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sabedoria secular

sabedoria secular

nada tão obscuro
tal abismo profundo
nasce na pupila dos olhos
dos nossos cus

disse um velho
acerca do ego

sacharuk


pífano perdido

pífano perdido

pronto! pachorra paz
perdia ponto
perdia prumo

perseguia prudência
pedia providência
pedia perdão
pelos pecados

precisava paciência
passos perseverantes
parcimônia planejada
para partir paradigmas
para provar perspectivas

perspicaz
prescindia pensamentos
profundamente peculiares
particularidades pueris
palavras pescadas
para parir poesia

possuia
plenas prerrogativas
planejava propósitos
perseguia prodígios
porquanto procrastinava
produções pragmáticas

pretendia persuadir
provar pleno poder
preconizando premissas
pronunciando paradoxos

por pura pressa
produzia pensamentos
promíscuos
palavras portavam
perfídias perdidas

pronunciava
preditivas prosas
pareciam presságios
perversos
pessimistas
perplexos

pedia pela paz
pedido porém
pairava pretérito
ponderava preceitos
parecia pífano perdido
propagando pífios prelúdios

sacharuk


esfria o ímpeto

esfria o ímpeto

esfria o ímpeto
Madalena
pendura a ira
no cabide dos versos

escuta algum disco
ou vai fazer sexo
nutre as orquídeas
as gramíneas
e as verbenas

ainda que sejas maria
distinta madame
ou qualquer helena
derrama café no tapete
da tua falsa aristocracia

espera o dia
Madalena
que ninguém mais terá culpa
dos teus próprios problemas
a sina isentará tuas multas
e a vida valerá a pena

sacharuk


animala

animala

no dia em que te conheci
pulaste como uma foca
desfilaste tal pata
trombaste que nem elefoa
tramaste feito aranha
correste feito pantera

no dia em que te comi
rebolaste tal cobra
miaste que nem uma gata
rugiste feito leoa
mordeste feito piranha
gozaste como uma égua

sacharuk


poema dos erros

poema dos erros meus dedos desenham letras do teu nome em poesia de amor minha língua prova o gosto da tua boca em poesia de amor portanto escrevi para ti o poema dos erros falei dos degredos do desvelo também sobre naufrágios no dia que leres ouvirás minha voz até posso te ver lendo os versos com meu sorriso favorito tão divertido teu rosto iluminado até posso te ouvir dizendo os versos num tom desconexo depois indagando o que resta a nós dois? tu podes saber eu posso sentir teu toque
linda ouço tua voz teu toque
linda ouço tua voz sacharuk



poesia primeira

poesia primeira

poesia primeira
parafraseia pássaros
produz palavras pueris
por profissão

prodigioso poeta
pálpebras pesadas
pretas pintadas
piscam por pão
pedacinhos pontuais

poesia primeira
pode pairar prosaica
percorrer parágrafos
paradoxais

poisa plena
pura perplexidade
provê paixão por propósito
plenitude por pertencer

sacharuk

Painting by Ericamaxine Price

androfagia de amor

androfagia de amor

isento do egoísmo
morder-se-ia o louco
no antebraço das impossibilidades
o rasgo sangrento
naco de carne
doce exorcismo
de amor violento

sacharuk



Restituição de bagagem

Restituição de bagagem

No saguão do terminal 2 do aeroporto, o casal apressado para diante da grande tela eletrônica que exibe publicidade bancária junto às informações pertinentes ao desembarque dos voos. A mulher veste confortável traje esportivo e traz uma menina de cinco anos pela mão firme. Logo, o homem encaminha-se calado até a esteira de número seis, onde malas de diversas cores e tamanhos desfilam e exibem etiquetas brancas aos seus prováveis proprietários.

A mãe e a criança agora escolhem chocolates na loja próxima ao portão de saída, enquanto o homem acompanha atentamente o passeio caleidoscópio das malas, até que, num súbito, estende a mão esquerda em direção à alça da mala amarela que se exibe logo à sua frente. Ao mesmo tempo, outra mão impetuosa, ornada de anéis delicados e unhas vermelhas, tenta alçar sem sucesso a mesma mala. O disputado objeto escapa às vontades e segue seu trajeto mecânico, ao passo que os olhares surpresos dos dois interessados se entrecruzam. Suas faces sorriem constrangidas. O homem balbucia uma palavra curta e a mulher responde com outra. Andando sem graça, afastam-se alguns poucos metros.

Quando o mecanismo retorna a mala amarela, a mulher decidida a pega com rapidez e se retira guiando-a sobre as rodinhas e batendo ritmadamente os saltos sobre o mármore.  O homem, que já não atenta à esteira, hesita por um instante e depois a segue.

Em frente ao portão de saída, ele a vê abandonar o prédio em direção à curta faixa de pedestres e acena brevemente erguendo a palma da mão. Hesitante ela para e logo retorna até a vidraça do saguão, aproximam-se e olham-se demoradamente. Quando ele parece querer dizer algo, as pontas vermelhas de dois dedos da mulher pousam na vidraça tal quisessem cerrar os seus lábios que, imediatamente, se calam.

Então ela se afasta até o táxi, empurra a mala para dentro, embarca e parte, enquanto ele, através do vidro, a observa partir.

De volta à esteira, ele estático, quase não vê uma única mala amarela passando à sua frente repetidas vezes, enquanto distraídas, a mãe e a menina brincam no saguão.

sacharuk



botão

botão

pequena morte
o corpo festivo
não mais lhe pertence
mãos perdidas
sem cautela tateiam
todos os cantos

verte a seiva
aos olhos encorajados
que sorriem 
quando a veem
desabrochado botão

orvalhado ao toque
se contrai
tremeluzem os dedos
ao abandono
dos seus ais

sacharuk



curta

É apenas uma frase,
já vai passar,
quando chegar ao ponto.


sacharuk


minete

minete

              a vida se apraz
                         na preciosidade do ínfimo
               no espaço onde a língua
docemente anima
pontos aleatórios 
          eletricamente iluminados
         e espocam faíscas belas    
    humores orvalhados       

a vida se apraz          
no lugar onde os fins
       convidam aos meios     
            a uma angústia que corre
                contorce sem freio            
maneja sem corte
lambidas amenas
às múltiplas mortes
    pequenas

sacharuk



mãos dadas

mãos dadas

Alice estava certa
dez graus nessa manhã
esfrego as mãos geladas
deixo as portas abertas
nossa cidade ainda dorme
o  velho trem corta a estrada

os bentevis no poste
quebram a calada da aurora
dizem canções tão bonitas
contam heroísmos ao sol
e nós colhemos bergamotas
entre tantas outras coisas
na árvore do nosso amor

de mãos dadas vou agora
pois eu andava cego
ela sabe
que preciso
aconchegar meus medos
no seu peito

com a bênção do padre
e da senhora mãe das águas
até penso nesses tempos
em repensar minhas crenças
talvez quebrar paradigmas
escrever novas histórias

e se ela disser sim
aos pedidos do mar
percorrerei plenitude
pelo sol iluminado
assim serei mais humano
abrirei as janelas
para a rua de pedra

de mãos dadas vou agora
pois eu andava cego
ela sabe
que preciso
aconchegar meus medos
no seu peito

Alice estava certa
a ressaca tomou a praia
céu nublado em Rio Grande
mas o amor acalenta
e seus alofones de mel
cantam ao minuano

no sul do extremo sul
o outono leva as flores
nosso povo isolado
reinventa a sociedade
precisamos morrer com amor
à orla da eternidade
Alice sorri para mim

de mãos dadas vou agora
pois eu andava cego
ela sabe
que preciso
aconchegar meus medos
no seu peito

sacharuk


anel de tucum

anel de tucum

confesso cinzentos medos
ensino-te segredos
do verde chimarrão
do amanhecer ao sereno
e o sol amarelo
a queimar nossos vícios

a noite azul fria
aquece nossa estalagem
quando envolves meu dedo
reluzindo tua graça
na singela inscrição
delicado anel de tucum
para selar compromisso

perpetuo meu nome
no centro da morfologia
que demarca tua nuvem
e depois do café
ainda regas as flores
do meu róseo jardim

e por fim
na lagoa da poesia
eu colho as cores
que te sinto

sacharuk


A leonina

A leonina

Tão logo a primeira tormenta da primavera deu trégua, a camareira do Hotel Campanile, dessa feita, não desejou voltar para casa e preparar o jantar para Jonathan. Preferiu percorrer a alameda do parque Stanton. Seguiu alternando os passos revestida de tanta verdade que pouco percebeu as adoráveis árvores caprichosamente dispostas à margem ou seus sapatos lamacentos que chafurdavam nas poças. Egocêntrica, Melissa percebia-se pouco capaz de quedar-se à paixão. Confusa, ainda que satisfeita, arqueou o cantinho direito da boca cor-de-rosa desenhando um meio sorriso divertido. Até mesmo aos intuitivos e determinados, essas estranhas malhas que o destino tece envolvem surpresas. Ela que, invariavelmente, reluta em perder seu tempo aos estados depressivos da alma, rende lealdade aos próprios sonhos, somente a eles é devedora. Esse sentimento tão avassalador é artefato muito raro, então soltou os cabelos. Desejou experimentar o vento que mesclou os fios negros e cacheados aos brancos que sobressaiam tal tímidos intrusos. A indiferença é cansativa e Melissa a odeia. Permitiu que a longa saia voasse livre e descobrisse uma deliciosa porção das coxas morenas. Não importaram as consequências. Ela que jamais teme ser impulsiva, não cedeu às duras penas da mentira.

Ao final da alameda há o córrego. Foi lá que a mulher afogou suas razões no calor úmido de uma boca. Sentiu a indiferença dissipada ao aperto firme das mãos que pousaram sobre suas nádegas. Não havia tempo a perder.

sacharuk




quid pro quo

quid pro quo

cruzou águas imensas
deitada na sua canoa
desenhou com o dedo
mil promessas
riscadas nas nuvens

havia vazio em seu meio
uma vertigem
certa dor um receio
não era medo
horizonte quebrado
esse vazio tinha nome
tinha cor tinha cheiro
abria sombras aladas
para voar com as garças

ela viu de tão perto
que o nada é o nada
e que todo o nada
esvazia repleto
transborda tão cheio
de vazios incompletos

sacharuk




Cagajato 1

Cagajato 1

Calamar Cachaceiro considerou consumir cachaça com certo comedimento, como critério chegar continente chamado Canovaticínio, comparecendo como célebre convidado criatura conhecida como Cardeal Cisplatino, chefe central Comando Comunista Católico (CCC). Contudo, coube Calamar Cachaceiro comparecer Casa Causídicos Comprometidos, chamar caríssimo companheiro Cofroli, com certeza conseguir carta contracondenatória chancelada com carimbo.

-- Cumpanhero Cofroli, careço comparecer Canovaticínio conhecer Cardeal Chico. Careço conceder conselhos. Chico comete culpa com Cristo! Cardeais com certo comportamento condenável, comendo criancinhas, cheirando cola, comprando cocaína, cocacola, cheirando cu, consumindo coquetel cachaça com combustível... Cardeais com consciência católica condenável. Calamar Cachaceiro conduzirá chefe Chico Cisplatino com certa compreensão. Com conselhos, conduzirá Chico conquistar coração cristão. Como criatura caridosa, Calamar colaborará com Canovaticínio consolidando capitalização considerável conta corrente Conselho Cardeais Canovaticinenses. Contudo, cumpanhero Cofroli carece comandar confecção carta contracondenatória. Cumpanhero comprometido com consciência comunista certamente comandará corte caneleira circuitada. Causa coceira canela. Como Calamar chegará Canovaticínio, caracara com Chico, como condenado comum calçando caneleira? Cara caramba cara caraô, caralho.


-- Claro, claro, chefia. Cabe companheiro Calamar chefiar, cabe Cofroli cumprir. Comandarei confecção carta, comandarei corte caneleira circuitada. Convocarei conselho com colegas causídicos: Chinelandowski Cunaboca, Chupaurélio, Carmen, Careca Covardão... Certamente Calamar conversará com Cardeal conquistando consciência cristã. Certamente companheiro Calamar colaborará com causa continental. Compete companheiro chamar cobertura cronistas colaboradores com Carta Capital, Correio Caradepaulo...

sacharuk

charge: Nani

colcha de margaridas

colcha de margaridas

teu umbigo
é um ótimo abrigo
para querer ir morar
e teus mamilos
são equidistantes
aos teus olhos de mar
que acusam marés
desinteressadas

teus cabelos
quase assanhados
confessam os cachos
quedam florindo
a sorrir divertidos

eu te desadorno
eu te desenfeito
desrascunho
e desescrevo
cada pedaço de ti

e tu aí
tão linda
nudez em relevo
sobre o plano
da velha colcha
de margaridas

sacharuk


âmago

âmago

sou tua presa
demônio
teu hálito vermelho
invade minha boca
contra minha vontade
fui indefesa

da textura que me veste
ao âmago das incorporeidades
a tudo fizeste teu
tudo!

meu útero é teu!

sacharuk


vive teu isolamento

vive teu isolamento

vive teu isolamento
as feridas de dentro
o lixo toma o mundo
isso é tão duro

abdica ao poder
essa é a hora
é preciso amor
querer olhar para fora
dividir para socorrer

conhece a penúria
compartilha do medo
dos homens simples
sabem que a sina
qualquer dia
sem demora
espreitará da esquina

vive teu isolamento
pratica poesia
oferta ao teu corpo
luz do sol
pandemia de ficar  só
para amanhã estar junto

vive teu isolamento
faz de ti instrumento
de conforto

sacharuk



não estou para falar de amor se ele ainda não dói, nem rói, nem pede flor. Não há flores na minha poesia, as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura. Meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro, o único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente, e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza, só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista meio insano, meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história. Todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas, nem gnomos e crenças, nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim, o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira.