida a pega com rapidez e se retira guiando-a sobre as rodinhas e batendo ritmadamente os saltos sobre o mármore.  O homem, que já não atenta à esteira, hesita por um instante e depois a segue.

Em frente ao portão de saída, ele a vê abandonar o prédio em direção à curta faixa de pedestres e acena brevemente erguendo a palma da mão. Hesitante ela para e logo retorna até a vidraça do saguão, aproximam-se e olham-se demoradamente. Quando ele parece querer dizer algo, as pontas vermelhas de dois dedos da mulher pousam na vidraça tal quisessem cerrar os seus lábios que, imediatamente, se calam.

Então ela se afasta até o táxi, empurra a mala para dentro, embarca e parte, enquanto ele, através do vidro, a observa partir.

De volta à esteira, ele estático, quase não vê uma única mala amarela passando à sua frente repetidas vezes, enquanto distraídas, a mãe e a menina brincam no saguão.

sacharuk



estive perdida



Estive perdida

Naquele dia tu estavas de costas para mim com teus cabelos castanhos longos e escovados. Como invariavelmente faziam as meninas da tua turma, trocavas ideias com Anelise sobre paixões adolescentes durante o intervalo das aulas da oitava série. Vocês sorriam sem permissão e especulavam acerca de beijos roubados. Confessavam uma à outra os pequenos desejos de consumo e de felicidade. Vocês eram alegres e ilustravam aos bons ventos a doçura colorida dos sonhos e promessas.

No meu voo fulminante, ainda pude ver que o tempo as contemplava e contava sem pressa. Ele é justo e infalível, mas apenas o destino é capaz de interceder.

Logo após a minha chegada, Anelise disse ao repórter que, vez por outra, tu vestias o jaleco branco do teu irmão enfermeiro e, secretamente, brincavas que eras uma grande cirurgiã. Salvavas inúmeras vidas com a presteza das ressuscitações de emergência e com cortes perfeitos, simulando o bisturi com a faquinha de pão.

Verdadeiramente humana e sensível, tu, doutora, fazias a diferença. Disse também que a vida real não era tão mágica assim. Era preciso ter muita sorte para sair da comunidade e ser alguém na vida. Anelise exibiu sua madura lucidez de quatorze anos.

Ocorreu que em meio aos estampidos de fogo, eu cortei rasante pelos ares fétidos do Morro das Vassouras. Não sei ao certo se quem me enviou era mocinho ou bandido, afinal, espoletei-me de dentro daquele tubo de aço e lancei-me furiosa contra qualquer desses corpos que transitam indiferentes. Foi hoje, terça-feira pela manhã, quando insana, risquei linha reta pátio adentro da Escola Fundamental Paulo Freire. Disparei num poderoso súbito e me alojei vitoriosa no pequeno furo que abri no teu cérebro encantado. Eu que andava perdida, fui prontamente achada por ti, doce criatura, que sequer me procuravas.

Ainda foste recepcionada na unidade de pronto atendimento da comunidade pelo teu irmão, mas infelizmente, não resististe ao ferimento. E eu permaneci inerte, num sono nefasto, entranhada nos tecidos dos teus sonhos dissolvidos na fatalidade do nosso breve encontro, até que fui removida pelo pessoal da balística. Causa mortis. Se te conforta saber, tudo acabou ali para mim também.

Antes das férias, em tua homenagem, Anelise e as outras meninas dançarão numa apresentação de hip hop durante o festival escolar pelos direitos humanos.

sacharuk



fragmento de um texto censurado

Faltavam-lhe palavras. Ela bem queria que jorrassem de qualquer inesgotável fonte, somente as boas, já que as más ela relegara aos quintos da moralidade. Sabia que as palavras são como aquela poeira reunida semanalmente sobre o raque do televisor, a qual ela limpa com ardor e sofreguidão.

Talvez fosse conveniente abrir a grande janela da sala e espiar a rua. Seu pobre gato Divino não fala e nem lê, contudo não é cego. Acomodaria-se sobre o parapeito para observar as histórias diversas e que não lhe dizem respeito desfilando pelo passeio público. Possivelmente sua imaginação felina complementasse a narrativa urbana. Mas ela também não queria saber que, no fundo, o problema era outro e, novamente, dispensara outra ideia pictórica flamejante de falos e bocetas. As palavras, sempre elas, a incomodavam às raias da agressão. A humanidade perdeu-se do caminho e eu estou contaminada, justificava ela. Naturalmente, manteve a janela fechada.

Voltou logo ao quarto, recolheu a bíblia sagrada de cima do criado mudo e abriu numa passagem qualquer. Nos versículos jaziam as mesmas velhas palavras que, todos os dias, a curavam de si mesma.

(fragmento de um texto censurado – sacharuk)


canibalismo cidadão

 Circundavam calçada, centenas criaturas com camisetas coloradas, confeccionadas com cara chapada criatura chamada Che. Comunistas coordenados conclamavam cizânia, clamavam chamamento: "Calamar candidato" "Calamar candidato", carregavam cartazes com caricatura Calamar Cachaceiro. Criaturas com cútis coloridas, confinadas conduziram cartazes condizentes com "conservar cotas" "coordenados contra corfobia" "Calamar comprometido contra corfobia", clamavam consideração. Criaturas com corpos comuns chacoalhavam colhões, chacoalhavam chibil, cu, considerando comover comunidade contra chavascofobia, contra caralhofobia, contra cacofonia, contra coxinhas, contra capitão coisonauro, contra coisominions, contra crentes, contra chãoplanistas, contra capitalismo. Criaturas cagavam chão calçada conclamando cruzada contra cufobia.

capitão coisonauro comandava carreata com centenas ciclomotores, cujos condutores, criaturas conhecidas como coisominions, coibiam cuidados contra coronavirus, carregavam cartazes com "candidatura colegiada com cédula carimbada".  Comando Combatentes chefiava cadetes conduzindo carreata com canhões centenários, chamuscantes como chaleiras carbonizadas, colocando canhões contra cara comunidade contrária convicções cretinas.  Coordenadores Congregação Cristã Cristo Chegará comercializavam cura conquanto conduziam culto comandando crentes, como carneiros confusos, criarem cruzada contra convicções comuns, contra candidaturas contrárias. Chãoplanistas chegavam conclusões catastroficamente calhordas. Chefia chinelicias cariocas, composta com conhecidos criminosos condenados, conclamava capitão coisonauro conquanto comandava crimes contra civis.

com cabeça cheia, cismei:

-caguei!  Comprarei cachaça com crédito covid caixeconômica.

sacharuk

A leonina

A leonina

Tão logo a primeira tormenta da primavera deu trégua, a camareira do Hotel Campanile, dessa feita, não desejou voltar para casa e preparar o jantar para Jonathan. Preferiu percorrer a alameda do parque Stanton. Seguiu alternando os passos revestida de tanta verdade que pouco percebeu as adoráveis árvores caprichosamente dispostas à margem ou seus sapatos lamacentos que chafurdavam nas poças. Egocêntrica, Melissa percebia-se pouco capaz de quedar-se à paixão. Confusa, ainda que satisfeita, arqueou o cantinho direito da boca cor-de-rosa desenhando um meio sorriso divertido. Até mesmo aos intuitivos e determinados, essas estranhas malhas que o destino tece envolvem surpresas. Ela que, invariavelmente, reluta em perder seu tempo aos estados depressivos da alma, rende lealdade aos próprios sonhos, somente a eles é devedora. Esse sentimento tão avassalador é artefato muito raro, então soltou os cabelos. Desejou experimentar o vento que mesclou os fios negros e cacheados aos brancos que sobressaiam tal tímidos intrusos. A indiferença é cansativa e Melissa a odeia. Permitiu que a longa saia voasse livre e descobrisse uma deliciosa porção das coxas morenas. Não importaram as consequências. Ela que jamais teme ser impulsiva, não cedeu às duras penas da mentira.

Ao final da alameda há o córrego. Foi lá que a mulher afogou suas razões no calor úmido de uma boca. Sentiu a indiferença dissipada ao aperto firme das mãos que pousaram sobre suas nádegas. Não havia tempo a perder.

sacharuk




Vermelho


Vermelho 

Meu último gole no chá de flores na cantina do mercado público e consultei, em vão, o relógio do smartphone. Bastou perceber a atmosfera melancólica retratada na cor do céu para inferir que a tarde se esmorecia. Só isso me interessou no momento. Os afazeres estavam esgotados. 

É nessa hora aproximada que, invariavelmente, no caminho para casa, busco o sentido da vida nos acontecimentos. Minha rotina se dilui no tumulto das ruas centrais. Às sextas-feiras o movimento é assustador. Os flashes dos faróis ocultam os indivíduos em silhuetas que circulam em meio à multidão. Aguardei a melhor oportunidade para cruzar a rua. É sempre assim! A espera, bem acomodada no cotidiano, já não cansa mais, e dizem: “o seguro, de tão velho, morreu”. 

Seu Ademir, da padaria, ergueu o corpanzil por detrás do balcão frigorífico e me passou o pacote de pães, mas não perdeu de vista a senhora baixinha que saía do estabelecimento em direção a banca 26. O padeiro bradou: 

─ Até mais vê-la Dona Edith. Obrigado pela preferência. Amanhã teremos sua torta, pode confiar, minha amiga. 

Aquelas palavras portavam uma estranha certeza. As coisas seriam novamente como planejadas, Seriam como ontem e como será durante a semana inteira. E, mais uma vez, Dona Edith acenou com a cabeça ostentando um sorriso tão formal quanto carinhoso ao cumprimento acalorado do comerciante. 

─ É excelente senhora essa Dona Edith. Freguesa antiga e fiel. ─ Disse o homem com simpatia bem adestrada enquanto terminava de fechar um pacote. 

Dentre outras frutas, a 26 tem maçãs que parecem pequenas se comparadas as demais expostas no mercado, entretanto, são muito vermelhas. Dizem que as frutas vendidas ali são livres de química agressiva, no entanto, mais caras. Pequenas maçãs são vítimas de preconceito por parte do consumidor. A aparência das grandes impressiona mais. E as gôndolas carregadas quebram a frieza do corredor revestido de azulejos portugueses fomentando uma interessante competição entre a arte e os apelos do marketing. Por fim, de certa forma, quase todas as imagens são ignoradas no caleidoscópico mercado público. 

Dona Edith escolheu maçãs. Depois de pinçá-las com as pontas dos dedos, cuidadosamente analisou cada uma antes de encaixá-las pacientemente nos espaços vãos do seu cesto de compras. 

─ Pedro, meu querido filho, hoje tem quarenta e quatro anos. Adorava essas maçãs pequenas quando garoto. As bem vermelhas eram suas preferidas. Também dizia que as menores são mais saborosas. 

Flávio, que frequenta comigo o curso de atendimento eficaz, escutou pacientemente a velhinha, enquanto catava vistosas peras importadas fragilmente empilhadas no compartimento vizinho ao das maçãs. 

Sempre que os administradores do mercado acendem as grandes lâmpadas brancas, religiosamente às dezoito horas, as frutinhas mais indefesas passam a perder o viço. Mas aquelas maçãzinhas eram muito vermelhas. 

Eu que já não tenho o mesmo vigor de antes, toco a vidinha exatamente igual a de todos lá da firma. Decepção após decepção. Angústia seguida de angústia. Vou perdendo a raiz. Onze anos longe de minha velha e, ainda, meu pai teve a desfaçatez de partir dessa para melhor antes de me ver caminhar sozinho pela primeira vez. Talvez tivesse a intenção de não me ver andar, afinal, coisas que se movimentam sempre causam algum incômodo. 

Flávio está, também, envelhecido. Mesmo com a proximidade de sua aposentadoria, ainda insiste no discurso duvidoso sobre reciclagem profissional. Enquanto acomodava as peras, metabolizou com contrição as lamentações de Dona Edith sobre Pedro e sobre ossos descalcificados. Deixou evidente no semblante o cansaço e a paciência que já lhe faz falta. Em breve esse pobre vai, tal os outros, padecer nas garras da previdência social. 

A velha, deslumbrada com a rara oportunidade de interação social, acabou por encher o seu cesto de maçãs. Um exagero. Ficou pesado e vermelho... bem vermelho. Queixou-se dos braços fracos. Osteoporose é um perigo na velhice. E eu, se beber bastante leite talvez me previna contra isso. Não fosse a provável desconfiança da velhinha, eu teria oferecido minha ajuda. Hoje não se confia em mais ninguém e isso me constrange e intimida. 

─ Meu Pedro ainda deve gostar de maçãs. Seu primeiro carro, aquele esportivo, era vermelho e acho que o segundo também... Não lembro, disse Edith a quem quisesse a ouvir. 

Ela abraçou aquele cesto de plástico como quem carrega um tesouro. É improvável que coma tantas. Percebi seus olhinhos marejados por ocasião do esforço ou, quiçá, tenha percebido a amargura que saltava da boca do meu colega Flávio. Palavras ditas ou silenciadas poderiam tê-la deprimido. Discursar sobre as lembranças distantes nem sempre consiste em boa ideia. Não é sequer assunto inteligente ou produtivo. Não entendo a razão dos velhos que perdem tanto tempo com isso. Depois, eis o resultado: tristeza, olhos marejados e vermelhos. 

As vivências do passado não retornam, bem, pelo menos não do jeito como foram antes. Elas só existem no pensamento de algumas pessoas. Há tanta gente nesse mundo respirando o passado. O curioso é que sobrevivem, tal quem bete os braços vigorosamente num mar revolto de lembranças. 

A velha de fisionomia enigmática tateou nervosamente a niqueleira lilás e espalhou um punhado de moedas e cédulas amassadas sobre o balcão da operadora de caixa. Notei a menina ensaiando a caricatura pintada com um sorriso amarelo enquanto contava as malditas moedinhas. Mas, não pude deixar de notar que Dona Edith desculpava-se em baixo tom e abusava de uma educação admirável. Os jovens contemporâneos abandonaram esse senso de urbanidade. A menina nada respondeu, e assim, não deu margem a qualquer conflito. 

Edith tomou para si a bolsa de plástico com suas frutas acondicionadas e despediu-se da moça, gentil e elegantemente, isentando-se de qualquer inconveniente que pudesse ter causado. O dinheiro tem suas peculiaridades. Por seu valor fazem-se as guerras. Por isso devem-se contar as moedas pacientemente sem esquecer que o cliente tem sempre razão. Aprendi no curso o que a menina aprendeu na sua rotina no mercado. Emprego não está fácil de conseguir. 

A velha valeu-se de ambas as mãos e juntou a bolsa de maçãs ao seu peito e, com as pernas curtinhas e sobrecarregadas, desceu a escadaria do centro comercial em direção à Avenida 13 de Maio, logo em frente aos portões do mercado. Era hora do rush e, como acontece todos os dias, ao fim da jornada de trabalho, a ordem é, novamente, disputar espaço no ônibus, no metrô, nas calçadas, ciclovias e rodovias. 

Tudo aconteceu tão rapidamente. A bolsa de plástico fino, com a logomarca gigantesca da 26 impressa em cores gritantes, não suportou o peso das maçãs e rompeu-se. Ocorre sempre assim. Os eventos imprimem sua marca no nosso destino subitamente e somente sobram as consequências para contar as histórias. 

Fiquei desorientado diante de tanta confusão. Dona Edith, os faróis, o vermelho e o som ensurdecedor. 

E toda aquela gente com pressa? Todos os dias a história se repete: quando chegamos ao nosso destino só encontramos as sobras. Não se toma banho duas vezes no mesmo rio. São resquícios de um rio que já era. O filósofo tem razão. 

Uma maçã, apenas uma maçã... a única que despencou caprichosamente pelas escadarias, machucada, alcançou o tráfego e rolou tal uma bola, quicando um degrau por vez até cessar seu curso junto aos meus sapatos pretos de camurça. Olhei em volta e sequer cogitei recolhê-la. A sobra. 

Desde então, a lua não se escondeu mais de mim e fez as minhas noites mais longas, depois de esgotados os afazeres. 

sacharuk 





Cagajato 1

Cagajato 1

Calamar Cachaceiro considerou consumir cachaça com certo comedimento, como critério chegar continente chamado Canovaticínio, comparecendo como célebre convidado criatura conhecida como Cardeal Cisplatino, chefe central Comando Comunista Católico (CCC). Contudo, coube Calamar Cachaceiro comparecer Casa Causídicos Comprometidos, chamar caríssimo companheiro Cofroli, com certeza conseguir carta contracondenatória chancelada com carimbo.

-- Cumpanhero Cofroli, careço comparecer Canovaticínio conhecer Cardeal Chico. Careço conceder conselhos. Chico comete culpa com Cristo! Cardeais com certo comportamento condenável, comendo criancinhas, cheirando cola, comprando cocaína, cocacola, cheirando cu, consumindo coquetel cachaça com combustível... Cardeais com consciência católica condenável. Calamar Cachaceiro conduzirá chefe Chico Cisplatino com certa compreensão. Com conselhos, conduzirá Chico conquistar coração cristão. Como criatura caridosa, Calamar colaborará com Canovaticínio consolidando capitalização considerável conta corrente Conselho Cardeais Canovaticinenses. Contudo, cumpanhero Cofroli carece comandar confecção carta contracondenatória. Cumpanhero comprometido com consciência comunista certamente comandará corte caneleira circuitada. Causa coceira canela. Como Calamar chegará Canovaticínio, caracara com Chico, como condenado comum calçando caneleira? Cara caramba cara caraô, caralho.


-- Claro, claro, chefia. Cabe companheiro Calamar chefiar, cabe Cofroli cumprir. Comandarei confecção carta, comandarei corte caneleira circuitada. Convocarei conselho com colegas causídicos: Chinelandowski Cunaboca, Chupaurélio, Carmen, Careca Covardão... Certamente Calamar conversará com Cardeal conquistando consciência cristã. Certamente companheiro Calamar colaborará com causa continental. Compete companheiro chamar cobertura cronistas colaboradores com Carta Capital, Correio Caradepaulo...

sacharuk

charge: Nani

Bairro Renascimento

Bairro Renascimento

Samanta não desalinha nos saltos altos. Anda graciosa e sorridente alternando as longas pernas coroadas pela graciosa minissaia. Absolutamente tudo, em Samanta, transpira certa audácia. 

Segura a bolsa com displicência, não teme os assaltos. Transita livre entre os traficantes e milicianos do bairro Renascimento. 

Lembra sempre do pequeno bairro em que nasceu, na cidade vizinha de Santo Antônio. Foram seus dias mais difíceis. Mas, agora não há mais do que reclamar. Tiago, o filho, nunca mais passou fome e já tem um bom plano de saúde.

Acorda tarde todos os dias para pegar o menino na escola e, depois, o deixa aos cuidados de Dona Diva, a avó, que assume o neto e a casa enquanto a filha trata dos próprios afazeres.

Samanta sempre soube, intimamente, que a beleza que lhe caia muito bem e seria a razão do seu sucesso. Todavia, Samanta é apenas outro clichê urbano.

sacharuk

os demônios do esquecimento

Os demônios do esquecimento

Na noite do pensamento, diante dos trabalhos mágicos, o velho abade percorreu imagens trágicas advindas de um tempo muito distante. Nelas, soaram vívidos os gritos da agonia, reproduziram o brutal assassínio das crianças e a tomada das terras férteis cultivadas pelos seus antepassados. Desejou de volta a honra das conquistas, clamou por tardia vingança. Para tal, evocou magnífico espírito a discorrer os grimórios. Sobre o altar dos sacrifícios, derramou símbolos embebidos no sangue inocente. Visível somente aos olhares experimentados, uma forma inconcebível, oriunda das maquinações do clérigo ocultista, pairou quase dois metros do chão, servil em seu silêncio.

Descrita nos oráculos da sacerdotisa e criptografada nos relatos sacros, a criatura exibia conformação orgânica idêntica as de outras formas humanas, de acepção comum, apenas quando assim o desejava, entretanto, subsistia imperecível a nutrir-se do fluido das memórias ancestrais. Sua intervenção, veloz em qualquer domínio, atendia o chamado das águas, do fogo e do ar e, ainda, podia interceder juntos aos reinos sob a égide das virtudes, mas também, sob o estorvo dos enganos e dos vícios. Acaso falasse aos humanos, a criatura, asseguraria o silêncio aos campos do entorno quando desprezaria os ruídos da fala. Poderia adentrar a mente dos homens quando desejasse, para, enfim, nutrir-se do esquecimento desses.

O velho abade entoou, entre os lábios semicerrados, incompreensível madrigal consagrado à deusa das vertentes. Da fronte de sua criação, entre três distintas cabeças, irrompeu o dragão, que rastejou, saltou e, oportunamente, se revestiu de humanas feições. Eis que o fenômeno da transmutação se revelava não apenas aos virtuosos, mas aos de espírito dedicado.

Resultou incorrupta a maravilha criada pelo abade, resistiu inabalável ao apelo das crenças, enquanto bastante em si mesma, não serviu a outro senhor que não ao seu artífice. A proximidade de outubro fazia emergir as forças que se vestiam nas fatalidades, tornando-as ainda mais evidentes. Pelos dias vindouros, não obstante se estenderia o projeto de vingança do clérigo.

O dragão que surgia daquela forma bestial perpassou, sem que o percebessem, as portas trancafiadas que encerravam as memórias humanas, até adentrar o último recôndito. Lá, depositou o tridente que arrebatava as chagas da humanidade, cujas setas erguiam o corpo da existência em permanente ascensão, sob o signo ígneo da serpente, mas também, consagrava a memória à morte das suas lembranças.

O mestre Gerard negociou a manutenção da vida dos seus juntos aos demônios personificados nas três cabeças da criatura. Como trégua, o abade aceitaria a oferta de dez cabeças dos melhores profetas da aldeia e, cada qual, verteria suas memórias pelo breu do esquecimento fatal. Em troca, os nativos da aldeia teriam preservada a capacidade de lembrar.

Diante da relutância do líder humano, a criatura dos grimórios evocou o início de um tempo de indiferença. Não poderia, o povo de Gerard, no esquecimento das suas máculas, almejar a misericórdia. Seria necessária a consciência viva do seu passado algoz, da essência retida na experimentação dos caminhos malfadados. A administração do futuro dependia da preservação das suas experiências.

Gerard sentiu medo. Estava solitário no curso do seu destino ingrato que o obrigava a decidir entre extirpar as cabeças de seus profetas ou, então, permitir o advento da indiferença de seu povo. E sua incapacidade de contrapor a personificação do malefício do abade deixou deflagrar longo período de trevas.

Dos píncaros da cadeia montanhosa podia-se avistar a longitude do vale. As reminiscências se estenderam secas tal a vegetação local e o povo de Gerard suplicou pelo fim da grande estiagem. O mar já não mais precipitou o pensamento dos sábios e profetas. O causticante sol fez evaporar as últimas lembranças. Gerard proclamou dias de desespero. Seu povo esquecido a nada mais respondeu. Apenas sucumbiu inutilmente pelas montanhas do Velho Mundo, escoltado pelo olhar vigilante dos demônios do esquecimento. Em oração, os populares dispenderam o último discernimento que lhes restara, num transe místico de religiosidade que parecia irromper ao eterno. Com as rochas pontiagudas, rasgaram suas próprias carnes, romperam suas artérias, até seu sangue escorrer sobre as terras do vale. Em plena amnésia, o povo de Gerard encontrou sua ruína.

No vale das memórias apagadas, a terra lavada em sangue e esquecimento expiou o perdão. Sem memória, não houve mais o resguardo diante dos erros, não evocaram mais as fórmulas fadadas ao sucesso da agricultura, das artes e da felicidade. Sem a memória, não houve alimento.

E Gerard foi, então, diante dos estúpidos, o culpado, ainda que sequer disso lembrassem.

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o servo


O servo

Ele lutou, relutou, denunciou fatalidades vivas e pulsantes ao passo que deglutiu tamanha raiva canina. Bebeu café, assistiu aos clientes, bebeu outro café e, logo depois, acalmou-se.
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Questionou o objetivo das coisas. Ouviu novamente as tantas e tantas verdades servidas nas mesas, pregadas nos cultos, na cardiopatia que acomete a sociedade dos sentidos repleta de sentimentos nobres. Por fim, ainda que sem respostas, repetiu orgulhoso cada discurso floreado das melhores intenções. 

Acreditou na justeza dos advogados, na ética dos comerciantes, da pureza dos pastores, nos médicos, no irmão, no vizinho.  

Pretendeu colher pérolas virgens daquelas ostras escancaradas. Pernoitou de novo com a compreensão e com a esperança.

Concentrado, conduziu seu carro novinho e brilhante, contabilizou resultados e aguardou ansioso que o próximo fruto viçoso surgisse dependurado no galho seco. 

Vendeu seguros. Desejou estar seguro. 

Buscou por um senso de justiça que não o tocava. Limpou a mente da torpeza dos preconceitos que jamais adquiriu. 

Assistiu a novela, o futebol, o jornal. Serviu uísque, fumou um baseado. Falou com as horas na espera que o dia acabasse de novo e de novo e de novo. Agradeceu ao Deus, já que é necessário, mas também ao Mamom, o único que sempre surge para conversar.

sacharuk

Pedevalsa e o Último Bolero

Pedevalsa e o Último Bolero 

Pedevalsa, o Milton, foi dançarino. Dos bons. Bem alcunhado pelo viés do talento. Moço bonito de bigode bem feito e um terno bege retro, quando pousava as mãos na parceira certa, aquela que o destino gentilmente lhe presenteara, não carecia mais do que três ou quatro parquetes para a eficácia da performance. Pedevalsa era galã canastrão e beberrão assíduo, mas dançava como nenhum outro. E, ainda moço,CYMERA_20160627_210806 venceu mais de dez concursos de dança. Tudo dependia da escolha acertada da partner

Com Cristina venceu o último concurso, aposentou a noite, os sapatos brancos e casou. Trabalhou de ajudante do quitandeiro Helmut para poder garantir a prole. Não foi fácil. Teve de dançar, e muito. 

Hoje Pedevalsa saiu da consulta geriátrica e decidiu visitar o casarão abandonado do antigo "O Sobrado", a casa noturna onde dançou com as mais belas donzelas da cidade. Restavam apenas escombros circundando a pista onde deslizou seus mágicos pés por vinte e um anos. Suspirou fundo, circundou a fina cintura da esperança com seu fino braço esquerdo, e com o direito, segurou a mão da sina para o último bolero. 

sacharuk

O pingente

O pingente

Mariana finalmente encontrou o pingente no cantinho da pia marfim, ao lado da saboneteira. Ela o havia perdido pela casa há três ou quatro dias. Tentou segurá-lo, no entanto, molhada e escorregadia, a joia tilintou sobre a torneira dourada, repicou repetidas vezes sobre a cerâmica cinza e perdeu-se novamente.

Dissuadida da nova busca, cuidou de abrir a água para encher a pequena banheira de hidromassagem.
Mariana sentou-se ao vaso e passou a escovar os cabelos com a escova de largas cerdas. Sentia arranhar levemente o couro cabeludo percorrendo memórias que escorriam às vertentes ao longo dos fios negros e lisos.

Penteada, segurou a toalha preta entre as duas mãos e descansou sua face sobre ela. Apertou o tecido sobre os olhos.

As memórias persistiam.

Enquanto despia-se, percorreu o chão com o olhar e encontrou o pingente caprichosamente oculto no vão entre os dois tapetinhos azuis.

Abaixou-se, resgatou a peça e observou-a demoradamente. Logo, jogou-a hesitante dentro da banheira já quase cheia. 

Entrou lentamente na banheira, resgatou a jóia e a prendeu firmemente na mão direita, fechou os olhos e deixou a água cobrir sua cabeça. 

Contornado pela forma de uma folhinha de palma, havia um nome sutilmente gravado no pingente de ouro junto às lembranças submersas.

Mas o nome não mais importa quando uma história chega ao fim.

sacharuk

Pobre Anita

Pobre Anita

Não guardo mais a lembrança da festa do meu último aniversário. Obviamente lembro da data que, decerto, não poderia ter esquecido. Sou capricorniano e isso, outrora, já foi relevante. No entanto, sei que Anita estava presente, provavelmente, usando um daqueles seus vestidos decotados e alinhados às curvas generosas do seu corpo.

Brigamos muito por quaisquer motivos. Foi esse o mais evidente atributo da nossa convivência. Divorciar, ela não cogitava. Eu levantava o dinheiro e ela aos seus jovens amantes.

Minhas filhas também compareceram à festa, afinal, as reuniões de aniversário da família apenas aconteciam em virtude do mérito e esforço das meninas.

Hoje o cão esteve aqui. Passou cerca de dez minutos farejando algo no canteirinho que adorna minha cova rasa. Talvez tenha percebido algum bicho desses que revolvem a terra e se alimentam das coisas orgânicas. São tantos: formigas, larvas, minhocas e outros que eu nem conhecia antes. A cadeia alimentar é um processo infalível e sério. 

O tempo passou tão rapidamente. Posso perceber que o velho e bom Toby se aproxima dos seus últimos tempos. É um cão idoso, está gordo e suas patas não suportam mais o peso do seu corpo. Toby sempre vem aqui e descansa suas patas grandes sobre o gramado. 

Há semanas não vejo as meninas e quanto à Anita, a vaca megera, que se foda.

Consola-me saber que sempre que ela vir ao quintal terá de olhar para o canteiro que que ela mesmo cavou e plantou a semente da própria destruição. As memórias são indeléveis e a seguirão mesmo que ela mude de endereço.

Se possível, dia desses, quando aqui ela chegar aqui pertinho, deliciosa sobre seus sapatos altos, eu puxarei sem dó aos seus lindos pés. 

Ah, livrar-se assim de mim não fará com que Anita me esqueça tão facilmente. 

Pobre Anita!

sacharuk


texto inacabado

texto inacabado

O portão de ferro. Na sua metade inferior, a ferrugem contempla pequenos pedaços quase soltos do ferro oxidado. O chão de cimento cru, sem revestimento, revela um vasto caminho que leva até o fundo. Na metade do percurso há uma velha porta de madeira, tal o portão de entrada, apodrece lentamente por baixo, e sua pintura branca tem manchas de sol. O teto parece ter sido branco, tal as paredes. Nessas despencam nacos de tinta velha no chão de cimento.

Paredes em farelos.

Um ventilador de teto com teias de aranha. Recostada à parede, uma estreita escadinha de madeira. Sobre seus degraus, copos, garrafas já abertas, uma carteira de documentos, chaves diversas e o aparelho celular.

O televisor antigo de onze polegadas permanece ligado. Na tela, homens discutem e vestem gravatas.

Uma poltrona funda e ampla guarnecida por travesseiros. 

O homem sentado tem a cabeça caída sobre o ombro direito parece dormir. Entre seus dedos, uma caneta. Logo a sua frente, na escrivaninha de ferro, um caderno. Nele repousa um texto inacabado.

sacharuk

hoje ele não voltou

Hoje, ele não voltou

E então, Sônia vê seus sonhos revirados. Está aos auspícios de novos tempos.

Acende outro cigarro. Sempre o faz como pretexto para pensar. Tal pensar, para Sônia, carecesse pretexto.
Bafora despudorados clichês literários mesclados às nuvens negras das longas tragadas. A mesma cena e o mesmo cenário...sempre. Os seus devaneios culminam em eventos felizes, divertidos, sensuais, junto àqueles que intimamente elege. Cria histórias transcendentais, protagonizadas por sujeitos habitantes das suas memórias, das recentes e das antigas.

Alberto trabalha tanto. Saí cedo de casa para retornar tarde da noite. Viaja, todos os dias úteis, cerca de oitenta quilômetros até chegar. Ultimamente, reclama da tristeza e do cansaço.
Sônia lembra da formatura de Alberto. Sacrifício! Na época, teve de trabalhar muito enquanto o marido concluia a faculdade de direito. Por sorte, não tiveram filhos e, consolidados e estáveis, conquistam facilmente os objetos dos seus desejos. Mas Alberto trabalhava tanto!

No mês passado, Alberto, em duas oportunidades, teve o carro enguiçado e, naquelas noites, não voltou do trabalho. Dormiu num hotel. Mas, na última semana, aconteceu mais duas vezes... e hoje, ele não voltou.

Sônia banha-se demoradamente. Quente e refrescante. Hidrata demoradamente as pernas recém depiladas. Escolhe a meia negra. Com a perda dos três quilos durante a última semana, voltou a caber na sainha.
Pega os cigarros, acende um, as chaves do carro e sai.

sacharuk

Frida e as flores

Frida e as flores

Alguns poucos animais ainda restam no grande prado. Na linda primavera, as flores do campo emprestam tonalidades à vegetação. Mas os novos tempos sequer esboçam a sombra campestre do passado generoso, quando havia a fartura do pasto. Agora há apenas flores do campo.

A velha e pequenina casa de madeira nativa, rudimentar construção secular, erguida pelo heróico esforço de um único homem, precisa de urgentes reparos. O verão se aproxima e, disseram na televisão, deverá trazer consigo violentas chuvas.

Eis que o rostinho inocente e suave de Frida, debruçada no parapeito da janela frontal, tem vivos olhinhos azuis voltados para o alto do morro. Talvez a frágil casinha erguida na depressão da coxilha não a proteja mais das prováveis enxurradas.

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-Acaso um dia partas daqui, mesmo que pretendas voltar, não me encontrarás a tua espera. estejas certo de que terei outro homem. Ele será melhor do que tu, e não me deixará!

Letícia, irredutível e nua em sua cama, esfrega vigorosamente os olhos sensibilizados pelo choro e pela sonolência. Há muito teme pelo possível retorno de Chico para casa.

-Letícia, não quero te perder, mas sabes que preciso voltar para buscar Frida, não posso deixá-la lá.

-Pois voltes para aquele lugar e jamais tornarás a me ver. Bem sabes que não quero mais ninguém intrometido em nosso amor. Nesse quarto só há espaço para nós dois. Não posso e nem vou dar sustento a uma criança que não é minha.

Chico deixou o lar alguns meses antes e jamais mandou notícias. No rancho, deixou todos os seus pertences, como sinais de um retorno sem demora.

-Tenho saudade de Frida, queria que pudesses compreender. Não há sentido em minha vida se ela não estiver próxima a mim. Gostamos de cultivar flores juntos, eu e minha menina linda.

-Pois compreendo Chico, poderás ir quando quiseres, mas procura esquecer que eu existo...Fique por lá cultivando suas florzinhas. Quando saíres daqui, vais te arrepender amargamente.

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Erna, a mãe de Frida, há alguns dias partiu para o centro urbano e levou consigo uma grande sacola feita de palha, seus três vestidos junto a alguns objetos que provavelmente lhe seriam úteis. Tal o marido, antes de partir, disse à menina que buscaria o alimento que já ameaçava faltar e que, em breve, voltaria para casa. Calejada pelo trabalho no campo, a mulher tem braços fortes e traz o semblante marcado pela hostilidade dos dias de sol ardente e, também, dos dias de frio cortante.

Parada no passeio público, curva ligeiramente seu corpo para revirar o conteúdo da sacola. Certifica-se de encontrar o que procura, mas o deixa onde está. Compara o número do prédio cinzento que há em frente com a inscrição feita a lápis numa notinha de papel que segura em sua mão.

-1258, quarto 8, Letícia...Deve ser aqui mesmo!

Empurra sem dificuldade a porta de ferro do grande prédio central e sobe as escadas em direção ao quarto oito. Caminha determinada e introduz a mão direita na sacola.

Uma última revisão na notinha de papel e sua mão esquerda ergue-se para dar três secas batidas na porta do quarto.

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Frida sente mais esperança do que fome. Abandonada, aguarda com ansiedade que do alto do morro se anuncie um retorno. Nos últimos dias, apenas faz ocupar a janela e cuidar amorosamente das flores, amarelas e brancas, as quais seu querido pai colheu na primavera passada e replantou num vasinho que mantém ao lado da porta da cozinha.

Espera pela tempestade que se aproxima. Apenas espera que uma nova primavera devolva a vida que se consome no seu vasinho.

sacharuk


não estou para falar de amor se ele ainda não dói, nem rói, nem pede flor. Não há flores na minha poesia, as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura. Meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro, o único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente, e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza, só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista meio insano, meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história. Todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas, nem gnomos e crenças, nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim, o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira.