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amor de milonga

amor de milonga

quero amor refratário
que decanta milonga
e se banha no Prata
quero amor sem bravatas

quero o amor sem a zanga
que não desfia rosário
verte livre do estuário
e descansa nas sangas

amor perdido nas matas
das cidades cinzentas
exala cheiro pitanga
assovia com os canários

ao fim da tarde
entre o vinho e o mate
comigo o amor dança
ao canto do sabiá
na lagoa dos patos

wasil sacharuk






tsunami

tsunami

eu quis inventar a canção
mas eu tive medo
e quis te prender na prisão
não era mais do que farsa

essa sina oferta
tantas certezas escassas
e hoje acordo mais cedo
para ver se o sol me abraça

manterei a casa aberta
enquanto a chuva não passa
beberei cada pingo do chão
num tsunami que se alastra

wasil sacharuk

âmago

âmago

sou tua presa
demônio
teu hálito vermelho
invade-me  a boca
contra minha vontade
sou indefesa

da textura que me veste
ao âmago das incorporeidades
a tudo fizeste teu
tudo!

meu útero é teu!

wasil sacharuk


deixo meus disfarces

deixo meus disfarces

meus disfarces abandonados
traumas vícios pecados
hoje faço vigília na noite
e uso os meus artifícios
para o teu doce descanso

sou remanso enluarado
dormes sem sacrifício
e fico bem ao teu lado
a zelar pelo sono
e uso os meus feitiços
para que tenhas proteção

largo meus disfarces
entre nossas conversas
intercalados nos versos
e nas linhas da face
que toco com os dedos
para descobrir
teus insanos segredos

meu coração machucado
teme que sumas
em qualquer titubeio
e fica acordado a pensar
o tempo inteiro
em merecer teu carinho
inundado de amor

troco meus disfarces
por portas abertas
e algumas promessas
para o desenlace
dos teus enredos
e ver sucumbir
os teus medos

e também
os meus

deixo meus disfarces
bem junto aos teus
nas entrelinhas
das nossas palavras

(palavras que impregnam
eu sinto)

wasil sacharuk






poema do fogo

poema do fogo

hoje queimo a matéria no fogo
a matéria é o pão
é decerto as tiranias 

disfarçadas democracias
o corpo enseja a competição
ei poeta, louco
qual seu lugar nesse jogo?

raiva, medo
uma mancha no pulmão
taquicardias, esquizofrenias
desveladas rebeldias
ataques no coração

caricatura das manias
das angústias, agonias
o poeta não é demagogo
e vai vomitar emoção
hoje o dia é da destruição

ei poeta, louco
hoje queimo a matéria no fogo!

wasil sacharuk




meia perdida

meia perdida

restava ela
meia perdida
do inseparável par
perplexamente abduzida 
da máquina de lavar

wasil sacharuk

meia louca

meia louca

ela
meia louca
balouçava desajeitada
ao jugo
do pregador

wasil sacharuk


para te versos

para te versos

a noite é companhia
portanto não ando sol
tenho o corpo nuvens
e minha alma lua
transmuta poesia

wasil sacharuk




a tortura é o grito


a tortura é o grito

a tortura é o grito 
         poema aflito
          um engasgo
         o murmúrio
 canto desafinado

respinga chuva nimim
 pingam gotas de ti
  pinga orvalho
manda essa bosta de gente
dar de quatro em frente
ao caralho

a tortura é o grito
     cu circunscrito
  no meio do rabo
              o perjúrio
     do pau atolado

respinga chuva nimim
 pingam gotas de ti
  pinga orvalho
manda essa bosta de gente
dar de quatro em frente
ao caralho

a tortura é o grito
        sócio-político
                o estrago
             no furingo
      do povo otário

respinga chuva nimim
 pingam gotas de ti
  pinga orvalho

wasil sacharuk



da contradição

da contradição 

a religião
morde teus pés
bocarra faminta
igual jacaré
parece absurdo
decerto não é
o humano animal
no templo de cristal
com cruel pretensão
ostenta a compaixão
mas trata desigual
em nome da fé

wasil sacharuk



sina de estrada


sina de estrada

tenho certos instantes
de cruel lucidez

quando escorre
essa insensatez
que sempre dissolve
meu conceito de tudo
em certeza de nada
e sumo por viadutos
a cumprir as mercês
dessa sina de estrada

percorro tanto chão
sem olhar estrelas

quando morre
o imo da beleza
eis que a vida resolve
me vagar pelo mundo
como alma penada
num abismo profundo
a remoer a aspereza
e essa fome danada

desentendo o levante
dessas ideologias

que implode
a alma das poesias
enquanto desfere
o veneno agudo
da conversa fiada
e num só segundo
suga toda a energia
que vem da tomada

conto que esse tempo
não seja arbitrário

só ele é que pode
andar ao contrário
e fazer pretérito
desse rumo escuro
desde vidas passadas
e subtrai os minutos
para o desaniversário
dessas favas contadas

wasil sacharuk




cruzes e pedras

cruzes e pedras

trocando em miúdos
nesses tempos
quintanamente bicudos
se esmoreceu tanta luz
também sol raiou entre trevas

quem teve fome de medo
carregou muita cruz
quem teve medo de fome
carregou muita pedra

e todo lamento
largado ao vento
será sempre a imagem sem nome
de um clichê nada nobre

se viver o suor de labor
com a lágrima da dor
se fará uma rima pobre

wasil sacharuk





carbonos coloridos



comandante corporação chegou conduzindo camburão cheio com criaturas com capacetes. Camburão carregava caixote contendo centenas carabinas. Cão cheirador chegou crispado, cheirando calças, cheirando chinelos, cantos, caixas. Confederados chegaram chutando cadeiras, conferindo coisas,  cara cara com Catilinas. Cão cheirou cozinha, cheirou copa, cheirou congelador contendo carne cozida congelada, cheirou cama, carpete. Catilinas, conquanto calado, continuava calmo. Cão cheirou caixinha condicionada com charmoso cadeado cintilante. Comandante corrompeu cadeado conferindo conteúdo coberto com celofane. Conduziram Catilinas chegando cadeia central. Certamente conseguira condenação. Caiu cana condenado com caixinha contendo cinco centigramas carbonos coloridos.

"carbonos coloridos

cada canalhice
conduz consequência
converte castigo

conheci cada cristo
cada capeta
cada canhestro
com carinha contente
com consciência certinha

cada canalhice
conduz consequência
converte castigo

conheci cafajestes
comungados com crentes
com coxinhas
capitalistas
conquanto comunistas
comiam criancinhas

canto certas coisas
com coração cortado
chamuscando cabeça
com carbonos coloridos
com carinhos
civilmente condenados

cada canalhice
conduz consequência
converte castigo"

sacharuk



navegantes do escuro

navegantes do escuro

pairam estranhezas
ofuscantes tal lampião
navegantes do escuro

voam soturnas
até quando
despencarem manhãs
secarem ao sol
fluídos do amor
no velho lençol

sobrevoam estranhezas
sobre as cabeças
borboletas falenas
mais de cem
as conheces tão bem

e aos nossos pés
navegam desengonçadas
difusas crenças

esperamos tanto
pela noite alucinada
para dançar e dançar
divertir pirilampos

e tu danças
eu canto
alto
no céu
por ti

se aqui
ninguém entende
o que sentes
ninguém pensa
o que sinto

mas sabemos colorir
as amarguras impressas
nas paredes sem cor

e tu cantas
eu danço
alto
no céu
por ti

se aqui
não há lugar
para andar sem destino

wasil sacharuk
 
 

bardos sem uma centelha


bardos sem uma centelha 

fanáticos políticos são  tolos
e desfilam na imensa alcateia
tal bobocas em pele do lobo
feito cactos no deserto da ideia
não mais do que idiotas bobos

rançosos do arco da velha
bocórios elevados ao cubo
cães comedores de ovelha
daninhas famintas de adubo

 bardos sem uma centelha
discorrem discursos bicudos
que entopem o tubo da orelha
e defecam nos tetos sem telha
com cus que engolem tudo

wasil sacharuk



acaso chorares

acaso chorares

moça
acaso chorares
dia inteiro
tenho um lenço
e um travesseiro
de pena de ganso

moça
comprarei flores
um lírio-bandeira
e dispensarei
qualquer brincadeira
qualquer contrassenso

moça
podes chorar amores
os desvelos
os desenganos
os teus medos
teus desencantos

moça
acaso cantares
canções do Wando
saibas que eu não ligo
ficarei assoviando
um rock antigo

moça
se não quiseres
mais desmazelos
podes ficar comigo
contar segredos
entre amigos

wasil sacharuk

engano

engano

inocente eu pensava
que poeta via coisas
do mundo das fadas
e dos quintos infernais
coisas que reles mortais 
não poderiam ver

imaginava que descrevia
sentimentos do seu objeto
traduzido nos versos
da poesia

que capturava
tons e cores
amores e imagens
descrevia sabores
de sentimentos vivos

e ainda pensava
que os olhos fechavam
para ver as paisagens
que os olhos abriam
para saber os motivos

wasil sacharuk


Vermelho


Vermelho 

Meu último gole no chá de flores na cantina do mercado público e consultei, em vão, o relógio do smartphone. Bastou perceber a atmosfera melancólica retratada na cor do céu para inferir que a tarde se esmorecia. Só isso me interessou no momento. Os afazeres estavam esgotados. 

É nessa hora aproximada que, invariavelmente, no caminho para casa, busco o sentido da vida nos acontecimentos. Minha rotina se dilui no tumulto das ruas centrais. Às sextas-feiras o movimento é assustador. Os flashes dos faróis ocultam os indivíduos em silhuetas que circulam em meio à multidão. Aguardei a melhor oportunidade para cruzar a rua. É sempre assim! A espera, bem acomodada no cotidiano, já não cansa mais, e dizem: “o seguro, de tão velho, morreu”. 

Seu Ademir, da padaria, ergueu o corpanzil por detrás do balcão frigorífico e me passou o pacote de pães, mas não perdeu de vista a senhora baixinha que saía do estabelecimento em direção a banca 26. O padeiro bradou: 

─ Até mais vê-la Dona Edith. Obrigado pela preferência. Amanhã teremos sua torta, pode confiar, minha amiga. 

Aquelas palavras portavam uma estranha certeza. As coisas seriam novamente como planejadas, Seriam como ontem e como será durante a semana inteira. E, mais uma vez, Dona Edith acenou com a cabeça ostentando um sorriso tão formal quanto carinhoso ao cumprimento acalorado do comerciante. 

─ É excelente senhora essa Dona Edith. Freguesa antiga e fiel. ─ Disse o homem com simpatia bem adestrada enquanto terminava de fechar um pacote. 

Dentre outras frutas, a 26 tem maçãs que parecem pequenas se comparadas as demais expostas no mercado, entretanto, são muito vermelhas. Dizem que as frutas vendidas ali são livres de química agressiva, no entanto, mais caras. Pequenas maçãs são vítimas de preconceito por parte do consumidor. A aparência das grandes impressiona mais. E as gôndolas carregadas quebram a frieza do corredor revestido de azulejos portugueses fomentando uma interessante competição entre a arte e os apelos do marketing. Por fim, de certa forma, quase todas as imagens são ignoradas no caleidoscópico mercado público. 

Dona Edith escolheu maçãs. Depois de pinçá-las com as pontas dos dedos, cuidadosamente analisou cada uma antes de encaixá-las pacientemente nos espaços vãos do seu cesto de compras. 

─ Pedro, meu querido filho, hoje tem quarenta e quatro anos. Adorava essas maçãs pequenas quando garoto. As bem vermelhas eram suas preferidas. Também dizia que as menores são mais saborosas. 

Flávio, que frequenta comigo o curso de atendimento eficaz, escutou pacientemente a velhinha, enquanto catava vistosas peras importadas fragilmente empilhadas no compartimento vizinho ao das maçãs. 

Sempre que os administradores do mercado acendem as grandes lâmpadas brancas, religiosamente às dezoito horas, as frutinhas mais indefesas passam a perder o viço. Mas aquelas maçãzinhas eram muito vermelhas. 

Eu que já não tenho o mesmo vigor de antes, toco a vidinha exatamente igual a de todos lá da firma. Decepção após decepção. Angústia seguida de angústia. Vou perdendo a raiz. Onze anos longe de minha velha e, ainda, meu pai teve a desfaçatez de partir dessa para melhor antes de me ver caminhar sozinho pela primeira vez. Talvez tivesse a intenção de não me ver andar, afinal, coisas que se movimentam sempre causam algum incômodo. 

Flávio está, também, envelhecido. Mesmo com a proximidade de sua aposentadoria, ainda insiste no discurso duvidoso sobre reciclagem profissional. Enquanto acomodava as peras, metabolizou com contrição as lamentações de Dona Edith sobre Pedro e sobre ossos descalcificados. Deixou evidente no semblante o cansaço e a paciência que já lhe faz falta. Em breve esse pobre vai, tal os outros, padecer nas garras da previdência social. 

A velha, deslumbrada com a rara oportunidade de interação social, acabou por encher o seu cesto de maçãs. Um exagero. Ficou pesado e vermelho... bem vermelho. Queixou-se dos braços fracos. Osteoporose é um perigo na velhice. E eu, se beber bastante leite talvez me previna contra isso. Não fosse a provável desconfiança da velhinha, eu teria oferecido minha ajuda. Hoje não se confia em mais ninguém e isso me constrange e intimida. 

─ Meu Pedro ainda deve gostar de maçãs. Seu primeiro carro, aquele esportivo, era vermelho e acho que o segundo também... Não lembro, disse Edith a quem quisesse a ouvir. 

Ela abraçou aquele cesto de plástico como quem carrega um tesouro. É improvável que coma tantas. Percebi seus olhinhos marejados por ocasião do esforço ou, quiçá, tenha percebido a amargura que saltava da boca do meu colega Flávio. Palavras ditas ou silenciadas poderiam tê-la deprimido. Discursar sobre as lembranças distantes nem sempre consiste em boa ideia. Não é sequer assunto inteligente ou produtivo. Não entendo a razão dos velhos que perdem tanto tempo com isso. Depois, eis o resultado: tristeza, olhos marejados e vermelhos. 

As vivências do passado não retornam, bem, pelo menos não do jeito como foram antes. Elas só existem no pensamento de algumas pessoas. Há tanta gente nesse mundo respirando o passado. O curioso é que sobrevivem, tal quem bete os braços vigorosamente num mar revolto de lembranças. 

A velha de fisionomia enigmática tateou nervosamente a niqueleira lilás e espalhou um punhado de moedas e cédulas amassadas sobre o balcão da operadora de caixa. Notei a menina ensaiando a caricatura pintada com um sorriso amarelo enquanto contava as malditas moedinhas. Mas, não pude deixar de notar que Dona Edith desculpava-se em baixo tom e abusava de uma educação admirável. Os jovens contemporâneos abandonaram esse senso de urbanidade. A menina nada respondeu, e assim, não deu margem a qualquer conflito. 

Edith tomou para si a bolsa de plástico com suas frutas acondicionadas e despediu-se da moça, gentil e elegantemente, isentando-se de qualquer inconveniente que pudesse ter causado. O dinheiro tem suas peculiaridades. Por seu valor fazem-se as guerras. Por isso devem-se contar as moedas pacientemente sem esquecer que o cliente tem sempre razão. Aprendi no curso o que a menina aprendeu na sua rotina no mercado. Emprego não está fácil de conseguir. 

A velha valeu-se de ambas as mãos e juntou a bolsa de maçãs ao seu peito e, com as pernas curtinhas e sobrecarregadas, desceu a escadaria do centro comercial em direção à Avenida 13 de Maio, logo em frente aos portões do mercado. Era hora do rush e, como acontece todos os dias, ao fim da jornada de trabalho, a ordem é, novamente, disputar espaço no ônibus, no metrô, nas calçadas, ciclovias e rodovias. 

Tudo aconteceu tão rapidamente. A bolsa de plástico fino, com a logomarca gigantesca da 26 impressa em cores gritantes, não suportou o peso das maçãs e rompeu-se. Ocorre sempre assim. Os eventos imprimem sua marca no nosso destino subitamente e somente sobram as consequências para contar as histórias. 

Fiquei desorientado diante de tanta confusão. Dona Edith, os faróis, o vermelho e o som ensurdecedor. 

E toda aquela gente com pressa? Todos os dias a história se repete: quando chegamos ao nosso destino só encontramos as sobras. Não se toma banho duas vezes no mesmo rio. São resquícios de um rio que já era. O filósofo tem razão. 

Uma maçã, apenas uma maçã... a única que despencou caprichosamente pelas escadarias, machucada, alcançou o tráfego e rolou tal uma bola, quicando um degrau por vez até cessar seu curso junto aos meus sapatos pretos de camurça. Olhei em volta e sequer cogitei recolhê-la. A sobra. 

Desde então, a lua não se escondeu mais de mim e fez as minhas noites mais longas, depois de esgotados os afazeres. 

sacharuk 





essencial

Essencial

Essencial é teu sorriso aberto
tua alma num frasco
nosso encontro em versos
em qualquer direção, tempo
[ou espaço

Natural como o afeto
que acalma em seu laço
recôncavo e reconvexo
qualquer conjugação, momento
[ou lapso

Necessário feito o ar
é tua musa em cadência
o lastro direito de sonhar
em qualquer estação, luz
[ou frequência

Que flua em teu mar
vocábulos na correnteza
e o desejo de nadar
na argumentação, no som
[na eloquência .

Rogério Germani & Wasil Sacharuk



deixei de poupar energia

deixei de poupar energia

sabes da luz
que apagaste em mim?
pois acendi novamente

dispenso as penumbras
das maquinações imundas
sou por fim
um poeta diferente

sabes da luz?
pois acendi

deixei de poupar energia
pago a conta com a poesia
que ainda eu não escrevi

wasil sacharuk


rosa vermelha orquídea negra

rosa vermelha orquídea negra

enquanto dormes
contar-te-ei as novas
das mil e uma
longas longas longas
noites silenciosas

entenderás
os versos de distração
difusos nas ondas 
sobem sobem sobem
perpassam muros
da razão

sentirás
o velho sopro obscuro
frio anjo demônio
andejo dos umbrais

saberás dos tempos reais
e seus sonhos
artefatos de poesia
céus e infernos
algo para não acreditar
algo para esquecer
queimar os cadernos

rosa vermelha
orquídea negra
floreiras brancas do descanso
chamam alegria ao imenso jardim

a vida é córrego
e onde a morte 
jorra nascente
rebrilha luz estelar

rosa vermelha
orquídea negra
não há sacrifício 
nas cruzes
se o capim verde
cresce em volta

rosa vermelha
orquídea negra
não há sacrifício 
pois a vida é córrego
e onde a morte 
jorra nascente
rebrilha luz estelar

wasil sacharuk


em sessenta e nove

em sessenta e nove

amarga-me
a recolhida língua
à dormência
captura de essências
 limão sal absinto

desidrata na cal
 áspero tempero
 agridoce atrito
suor e fluído
vinagrette seminal

desliza e arde
contorcida língua
gotículas de pele
o cheiro da febre
óxido de ferro
 ph vaginal

wasil sacharuk


o vivente

o vivente

vês lá?
o vivente
junto ao carvalho?

sentado ao chão
livro à mão
buscas sentidos da vida
respostas para a morte

se o vivente der sorte
debaixo da copa crescida
sua mente abrirá num rasgo
causará certos estragos
ao núcleo da consciência

vai indagar filosofia
ressignificar a ciência
proclamar poesia
e tu o vês sentado
tal inspiração
à luz da meditação

sombras do carvalho
solo molhado de orvalho
o vivente sopra sementes
de perguntas tantas

wasil sacharuk




sentimental demais

 


Lusofonia de um poema

Lusofonia de um poema

As minhas palavras de Fado 
gostam de cantar continentes
e dançar carnavais de funaná.
As minhas palavras de bacalhau
têm fome de cachupa e funje
e sede de água de côco.
As minhas palavras de Tejo
navegam pelo Amazonas
e banham-se no Zambeze.
Quem as quiser encontrar
tem de ter na mão um planisfério
e descobrir onde fica Lusofonia

Digo alguns versos de samba
às ruas de Trás-os-Montes
com os Pauliteiros de Miranda.
Digo alguns versos de feijoada
com um tanto de óleo de palma
e uma garrafa de vinho do Dão.
Digo versos de pedra da Mina
que ecoam na Montanha do Pico
e são ouvidos no alto do Binga.
E quem os quiser escutar
tem que sucumbir aos mistérios
e as belezas da Língua Portuguesa.

Emanuel Lomelino & sacharuk




trapiche das noites

trapiche das noites

 rasgo na noite de luz
 trilha traçada na água
 rumo para os devaneios
instiga enquanto seduz
afasta a ira e a mágoa

desenho de lua na areia
talvez fosse nova ou cheia
mundo marcado no meio
pelo caminho de madeira
o velho trapiche é esteio

navegam mistérios à deriva
naquela laguna tão viva
que acaricia os lamentos
beija a testa dos anseios
com doces sopros de vento

sempre que a noite incendeia
a praia ilumina, mancheia
reflete em cada um dos veios
daquela estrutura altaneira
atracadouro de tantos segredos

wasil sacharuk

fotografia: William Gómez


balanço do açoite

balanço do açoite

"...e o silêncio em silêncio agoniza."
(Márcia Maia - "Banquete")


a sede
e o nó
trama de estar só
silenciando a tarde
quando arrefece
o derradeiro alarde
das vozes da solidão

entre azulados
violetas
e magentas
o silêncio é a porta
do aposento da noite

e a solidão
fingida de morta

é o açoite

wasil sacharuk






brasilidade

brasilidade

cidadania de merda
atrai moscas da peste
influencers da internet
e uma praga de ismos
fascismo lulismo batismo
num carnaval de enganos
idiotas bozoloides milicianos
entre lições da anita
que mostra que um grande artista
trepida as bochechas do ânus

wasil sacharuk



oxigênio


oxigênio

já te aprendi tanto
que a mim não enganas mais

desvendei rumos e recantos
fui o motivo dos teus desencantos
agora sei o que esconde os teus ais

e não venhas quebrar minha paz
com tuas mentiras insanas
faniquitos e artimanhas
dissimulações no teu pranto

já não me causas espanto
afinal, sempre ganhas
com tuas manobras tacanhas
e esse olhar sacrossanto

agora não há mais jeito
nem projetos ou campanhas
que abafe o som do meu canto

pois saibas que tenho o direito
de me libertar do quebranto
e tragar o novo ar das montanhas

wasil sacharuk


meus demônios

conhecimento e autoconhecimento são os caminhos para a liberdade e implicam em deixar de segurar o capeta interior dentro de sua gruta. É preciso encarar sua feiúra de frente e lidar de modo profundo e sincero com os piores aspectos humanos relegados ao inferno particular, aquele transpessoal sombrio no qual habita o prazer pela destruição e o egoísmo. O demônio de cada um supera a razão e tem plena capacidade de dominar. Ocultar a própria vergonha, projetando sobre os outros a maldade, só faz crescer, ainda mais, o preconceito e a condenação. Já tivemos fogueiras e exorcismos o suficiente.

meus demônios

meus demônios de ouro
têm lua na arte
ascendente escorpião
veneno das máculas
criaturas e entidades
que vigiam as águas
e habitam cidades
entre o alto do céu
e o fundo do chão

meus demônios precários
não trazem do ser a semente
são diabos errantes
e indiferentes
metades de santos
dos mitos e enigmas

legítimos signos
da farsa humana de existir

meus demônios de cânhamo
presos numa garrafa
curandeiros das farsas
dos enganos e trapaças
nos dias de chuva
observam a vida fluir
por detrás da vidraça

meus demônios imundos
desconhecem a lástima
que num poço profundo
foi vertente das lágrimas
renegam as graças
do abismo da crença
e as sentenças alvissareiras

meus demônios da dança
giram em volta à fogueira
junto às chamas do amor

wasil sacharuk

Lúgubre, poema do Véio China


Lúgubre

Transpiram os lírios nas covas profundas
onde em terras fofas e revoltas
os vermes fartar-se-ão diante o inesperado banquete
Na cerimônia fúnebre, sob o escaldante sol do meio dia,
e a pouca distância dali
sabiás gorjeiam em cerejeiras de flores alvas,
que tentam esconder de nós
o simbolismo do intransponível muro da morte.

Nos galhos, sábios, os solitários pássaros
persistem num canto triste à medida que tudo assistem
– Sabem que o sussurro da morte somente a eles é dado ouvir –
Mas não se prendem aos murmúrios e nem à saudade,
e que as linhas dos traços e a ausência da presença,
são meras lembranças a habitar o peito do homem
até que um dia se turvem
e se misturem às imagens do tempo.

Sacramentado, na terra bate-se a última pá
sob a indiferença e o displicente escarro do coveiro
- Se faz hora de retornarmos para nossas casas -
E nesse curto trajeto de passos lentos e feições austeras
Por entre as alamedas que se cruzam fúnebres
reverenciaremos a certeza do nosso maior legado;
- Haverá um tempo que estes mesmos pássaros
gorjearão para nós no merecido dia de nossa paz -

Véïö Chïñä





entrelinhas

entrelinhas

ornamento figuras
na barra dos tecidos
alinhavo texturas
nas irônicas agulhas
sempre erro a mão
nas fofuras de algodão

e fio sórdida trama
no ponteio da seda
simulação suave
do tipo que clama
por delicadeza

escamoteio agruras
nos mimos da lã macia
feito verso de poesia
laçado de fofa beleza
na urdidura das linhas

bordo entrelinhas
com frieza de metal
traçado diagonal
que entrelaça incertezas
as suas e as minhas

faço o rococó
para matar caseado
arremato com um nó
e o motivo que traduz
o trabalho forjado
nas malhas de ponto cruz

wasil sacharuk



sob o farol do vagalume

sob o farol do vagalume

contornei a casca do mundo
no balão vagabundo
sob o farol do vagalume

vaguei sobre cumes
entre planícies e planaltos
voei bem baixo
voei bem alto

enfim meu amigo
isso não dói
já fui playboy
já sou mendigo
subestimando estimas
desritmando rimas
eu nem ligo

levei apenas um dia
tudo é possível em poesia
a gente inventa de tudo

deitei meu ânimo furibundo
encontrei uma graça
nos vendavais da fumaça

daí companheiro
andei assim
meio chinfrim
meio maneiro
colorindo cores
dolorindo dores
sem paradeiro

wasil sacharuk



trova

TOMISMO E EXISTENCIALISMO SARTREANO: UMA CONTRAPOSIÇÃO DO ABSOLUTO METAFÍSICO


TOMISMO E EXISTENCIALISMO SARTREANO: UMA CONTRAPOSIÇÃO DO ABSOLUTO METAFÍSICO

Wasil Sacharuk


“É realmente fácil ser candidato a santo esquivando-se
pela súplica ou manipulando outros seres através de
dogmas. Mais difícil e digno, no entanto, é tornar-se
um ser humano completo”. (Wasil Sacharuk em "A Reforma"


Observado o foco em função do qual é investido o trabalho mental particular de cada filósofo, verificar-se-à que doutrinas comumente estigmatizadas como opostas entre si, são realmente, bastante aproximadas. Não raro, filosofias dogmáticas são contrapostas a outras filosofias, de doutrinas também dogmáticas, resultando daí um desencontro de sistemas. Entretanto, encontra-se a metafísica radicada no âmago do interesse filosófico, tornando incessante a busca por seus princípios mais adequados de pensamento.

Nesse sentido, o Existencialismo de Jean-Paul Sartre, examinado cuidadosamente em suas bases estruturais, e desde que criteriosamente reservado o método fenomenológico pelo qual é demonstrada, está surpreendentemente aparentado com a metafísica de inspiração aristotélica, formulada por São Tomás de Aquino, o Doutor Angélico. Para tal efeito, faz-se mister uma sistemática desconsideração da estranheza que tal relação suscita de imediato.

A distinção que envolve o ser e a essência não é formulação da metafísica de Aristóteles. A substância, demonstrada na filosofia do Peripatético tem, originalmente, uma orientação de ordem existencial. A interpretação da substância como essência é uma iniciativa das filosofias ditas, escolásticas.

Em Tomás de Aquino, a distinção entre o quod est e o quo est, engendra uma metafísica com considerável poder de influência sobre todas as argumentações escolásticas posteriores, construindo uma relação entre o ser e a essência, como uma reprodução da noção de movimento de relação do ato para a potência.

Por essência entende-se uma aptidão para a existência, e é em função desta que é passível de definição e medição. Se essência autêntica define o que pode existir, e se significativa do nada, isto é, aquilo cuja essência é impossível, é então, contraditória.

A existência, para o aquinate, é o próprio ser, que integra sua totalidade existencial quando unida à essência. Como um conceito explicativo, a ação que a essência exerce sobre a existência, faz da última um objeto para a inteligência. Assim, todas as criaturas participativas da existência possuem uma natureza que restringe seu ser, na medida em que são constituídas pela distinção de essência e existência.

Na razão absoluta de ser, há somente a existência pura e simples, a qual o Doutor Angélico formula seu a priori metafísico-teológico, sob a designação de Deus. No ente, considerada a divisão entre potência[1] e ato[2], tudo o que é, é ato puro, a saber, Deus, ou de outra forma, trata-se de uma composição de potência e de ato, noção esta que Tomás aplica a todas as criaturas, exceto Deus.

“Et quia omne quod est per aliud reducitur ad id quod est per se sicut ad causam primam, oportet quod sit aliqua res que sit causa essendi omnibus rebus eo quod ipsa est esse tantum; alias iretur in infinutum in causis, cum omnis res que non est esse tantum habeat cusam sui esse, ut dictum est. Palet ergo quod intelligentia est forma et esse, et quod esse habet a primo ente quod est esse tantum, et hoc est causa prima que Deus est”.[3]

O ato puro de Tomás de Aquino, sob nenhuma hipótese é mesclado com a potência, já que é indivisível, imutável e perfeito, coincidente com as qualidades divinas, logo, não pode receber ou mesmo ser recebido, não pode adquirir ou então perder uma parte. O ato puro, ou seja, o Deus natural do cristianismo, exclui de si qualquer elemento estranho.

Excetuando-se o ato puro, os entes são todos compostos de uma mescla de ato e de potência, pois têm em si a possibilidade constante de perder ou mesmo adquirir uma parte. São, portanto, seres contingentes. Para esse efeito, entende-se aqui potência como o princípio determinável, equivalente ao gênero[4], e ato, como determinante, e por sua vez, equivalente à espécie[5]. Esta composição, para Tomás, é comum a todas as categorias, isto é, o ser substancial é mesclado de potência substancial e ato substancial, ao passo em que no ser acidental, o composto é de ato acidental e potência acidental.

O ato, como perfeição realizada, é unicamente limitado pela capacidade de perfeição imanente à potência, ocorrência natural a todas as criaturas contingentes e múltiplas, logo, quando livre da mescla com a potência, é separado das criaturas comuns, restando-lhe a inexistência de limitações e a necessidade, a divina perfeição.

“O ser se diz de múltiplas maneiras, mas que todo o ser se exprime em relação a um ser primeiro”.[6]

A natureza imperfeita e restritiva, contida na potência, é a responsável por toda a multiplicidade de sujeitos, a qual a humanidade representa. Um ato sempre é recebido onde há a finitude e a multiplicidade da potência, cuja capacidade receptiva está presente em cada sujeito que participa da humanidade.

O ato engendra a potência, bem como o motor imóvel ao movimento, a causa ao efeito, ou ainda, o único e perfeito infinito divino, ao múltiplo e imperfeito finito. Disto posto, o Doutor Angélico infalivelmente extrai a noção de Deus, o ser subsistente pela plenitude da perfeição e do ente. Por ser ato puro, Deus é simplicidade absoluta, que se equiparado a algo fosse, resultaria na perda da perfeição de ser único e separado de qualquer mescla.[7]

“(...)sicut si aliquis per unam qualitatem posset efficere operationes omnium qualitatum, in illa una qualitate omnes qualitates haberet, ita Deus in ipso esse suo omnes perfections habet”[8].

A criatura, por ser composta e imperfeita, não é um ente integral. O ente que possui pode ser medido e restringido, bem como um ato recebido numa potência, que o divide e, portanto, o diminui. Assim, Tomás concebe a alma humana como participante da essência divina.[9] Daí, segue-se a distinção metafísica “do que a criatura é”,ou seja, sua essência, e “o pelo qual ela é”, sua existência.

O filósofo medieval define o homem indicando sua essência humana, afirmando que os acidentes somente podem ser definidos em relação ao sujeito que os comporta, logo, os acidentes têm uma essência incompleta e dependem da substância. A substância, por sua vez, define-se por si mesma, pois possui uma realidade única designada por uma mesma essência que existe em si, ao passo em que opera como base aos acidentes. Tomás de Aquino denomina pessoa à substância completa e independente.

“Sic ergo patet quomono essentia est in substantiis et accidentibus, et quomodo in substantiis compositis et simplicibus, et qualiter in hiis omnibus intentiones uniuersales logice inueniuntur; excepto primo quod est in fine simplicitatis, cui non conuenit ratio generis aut speciei et per consequens nec deffinitio propter suam simplicitatem”[10].

A espécie humana é uma perfeição em ato, a qual, porém, necessita de outro ato que legitime sua existência, como a atualidade última de toda forma.

Concebe-se assim, que a metafísica do Doutor Angélico está devidamente fundamentada num princípio, a saber, a identidade de essência e existência em Deus, ato puro, e na distinção de essência e existência nas criaturas contingentes e compostas da mescla de ato e potência, subsistentes, estes, externamente a Deus. Entretanto, quanto à identidade relativa ao ato puro, cabe apenas uma distinção de razão, enquanto que, nas criaturas, a distinção é autorizada pela realidade, pois, no nível do sensível, as criaturas são compostas de matéria e forma.

Na referida distinção de razão, envolvendo essência e existência, origina-se o “conceito de nada”, fundamentado numa teoria da negação.

No intervalo histórico, entre um devir que se descortinava a significativos projetos e um passado que se mostrava pleno de sentido ao questionamento metafísico, o filósofo francês Jean-Paul Sartre insere seu Existencialismo voltado a atestar a invalidade da noção de Deus, ou até mesmo, a inexistência do divino.

Atualmente é desnecessário sujeitar o ateísmo, sobretudo o sartreano, a uma discussão aberta em contraposição à crença dos escolásticos. Há muito a influência religiosa não exerce o poder de outrora sobre o pensamento do homem ocidental e sua suplicante necessidade de liberdade, a mesma que, desde a antiguidade, prossegue afastando a humanidade do domínio limitador e da dependência de mitos e deuses. O homem hodierno parece mais eficiente e determinado em lidar com a alta responsabilidade que a liberdade lhe impõe. Nesse ínterim, questões de natureza religiosa ou dogmática, passam a ceder espaço a perspectivas existencialistas mais ousadas e até, de acordo com o estigma da filosofia sartreana, absurdas.

Na metafísica de Sartre, o existencialismo atinge dimensões polêmicas. Não lhe falta o assédio da paixão crítica oriunda das diversas doutrinas filosóficas ou religiosas, de forma a remeter seu ateísmo à uma teologia do absurdo. O cristianismo empreende o esforço crítico de criticá-lo pela supressão dos valores divinos de sua metafísica que liberta o homem para agir como bem quiser no mundo, de forma a prenunciar um caos existencial e, até mesmo, social.

Nessa relação do homem com o mundo, Sartre concebe que a consciência é, necessariamente, consciência de algo. Dessa forma, não é possível compreender a consciência, ou para-si, como uma potência que se atualiza por uma relação acidental com um ser-em-si, pois isso significaria a identificação da consciência com o em-si, suprimindo a consciência como tal.[11]

Para compreender o homem como ser-no-mundo, é impossível tratar a consciência tão só enquanto confinada em si mesmo. De certa forma, vive a consciência voltada para si própria.[12] A consciência sem substância é apenas aparência, pois só se faz existente quando aparece no mundo. Dessa forma, a consciência prende-se a si e não abandona a si própria. A intencionalidade é, então, o ser da consciência.

Como a consciência é para-si, e é oposta ao em-si[13], que é o ser, assim, o para-si sendo outro que não o em-si, origina o nada, um nada metafisicamente fundamental, ou seja, “o fundamento de qualquer negatividade de qualquer relação, é a relação” ·[14].

Este conceito de nada se fundamenta, em princípio, no conhecimento do ser, que logo após é sistematicamente negado. Entretanto, tal negação orienta-se para o ser de razão e não para o ser real, apesar do filósofo francês objetar afirmando que não trata-se da negação, enquanto estrutura do juízo, que origina o nada, mas, ao contrário, o nada, operando como uma estrutura da realidade, é que origina e fundamenta a negação.

O nada não está no ser, e nem mesmo coexiste com este. O ser fundamenta o nada em seu próprio ser, isto é, o ser é o seu próprio nada.

A noção tomista de potência, encontra-se definitivamente suprimida da metafísica sartreana. O ser é absolutamente tudo o que pode ser, de forma a reduzir-se à série de suas aparições no mundo. Portanto, tudo está em ato, e fora do ato, nada é existente. Dessa forma, a essência não é mais do que um ponto de contato entre as sucessivas aparições do ser, consistindo ela própria numa aparição.

O ser sartreano é, necessariamente, tudo o que é, ou seja, é ato puro segundo a terminologia tomista e equivalente ao Deus do Doutor Angélico. É um “poder vir a ser” que não se manifesta no mundo em sua totalidade, isto é, um ato diminuído que, de forma alguma, pode ser confundido com a potência da filosofia tomista. Mesmo não-total, o ser é necessário e dispensa causa para existir. Sem totalidade, não encontra em si a razão suficiente de sua existência, logo, é não-ser, fundamento do nada. As colocações sartreanas apontam que, na metafísica escolástica, o que está em potência, nada é fora do ser, e, portanto, se é Deus que, para Tomás, funda o universo das possibilidades, e como o próprio Deus consiste numa possibilidade de existência, há aqui, uma coincidência que envolve a to e potência, logo, Deus não tem sentido. Partindo dessa visão, o absoluto tomista está fundamentado no nada, já que é proveniente de si mesmo.

O em-si é tão fraco que não pode impedir-se de ser. É absurdo, pois é injustificável e sem razão, oriundo do nada. É realmente inútil a tentativa de explica-lo, sobretudo, a partir de Deus, visto que, para Sartre, o absurdo tomista carece de sentido, portanto, Deus, contraditório em si, é inexistente.

A liberdade nasce do nada e com ele identifica-se. Inicialmente, o homem é indefinido e indeterminado, dotado da pura possibilidade de, ao exercer sua existência, engendrar sua própria essência.

“A existência precede a essência (...) o homem existe, se descobre, surge no mundo e só depois se define”[15], anuncia Sartre. Primeiramente o homem existe como nada, somente depois se realiza como essência, tal como a si mesmo se fizer. Dessa forma, não existe determinismo, o homem é absolutamente livre e é liberdade.

O a priori fenomenológico de Sartre retira o fundamento da noção de Deus e suscita polêmica no mundo cristão. Suas convincentes colocações rejeitam qualquer possibilidade de dogma ou intervenção transcendental, aspectos naturais da metafísica do Doutor Angélico.

A inexistência de Deus implica na improdutividade existencial do homem, o qual necessita se realizar por seus próprios meios e méritos. Se Deus existe, o homem não é mais do que mero objeto de existência alienada e sem possibilidades de alcançar a liberdade. O homem que admite Deus tem, segundo Sartre, o propósito de usa-lo como álibi para o seu medo de viver, abandonando, assim, a própria liberdade.

Se considerada a existência de Deus, seria este comparado a um artífice produtor de objetos, o qual executa sua obra seguindo suas idéias previamente concebidas. Anterior à criação de todos os entes , Deus, designado como artífice, já conhecia com perfeição a natureza de sua criação. Entretanto, sendo Ele também o criador do devir, no qual desloca-se a existência, seria este, também, determinação divina, de forma a fazer o homem equiparar-se a um mero artefato produzido em série para um determinado fim.

O existencialismo não se esforça para afirmar a inexistência de Deus[16], pois esta dispensa provas ou demonstrações. A exposição filosófica de Sartre desvincula Deus dos processos e forças que condicionam a vida do sujeito. Deus é uma crença que destrói o destino humano. A salvação do homem é mérito do homem e somente para o próprio homem. Assim, Sartre transfere a onipotência, que os escolásticos outorgaram a Deus, para o sujeito, inaugurando, dessa forma, uma psicanálise existencial que focaliza o homem como desejo de ser Deus. Eis o projeto fundamental da existência: o homem é medida divina, porém, mortal e finita.

O homem se faz homem a partir da ausência absoluta de ser, e é realmente existente enquanto se realiza. Não é o homem nada mais além do que faz de si mesmo.

São precisos dois séculos de crise, crise de fé, crise de ciência, para que o homem recupere a liberdade criadora que Descartes coloca em Deus e para que se pressinta, enfim, esta verdade base essencial do humanismo: o homem é o ser cuja aparição faz com que um mundo exista”.[17]

A liberdade do homem tem prioridade dentre todos os pontos da filosofia de Sartre. É o homem o gerador das essências e verdades que Descartes atribuía a Deus, e que Sartre, negando a Deus, transfere para a realidade humana. A realidade aqui tem uma predestinação à liberdade, contrariamente do que pode-se concluir acerca da metafísica escolástica, na qual a essência precede a existência.

O homem sartreano, no seu exercício de existir, funda sua essência, com absoluto domínio sobre sua história e seu projeto. Suas escolhas, durante sua existência, coincidem com a execução de um projeto de contínua criação de si por si mesmo. Tal é a consciência da liberdade que atesta, incessantemente, a responsabilidade de escolher.

A existência do homem é a própria condição da liberdade, e pressupões a necessidade de que o homem personifique suas escolhas. Precisa-o escolher, até mesmo, entre si próprio e a Deus, sem contar com opções intermediárias. A opção pela fé em Deus, é equivalente a uma fuga perante as responsabilidades vinculadas á liberdade.

Se definirmos a situação do homem como uma escolha livre, sem desculpas e sem auxílio, todo o homem que se refugia na desculpa que inventa um determinismo, é um homem de má-fé. A má-fé é uma mentira porque dissimula a total liberdade do compromisso.”[18]

Eis o homem livre para escolher ser o que quiser, a cada instante. Só não é livre para abandonar sua liberdade e a responsabilidade de escolher. Até mesmo o ato de não escolher é a expressão de uma escolha. Recusar a liberdade é ato de má-fé, ao passo em que coincide com a recusa à própria essência, já que a liberdade, para Sartre, é o absoluto metafísico fundador de todas as essências.

Tomás de Aquino focaliza sua metafísica escolástica no absoluto divino, de um criador perfeito, eterno e necessário, ao passo em que Sartre inverte o foco metafísico para o sujeito com sua liberdade. “Uma vez que a liberdade explodiu na alma do homem, os deuses nada mais podem contra esse homem”.[19] A liberdade, em Sartre, legitima o homem como soberano absoluto de seu passado e seu porvir, que, plenamente consciente de sua liberdade, ocupa o espaço metafísico que o Doutor Angélico consagra a Deus.

O divino, na filosofia sartreana, é nada além de um limite transcendental que opera como um parâmetro para o homem que se faz ser. “Ser homem é tender a ser Deus, ou se se prefere, o homem é fundamentalmente desejo de ser Deus”[20]. A liberdade é, portanto, o absoluto que diviniza o homem e identifica-se com a transcendência. Dessa forma, o Deus dos escolásticos entrega seus poderes ao sujeito sartreano que, partindo de sua angústia existencial, realiza-se pleno.

O deus tomista se faz absoluto ao preço da imperfeição inferiorizante do homem, e proclama como absurdo as pretensões transcendentais deste.

O acesso ao absoluto é um caminho que revela-se indecifrável e está restrito à experiência subjetiva. Esta concepção está bastante próxima do sentido de que há algo que é transcendente a todo o conhecimento, o que não significa, no entanto, que seja este um conhecimento transcendental. As orientações de sentido são diversas, porém, nenhuma desvenda o caminho definitivo. Até mesmo o Deus do cristianismo só é acessível por meio do diálogo deliberado pelo homem, o que constitui uma experiência real, porém, subjetiva.

O Deus, desvinculado dessa relação com o homem, é equivalente a um ente de razão.[21]

Quaisquer afirmações possíveis acerca do absoluto, sejam no espaço metafísico de Sartre ou de Tomás de Aquino, revelam-se carentes de sentido. Apesar do atuante Deus tomista habitar um espaço suprimido da metafísica ateísta de Sartre, evidencia-se uma concordância estrutural que participa fundamentalmente de ambas as metafísicas: o absoluto tem uma função limítrofe que consolida o Deus cristão para o Doutor Angélico e o humanismo para Sartre. Afirmação e negação, sejam de Deus ou do homem, constituem a explícita contraposição entre ambas as filosofias. O Deus escolástico faz-se absoluto fundamentando-se na negação da liberdade do sujeito, enquanto o Deus concebido por Sartre, por sua vez, se realmente existente, opera apenas como um limite para a realização do sujeito livre e responsável por suas escolhas.

Não alcança-se solução definitiva pelo acúmulo de novas exposições acerca da existência ou inexistência de Deus, ou mesmo, da transferência do absoluto para a subjetividade contingente. A metafísica sempre se mostrará insuficiente enquanto buscar aprioridades nos domínios dos dogmas. Eis mais uma vez o homem questionador habitando o enorme intervalo desértico entre dois tempos: um passado medieval obscuro e um futuro eternamente incógnito. Tais divagações são tarefa eterna do pensamento.


BIBLIOGRAFIA:

BUSSARELO, Raulino. Dicionário básico latino-português. Florianópolis. Editora da UFSC; 2002.

GILSON, Etienne. A filosofia na Idade Média; São Paulo; Martins Fontes; 1995.

SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo; Lisboa; Presença; 1970.

SARTRE, Jean-Paul. L’etre et le neant: essai d’ontologie phenomenologique; Paris; Gallimard; 1964.

TOMÁS DE AQUINO. O ente e a essência; Petrópolis; Vozes; 1995.


[1] Só é admissível a intelecção acerca da experiência considerando-se que os entes não são limitados ao seu ser atual e guardam uma aptidão para a mudança, a qual denominamos potência. Compreende-se, assim, por potência, a capacidade de tudo o que pode vir a ser existente, ou, se já existente (em ato), passível de aperfeiçoamento.

[2] Ato é tudo o que é, no sentido primeiro de existência. É o ser determinado e perfeito, o que já é em perfeição realizada, o qual tem suas mudanças resolvidas pela noção de potência.

[3] TOMÁS DE AQUINO, O ente e a essência, IV,55

[4] Gênero é o universal lógico que compreende espécies múltiplas que o determinam por meio de uma diferença específica, por exemplo, animal racional.

[5] Por espécie compreende-se o universal lógico que designa um conjunto de indivíduos que têm a mesma essência, por exemplo, a espécie humana. O gênero está em potência em relação à espécie, e esta, em ato em relação ao gênero.

[6] AVICENA, IV Metaphys, lect 1.

[7] Deus, o ipsum esse, o existir ao qual nada pode ser adicionado, pois, do contrário, limita-Lo-ia.

[8] TOMÁS DE AQUINO; O ente e a essência, V, 64.

[9] Numa orientação intrínseca e própria, o ser não é dito senão de Deus, pois somente esta existe por essência, ao passo em que as criaturas só têm existência pela participação na essência divina, e não por sua própria essência. Diz-se, então, que as criaturas que recebem sua existência de Deus, existem por analogia com o divino.

[10] TOMÁS DE AQUINO;O ente e a essência; VI, 83.

[11] Sartre serve-se dos fundamentos fenomenológicos “em-si” e “para-si”, com o objetivo de demonstrar sua teoria da negação.

[12] Surge daí, a designação “para-si”.

[13] O “em-si” é definido com o ser, contingente, existente sem necessidade, sem fundamento e sem razão. É fechado, opaco, empastado em si mesmo, desprovido de consciência, sem passividade nem atividade, sem afirmação nem negação.

[14] SARTRE, J-P.; O ser e o nada; p.429.

[15] SARTRE, J-P.; O existencialismo é um humanismo; p.9.

[16] SARTRE, J-P.; O existencialismo é um humanismo; p.11

[17] SARTRE,J-P.; Situations; t.1, Paris; Gallimard, 1947, p.334.

[18] SARTRE, J-P.; O existencialismo é um humanismo; p.15.

[19] SARTRE, J-P.; Moscas; ato II, quadro II, cena VI.

[20] SARTRE, J-P.; O ser e o nada; p.654.

[21] O ser de razão, se só pode existir no espírito, exerce verdadeiramente no espírito uma existência que faz dele uma espécie de ser.



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rasgando e reunindo

rasgando e reunindo percorro minha vida a te navegar pelas águas que pairam a me refletirem e desbravo-te pelo louco querer o laço da tua vi...