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toada

toada

ela dança a toada
regada de orvalho
supre a sede da vida
num tapete vermelho
tremeluz pelo espaço
ondeia suas fitas
exibe seus passos
e a saia de chita

sacharuk

fotografia: Alessandro Lombardo


amores líquidos🎼🎻

amores líquidos🎼🎻

amores líquidos
sabem ouvir silêncios
são cera que percorre
as cordas dos violinos
derramam seu opus
sobre as águas turvas

amores líquidos
desafiam a secura
que parece os corpos
não temem a chuva
que alastra em ondas
de tantos capítulos

amores líquidos
donos da própria vontade
fluem mares indômitos
na corrente da liberdade
emergem à superfície
para beber poesia

amores líquidos
banhados nas mágoas
onde se juntam as águas
onde não há calmaria

sacharuk

fotografia por Ellen Cuylaerts




terraplanismo

terraplanismo

  chato
          pensar plano
  na terra que acaba
       no final do ano
   na ponta do rumo
       de pedra batida
  e some onde cruza
   o fio do horizonte
com a linha da vida

pior que chato
                é vexame
 da ideia desnutrida
    do olhar obsceno
      tonto e calhorda
    que vê só a borda
           do terrapleno

sacharuk



flores de sexta-feira

flores de sexta-feira

falo com paredes
escuto as palavras
observo impressões
e nessa à direita
uma passagem estreita
leva ao jardim encantado

onde colhes orquídeas
e as flores esquizofrênicas
de sexta-feira

se a lua incide faceira
ilumina a câmara pela janela
emoldurada pela cortina
a parede branca é a tela
e as nossas mãos
imitam o voo das aves meninas

sacharuk



canibalismo cidadão

 Circundavam calçada, centenas criaturas com camisetas coloradas, confeccionadas com cara chapada criatura chamada Che. Comunistas coordenados conclamavam cizânia, clamavam chamamento: "Calamar candidato" "Calamar candidato", carregavam cartazes com caricatura Calamar Cachaceiro. Criaturas com cútis coloridas, confinadas conduziram cartazes condizentes com "conservar cotas" "coordenados contra corfobia" "Calamar comprometido contra corfobia", clamavam consideração. Criaturas com corpos comuns chacoalhavam colhões, chacoalhavam chibil, cu, considerando comover comunidade contra chavascofobia, contra caralhofobia, contra cacofonia, contra coxinhas, contra capitão coisonauro, contra coisominions, contra crentes, contra chãoplanistas, contra capitalismo. Criaturas cagavam chão calçada conclamando cruzada contra cufobia.

capitão coisonauro comandava carreata com centenas ciclomotores, cujos condutores, criaturas conhecidas como coisominions, coibiam cuidados contra coronavirus, carregavam cartazes com "candidatura colegiada com cédula carimbada".  Comando Combatentes chefiava cadetes conduzindo carreata com canhões centenários, chamuscantes como chaleiras carbonizadas, colocando canhões contra cara comunidade contrária convicções cretinas.  Coordenadores Congregação Cristã Cristo Chegará comercializavam cura conquanto conduziam culto comandando crentes, como carneiros confusos, criarem cruzada contra convicções comuns, contra candidaturas contrárias. Chãoplanistas chegavam conclusões catastroficamente calhordas. Chefia chinelicias cariocas, composta com conhecidos criminosos condenados, conclamava capitão coisonauro conquanto comandava crimes contra civis.

com cabeça cheia, cismei:

-caguei!  Comprarei cachaça com crédito covid caixeconômica.

sacharuk

vergel

vergel

dá todo ano
fruto mulher
semeado ao chão
cultivado de amor
adubado em paixão
regado ao alvorecer

sacharuk 



boca de sino

boca de sino

minha boca de sino
de tergal da cor do céu
e uma volta ao mundo
por cima da cacharrel
eu era um cara puro
e nunca fui fichado
porque eu era um duro
fui julgado transviado

eu era prafrentex
e guiava kharman-guia
arrochava o gumex
eu batia datilografia
não passei para o científico
fiquei no ginasial
mas não era bocomoco
só um cara legal

sacharuk

entrelinhas

  entrelinhas


ornamento figuras

na barra dos tecidos

capricho as impuras

nas irônicas agulhas

e sempre erro a mão

nas fofuras de algodão


e fio sórdida trama

em ponteio da seda

simulo toque suave

do tipo que clama

por mais delicadeza


escamoteio as agruras

sob mimos de lã macia

como versos de poesia

laçadas de fofa beleza

na urdidura das linhas


e bordo as entrelinhas

com a frieza do metal

meu traçado diagonal

entrelaça as incertezas

as suas e as minhas


faço o ponto rococó

para matar o caseado

arremato com um nó

o motivo que traduz

tudo trabalho forjado

nas malhas de ponto cruz


sacharuk

aos amantes

aos amantes

aos amantes
sou desvelo
escuto segredos
solto os cabelos
sei rir das piadas
mas não sinto nada
além do que é corriqueiro

aos amantes
oferto sarcasmo
e alguns pleonasmos
bem redundantes
e traiçoeiros
em vez dos orgasmos
mais vibrantes
e verdadeiros

sacharuk

não estou para falar de amor se ele ainda não dói, nem rói, nem pede flor. Não há flores na minha poesia, as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura. Meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro, o único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente, e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza, só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista meio insano, meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história. Todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas, nem gnomos e crenças, nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim, o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira.