podcast

amores líquidos🎼🎻

amores líquidos🎼🎻

amores líquidos
sabem ouvir silêncios
são cera que percorre
as cordas dos violinos
derramam seu opus
sobre as águas turvas

amores líquidos
desafiam a secura
que perece os corpos
não temem a chuva
que alastra em ondas
de tantos capítulos

amores líquidos
donos da própria vontade
fluem mares indômitos
na corrente da liberdade
emergem à superfície
para beber poesia

amores líquidos
banhados nas mágoas
onde se juntam as águas
onde não há calmaria

wasil sacharuk

fotografia por Ellen Cuylaerts




bailarina das Luas

bailarina das luas

dissolvo-te as reentrâncias
ensaio cores nuanças
reviradas nas águas
para lamber tuas pernas

descubro-te com feixes
de espíritos da terra
talvez sejam peixes
criaturas estranhas
ou almas insanas
suplicantes
dos teus átomos

e faço-te em matizes
das minhas cerdas
com cuidado
para riscar os deslizes
dos teus contornos
abstratos

sinto-te nas cores
tal fossem sabores
revestidos na sépia
de inventados outonos
a negar os calores
e as primaveras

inventei a tua nudez
aos auspícios
dos raios da lua
ela louca se fez
perdida na vastidão
dos seus vícios
de poesia
e de escuridão

certo dia
peguei tua mão
e gravei em tua palma
traços de incertezas
e o açoite da espera
que ronda as noites
da minha janela

bailarina das luas
e dos arcanos
te fazes mais bela
se danças nua
no teu oceano

eu somente
estrela cadente
busco tua senda
na angustia da queda

revelo-te silente
tal quem nada espera

wasil sacharuk


do pó que faz pedra nas águas

do pó que faz pedra nas águas

tantos anos passados
 foram tantas as navegações
pelas rotas mais loucas
a rodar timões desenganados

estivemos lado a lado
copos na mesa
navegamos whisky derramado
marolas e ressacas
ondas de incertezas

nossa velha barcaça
move a vela 
de toalha de mesa
traz memórias acessas
tão vivas como antes
histórias de navegantes
pouco ou nada diferentes

nosso encontro na foz
fez poema de versos correntes
cuja origem é nascente das mágoas

assim somos nós
assim fomos feitos

do pó que se encerra
habita o fundo das águas
constitui antigo agregado

e lá do outro lado, na terra
aguardamos o dia perfeito
em que voltaremos ao pó

assim somos pedras
assim somos sós

wasil sacharuk

DSCF0490

das marés escravas da lua

das marés escravas da lua

cheguei nascituro
no dia presente
portador de incertezas
demais eloquentes
e umbigo partido
com livre tesoura
vim no tubo de óleo
que hidrata assaduras

cheguei bolhadágua
que pinga das fontes
furtacores dos prismas
irreais diamantes
dono rico do brilho
calhorda das ruas
vim pela delicadeza
indiscreta da lua

cheguei no flash
de insight errante
angelical urubu
ou delicado elefante
diabo resplandescente
da aura mais pura
vim na estrela cadente
na noite escura

cheguei atrasado
no próximo instante
na primeira lâmina
da cruel cartomante
escorpião que envenena
com sua picadura
vim da dor que me mata
e da dor que me cura

wasil sacharuk

meu castigo

meu castigo

lancei um pedido
nas águas do mar
estive perdido
para me encontrar

tanto fui louco
a dialogar tuas mãos
por espaços
de coisas
fora do lugar

vivo escondido
na esteira do tempo
para nao sentir
tua falta
nunca mais

vivo escondido
detras da tua porta
para nao sentir
tua falta
nunca mais

eu sei
pioggia
meu castigo
pioggia

eu choro
pioggia
meu castigo
pioggia

eu vivo escondido
por espaços
de coisas
fora do lugar

lancei um pedido
para nao sentir
tua falta
nunca mais

eu sei
pioggia
meu castigo
pioggia

eu choro
pioggia
meu castigo
pioggia

wasil sacharuk

elisabetta buonanno - il mare d'inverno

elétricos

elétricos

tu me fase
eu te fio
tu me terra

wasil sacharuk

cada crença corresponde com cada cadáver

cada crença corresponde com cada cadáver

corriqueiramente
coveiro chega capela
cemtraliza cruz 
com cabeceira caixão
coloca castiçais com chamas
 convenientemente cintilantes
conquanto consome
 caneca com café
conforme chamusca cigarro

cabe coveiro corresponder cada corpo caído
com caixão contratado

convém colocar cravos
condecorando casaco

como colaborador com cemitério
conforme chega
coloca chapéu 
critério contra claridade
começa cavar chão... 
cava...cava...
cem centímetros
construindo cova
compatível com 
cumprimento caixão

conforme correm cerimônias
conduz criaturas chorosas
consanguíneas com cadáver
conduzirem cerimônia
carregando caixão
coberto com camiseta
correspondente com clube
cujo cadáver contribuía

criaturas cantam canções comovidas
como cadáver costumava cantar
contudo, choram copiosamente
conquanto cuidadoso coveiro
coloca cobertura 
cerrando caixão
centralizando com cova cavada 

como costume
caem crisântemos
como chuva colorida
celebrando cadáver

contudo
cadáver continua calado
completamente chateado
com culto cretino

wasil sacharuk


curta

É só uma frase,
vai passar,
assim que chegar ao ponto.


wasil sacharuk


feridas

feridas

não vertas
o azeite fervente
sobre tuas feridas

elas se curam sozinhas
num afago consciente
depuradas com carinho

wasil sacharuk



roda-viva


roda-viva

o tempo
sempre o tempo
roda espirais
agruras de vento
dança rodamoinho
corrupio e atropelo
das vidas pequeninas
depois chora ruínas
no jazigo dos lamentos

wasil sacharuk

rodaviva


vive teu isolamento

vive teu isolamento

vive teu isolamento
as feridas de dentro
o lixo toma o mundo
isso é tão duro

abdica ao poder
essa é a hora
é preciso amor
querer olhar para fora
dividir para socorrer

conhece a penúria
compartilha do medo
dos homens simples
dos que sabem que a sina
qualquer dia 
espreitará da esquina

vive teu isolamento
pratica poesia
oferta ao teu corpo
luz do sol
aprende a estar só
para amanhã ficar junto
faz de ti instrumento
de conforto

wasil sacharuk


androfagia de amor

androfagia de amor

isento do egoísmo
morder-se-ia o louco
no antebraço das impossibilidades
rasgo sangrento naco de carne
doce exorcismo de amor violento

wasil sacharuk



seus sais

seus sais

sinto salgados
seu suor
seu sêmem
sua saliva

seu sexo
secreta
sabores solares

sou somente
sua serva
sorvo seus sais
sem segredos

sei sanar
seus sentidos
sabores servidos
sonhos sexuais

sei sumir
seu sabre
saborosamente
sem sacrifícios

wasil sacharuk







ao Trancarrua das Almas


ao Trancarrua das Almas

quero entender os agouros
dialética das minhas dores
e a solidão dessas luas
meu senhor trancarruas
hospedeiro das almas

quero poisar outras cores
na noite de negro e ouro
a espera do dia vindouro
fronteira da vida e da morte
acaso sejam contrárias

quero uma capa igual a tua
senhor trancarrua das almas
sobre meu túmulo sem flores
a esconder meus tesouros
medalhas das minhas batalhas

quero um evento simplório
evite outro circo dos horrores
a mentira que se insinua
a verdade que se diz crua
apenas a pena que valha
quero cerrar os meus olhos
morrer atento aos rumores
no berço dos meus esplendores
guardados junto aos entulhos
e viver das migalhas

wasil sacharuk




musa

musa

não me proíbas de pintar-te nua
capturar-te emoldurada
       sedimentar teus fluidos
          plasmar teus suspiros

não me proíbas de ver-te tal musa
                         derramar-te poesia
oferendas à deusa
          dos mil sacrifícios

wasil sacharuk

Archibald J. Motley Jr. | Nude (Portrait of My Wife) (1930) |

seriema

seriema

canta bonito
seriema avoada
daqui te ouço
flauteando a toada
dos versos compridos

aninha-te ao leito
árido dolorido
chão de cerrado
daqui te vejo
espectro refletido
do firmamento

canta bonito
seriema avoada
anuncia a chuvarada
percute em lamentos
tuas frases rasgadas

daqui te sinto
esvoaçante ao ventos
desenhando pegadas
no infinito

wasil sacharuk


Capuchinho

Capuchinho

vermelho era o pecado
tingido na vã inocência
passeava só sem licença
trazia doces confeitados
de sabores atávicos 

no seu cesto de enlaces
haviam sonhos de chocolate
deleites aos vícios
e um caderno riscado
com versos rasgados
falantes de falos
e orifícios

perseguia o auspício 
cordeiro em pele de lobo
seduzido ao escopo
de logo comê-la 

e assim a pequena
melindrada cobria a cabeça
no rubro pano
para que o dó dos enganos
jamais lhe apareça

wasil sacharuk



manufatura

manufatura

amarra to cadarço
fecha a gaveta
preserva o cabaço
esfria a cabeça

conjuga o plural
penteia os cabelos
melhora o visual
apara os pelos

aperta o nó
fecha a braguilha
respeita a avó
segura a filha

protege a raça
lava os pratos
veste a calça
calça os sapatos

impõe o gênero
esconde o complexo
destila o veneno
politicamente correto

wasil sacharuk



hemisférico

hemisférico

se eu tirar o teu norte
tu me dás o teu sul?

sacharuk

rumo a Pasárgada

Rumo a Pasárgada

Morre em mim todos os dias que amanhecem
Morre em mim a fala suave e o hálito doce
Morre em mim a manhã da primavera
Morre em mim a criação e a canção do luar

Não é mais tempo de plantar nem de colher
Não é mais tempo de ler velhos poemas empoeirados
Não é mais tempo de acreditar que poderá ser diferente
Não é mais tempo de vida que corre nos olhos e nas veias do entendimento

Acabou a festa do conhecimento
Acabou o dia, a tarde e a madrugada de sonhos
Acabou o canto da coruja no galho da manga-rosa
Acabou a letra desse alfabeto em cor

“Vou-me embora pra Pasárgada”
Vou vestido de nudez
Vou livre de amarras
Vou simples, presente e morto de todas as subjetividades do talvez

Morre em mim toda a grandeza que cresce
Morre em mim a inocência da beleza precoce
Morre em mim a destreza felina de uma fera
Morre em mim a atração pelas forças do mar

Não é mais tempo de parar ou de correr
Nâo é mais tempo de rever conceitos enterrados
Não é mais tempo de confiar na sanidade da gente
Não é mais tempo de sentir a ferida que escorre dos olhos num lamento

Acabou a resistência do cimento
Acabou a nostalgia das madrugadas de tons tristonhos
Acabou o poema que sobrepuja a frieza da prosa
Acabou a caneta dessa escritura de dor

"Vou-me embora pra Pasárgada”
Vou liberto das mercês
Vou solto de todas as garras
Vou assim mesmo, engajado em mim, sem certezas e nem porquês.

Diogo Dias Fernandes & Sacharuk



voltarei na primavera

voltarei na primavera

tu nada disseste
sequer uma torta palavra
apenas seguiste
minha estranheza engraçada
quando nossas largas passadas
pisaram fofas

nossos corpos inclinados
desprovidos de roupas
projetados à frente
cruzaram a rua dos tempos
sobre os tetos das casas
sobre pessoas e plátanos
carrossel de hologramas
luzes furtadas das coisas
daquele lugar

para o próximo encontro
deixo flores perfumadas
no parapeito da tua janela
entremeada pela trepadeira
logo te chamo num sonho
com cores de primavera

wasil sacharuk



nuanças verdes

nuanças verdes

debaixo daquela árvore
a sombra lembra o desígnio
tal um signo
feito fantasma
luz do espírito
ou apenas miasma

debaixo de árvores
enterram-se as mortes
tanto as de azar
quanto as de sorte
daí brotam raízes
as fracas e as fortes

debaixo daquela árvore
há um fruto esmagado
por fatalidade ou pecado
porém dá na mesma
um sonho pisoteado
desfaz-se que nem lesma

debaixo de árvores
riscam os raios
que vêm das estrelas
os horrores mais feios
as mais lindas belezas
dos verdes mais cheios
e de suas fraquezas

wasil sacharuk


domador



domador

andei a colher alguns bons motivos
de amor colhe flor plantador colhe rosa
nos campos férteis de um recomeço
andei a sentir o espírito travesso

estive inclinado a riscar uma prosa
plantaflor colhe amor colhedor lenitivo
que tivesse um enfoque mais positivo
estive a buscar a essência poderosa

andei a esgueirar de qualquer tropeço
de medo arremedo arredor arremesso
em meio ao ciclone dessa rebordosa
andei a tentar ser mais digno e altivo

estive a pensar no valor de estar vivo
pensa amor sabedor pensador polvorosa
para relembrar o que sempre esqueço
estive ocupado em pensar ao avesso

assim descobri que a vida é curiosa
catamor cataflor catador e cativo
que basta um contato mais sensitivo
andei a domar minha alma teimosa

wasil sacharuk

Orlando Orfei


estive perdida



Estive perdida

Naquele dia tu estavas de costas para mim com teus cabelos castanhos longos e escovados. Como invariavelmente faziam as meninas da tua turma, trocavas ideias com Anelise sobre paixões adolescentes durante o intervalo das aulas da oitava série. Vocês sorriam sem permissão e especulavam acerca de beijos roubados. Confessavam uma à outra os pequenos desejos de consumo e de felicidade. Vocês eram alegres e ilustravam aos bons ventos a doçura colorida dos sonhos e promessas.

No meu voo fulminante, ainda pude ver que o tempo as contemplava e contava sem pressa. Ele é justo e infalível, mas apenas o destino é capaz de interceder.

Logo após a minha chegada, Anelise disse ao repórter que, vez por outra, tu vestias o jaleco branco do teu irmão enfermeiro e, secretamente, brincavas que eras uma grande cirurgiã. Salvavas inúmeras vidas com a presteza das ressuscitações de emergência e com cortes perfeitos, simulando o bisturi com a faquinha de pão.

Verdadeiramente humana e sensível, tu, doutora, fazias a diferença. Disse também que a vida real não era tão mágica assim. Era preciso ter muita sorte para sair da comunidade e ser alguém na vida. Anelise exibiu sua madura lucidez de quatorze anos.

Ocorreu que em meio aos estampidos de fogo, eu cortei rasante pelos ares fétidos do Morro das Vassouras. Não sei ao certo se quem me enviou era mocinho ou bandido, afinal, espoletei-me de dentro daquele tubo de aço e lancei-me furiosa contra qualquer desses corpos que transitam indiferentes. Foi hoje, terça-feira pela manhã, quando insana, risquei linha reta pátio adentro da Escola Fundamental Paulo Freire. Disparei num poderoso súbito e me alojei vitoriosa no pequeno furo que abri no teu cérebro encantado. Eu que andava perdida, fui prontamente achada por ti, doce criatura, que sequer me procuravas.

Ainda foste recepcionada na unidade de pronto atendimento da comunidade pelo teu irmão, mas infelizmente, não resististe ao ferimento. E eu permaneci inerte, num sono nefasto, entranhada nos tecidos dos teus sonhos dissolvidos na fatalidade do nosso breve encontro, até que fui removida pelo pessoal da balística. Causa mortis. Se te conforta saber, tudo acabou ali para mim também.

Antes das férias, em tua homenagem, Anelise e as outras meninas dançarão numa apresentação de hip hop durante o festival escolar pelos direitos humanos.

sacharuk



avenidas da vida

Avenidas da Vida

“Aos nove dias do mês de julho do ano de 1931, às quatro horas e vinte minutos, nasceu na cidade de Pelotas, no Hospital de Beneficência Portuguesa, a criança do sexo masculino de nome Milton Carlos Lobo Simões, filho de...”. Eis o que preambulava a certidão de nascimento do eternamente pequeno Miltinho, menino peralta que cresceu longe das avenidas da vida. Famigerado na vizinhança pela alcunha de Pedevalsa, a qual ostentou até que encontrasse a sua rua sem saída. Logo após, voltou a usar o nome Milton, gravado em bronze.

Pedevalsa nasceu pobre e pacato, assim como todos do entorno. Eram tampos de salutar humanidade, trabalho mais digno e coesão familiar. Outros valores combinavam apenas com os ricos.

O velho Manuel, seu pai, foi o primeiro músico na cidade a tocar flauta transversal num conjunto de boleristas. Eventualmente cantava arranhando um castelhano deficiente. Doralina distribuía parca atenção entre as tarefas de dona de casa, comerciária e mãe. A última rendeu-lhe desconfortos. Primeiro incomodou-se com as vizinhas, logo, as professoras do filho e, mais tarde, novamente com as primeiras, que agora eram outras.

Na escola Pedevalsa foi suficiente. As notas baixas eram relevadas pela eficácia de sua sedutora expressividade aliada a barganhas afetivas. Assim, angariando simpatia, jamais repetiu ano. Aos treze, enquanto cursava o ginasial, teve seu pedido de emprego atendido pela gráfica do jornal. Imprimiu o diário até os vinte e quatro anos de idade, intercalando o tempo entre o trabalho, pouco estudo e as mil e uma noitadas na Baiuca.

Baiuca era a bola da vez. A casa noturna mais frequentada da cidade. Era Miltinho quando chegou e, paulatinamente, consolidou-se Pedevalsa. A alcunha foi inspirada na graça arrebatadora e na plasticidade com que seus pés deslizavam sobre a pista de dança. Foi levado, observado, apadrinhado e amparado pelo observador de talentos boêmios Mário dos Discos, funcionário da loja de elepês.

Deixou a escola. Assumiu de vez a Baiuca. Era o dançarino principal, contratado para o secreto deleite da clientela feminina. E no primeiro mês, o patrão descontou de seu salário a bebida consumida pelo dançarino, logo, pouco dinheiro sobrou. Daí sobreveio a insatisfação e a busca de um novo salão.

Nesses trinta dias edificou certa fama entre as mulheres da alta sociedade, o que lhe facilitou o ingresso imediato como dançarino principal de outra casa, mais requintada: ‘O Sobrado’.

De bigode bem aparado, boa graxa nos sapatos e o terno bem cuidado, foi a atração das noites. Tentava atender a todas as solicitações das moças. Habilidoso na valsa, no bolero, no tango, no samba e, ainda, sabia imitar o Fred Astaire, caso tomasse uns goles entre um número e outro.

Conheceu Cristina no bolero. Linda mulher das grossas canelas e bailado desajeitado. Casaram-se. Geraram Francisco e Ginger.

O aumento da prole fez a vida perder um tanto da diversão. Não era possível inserir outras danças na maratona. O dinheiro ficou pouco e Pedevalsa teve que procurar um emprego que remunerasse suas horas diurnas. Após exaustivas frustrações, foi trabalhar na quitanda do Helmut, um colono alemão conhecido como “o fatiador de línguas”.

Um incêndio em 1973 consumiu o velho Sobrado, já decadente. As novas casas noturnas já não contratavam dançarinos. As novidades reservaram a Pedevalsa dedicação exclusiva às tarefas da quitanda. Enquanto atendia as velhas amigas, agora matronas, arriscava conduzi-las em uns breves passinhos ritmados em frente às gôndolas, sob a luz de uma aura de nostalgia que impregnava as coloridas frutas, legumes e embutidos. E foi assim até 1999, quando o geriatra o incapacitou com diagnóstico de Alzheimer.

A aposentadoria era o vislumbre de uma nova vida ao cansado Pedevalsa. E na sua primeira tarde por conta da previdência social, decidiu visitar os escombros do velho Sobrado. Moravam lá vestígios bailarinos no salão das lembranças. Estava Pedevalsa, torpe, a observar a dança das sombras na parede que confinava a sua rua sem saída.

sacharuk



pequeno

pequeno

eu posso saber de tudo
ser essência da vida
posso ser algum anjo
luz das almas perdidas
posso ser boa nova
das saudades infindas

e sei ser linda flor
num jardim tão perfeito
posso ter qualquer cor
produzir meus efeitos
                ...fantásticos

tudo é tão pequeno
      se te amo tão vasto

apenas velho demônio
soberano do hades
inferno enfadonho
onde o tempo é sem tempo
e distante é distante

das tristezas errantes
posso ter o controle
nas belezas vertentes
sei matar minha fome
meus talentos latentes
                ...fantásticos

tudo é tão pequeno
      se te amo tão vasto

apenas velho enfadonho
demônio do hades
inferno soberano
onde o tempo é sem tempo
e distante é distante

eu posso ser pleno
mas também simulacro
tudo é tão pequeno
se te amo tão vasto

tudo é tão pequeno
        se te amo tão vasto

sacharuk


o benquererte

o benquererte

o benquererte
testou a paciência
das tuas marés
desafiou liberdades
do grande oceano
mergulhou os pés
à margem dos enganos
e os rios provaram revés
engoliram a foz
estouraram os canos

wasil sacharuk



da lógica estrambótica incompreensiva das coisas

da lógica estrambótica incompreensiva das coisas

entro e saio da metafísica
chego pertinho da ética
vislumbro o traçado na lógica
insana cruel estrambótica

logo

tuas manhas são coisas
que minha cabeça não toca
a ti são moedas de troca
terror versus racionalidade
colagem de alguns fragmentos
inventam qualquer verdade

eu queria um apelo holístico
sensível e também silogístico
mas só revirei sentimento
enxaqueca gastrite lamento
e a maldita incompreensão
escambo entre o sim e o não

eu queria ir além da razão
sobre-humano divino ou ético
com premissa e conclusão
um lampejo profético
de inconformismo dialético
a fé numa puta falácia

também queria eficácia
saber juntar os caquinhos
e enquanto vivo sozinho
lerei versos de alegria
talvez eu cometa a audácia
e risque uma nova poesia

wasil sacharuk


poesia primeira

poesia primeira

poesia primeira
parafraseia pássaros
produz palavras pueris
por profissão

prodigioso poeta
pálpebras pesadas
pretas pintadas
piscam por pão
pedacinhos pontuais

poesia primeira
pode pairar prosaica
percorrer parágrafos
paradoxais

poisa plena
pura perplexidade
provê paixão por propósito
plenitude por pertencer

wasil sacharuk

Painting by Ericamaxine Price

o sol pela janela ☀️

o sol pela janela ☀️

viola as mucamas 
       que te servem
também aos teus deuses 
                             e diabos
lambe-os ao fio bruto 
               das mentiras
no leito ejaculado 
     das coisas ditas
estende o lençol de cetim
e esconde sentenças malditas
separa as noites 
           desprovidas de razão
dos dias famintos de coração
para que jamais se encontrem
derruba a parede 
        do imponente castelo
que o conto de fadas acabou
melhor não contar outro
pois o sol continua o passeio
no rumo de escorpião
não mora em ti ano inteiro

wasil sacharuk



Beatriz

Beatriz

Seu rosto, branca tela em nu semblante,
Beatriz que, a mim, seu Dante, fez omisso.
Mostrou-se em todo o viço e o torturante
Requebro serpenteante a torna aquela

De olhares de gazela e seus rompantes
Com brilho de diamantes, de silícios.
Em frestas e interstícios balbuciantes,
Segreda-nos desplantes, minha bela,

O deus que me acautela e é tão gigante
Que faz mirabolantes meus suplícios
E remete-me aos vícios, oh, donzela:

Mulher que se revela e, ofegante,
Se dá exorbitante em sacrifício.
Se faz meu precipício, minha cela...

Magmah & Wasil Sacharuk



partículas mágicas

partículas mágicas

simular certos versos
reverbera emoção
desfila rimas toantes
dispersas em sílabas
tanto equidistantes
afinadas em algum tom

e cada poema
para ser completo
tem sua práxis 
calcada no dom
de querer ser mimético
ou talvez ser catártico
mas decerto repleto
de partículas mágicas
de som

wasil sacharuk


escreve Literatura

Escreve literatura

Expressa-te. Que digas, não importa o quê… Escreve, e não importa como, no entanto, expressa-te.

Escolhe as melhores palavras,. aquelas que dizem, as que te significam, que revelam teus símbolos, escondem teus enigmas e tatuam teus emblemas. Prefere as  coloridas, saborosas, cheirosas… que cada qual traga o plasma do teu universo interior.

Dispensa a línguagem geral, usa o teu dialeto, aquele que falas no teu mundo imaginário. Garanta-lhe a fineza artística da sutileza e da perspicácia para que seja agradável e que não perca o contato com o real.

Ama o dicionário e adora a gramática, mas não te entrega a eles! As letras são livres durante o sonho, logo, permite que algo primordial aconteça.

E, se quiseres que leiam, enfeita! Sejas artesão das belezas e  significados.

Deixa que teu fluxo desate na continuidade de um fio, cuja beleza em prosa habite nos meandros do desenredo ou, então, que imprima sua síntese em versos de poesia, tal pequenas pinceladas imbuídas de emoção e subjetividade. Mas, importa elaborar o percurso e fazer cadente e musical, tal as águas que quedam das pedras.

Veste-te das tuas figuras, das tuas pessoas, incertezas e anseios. Pontua para respirar entre cada emoção e mantém o ritmo. Quebra-o, quando preciso. A estética no palco da beleza é livre para cantar e dançar. É onde a liberdade da criação encontra a identificação com aquele que lê.

Sensibiliza-te para que saibas sensibilizar.


o sentido da poesia

o que há de belo na poesia?
poucos entendem a sua beleza
ela não segue a um padrão
sequer se conforma à razão

seja clichê de céu turquesa
ou estrelado de idiossincrasia
recorte instantâneo do dia
com alguma ou nenhuma certeza

poesia respira e inspira emoção
trajada na lógica ou na abstração
na sua forma revela a fineza
e até mesmo se acalma na rebeldia

poesia que brilha na ousadia
e nos encantos da delicadeza
no colo sagrado da construção
onde a beleza apreende a lição

mas ser poeta não põe mesa
então, qual o sentido da poesia?
É ser surpreendido algum dia
surpreso com a própria surpresa!

wasil sacharuk



apocalipse aos ninguéns 🐂

apocalipse aos ninguéns

no derradeiro minuto
do dia último
ouviu- se o apito
o diabo vestia candura
a cansada sofia
caiu no conto do sofista
sobre a ressurreição do mito
a moral abraçou a falcatrua
a graça esqueceu a poesia
a sorte desprezou a fortuna
a lua perdeu-se na rua

mas nenhum dos ninguéns
na face da terra
acometeu-se do ímpeto
sequer tomou susto
pois o genuíno ninguém
mantém-se um estúpido

wasil sacharuk



hoje quero ser fada

hoje quero ser fada

tenho na paleta
cores bem vivas
para pintar o escudo
proteção ao teu mundo
de aventuras

vim te buscar
perambular pela rua
pintar o  sete no ar
rabiscos no céu

seremos princesas
provaremos vestidos
os que são proibidos
nos bailes da realeza

acaso  possas sorrir
dará tudo certo
estaremos abraçadas
nunca haverá nada
que perturbe a gente

hoje quero ser fada
e te dar um presente

wasil sacharuk



lunática

lunática

entrecruza olhares
com espíritos da floresta
conversa com pedras
ama saber- se ouvida
seus pedidos atendidos
suas ideias compreendidas

as águas do aconchego
assoalham seus passos
bailarina no espaço
refugiada na nudez
repleta de poesia
minguada de sensatez

wasil sacharuk







rio oceano

rio oceano

sobrevoo o rio
martim das asas azuis
da linha da vida o risco
do norte até o sul
costuro rasgos sombrios

então oferto às águas
todas as coisas que sou

percorro córregos mansos
pelos teus recantos
até beber o oceano
vertido sobre teus olhos

sobrevoo o rio
ave intrusa
asas que não encolhem
sequer sob as chuvas
caidas por nós

então oferto às águas
todas as coisas que sou

percorro tuas rotas
por todos cantos
até beber o oceano
vertido sob teus olhos

wasil sacharuk





o medo da travessia das ruas

o medo da travessia das ruas

ouço vozes
as mesmas que ouvias
revisitado passado
de herois e algozes
e das bruxarias

tuas mãos sem segredos
seguram as minhas
num dia abençoado
pelo sol da  poesia

ainda sei teu abraço
atávico laço
doce e apertado
amor desvelado

sinto aquele medo
o mesmo que sentias
pelos ciclos da lua
da travessia das ruas
nas rotas dos desenredos

talvez seja cedo
para perfurar o espaço
riscar o tempo num traço
e ter contigo outro dia

wasil sacharuk


ao meu pai



noite misteriosa dos mitos


noite misteriosa dos mitos

na noite passada
aqui fez tanto frio
calei as súplicas
de algum abraço
procurei por ela
no espaço vazio
mas nada emana
no vazio do espaço 

na noite passada 
eu ouvi umas vozes
silenciando pronúncias
em vertigens de gritos
na noite solitária 
dos meus algozes
na noite misteriosa 
dos meus mitos

não sei onde perdi
o senso de direção
onde o sono não vive
onde habita a exaustão
estou assim tão só 
enquanto ela dorme
vivo assim tão só 
quando ela é livre

na noite passada 
morri em lençõis brancos
para ser despertado
pelo toque do beijo
que me faça libertado
de um encanto
que me faça libertado
de um desejo

na noite passada 
persegui os medos
atores de histórias
feitas de monstros
na noite solitária 
dos meus segredos
na noite misteriosa 
dos meus desencontros

não sei onde perdi
o domínio da razão
onde eu nunca estive
onde não é o meu chão
estou assim tão só 
enquanto ela dorme
vivo assim tão só 
quando ela é livre

estou assim tão só 
enquanto ela dorme
vivo assim tão só 
quando ela é livre

wasil sacharuk


flores de sexta-feira

flores de sexta-feira

falo com as paredes
escuto suas palavras
observo impressões
e nessa à direita
uma passagem estreita
ao jardim encantado

lá colhes orquídeas
e as flores esquizofrênicas
de sexta-feira

se a lua incide faceira
ilumina a câmara pela janela
emoldurada pela cortina
a parede branca é a tela
e as nossas mãos
imitam o voo das aves meninas

wasil sacharuk



pela janela aberta

pela janela aberta

pela janela aberta
nós do cotidiano
coisas que andam mortas
tal fossem passos humanos
 e vi pelas grades tortas
semblantes indiferentes
cabeças girando tontas
dores de toda gente

haviam razões incertas
os mais tolos enganos
pessoas andando lentas
ratos saindo dos canos
crianças correndo soltas
em busca dos pais ausentes
cães mijando em volta
dores de toda gente

vi que a carência é farta
os pensamentos insanos
amor que mata e que corta
saúde restrita a planos
casas de vida barata
prometem carícias quentes
conversas vazias chatas
dores de toda gente

a vida parece ingrata
mas pode ser diferente
são sempre tão inexatas
as dores de toda gente

wasil sacharuk


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rasgando e reunindo

rasgando e reunindo percorro minha vida a te navegar pelas águas que pairam a me refletirem e desbravo-te pelo louco querer o laço da tua vi...