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poesia de graça

poesia de graça

das mulheres
és a que quero
e a que não posso querer
mas talvez algum dia...

Danielas Sofias Macabéas
Gilcinéias Estelas Bias
Andréias Patrícias Marias

listar substantivos próprios
de gênero feminino
é artifício consagrado
que ninguém mais atura
é puta chavão
nos meandros da literatura

das mulheres
és a que quero
e a que não posso querer
mas talvez algum dia...

Julianas Cibeles Berenices
Alices Francieles Fabianas
Anas Grazieles e Lias

tomei minha cachaça
após meiodia
sentei no banco da praça
para ler poesia
na internet de graça

logo digo numa boa
que li Fernando Pessoa
mas prefiro Bento Calaça

sacharuk


Interprete a verve

Interprete a verve

O massacre dos desejos
É coito interrompido
Uma broxa se repetindo
Ato falho na caminhada

Vai e vem
E nada
Esfrega e roça
Espicha e coça
O malogro do tesão

O gozo em plena excitação
Constrói a rua de delícias
Abafar suas malícias
É ser frouxo e moleirão

Sai e entra
Na alucinação
Vira e troca
Emboca e toca
A lira fodedeira

Veja isso como queira
Sou lasciva e sem vergonha
Vou safada, de esgueira
Bater para seu ego, uma bronha

Bota e tira
Bate e apanha
Morde a fronha
Só a cabecinha
Perfura poema fogoso

Tente se encaixar nessas linhas
Tão nossas, tuas e minhas
Excitando o leitor curioso
Fazendo do trouxa, corajoso.

Dani Maiolo & Sacharuk


poetisa Dani Maiolo

Corro e morro


Corro e morro

No corredor escuro a correr
Canso mas não esmoreço
Não sei mais o que fazer
Continuo a correr sem tropeço

O escuro é tão denso e palpável
Posso até pegá-lo com as mãos
Não sei se abertos ou fechados
Os meus olhos agora estão

Parei um pouco para respirar
Mas o ar está demasiado pesado
Há mais pessoas a me acompanhar
Neste lugar tão apertado...

Não quero nem ver para crer
Com medo eu não adormeço
A alma está para vender
No inferno alguém paga o preço

Eu corro caminhos acidentados
Com vapores que brotam do chão
Que queimam os desenganados
No fogo feroz da anunciação

Eu quero mas não posso parar
E percebo que estive parado
Se correr sem sair do lugar
Meu sangue será consagrado

Mas a curiosidade é vilã
E olho para traz por um instante
Vejo vaga luz no afã
Esperança de um rompante

Assimilo que ninguém mais a vê
E percebo que ainda tenho chance
Se correr do lado contrário
A salvação talvez me alcance

Mas ao olhar direito luz que despontava
Percebo que era somente ilusão
Corri sem sair do lugar, sem nenhuma passada
Me ajoelhei de desgosto nessa fração

Corro e morro repetidamente
Sufocada pelas muralhas quentes
Abafada por todos os descrentes
Que fazem parte dessa corrente

Dani Maiolo & Sacharuk





línguas vãs

línguas vãs

frenéticas moléculas entre mãos
frenesi de filos múltiplos
calculáveis incalculáveis júbilos
e arfar de dois pseudo vilões

dialéticas encéfalas línguas vãs
entremeios desejos súbitos
adoráveis e inefáveis vínculos
e o amor de dois ingratos ladrões

ilha de pensamentos em “cânticos”
folhas aos ventos dissimulados
castos não tão estimulados
fervilhões de atos tântricos

histórias de tormentos erráticos
entre os caminhos malfadados
rastros de horrores dissimulados
a deitar a trilha do encanto

Dani Maiolo & Sacharuk



Pura


Pura

Cada palavra, perplexo
Cada cume um uno
Palpita tesão dislexo
Cada desejo uma fome
Cada estrofe desforme
Cada respiro
Engolindo
Seu suspiro

cada vão desconexo
cada escolha um rumo
que valha um amor sem nexo
em cada nó que consome
cada palavra de fome
naquilo que inspiro
subtraindo
tuas defesas

sua forma
seu trejeito
aquele desejo
nunca deforma
toma forma
toma a mim
toma
e toma
em coma

meu mundo perfeito
entre um beijo
e o que me toma
e retoma
como um fim

e tuas
tão tuas
são minhas
e fome
vai
me engole

nua
tão crua
nas manhas
que se come
que se bebe
que se fode
a loucura
mais pura.

Dani Maiolo & sacharuk



Terra de ninguém


Terra de ninguém

Paralelepípedos nas ladeiras
Os ratos a cochichar nos cantos
As moças coloridas e faceiras
Malandros, lá tem o seu encanto

Onde a cultura se faz baboseira
A indiferença entre riso e pranto
Toda a desgraça é só brincadeira
Miséria, doença e vela pro santo

O morro, subterfúgio de tudo
Crianças a brincar na lama
Estampidos a deixar-te surdo
Traficantes, ladrões e uma dama

Polícia é cega e o direito é mudo
Mulheres vendem a alma na cama
A sanidade é um mero absurdo
E a segurança faz parte da trama

Mais abaixo, vem a bela paisagem
Os carros na avenida principal
Motoristas se despistam da miragem
Celulares e buzinas num tom boçal

Jóias falsas, modelitos e maquiagem
Silicone, botox e o sorriso formal
Os assaltantes bloqueiam a passagem
No luxo e no medo o estado normal

As luzes se acendem no anoitecer
Fica 'inda mais difícil enxergar
O que não é belo finge-se não ver
Na terra de ninguém vais democratizar?

A trégua não vem junto ao amanhecer
O céu é incerteza e o inferno é o lar
Não é bom negócio subir ou descer
Em terra de ninguém o que queres mudar?

Dani Maiolo & Sacharuk



e se for pecado?

e se for pecado?

dos pecados não me arrependo
sou desobediente
ovelha infiel
o avesso do crente

me faço purificado
não sou o criador
nem manipulador
do motor imóvel
adulterado

nenhum pecado confesso
não sou penitente
minha água benta é ardente
mantenho meus vícios
meus ofícios
meus artifícios
a reza de trás para frente
no rosário de uma serpente

e gosto de dinheiro, muito
de boa comida
da vida bebida
algum excesso
algum descontrole

e continuo irado
depravado
odiado
rancoroso
raivoso
luxurioso
preguiçoso
nada caprichoso
soberbo...
implacavelmente soberbo

qual beato abençoado
me fará dizimado
por uma ameaça ridícula
de um medo infundado?

e se for pecado?
não é problema meu
me sinto agraciado
por tudo que a vida me deu

sacharuk



”E se for pecado?” recitado por Dani Maiolo

cilada

Cilada

Noite de lua de fome e demônios
penumbra de corte de morte mistério
de rasgo de grito de fuga de sonhos
memórias de dias os novos os velhos

Dia de sombra de insone agonia
de sóis e de nós sem nós e ninguém
vapores baratos torpor vilania
estórias História de mais e além

De buscas e buscas na senda do dia
do pai e do filho do santo e amém
de fome de amor de prosa e poesia
trabalho suado não vale um vintém

De encontros, encontro uns dez encontros
de perdas e danos estou mui calejada
das lutas, batalhas, enfrento; confrontos
da vida - que vida? - não levo mais nada

Eu caio na vida desses seres tontos
para acreditar que inda sou tão amada
a cada rodada eu perco mais pontos
e no fim do jogo já estou derrotada.

Lena Ferreira & sacharuk



ofício das notas


Ofício das notas

nada pretensa
envergo a poesia
que sangra o sentimento
ao passo que pensa
as dores do dia
os climas e tempos

carrego o intento
que enxerga magia
no viés das coisas tortas
para adornar de encantos
emprestar a alquimia
ao ofício das notas

nada de tensa
enxergo a poesia
que traz contentamento
e ao passo que se adensa
agrega harmonia
a todos os templos

vai nos pés do vento
dançando euforia
e assopra o pó das coisas mortas
e pra reanimar os seus cantos
devolve os passos da alegria
ao vício das coisas rotas

Lena Ferreira & Sacharuk

cu Virado

Cu Virado

mudo
o vento do verso
a rima da rosa
o cheiro da prosa
o rumo da oração
mudo
o verbo do intento
o inverso do insumo
a reta do rumo
a rota da opinião
mudo
o avesso da norma
a forma da rega
a liga da régua
a regra da pontuação
mudo
a metade de um terço
a sina penosa
a treva escabrosa
o ritmo da canção
mudo
o cérebro do invento
o disperso do prumo
a análise do resumo
a punheta de mão
mudo
a indefinição da forma
a massa da liga
a vingança da briga
a tônica da acentuação

Lena Ferreira e sacharuk



súplica

Súplica

Lavando o passado
em águas futuras
esqueço das juras
expostas no chão
visito seu sótão,
reviro armários
busco o itinerário
da inspiração

A sentença da verve
às penas mais duras
se nada mais serve
sentimento ou razão
eu suplico a cura
quando dói coração

Recorro à lua
em pleno meio-dia
o sol se ofende
me deixa no escuro
com um muro de páginas
um tanto vazias
e a mente repleta
de interrogações

E percorro as ruas
a buscar poesia
mas só notas espúrias
escritas nos muros
e minha vida vazia
sem beleza, sem canções.

Lena Ferreira & Sacharuk



Poema das Almas Inquietas

Poema das Almas Inquietas

Das frases suspensas nas fases de estio
vazio suspeito dobrando viéses
das vezes que verso em rima de frio
verbo por um fio remete a reveses

Das vozes sedentas das dores de cio
fastio que sustenta solvendo osmoses
das doses de inverno em clima sombrio
o inferno bravio reclama os algozes

Das vezes que o vento ventou sobre as folhas
daquelas escolhas tidas como certas
das reses cobertas, envoltas em bolhas
perto se fez longe  das portas abertas

Das bases que o tempo calcou sobre as formas
das normas cuspidas julgadas corretas
das fezes fedidas banhadas de aromas
forjou-se o poema das almas inquietas.

Lena Ferreira & Sacharuk



Combinação perfeita

Combinação perfeita

Pétalas vermelhas a perfumarem o leito
Lua prateada, na janela, pendurada
Um lençol de seda produzindo o efeito
Combinação perfeita à sua pele acetinada

O mundo parado para decorar seu jeito
Nua enfeitada, seduzida, enfeitiçada
Garras pontiagudas a arranhar meu peito
Combinação perfeita à sua fome alucinada

O quarto move-se; acompanha seu trejeito
Lua, casta e pura, deixa a janela, ruborizada
Pétalas, suor, cama ardente, lençol desfeito
Combinação perfeita à nossa fome saciada

De todos os sabores que eu provo, satisfeito
Sua boca linda, tão vermelha, tão molhada
O mergulho sedutor do seu olhar suspeito
Combinação perfeita à nossa sede embriagada.

Lena Ferreira & sacharuk


Gira mundo

Gira mundo

Girei meu mundinho no ar
Ligeiro tal qual um pião
Num amplo espaço a rodar
Nadando nessa imensidao
Dançando sobrava lugar
Espaço sem céu e sem chão

Girei...
E giro no mundo sem par
Buscando maior amplidão
Não quero da vida levar
Migalhas desse mundo cão
No giro que a gira me dá
Sufoco a dor. O meu lugar
Procuro, me viro, em vão...

Lena Ferreira & Sacharuk



Conflito

Conflito

Ser essa ou aquela
Tinta fosca ou aquarela
Ser recato ou ser musa
Ser coerente ou confusa
Ser trave ou ser trilho
Ser opaca ou ser brilho
Ser reticência ou ponto
Ser passiva ou confronto
Ser a feia ou a bela
Parafuso ou arruela
Ser aguda ou obtusa
Ser convidada ou intrusa
Ser a bala ou gatilho
Ser do pai ou do filho
Ser distância ou encontro
Ser poema ou ser conto.

Lena Ferreira & Sacharuk


Entre(meios)

Entre(meios)

Detrás dos olhos fechados
Redescubro a nossa nudez
Percorro o teu corpo suado
Diluído na minha insensatez

E tu entras em mim
Com teus meios
Sem receio, sem arreios
Eu prometo te levar ao fim

Eu bebo de ti os segredos
Me lanças na face meus medos
Que dissipo sobre meus seios
No mérito dos meus anseios

Eu sugo de ti a saliva
E de ares tu vens e me priva
Enrosca-se nos meus cabelos
Misturas teu pêlos em meus pêlos

E com os olhos fechados ainda
Eternizas a tua promessa
E num êxtase que nunca finda
Tu me beijas, agora sem pressa

Lena Ferreira & Sacharuk



Sobre o Fogo

Sobre o Fogo

Seria o amor coisa doce
não fosse essa estranha dança
sobre o fogo de feitiçaria

seria amor se não fosse
esse estranho jogo de cobrança
sob o gelo da hipocrisia

onde vislumbro a palavra macia
e esses olhos de desconfiança
de quem oculta insanidades

onde descubro que me desafia
quando sugestionas andanças
no território das meias verdades

vejo o entrecorte das suas vontades
que afiam a faca da torpe vingança
com a cabeça ofertada numa bandeja 

recorro a rezas, a preces, entidades
- bem lá no fundo, quero-me esperança 
de que o que vejo, mais assim não seja -

Seria o amor coisa doce
fosse movimento e mudança
sobre o fogo da poesia

Lena Ferreira & sacharuk



Pretérito Imperfeito

Pretérito Imperfeito

Ah! Se ele soubesse ler a essência minha
Se soubesse...dispersaria a maresia;
Gotículas de amarguras, densa e fria
E aconchegando-me ao seu peito, diria:
- Serei navegante em seu mar, constante

Se eu lhe fizesse saber da carência minha
Se dissesse... concretizaria a utopia;
Respiraria vida pura, noite e dia
E entregando-me em seu leito, seria
A louca viajante desse amor, distante

Se ele pudesse perceber a ausência minha
Se pudesse... seria minha companhia;
E despiria a armadura, e sorriria
E me enroscando em seu jeito, faria
O amor embriagante sem cessar, rompante.

Ah...Se ele quisesse...Eu não seria minha
E se quisesse...Definitivo eu me despediria
Dessa arrogante senhora: Dona Agonia
Que me entorpece numa dor cortante

Se ele dissesse...Vem! Sê somente minha!
Se sussurasse meu nome...me lançaria
Na imensidão de desejos contidos; arderia
Nos seus laços-abraços; a alma entregaria
Levaria à eternidade a imagem desse instante

Lena Ferreira & Sacharuk



repartida

Repartida

Cala o verso na boca
calo confuso na língua
colo versado que míngua
cisma a voz; canta rouca

Corta a língua da louca
boca, praga e mandinga
bafo de verve em moringa
a desinspiração bocomoca

Servem-me água parada
com cicatriz ainda aberta
peito para e me aperta
pena em lança; sai nada

Pedem quindim e cocada
em troca de amor e coberta
vendem a errada por certa
invertem o rumo da estrada

Calo o calo e caminho
verso e verbo comigo
sigo; não vou sozinho
conto com meus amigos

Cato para o meu ninho
beijo, comida e abrigo
queijo, lambida e vinho
acima e abaixo do umbigo

Sirvo da minha verve
que agora vai revivida
pena leve que escreve
toda a graça da lida

Agora eu saio da greve
de inspiração repartida
e deixo um até breve
para a parceira querida.

Lena Ferreira e Sacharuk


Órfãos


Órfãos

Andávamos, tortos,
trôpegos, tontos
como quem à noite
caminha

Estávamos assim
no fim do início
no início do fim
do precipício

Traçávamos, mortos
sôfregos pontos
como quem jamais
se aninha

Sangrávamos, órfãos
de poesia

Corre nas veias
a mais pura anemia.

Lena Ferreira & sacharuk



jazz

jazz

aqui jazz
poemas
morfemas
perdas e danos
ganhos vitórias
ensaios
o papa
papagaios
um tapa
e beijos
ideais
sertanejos
e nada mais

aqui jazz
um estrela
o tempo
o lamento
roleta da sorte
registro do karma
Janete do Carmo
um vento
um momento
uma estrada
e mais nada

aqui jazz
o dia
da poesia
ficar calada
e parada
entre o céu
e o precipício
já que poeta
não é nada
poesia não é nada
e só isso

aqui jazz
estrofes cadenciadas
maneiras
de Dhenova
e Lena Ferreira
e outras gentes
cachaceiras
que escrevem poemas
sobre tantos dilemas
e o próprio enguiço
é só isso
e apenas

sacharuk

a sombra que nos espicha

A sombra que nos espicha

A sombra que nos espicha
infelizmente não explica
a alma que busca espaço.

Somos estranhas figuras
que entre risos e agruras
segura a vida no braço...

A sombra que nos indica
fatalmente enfeitiça
de ver o eu projetado

Somos estampas escuras
decalcadas nas ruas
represadas nos traços.

Marisa Schmidt & Sacharuk



Preliminares

Preliminares

Lá no tempo das certezas
Lambia enternecida o sorvete
que pingando no corpete
desenhava achocolatadas belezas

Lá no tempo dos devaneios
Voando por mil e uma madrugadas
as estrelas, na camisola desenhadas,
faziam vibrar as notas dos anseios

Lá no tempo das purezas
A paixão era tanto mais quente
trocávamos nossos chicletes
e outras carícias sob a mesa

Lá no tempo daqueles rodeios
num baile de línguas enroscadas
a nossa espera foi saciada
depois do toque em meus seios.

Marisa Schmidt & sacharuk


persistência

Persistência

O mundo percorre as distâncias
e o tempo marca o resto(de vida)
Segue o homem as circunstâncias
sem saber que a sina está decidida

Segue os caminhos das lembranças
de preto no branco quiçá coloridas
avanços agudos e das reentrâncias
de memórias vivas e das esquecidas

Na soma das probabilidades
numa conta que nunca dá certo
é difícil equacionar a felicidade
se o amor quase nunca está perto

E se vive a juntar os pedaços
reerguer o próprio amor das ruínas
a tentar preencher os espaços
dos incidentes na rota da sina.

Marisa Schmidt & sacharuk



sei não

Sei não

Que sei eu da vida,
se a consciência revida
o que aqui se revela?
Dizem tanto que ela é bela
mas se há fome e morte
será que viver é sorte??

Sei não...

Há de se ir na contramão
andar capenga e a trote
fazer bolha e ferida
voltar de volta para a ida
fechar buracos do corte
antes que a vida esgote

Marisa Schmidt & Sacharuk



púrpura é a cor

Púrpura é a cor

Nós somos um poema encaixado
que não desprende os versos
e suplica por coesão
mas deixo que vivas tua vida

sem saber o que passa
sem saber o que passa
sem saber o que passa
apenas por essa súplica...

Quando estás distante
falta em mim
um pedaço grande
corro em busca de reconquistar
o meu íntimo 
se púrpura é a cor
quando morres em mim...

Mas eu não folheio
essas páginas para que o livro acabe
meu sustento encontro
nas linhas de rosas e espinhos

e nas noites tão frias
eu te esgoto: vampiro sou
sim, nas noites tão frias
para poder dormir sob o sol
que nasce em tuas costas

Quando estás distante
falta em mim
um pedaço grande
corro em busca de reconquistar
o meu íntimo 
se púrpura é a cor
quando morres em mim...

Sol e cristais
vejo o teu céu
espinhado nas rosas
púrpura é a cor
que vertes de mim
do inferno que sou
oh, não me permitas mais
nunca mais ser
um inferno para ti

Quando estás distante
falta em mim
um pedaço grande
corro em busca de reconquistar
o meu íntimo 
se púrpura é a cor
quando morres em mim...

Mell Shirley Soares & Sacharuk



a velha detrás duma moita

A velha detrás duma moita

Havia uma velha
detrás duma moita
espichava uma perna
encolhia a outra

a velha escolhia pato
no quintal da vizinha
passava pato
passava pato
pato e mais pato

e o tal pato
não aparecia
contou dona Diquinha

e a velha dizia
calma
ainda está passando pato
ainda está passando pato
pato e mais pato

e o tal pato
ela nunca escolhia
então essa história
nunca termina

perguntasse à Diquinha
ainda está passando pato?
ela logo respondia

havia uma velha
detrás duma moita
espichava uma perna
encolhia a outra

Mell Shirley Soares &  Sacharuk





não apresse o raio (pioggia gentile)

não apresse o raio

no inverno
tão pouco chovias
sobre as igrejas
           só gotas frias

nas arenas
ruínas
chuva fina
pioggia gentile
          só gotas frias

          só gotas frias
chuvas confetes
serpentinas
canivetes

non correre il raggio
pioggia gentile

non correre il raggio
pioggia gentile

que tua melodia
            seja livre

e nos dias
carentes
de poesia
viveste a ira
imponente dos raios

o céu
com poeira de estrelas
traçou outras linhas
horizontes do eu
pioggia gentile
chuva minha

que tua melodia
           seja livre

que tua melodia
           seja livre

sacharuk

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Rain Lights byKateey

música de Mell Shirley


flor de cacto

 Flor de Cacto


O que sabes sobre poesia? 
Se o meu canto nasce sob o teu olhar e te sobrevoa os sentidos
pousa em ti sementes
bebe de tuas nascentes e ainda não o consegues captar?

Que pensas tu sobre os dias
que meus encantos se diluem num mar de risos divertidos
que ora se fazem ausentes
entregues às vertentes das noites sem luar?

O que sabes sobre a saudade? 
Quando a minha asa de ausência, outra de presença 
permanecem presas no teu colo por vontade de estar? 

Que pensas tu das verdades?
se a minha inocência se desfaz maledicência
pela correnteza onde vejo o meu mundo naufragar?

Flor de cacto, tão singela
que se espinha 
e sangra toda ao brotar...

Flor de cacto, tão bela
tão sozinha
quebra
se o vento soprar

O que sabes sobre o amor? 
Quando ele não rima morte com dor
querer com indiferença
teimosia com desistência?

Que pensas tu sobre a flor
jogada sobre um fundo sem cor
a morrer nas descrenças
das mitologias e das ciências?

O que sabes sobre minhas cores e meus aromas? 
Sobre os meus sorrisos e seus significados? 
Sobre os recônditos de minhas belezas? 
Sobre minha nuvem e da chuva que dela jorra? 
Sobre meus pedaços e inteireza? 
Sobre minha crueza e nudez?

O que sabes de mim? 
que pensas tu das certezas?
Que te torna tão dono de um amor-abandono assim?
e por fim, a flor de cacto
é bela nas asperezas

Flor de cacto, tão singela
que se espinha 
e sangra toda ao brotar...

Flor de cacto, tão bela
tão sozinha
quebra
se o vento soprar.

Mell Shirley Soares & Sacharuk



Metade


Metade

Tenho pra ti meio poema
escrito meio sem jeito
sobre as pernas meio abertas
meio suando entre as letras
de uma escrita meio atrevida
a espera de uma linha para se esparramar
meio vestida...ou totalmente despida

e por meio do meu meio
que tu me chegas inteiro
murmurando meias palavras
meio sem meias medidas
com intenções meio incertas
metendo a metade a me completar
em versos de poesia
meio proibida...ou totalmente perdida

Angela Mattos & sacharuk



Sopro


Sopro

O convite feito era para dançar
mas chegou aos poros da poesia
um convite para amar

Embebidos na magia
os  versos verteram suor
falaram das coisas belas

E a despeito do pudor
que se fazia véu sobre as janelas
soprou as velas das rezadeiras

Cobriu-se do sopro  que a noite enleia
esperou o rebento do dia
repleta de lua faceira

Angela Mattos & sacharuk




o cheiro do cio


O cheiro do cio

Peço-lhe um beijo
e distraio a espera
brincando com cachos e laços
com fendas e fitas
com a renda bendita
que vela os lábios que fremem
e os poros que gemem
ansiando por um sim

Entrego-lhe desejos
nas repletas gotículas
que desaguam quimeras
logo embebem os espaços
entre anseios e as pernas
quando se abrem e tremem
e se denunciam abertas
ansiando por um sim

E conto as horas e os cafés
as pétalas e os ramos
conto as rezas e os danos
refaço o bordado que se desfez
beije-me de uma vez
peço na ladainha
que é mais febre do que fé
e na água que ferve
a erva é chá sagrado
mas o aroma é cio almiscarado

Respondo aos apelos
dos beijos revelados
entre os meus seios
o segredo e o pecado
do gosto e do cheiro
divino e vadio
do cio almiscarado

Angela Mattos & sacharuk





Tão somente


Tão somente

Senti agitar-se
o amor comportado
incomodado com as amarras

assisti afiar-se
ao desígnio das garras
o amor assustado
quer ser amor
tão somente

regurgitando o morno
salivando pelo hálito quente
repudiando o hábito idílico

vi espiar pela fresta
sem temer a escuridão
sondar o coração
e descobrir-se ofegante

e vi naufragar tal aresta
nas vertentes da interseção
na rota angular saliente
quer ser amor
tão somente.

Angela Mattos & Sacharuk


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poetisa Angela Mattos

Desejo confesso


Desejo confesso

Gosto de ficar em teu peito
leito donde verte minha poesia
gosto dessa tua mania
de me bagunçar os cabelos
os pêlos e os versos

Gosto dos rumos dispersos
que conversam com tua ousadia
e gosto da tua filosofia
que me faz sucumbir em desvelos
meu desejo confesso

E gosto além da conta
dessa afronta dos beijos teus
ah o apogeu em tua boca
quando sente-me a pele sedenta
e me sacia o corpo ávido

Mas amo o sorriso tão cálido
que os teus lábios ostentam
quando se abrem aos meus

Angela Mattos & Sacharuk

A névoa e a nudez

A névoa e a nudez

Sussurraram as estrelas
alertando sobre o que ia nas sombras
mandaram correr e calar a poesia
mas a revelia das rezas
deixei o manto que me cobria

Vertia da escuridão o som de teus escritos
algo entre um mantra e um beijo
um alerta bendito, um chamado maldito
um verso me mandou fugir
escapar e  cobrir minha nudez

Tarde demais... 
tua névoa já havia tocado minha tez
navegante obscena dos mundos abissais
arrancou minhas roupas na magia
do teu rito

Tua mão obstinada conduziu os manuscritos
linhas desprovidas de limpidez
espíritos andantes sem valia e nem porquês
tomaram forma pela luz da eufonia

Tarde demais...
tua boca incandescente calou o meu grito
morto transpassado pela tua ousadia
murmuraste em minha nuca poemas letais
e despenquei insólita no teu infinito.

Angela Mattos & sacharuk



Trova de guapos

Trova de guapos

Sou taura da presilha até a ilhapa,
não tenho cara de sorro manso;
levo na estampa o bafo de canha,
o baile todo só bebo e não danço!
Sou guasca do mango até a guaiaca
danço com minha prenda e não canso
se vejo um bucho eu passo a faca
de china feia não quero ranço
Sou grosso e ignorante
como salada de urtiga
agarro touro a unha
e nunca bebo o bastante
Sou filho desse Rio Grande
e não me aparto da briga
um diabo  me ronca na cuia
laço égua xucra com barbante
O galpão é meu palácio
meus vassalos são os cuscos
trovo com o tio Anastácio
largando tições pelos cascos
Da coxilha tenho um pedaço
planto meu fumo e chamusco
e trago o rebuliço no laço
gaúcho guapo não faz fiasco
Com permisso, poeta amigo,
escuta este trovador
meu prazer é prosear contigo
pois na rima és professor
Dessa peleia fiz meu abrigo
com o hermano improvisador
sempre responde o que digo
com a grandeza de pajador
Vou me retirar desta trova
pois sou pobre poeta de parca rima
em cada parceria a amizade se renova
e tua cidade, de Cruz Alta se aproxima
De Pelotas te mando essa prosa
da nossa querência campesina
e se Cruz Alta também é formosa
encilho o pingo e vou acima.
Decimar Biagini e Sacharuk



perverso e vivo

perverso e vivo

Tudo o que fiz foi insinuar distâncias, era eu e era o sol lá e cá. Joguei na terra, nas adjacências do caminho, turvas imagens de cores e espinhos. Retirei o sal, esfreguei nos meus braços a fome do oceano. Num mergulho inusitado, rasguei uma fenda na terra e separei o vale do pântano. Do alto do monte vislumbrei minha obra. Artefinalizei ideias secas espargidas pelos prados verdes. Cobri o ódio com um pano negro e, no interior de uma caixa, fiz meu reduto. Agora o chão ferve a chuva de ontem. Campos mortos nos tempos sem horas. Meu nome escrito na lousa anuncia um tempo de náuseas. Desço os degraus do submundo. Quebro as lâmpadas. Arranco as torneiras. Quando o tempo não sabe mais andar sobre as pernas. Quando a palavra conta as misérias e a perversão. Ando nu pela crosta a desvendar a rapinagem das aves. Ando assim, perverso e vivo.

sacharuk
 
 

Carta à Eva

Carta à Eva


Tanto me impressiona a engenharia natural das palavras! Cada bloco compõe fundação e soergue paredes, ora, é o abandono estendido sobre as mesmas ruinas que plasmarão novas existências. É mágica, bem sabemos!

Escolhemos conspirar contra as fatalidades ao dedicarmos pequenas frações semanais à alquimia da palavra. Provamos do ímpeto da motriz criadora de cada vocábulo vertido sobre uma página branca. Emprestamos vozes à beleza e à sabedoria que brotam da nascente da existência e ao exercício do tempo. Assim, cara escritora, é nobre minha tarefa, dada a paixão que emana ao pousar meus sentidos sobre escrituras artísticas repletas de energia vital. Não declino do prazer e da força suspensos sobre cada texto que bebe na fonte da beleza e amor pelo grato ofício. E a arte, em sua pedagogia, afirma-se em espírito criador, quando irrompe da página para ser ouvida, provada, sentida e, sobretudo, para cumprir a sina de ser compartilhada e confiada aos auspícios do apreciador.

Saibas, escritora, já vi a palavra romper fortalezas, sarar chagas tantas, aproximar espíritos e dirimir distâncias. Vi as coisas complexas transmutadas ao acorde da sua lira. Quando a palavra canta, será sempre ouvida. Tal o abraço da natureza que abriga e das centelhas que dela se desprendem. Dela se extrai o fluido que traduz o amálgama de todas as artes. Por isso a escolhi como signo do meu sacerdócio.

Sempre encontrarás refrigério ao colo sensível das escrituras que compões com tanto esmero e amor. Elas conversam diretamente com teu coração. Não há diálogo mais sincero e bonito. E sempre permitas que o olhar da arte ilumine a vertente. Que todos conheçam o poder de quem projeta beleza em prosa ou versos.

A gratidão é uma reciprocidade entre nós, que aprendemos a viajar com segurança sobre as asas um do outro.

Paz profunda

sacharuk


vitruviano

vitruviano

vitruviano cânone
da proporção áurea
e linhas harmônicas

tua beleza clássica
perfaz matemática
dos corpos torneados

vitruvianos ângulos
da perfeita estética
dos traços formosos

a ti
e aos homens nus
o inverno impiedoso
chegará outra vez

sacharuk


qualquer distinto poeta

qualquer distinto poeta

se nalgum desses dias
qualquer distinto poeta
bater em retirada
    que ninguém se preocupe

não é mais que nada
quando há coisas mais
notoriamente importantes
com o que se preocupar

se nalgum desses dias
qualquer distinto poeta
inventar de fazer revoada
    que ninguém se perturbe

vem de asa quebrada
novamente na busca da paz
sempre tão distante
que nunca consegue alcançar

sacharuk

abaixo de zero

abaixo de zero

riscaria desenhos
acaso houvesse neve
apenas há cristais agudos
de dura perplexidade

um grande parque morto
de brinquedos absortos
tanto mudo
e surdo

o desvelo
é bater a bengala
num bloco de gelo
para ver o quanto aguenta
esse frio violento

pensaria que é somente
mais um inverno
de água e vento

e aquela pressão
que aumenta e diminui
ora dentro
ora fora
e parece que surge
de todos os lados

seria simulacro de coração
que soa cristalizado
se o calor vai embora

sacharuk

´'... e na cabana de madeira, os estalidos do gelo ecoam na penumbra azulada. Lá fora, o mar branco corta na sua agudeza de ser apenas branco, escrachado e afiado, não cortante, e o céu exibe o tom quase amarelo, cinzento brilho de algo mais. Na frente da casa, as marcas do caminho de ontem sumiram. Tudo uniforme, liso. Gotas caem do telhado, pingos grossos, escorrem e saltam ao infinito, antecipando o novo, que acontece... surge  o raio amarelo, fininho,  que incide sobre à arvore mais próxima, os estalidos aumentam e a luz se faz... cá dentro, agora, a lenha seca crepita mais forte, refletindo o sol em cada faísca.’  (Dhenova)


chuva setembrina

chuva setembrina

olá menina
aqui despenca
chuva setembrina
bem gostosa
ora fina
ora grossa
mas sei que aí
um sol queima

nosso clima
vive sua sina
e por isso ele teima

sacharuk


passeio breve

 passeio breve

aprende, mulher
a vida segue
ainda há espaço
para os lamentos

a escultura do tempo
revela-te em traços
e as tuas faces
têm novos contornos

a vida segue
passeio breve
no jardim das belezas

aprende, mulher
que o poeta te ensina
na esteira dos dias
há novas surpresas

a vida veste poesia
a vertente sangria
nunca termina

na ciência das coisas
cada átomo-coisa
tem lá sua sina
e se morrem as coisas
não é a ruína

a vida segue
passeio breve
no jardim das belezas

sacharuk

nada se perde, nada se cria1

presente grego

presente grego

chama os viventes
as pitonisas
os consulentes
ao casamento da nereida

chama os imortais
hierofantes
o soberano de Atenas

Afrodite entregou Helena
ludibriou Menelau
Páris ganhou a guerra
e Tróia
seu cavalo de pau

sacharuk


autoclisma da retrete

autoclisma da retrete

a escrita que de mim lês
trata de coisas inexistentes
se é que me entendes...

revelo nuanças holográficas
empreendo reações anormais
escapulidas multidimensionais
entre saídas acrobáticas

sou broto de vida na internete
jamais floresce e nem rende

meus emblemas são lanças fálicas
acertam alvos desiguais
gritam versos abissais
escarros acesos sem temática

ao tocar o autoclisma da retrete
dos meus versos só resta o aceno
é tão bruto ter verve carente

minhas estrofes são cenas trágicas
milhões de ideias e os mesmos finais
de enredos utópicos virtuais
que declamam peças mágicas

wasil sacharuk





o picho

o picho

observa
absorve
o picho
não comove
é baboseira vazia
não é brincadeira
sequer poesia

a voz das ruas
não se cala
mas não diz nada
não tem proveito
não tem sentido
sequer eloquência
sem apelo instrutivo
sem apelo a ciência

observa
absorve
o picho
não comove
pichador é artífice
da deselegância
da própria imundície
e da ignorância

sacharuk


todo dia morrer


todo dia morrer

quando pequeno
corria detrás do trem
sou homem velho
já não me convém
certas vezes eu ando
☘️☘️ no encalço da sorte☘️
certas vezes eu sento
💀💀💀 no descanso da morte

🐓 quando canto
eu invento
eu aprendo
☠️ todo dia morrer

certas vezes eu ando
☘️☘️ no encalço da sorte☘️
certas vezes eu sento
💀💀💀 no descanso da morte

sempre digo
o que não entendem
nos remotos espelhos
de olhos vermelhos
certas vezes meus ventos
🌪️🌪️ fazem rodamoinhos🌪️
certas vezes vou lento
🐌 🐌 eu arrasto caminhos

🐓 quando canto
eu invento
eu aprendo
☠️ todo dia morrer

certas vezes meus ventos
🌪️🌪️ fazem rodamoinhos🌪️
certas vezes vou lento
🐌 🐌 eu arrasto caminhos

conheço tantos lugares
já sei ir sem sapatos🐾👟
conheço a rota dos ares
sei saltar oceanos
sei tocar tua mente
e sei abrir um buraco🤯

👍 certas vezes inteligente
👎 certas vezes simulacro

🐓 quando canto
eu invento
eu aprendo
☠️ todo dia morrer

certas vezes
🐓 quando canto
eu invento
eu aprendo
☠️ ☠️☠️ todo dia morrer

sacharuk



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