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pelos mares sem astrolábio

pelos mares sem astrolábio

a morte beijou-lhe os lábios
✝️💀 🧟‍♀️tão docemente

o sangue verteu-lhe regato
🧟‍♂️🧟‍♀️🧟‍♂️ tão docemente

legião tomou-lhe o corpo
✝️💀✝️ tão docemente

sobranceiro findou o seu sopro
🧟‍♂️🧟‍♂️🧟‍♀️ tão docemente

foi tão docemente

o anjo o levou para o sábio
✝️💀✝️ tão docemente

o destino zombou tanto ingrato
🧟‍♂️🧟‍♂️🧟‍♂️🧟‍♂️ tão docemente

o eterno atracou ao seu porto
💀⚓ tão docemente

a morte o lançou ao espaço
💀✝️✝️⚓tão docemente

arrastaram as correntes
a vida desfeita num laço
tão docemente

pude ouvi-la partir
tão docemente

sacharuk


macambúzio


macambúzio    

o olho mareia
    a garganta entala
     mar revolto embala
              os grãos de areia
    a letra goteja palavras
palavras rebrotam mancheias
            o livro da vida se cala
a música engasga colcheias
   o sonho morre de fadiga
e o tempo tem falta de ar
 o vento assovia cantiga
  para a tristeza chorar

                wasil sacharuk

The old guitarrist - Pablo Picasso




fragmento de um texto censurado

Faltavam-lhe palavras. Ela bem queria que jorrassem de qualquer inesgotável fonte, somente as boas, já que as más ela relegara aos quintos da moralidade. Sabia que as palavras são como aquela poeira reunida semanalmente sobre o raque do televisor, a qual ela limpa com ardor e sofreguidão.

Talvez fosse conveniente abrir a grande janela da sala e espiar a rua. Seu pobre gato Divino não fala e nem lê, contudo não é cego. Acomodaria-se sobre o parapeito para observar as histórias diversas e que não lhe dizem respeito desfilando pelo passeio público. Possivelmente sua imaginação felina complementasse a narrativa urbana. Mas ela também não queria saber que, no fundo, o problema era outro e, novamente, dispensara outra ideia pictórica flamejante de falos e bocetas. As palavras, sempre elas, a incomodavam às raias da agressão. A humanidade perdeu-se do caminho e eu estou contaminada, justificava ela. Naturalmente, manteve a janela fechada.

Voltou logo ao quarto, recolheu a bíblia sagrada de cima do criado mudo e abriu numa passagem qualquer. Nos versículos jaziam as mesmas velhas palavras que, todos os dias, a curavam de si mesma.

(fragmento de um texto censurado – sacharuk)


nos anais

Nos anais

Reger o continente depravado
É missão de sinistros animais,
Assassinos, ladrões e generais,
No parlamento esplêndido do Estado!

Organizam discípulos desleais...
A vil conspiração do Consulado
Por homens de respeito invalidado
Em quartéis, ministérios, catedrais

São bestas que figuram nos anais
Presidentes, senadores, deputados
E os juízes, assessores e cardeais

E o povo indolente e seviciado
Dá de costas, de frente e de lado
E vez por outra ainda pede mais.

David Moura &  Wasil Sacharuk


Sakuras caídas ao chão

Sakuras caídas ao chão

Tão logo a tormenta deu trégua, a camareira do Hotel Campanile não desejou voltar para casa e preparar o jantar para Jonathan. Dessa feita, escolheu percorrer a alameda do parque Stanton. Seguiu lépida alternando os passos revestida de tanta verdade que pouco percebeu as adoráveis cerejeiras caprichosamente dispostas à margem. Seus sapatos lamacentos chafurdaram nas poças e maceraram as flores, tal sakuras caídas ao chão, emolduravam o caminho. Melissa, aos quarenta e um anos, aprendeu a não deixar-se quedar ao descontrole de qualquer paixão.

Ainda que satisfeita, restou tanto confusa, enquanto arqueou o cantinho direito da boca cor-de-rosa desenhando meio sorriso divertido. Até mesmo aos intuitivos e aos determinados, a malha tramada pelo destino envolve condições inesperadas. Ela que, invariavelmente, reluta em subordinar sua liberdade aos estados depressivos da alma, rende lealdade aos próprios sonhos e somente a estes é devedora.

Sentimento avassalador é evento raro na rotina da mulher, que logo soltou os cabelos e seguiu. Nada mais cansativa do que a indiferença e por isso desejou o vento gélido a mesclar seus cachos negros aos poucos fios brancos que surgiam tal tímidos intrusos. Permitiu sem culpa que o livre drapejar da longa saia descobrisse brevemente uma porção generosa das coxas morenas. Naquele dia, pouco importaram as consequências. Destemida, desprezou as penas da mentira.

Ao final da alameda, Melissa adentrou o bosque e, diante do córrego, apressou-se em afogar as parcas razões na umidade quente de outra boca. Percebeu cada músculo tenso despencar ao aperto firme daquelas mãos grandes em suas nádegas. Não havia tempo a perder.

wasil sacharuk

quando o sol fica ensimesmado


quando o sol fica ensimesmado

o sopro da noite
destrava a cancela
do cavalo confinado
em disparada cabal
bicho selvagem alado
atravessa o açude

amiúde
a lua se vinga
e nunca desama
veste o raio que encanta
quando o sol
fica ensimesmado

a respirar as palavras
a suspirar os sentidos

se o vento da noite
trepida paredes
eleva teus pés delicados
tilinta o cristal
dos lindos sapatos
que decolam pelo ar

apesar
que a lua mingua
e nunca desmancha
é risco de luz que avança
quando o sol
fica lá do outro lado

a respirar as palavras
a suspirar os sentidos

sacharuk

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vórtice ascendente

 vórtice ascendente

tremia corpo inteiro e assaltavam os poros toda vez que espocava faísca no cérebro. espiralada no ventre, a serpente maior que jibóia, menor que sucuri, verde, tal as algas. náusea não cabia, apenas a necessidade de chorar sem emoção, falar sem razão. mudava de pele a feiosa. naquela hora, a gosma viscosa desprendia da nojenta e ela, silenciosa, não se movia. despertar era o que queria. cada vez que a eletricidade percorria a espinha, impulsionada por forte assopro, a carne revirava ao avesso. quando acordou, nada de sobrenatural aconteceu, nada de dor, nada de medo. ocorreu que aquilo o que já se sabia passou a morrer. sem apegos e sem assombro.  apenas certezas transmutadas em escombros.

sacharuk






sina de raio e faísca

sina de raio e faísca

riscou corisco
na casa do pescador
tal  risco
percorreu as paredes
do quarto da menina

atravessou o portal
explodiu no quintal
e feriu o coqueiro

a menina e a sina
de se transmutar
de anjinho
virou estrela do mar
já foi cavalo-marinho
hoje é uma fera

menina do pescador
 relâmpago e faísca
espelha no mar
e raia na terra
poesia que risca
na atmosfera

sacharuk

Greg McCown


o descrente

o descrente

A razão, ainda que sobrepujada, é imbatível. A consciência, ainda que ultrajada, é inevitável. No confronto com a solidão um homem achou a inexistência divina, quando nenhuma criatura se apresentou para ocupar a vacância dos espaços e amainar as dores inexplicáveis. Finalmente entendeu que a crença é o indeclinável compromisso de enfiar um deus em todas as coisas. Subterfúgio humano institucionalizado. Sobrava ao referido deus a crença que faltava aos filhos, que faltava à árvore antiga, ao sorriso desdentado do seu avô. Era desperdício de foco. A crença passava dia todo sentada num trono comandando facções criminosas sob a adoração dos seus escravos. Morava nos parágrafos das deontologias que entoavam discursos medievais ao domínio das massas. Tanta súplica pela salvação dirigida a um deus surdo. Tal homem, agora, apenas admira aqueles vitrais cortados por feixes de luz e a persistência daquela poeira oculta nas sombras dos templos. Sabe ele que os artistas são deuses extraordinários, artífices das coisas belas, da música, da poesia, da pintura, da escultura. Nos signos da criação se guarda o verdadeiro embrião de divindade. Entendeu que o amor não é monopólio das crenças e é a chave que abre todas as portas. Agora ele é realmente feliz, sem nada pedir, sem nada dever.

sacharuk



splatter gore bagual

splatter gore bagual

vi o velho guaipeca
virar cambona do lixo
achou melenas de xereca
e outros pedaços do bicho

comeu um tufo gadelho
com bóia azeda e bucho
acolherou tanto pentelho
que repunou o repuxo

o cusco forrou a pança
na sobra de um  churrasco
das carnes de uma percanta
a dona do tufo chavasco

sacharuk


faíscas aleatórias

faíscas aleatórias

a menina dos olhos de deus
irrompe estrela cadente
risco fulminante
mergulho de fumaça
a perfurar o oceano

a menina dos olhos de deus
carente de esperança
quer saber não morrer
quando apaga sua chama

a menina dos olhos de deus
verá que crenças humanas
são faíscas aleatórias
na perspectiva das coisas

estelares luminárias
lanternas toscas
ofuscam-se as umas
acendem-se as outras

sacharuk


www.inspiraturas.org

o descrente

o descrente A razão, ainda que sobrepujada, é imbatível. A consciência, ainda que ultrajada, é inevitável. No confronto com a solidão um hom...