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fada borboleta

fada borboleta

ela queria somente
ser fada de asas abertas
e nos tempos quentes
voar tal borboleta
quando o dia arrebenta

decerto que pousaria
no dorso da minha mão
para sonhar poesia
uma bela adormecida
tanto mais atrevida

e assim eu me renderia
ao poder da sua mente
ao jugo da sua guarida
às emanações coloridas
das asas resplandescentes

sacharuk



da falsa comiseração

da falsa comiseração

uma vez por ano, os biscuits eram recolocados na estante e queriam parecer vivos. Tinham olhares de vidro apontados para o centro do estábulo de palitos de picolé colado sobre a colina de isopor. O cenário não emprestava sentido ao antinatural e descabido. Salvaguardados três reizinhos engraçados que carregavam presentes e calçavam chinelas azuis diante de uma vaca de gesso que olhava para o lado enquanto outra pastava fiapos de celofane verde. O bebê repousava petrificado sobre uns trapinhos velhos pronto a percorrer viagem de dois milênios pelas vielas escuras das almas penitentes.

sacharuk



canibalesco

canibalesco

sacrificar meu escroto
decerto sequer eu tento
a lógica dos argumentos
me proíbe de ser egoísta

bendita fêmea seccionada
servida em parcas partes
a fome lírica sofista
instintivamente saciada

os loucos                 esses sim!
podem morder a própria carne

amor
precisas saber
salteado e de cor
loucura e amor
é uma coisa só

os loucos                 esses sim!
podem morder a própria carne

sacharuk

Acróstico para ITATIRA

Acróstico para ITATIRA

Ita pedra de sorte e de vida
Tapuia nativa da cordilheira
A terra acarinha feridas
Traduz dores em delicadezas
Inspira a graça hospitaleira
Resplandesce nas luas cheias
Ao crepúsculo das suas belezas

sacharuk




sob a lanterna dos luminares

sob a lanterna dos luminares

aprende gafanhoto, observa aos poetas a declinar golpes de sensibilidade na completude do vazio

escuta versos repletos de silêncio e música das águas do rio

entende gafanhoto, é preciso domesticar a dor e transmutå-la no peso morto que despenca pela colina e esvanece na distância

e a poesia se funda no dom de ver através da neblina sob a lanterna dos luminares

sente teu corpo quando danças, em cascatas e desatinos

eis que no abismo das ânsias,
as tuas escolhas serão sempre caminho

sacharuk

flordolhar

flordolhar

ela tem no olhar
um querer sentinela
passagem de raios
nuanças complexas
percorre arquedutos
abre portas secretas
e floresce nas íris
lumes de primavera

incandescente visagem
cores furtivas diversas
raideluz em seu rabo
coriscado de estrelas
relâmpago relapso
risca corte sem métrica
tremeluzentes pálpebras
tal a chama das velas

sacharuk



mucama


mucama

mucama serve aconchegos
às clausuras do castelo
observa pela janela
pássaros poisam singelos
sobre o fio do horizonte

ela estende a cama
saudade rompe passagens
nas corredeiras dos rios
solidão canta vazios
tal sinfonia vienense
na igreja de Santa"Ana

tanto frio sente a mucama
tanta tristeza pertence
amor rebrota em nascente
sempre que emerge derrama

sacharuk



menina dos olhos de deus

menina dos olhos de deus

a doce menina
dos olhos de deus
denotava pureza
aos auspícios da crença
sob as luzes do espírito
de fé e esperança

certo dia o demônio
das duas cabeças
trouxe a filosofia
cuspiu política
recitou poesia

logo beijou-lhe os mamilos
elogiou suas belezas
e ela esteve suspensa
gravitando de amor

sacharuk

painting art by Lilian Patrice




crendice



crendice

inútil manter
espelhos cobertos
se raios riscam poesia
no leito azul do céu
as luzes declinam versos

sacharuk



menina frente ao espelho

menina frente ao espelho

tão doce menina
frente ao espelho
derrama cachoeira
despenca melenas
ensaia às dezenas
atrevimentos e beijos
tão logo carimba
os lábios vermelhos

exótica dança
descuido e trejeito
humor que balança
os maduros peitos

menina poesia
parece criança
não tem mais jeito
todos os dias
oferta as cortesias
para seu dia perfeito

sacharuk


luzes e sombras

luzes e sombras

esbelta é a particular
silhueta intermitente
que captura e apreende
projeções do teu olhar
dramas de carne e espírito
moldura de aço e de vidro
plano mágico que atrai
e logo te trai
teus reflexos sem avesso
jamais te confessam
quebra-os!

sacharuk



algoritmo


algoritmo

por detrás da minha face
ninguém sabe meus intentos
todas coisas que eu penso
todas coisas que eu sinto

não sabem dos artefatos
que jamais serão usados
minha prece ao oceano
em silêncio desvelado

e não podem ver as ruas
os saraus onde eu estive
meus versos aleatórios
pelo algoritmo d'alma

não vislumbram os vestígios
se rios quedam dos olhos
nem percebem o concreto
que comporta as vertentes

também não veem o sangue
que escorre das feridas
desconsideram os medos
cimentados nas paredes

e são cegos para as sombras
quando iludem a visão
misturadas às penumbras
traçam minha intuição

até tentam ver a lua
onde vive a solidão
meus versos aleatórios
pelo algoritmo d'alma

não vislumbram os vestígios
se rios quedam dos olhos
nem percebem o concreto
que comporta as vertentes

não entendem quando a dor
se esconde sob a pele
e não falam o dialeto
os subterfúgios da mente

jamais podem flagrar nuas
minhas musas eloquentes
e meus versos aleatórios
pelo algoritmo d'alma

sacharuk



fé de outro não me cheira

fé de outro não me cheira

sou vivente de pouca fé
mas não sou tapete
pra cristão bater pé
sei muito bem como é
melhor ir descrente pra frente
do que ir crente de ré

sacharuk




o benquererte

o benquererte

o benquererte
testou a paciência
das tuas marés
desafiou liberdades
do grande oceano
mergulhou os pés
à margem dos enganos
e os rios provaram revés
engoliram a foz
estouraram os canos

sacharuk



nuvem sobre a mata


nuvem sobre a mata

a sombra de nuvem
um velho diabo
tatuou  em tua coxa
bem próxima ao vale
de pequenas árvores
de finos caules
onde estendem- se as faces
 charme e rusticidade
de tão bela botânica
onde o sol esgueira nuanças
e adorna-te as curvas

sacharuk

painting by Lilian Patrice 

o sol pela janela ☀️

o sol pela janela ☀️

viola as mucamas 
       que te servem
também aos teus deuses 
                             e diabos
lambe-os ao fio bruto 
               das mentiras
no leito ejaculado 
     das coisas ditas
estende o lençol de cetim
e esconde sentenças malditas
separa noites 
           desprovidas de razão
dos dias famintos de coração
para que jamais se encontrem
derruba a parede 
        do imponente castelo
que o conto de fadas acabou
melhor não contar outro
pois o sol continua o passeio
no rumo de escorpião
não mora em ti ano inteiro

sacharuk



poesia não vale a pena

poesia não vale a pena

para quê presta poesia?
tenta comer um poema
decerto terás azia
caganeira e outros problemas
insônia e talvez anemia
poesia não vale a pena

ninguém compra poesia
vá procurar outro tema
dinheiro fofoca putaria
logo tu entras no esquema

vira-te contra a poesia
deixa de contar fonemas
sai dessa vida vadia
ocupa-te de coisas plenas
livra-te dessa porcaria
porque vai dia e vem dia
e a poesia não vale a pena

sacharuk




colher de pau



colher de pau

bati ovos
até nevar
ela sentiu a aeração
daquela textura
conferiu a consistência
lambeu a doçura

caiu de beiços
na pontinha açucarada
na sequência
eu espargi leite fresco
na sua tigelinha melada

sacharuk



apocalipse aos ninguéns 🐂

apocalipse aos ninguéns

no derradeiro minuto
do dia último
ouviu- se o apito
o diabo vestiu candura
a cansada sofia
caiu no conto do sofista
sobre a ressurreição do mito
a moral abraçou a falcatrua
a graça esqueceu a poesia
a sorte desprezou a fortuna
a lua perdeu-se na rua

mas nenhum dos ninguéns
na face da terra
acometeu-se do ímpeto
sequer tomou susto
pois o genuíno ninguém
mantém-se um estúpido

sacharuk



a máquina de fazer chuva

a máquina de fazer chuva

ela é operadora
da máquina de fazer chuva
pinga respinga
repica espirra replica
as águas varrem
martelam a terra
esculpem as pedras
e murmuram marés
cinzentas de ocasos

a máquina pode
acionar as torrentes
derramá-las dos vasos
expulsá-las dos canos
entorná-las dos cântaros
para inflar oceanos
e encher a concha
das mãos

sacharuk






não estou para falar de amor se ele ainda não dói, nem rói, nem pede flor. Não há flores na minha poesia, as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura. Meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro, o único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente, e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza, só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista meio insano, meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história. Todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas, nem gnomos e crenças, nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim, o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira.