podcast

dádiva

dádiva

quando um cavalo indomado
deita crina desabalado
estende à frente um rastro
levanta o pó da areia
esfumaça a mansidão
tampouco entende dos riscos
sequer vê buracos no chão

wasil sacharuk

dicas de literatura

dicas de literatura

fosse mais poesia
menos bíblia
o amor dispensaria preceitos
os tristes códigos
libertariam condutas

ela escutava sozinha
dicas de literatura
no rádio da cozinha
enquanto roía as unhas

wasil sacharuk

além da caverna

além da caverna

não sou confinado na geometria
sequer outro adepto das idolatrias
desprezo promessas de mundo melhor

nada me priva da luz do sol
deuses juízes não me ameaçam
nenhuma lanterna de luz escassa
toma o espaço do meu arrebol

não tenho a posse da sabedoria
renego o batismo da hipocrisia
só faz recitar escrituras de cor

tracei o destino nos dias que passam
por sombras que somem pelas paredes
se não sair para caçar serei caça
além de morrer sem matar minha sede

não estou sob um jugo à revelia
não sou silenciado e digo heresia
não sou outro engano do vosso senhor

meu livro sagrado guarda a poesia
nos versos latentes da ontologia
que só admite o poder do amor

wasil sacharuk













doce sonho de dama

doce sonho de dama

linda dama enfeitada ♀️
doce perséfone e diva
exibe frutos maduros
sinuosidades renascentistas
e sob as madeixas cascatas
ela sonha o conto de fadas
onde o príncipe sabe de nada
e o dragão é o protagonista 🐲

wasil sacharuk

sábia fênix


sábia fênix

pergunte ao grande pássaro
viajante do hiato
entre rios de histórias
entre dores e bálsamos
das memórias do espaço
saudades e destroços

wasil sacharuk

psicossoma

psicossoma

há uma alma nas dores
de lixo não reciclado
entope redes e vias
não tarda chega o dia
o corpo demanda refluxo
a refletir o veneno

wasil sacharuk

memória da margem

memória da margem

a morte veio perto
e eu quis que a vida
retirasse da manga
uma carta de sorte
porém brindou poesia
com lilases de orquídeas

foi no primeiro dia
desse último inverno

wasil sacharuk

sufoco do tempo

sufoco do tempo

o tempo
anda perdido do tempo
sufoca nas ruas silentes
sucumbe ao boicote do vento
satura quarenta porcento
precisa ser intubado
relembra eventos passados
escuta vozes distantes
percorre a sina claudicante
vai dormir tão cansado
corpo morto ao relento

wasil sacharuk

pele de terra olhar de saudade

pele de terra olhar de saudade

maria
pele de terra
olhar de saudade
bem sabes
poesia é sequência de partos

nasce
renasce
 flor do campo
insistente no tempo

pari o intento
no signo dos dias
porque és poeta
engendra alquimia da dor
transmuta tudo em poesia

maria 
feita de vida
pele de terra
olhar de saudade
o tempo
desconta o lamento
o tempo
não conta a idade

maria 
nada tem a perder
faz do dia o intento
e da poesia
 beleza de ser

wasil sacharuk


foto: Ana Sacharuk

maltrapilho

maltrapilho

Transmutei sina em trocadilho
com certo poder de abstração
estive poeta estive andarilho
tomei rumos dispersos sem reunião

escrevi um poema maltrapilho
equivoquei o juízo da razão
já não sei se sou pai
e se ele é meu filho
não sei se sou cria
ou ele é criação

de algum sentido esfarrapado
risquei alguns versos desmetrificados
nasceram diversos
nenhuma emoção

dos meus argumentos equivocados
juntei as falácias
fiquei enrolado
apenas premissas
sem conclusão

 wasil sacharuk
Imagem 3223

foi assim

foi assim

quis saber o que ocorre na mente e deixou a semente brotar para contemplar a expressão

cada oportunidade granjeada e cada verdade submetida ao crivo da razão

foram tantas tentativas quantas possíveis em todos os níveis do discernimento

esgotados os argumentos em tempo

dedicou instantes significativos a provar do semblante aflitivo e do grito por solução

meditação
observação
obcecado pela questão

qual nascente das atitudes
 amiúde dos pensamentos?
para onde vão depois que passam por aqui?

teve na mira o controle da ira
nada religioso ou sobrenatural
era busca do gozo pelo domínio mental

trouxe a dinâmica na guia e o escrutínio de raciocínios insanos jogados em meio aos anseios e reações
comeu dos restos servidos aos cães

fingiu pensar flagrou-se pensado
atolado na lama dos padrões e das pré-concepções

mergulhou no centro da chama das ilusões
no intento o cotidiano clamou socorro
perdeu o curso sereno
tudo revirado tão depressa

das soluções caducas perdidas em hesitação o mundo ficou cheio e nem tentou fazer as pazes
foi apenas um sistema esclerosado e portanto decadente
os dentes da engrenagem não suportaram tantas resoluções complexamente abstratas

procurou a vida já pronta
na despensa, nas latas
vasculhada nas quinquilharias
nos vestígios da origem da confusão

 sacharuk


Branca coberta de andrajos

"Grimm Fairy Tales" - Gregory - Gunderson - Ruffino


Branca coberta de andrajos 

Branca coberta de andrajos
tez reluzente 
fiel porcelana
flertava com musas 
no parnaso
não era promessa soberana 

Branca mimava aos farrapos
desenbaraçadores das minas
tão donzela 
cosia seus trapos
atraia animais nas campinas 

Branca sequer foi princesa
seu algoz 
esqueceu as certezas
pousou sua faca na bainha 

Branca renegou a nobreza
entregou -se
inteira à pobreza
e viveu como eterna rainha

sacharuk

sakura

 sakura


quebradiço o galho
que suspende a existência
eis que o tempo
envolve a efêmera flor
em transitória delicadeza

ouve  que o destino clama
a perecer tuas pétalas
ao chão do bosque copado
derrama nas dores humanas
teu aroma perfumado

floresço a ti com ardor
sakura amada
a esperança confiou-me o nome
e o empenho das madrugadas

assim um só seremos
no parque das cerejeiras
eis que o tempo
envolve a efêmera flor
recria o espaço das certezas

wasil sacharuk



oxigênio

oxigênio

já te aprendi tanto
que a mim não enganas mais

desvendei rumos e recantos
fui o motivo dos teus desencantos
agora sei o que esconde os teus ais

e não venhas quebrar minha paz
com tuas mentiras insanas
faniquitos e artimanhas
dissimulações do teu pranto

já não me causas espanto
afinal, sempre ganhas
com tuas manobras tacanhas
e esse olhar sacrossanto

agora não há mais jeito
nem projetos ou campanhas
que abafe o som do meu canto

pois saibas que tenho o direito
de me libertar do quebranto
e tragar o novo ar das montanhas

wasil sacharuk



www.inspiraturas.org

rasgando e reunindo

rasgando e reunindo percorro minha vida a te navegar pelas águas que pairam a me refletirem e desbravo-te pelo louco querer o laço da tua vi...