podcast

raimundo o mundo

raimundo o mundo

raimundo o mundo
nao é para os fracos

o fel da velha serpente
comanda a massa de delinquentes
sob um discurso simulacro

e a requenguela acredita
balouça o rabo e grita
replica tal papagaio
e pula feito macaco

sacharuk


tum tum

tum tum

passa rápida
surfa lépida
asas do tempo
 instantâneo
flash
momento

a vida passa 
 mais rápida
se o coração bate lento

sacharuk



maria das dores



maria das dores

desata-te das dores
maria
expulsa a amargura
para longe do barraco

se amor não tem poesia
só pode ser simulacro
a vida não deve ser dura
o brilho não deve ser fraco

inventa outro dia
maria
de um amor singular

amor que ocupa espaços
amor que dança
amor companhia
que conduz os teus passos

depois canta
o tanto que pode ser vasto
o mesmo amor que te mata
é o que estende o braço
onde vais descansar

sacharuk

coordeno orações

coordeno orações

procuro-te
logo te acho
entregas-te
depois me escapas
chamo-te
então te despacho
enrolas-te
assim me desatas

peço paixão
ofereces motivos
queres um cristão
e eu sou herético
peço-te vírgula
tu dás conetivo
pedes ação
entrego-me sindético

leio tuas rimas
somente as bonitas
finjo que entendo
deixo-te aflita
e caio em subordinação

o que te escrevo
foge a tradição
faço amor
relevo a estilística
tua língua é padrão
falo sociolinguística
emendas períodos
coordeno orações

a ti morena
tenhas certeza
que escrevo rimas
para te possuir
provar tua beleza
sacharuk


sussurros


sussurros

sente...

sigo somente 
sussurando singularidades
seduzindo sentidos

sente...
somente sussurros 
sem sentido
sem semântica
sem seriedade

separa sussurros 
silogísticos
sinistros
sugerem sensualidade
solicitações
sabotagens

sórdida sina
será sucumbir
sob sussurros sacanas

sacharuk






não havia nada nesse mundo tal aquela criatura



não havia nada nesse mundo tal aquela criatura

ainda que o reprovassem
jamais hesitava exacerbar a descrença. crítico ferrenho das instituições, das corporações e ideologias, definia a existência ao declínio das teologias, das ciências e filosofias.

ainda que o reprovassem
era adepto ao amor. Philos, Ágape, Eros. entendia ódio tal amor em ruínas.

ainda que o reprovassem
da sua sementeira voavam minúsculos grãos. nutriam os estômagos logo após o crivo da terra. sabia que plantar era necessário e viver não era uma escolha.

ainda que o reprovassem
dia desses ofertou aos pássaros e borboletas uma rosa escancarada. dela desprenderam sorrisos de néctar.

tudo porque ele sabia
que amor não tem dono
que a fé não frequenta igrejas
que o conhecimento é um mutante vivo e sagaz.

não havia nada nesse mundo tal aquela criatura
quando desatava os nós com seus dedos carinhosos
quando cobria os gelados, os mortos e os calculistas com imenso cobertor.

e não contava nada disso a ninguém. nada. nada.
era ele expectador dos próprios méritos. singular autor de seu anonimato. singular tal as outras criaturas. e singular sabia ser.

e por isso o reprovavam.

tudo por que sabiam
com toda a força do mundo
que ele odiava a hipocrisia.

sacharuk

gula

gula

miro-te os olhos
quando engoles
versos sementes

sacharuk

gula 2

gula 2

acaso eu te tome
tomo em goles?

sacharuk

quebranto

quebranto

se essa vida dá tantas voltas
eu quero abraçar a esfera
preciso retroceder
os relógios
da terra

escolher coisas soltas
seguir as mesmas rotas
de quem nunca erra

trilharei caminho pronto
tentando apagar primaveras
talvez eu possa esquecer
dissipar as minhas quimeras

pois tenho andado tanto
a remoer desencantos
por toda uma era

quero sarar do quebranto
tocar as notas certas
e quando  amanhecer
deixar minha casa aberta
para secar esse pranto

e murmurar acalanto
quando a saudade aperta

sacharuk



pelas paredes que separam

pelas paredes que separam

menina
se teus cachos despencarem
sobre os ombros
não saberei me fazer entender

noite calada
tu acordada
chamas
posso ouvir pelas paredes
que separam nosso imenso jardim

menina
teus traços são abstratos
e tuas saliências revelam escombros
de antiga poesia

noite calada tu acordada
em chamas
posso sentir
pelas paredes que separam
nosso imenso jardim

sacharuk



o robin e outros pássaros

o robin e outros pássaros

a fortuna girou a roda
lancei-me afora
pássaro de luz
na paisagem noturna

gravei o canto do robin
e doutros pássaros

e os mundos de asfalto
percorri sob as asas
até tua casa
planícies planaltos
mares e praias
matas fechadas

voei com os pássaros
levei em minha boca
o livro de sonhos
e um punhado
das tuas palavras

no velho tronco jazia
meu nome escrito à faca
recitei  versos no jardim
junto aos pequenos animais

no quarto bailavas
de vestido vermelho
tão linda ao espelho

voei com os pássaros
levei em minha boca
o livro de sonhos
e um punhado
das tuas palavras

sacharuk


contando estrelas calaveras

contando estrelas calaveras

no pampa esquecido na distância
tomo o mate das buenas lembranças
de cupincha com a canha maleva
recordo da china mais bela
sentada junto ao guaipeca
no cepo defronte à tapera

eu chegava encostando costelas
grudado que nem carrapicho
sequer esperava a índia
cozinhar a bóia bendita
e cobria de mel o cambicho
da minha chinoca bonita

deixava uns trocados na cadeira
que ajudava a guria arteira
a comprar novo corte de chita
e qualquer outra fazenda
que fizesse o tranco da prenda
macanudo a cada visita

de já encilhei o futuro
no más meu chapéu eu penduro
para descansar barbicacho
tiro a bombacha e as botas
tenteando o facho num rancho
no quarto distrito de Pelotas

logo eu afogo a queixa
mas a saudade não me deixa
dormir nesse frio sem arrego
contando estrelas calaveras
que apartam dos velhos pelegos
a minha pinguancha caborteira

sacharuk

romance na curutela

pão

pão

plantarei o trigo em solo fecundo
a ostentar a alva pele de cordeiro
quiçá limparei os pecados do mundo
da massa fermentada serei padeiro

espírito servido ao café da manhã
que sacia o amor no estilo caseiro
com hóstias brioches e croissants
o divino calor que emana do cheiro

da casquinha crocante da eucaristia
sovarei o cereal com força e poesia
obterei água e sal em plena comunhão

na mistura de letras dessa ladainha
o bromato se eleva sutil na farinha
engendra o milagre da multiplicação

sacharuk


lá das bandas da saudade

lá das bandas da saudade

sessenta pilas de apara
costela gorda de gado
a carne ficou muito cara
para um índio assar solito

sem fumo sem fogo no pito 
de costume cevo o amargo
alterno uns goles de trago
e lembro dos meus piazitos
campeando no pátio da casa

jogo no braseiro, cebolas
daquelas bem fortes
colhidas das terras crioulas
lá das bandas da cidade
de São José do Norte

espanto o azar da saudade
mudo o rumo da sorte

lombo que assa na brasa
encilhado na ripa do osso
eu e o guaipeca Tibúrcio
seco os alentos da cambona
sorvendo lágrimas redomonas

mas hoje a saudade não ganha
encho outro liso de canha
ouvi nas milongas do Plata
que saudade cantada não mata

jogo no braseiro, tristezas
daquelas bem fortes
colhidas das minhas fraquezas
lá das bandas da saudade
donde veio a trote

espanto o azar da saudade
desvio o rumo da morte

sacharuk


bundamolismo histórico

bundamolismo histórico

quando os abutres chegaram
estúpidos zumbis 
ociosos e inertes
já habitavam vera cruz

conservaram intacta 
a moleza dos glúteos
por mais de meio milênio

tal fenômeno
ganhou a alcunha
de malemolência!

sacharuk

aprende


aprende

expande
            moléculas do ar
aprende 
                    com aquilo que sente
                           e com o que falta
escuta o arrebol
    que rasga o véu
            e declina na mata

inspira prende solta
             língua solta
          olhar ausente
imita as correntes
das águas do mar

escapa                   
da razão eloquente
e após desacata
as benesses do bem
as maldades do mal

                   no final
não resta um vintém
as crendices são mortas
esconde as tolices
depois fecha a porta

inspira prende solta
             língua solta
          olhar ausente
imita as correntes
das águas do mar

aprende a amar
se amar vale a pena
declama um poema
na língua do sol

sacharuk





poesia não vale a pena

poesia não vale a pena

para quê presta poesia?
tenta comer um poema
decerto terás azia
caganeira e outros problemas
insônia e talvez anemia
poesia não vale a pena

ninguém compra poesia
vá procurar outro tema
dinheiro fofoca putaria
logo tu entras no esquema

vira-te contra a poesia
deixa de contar fonemas
sai dessa vida vadia
ocupa-te de coisas plenas
livra-te dessa porcaria
porque vai dia e vem dia
e a poesia não vale a pena

sacharuk




alegoria

alegoria

habitas a penumbra
dos subterrâneos
de costas ao sol
sequer olhas para fora

porisso não vês
vagalumando no céu
as luzinhas piscantes
que espocam à orla

sacharuk


sobre a cama

sobre a cama

no dia em que eu acordar
coberto de águas azuis
com teu olhar diamante
presente
na fronte

jogarás sobre a cama
a minha fotografia

se eu acordar algum dia
e não enredar tuas tramas
meus olhos fechados
não verão
nenhuma mágoa

eu vou sentir as águas
lavarem enganos
deixarei ao oceano
as minhas amarras

eu vou pedir às águas
perdão pelos danos
deixarei ao oceano
o meu intento

no dia em que eu acordar
e não sentir o vento
a lua, o sol, o chão
choverá um lamento
numa canção
que te chama

e jogarás sobre a cama
a minha poesia

eu vou sentir as águas
lavarem enganos
deixarei ao oceano
as minhas amarras

eu vou pedir às águas
perdão pelos danos
deixarei ao oceano
o meu intento

sacharuk



a mente dança

a mente dança

a mente dança
o corpo dói
despencam harmonias
por ladeiras mansas
a mente insiste lembranças
o corpo reclama descanso

morro enquanto danço
minha alma intui
versos de poesia
murmúrios de barganha
pelo sopro do vento
e cruzar as distâncias
pés fincados no chão

conquanto dança a mente
o corpo doente
deságua
desanda
a mente canta
no entanto traga o tempo

o corpo lento
cadente
mergulha
afunda
a mente nada
portanto resta a vida

a mente dança
sobre a carne
a moléstia dolorida
entretanto convida 
e o corpo reclama remanso

sacharuk




visionário


visionário

o instável momento precário
reluta mas pede a alforria
mas não passa de agrura
e prevalece a feroz criatura

para o ritual de todo o dia
colei uma foto no armário
ao lado do meu calendário
à esquerda dessa poesia

quero verdade mais pura
quero além da simples jura
quero uma doce rebeldia
quero toque mais refratário

nem sei se a mente depura
nem sei se tenho estrutura
nem sei se é outra mania
nem sei se me faço otário

aprendi a não ser solitário
e já sei consertar avaria
já sei cozinhar pra gastura
nem sei se a vida me atura

são as peças do meu relicário
instâncias de toda a ousadia
encantos de vã travessura
sem os toques da amargura

o que dizem que é utopia
fui buscar no meu dicionário
é um tipo de nó visionário
da mais perfeita alegria

sacharuk



as flores mantenho n'água

as flores mantenho n'água

falsos amores bizarros
seduzidos e consumidos
mas nenhum me foi caro
só perecíveis tal as flores
ou fugazes como os sabores
facilmente esquecidos
depois de provados

falsos amores frustrados
dilacerados rendidos
serviram como escravos
numa alcova de horrores
ingênuos impostores
pretensiosos perigos
fatalmente enganados

convencidos e fascinados
tanto heróis ou bandidos
no fundo meros atores
canastrões amadores
ou parasitas nocivos
a mim foram só patrocínio
de subvenções e agrados

as flores mantenho n'água
só para vê-las murchar
no vaso regado de mágoas
catando luz pelo ar

sacharuk
Elena Markova Art



a bifurcação

a bifurcação

a noite mal começara
e na estrada ouvi o chamado

cruzei atalhos de capim alto até vislumbrar a campina ampla tal lua cheia
à mancheia fartei-me de atmosfera

 interceptada pelo sol
a montanha

cruzei a viela de pedras
passo acima
uma a uma
ao ponto crítico da bifurcação

da trilha estreita vi a ponta da plataforma
um furo na pedra
uma gruta

na rocha
o reino de fogo
e tal lótus o homem velho o contemplava

apanhei uma acha de lenha
joguei na boca da chama
o clarão iluminou a face do velho e o espírito da terra ardeu em seus olhos

sua boca cuspiu signos

nessa noite ouvi sobre o fluido da vida que foi derramado no solo sagrado
das dores enterradas
das verdades mal contadas

refiz tantos caminhos investido da alma do mundo
daí me fiz poeta

e o velho
ainda contempla a vida de lá
da bifurcação
ouvindo os signos ecoarem nas rochas

sacharuk


mãos dadas

mãos dadas

Alice estava certa
dez graus nessa manhã
esfrego as mãos geladas
deixo as portas abertas
nossa cidade ainda dorme
o  velho trem corta a estrada

os bentevis no poste
quebram a calada da aurora
dizem canções tão bonitas
contam heroísmos ao sol
e nós colhemos bergamotas
entre tantas outras coisas
na árvore do nosso amor

de mãos dadas vou agora
pois eu andava cego
ela sabe
que preciso
aconchegar meus medos
no seu peito

com a bênção do padre
e da senhora mãe das águas
até penso nesses tempos
em repensar minhas crenças
talvez quebrar paradigmas
escrever novas histórias

e se ela disser sim
aos pedidos do mar
percorrerei plenitude
pelo sol iluminado
assim serei mais humano
abrirei as janelas
para a rua de pedra

de mãos dadas vou agora
pois eu andava cego
ela sabe
que preciso
aconchegar meus medos
no seu peito

Alice estava certa
a ressaca tomou a praia
céu nublado em Rio Grande
mas o amor acalenta
e seus alofones de mel
cantam ao minuano

no sul do extremo sul
o outono leva as flores
nosso povo isolado
reinventa a sociedade
precisamos morrer com amor
à orla da eternidade
Alice sorri para mim

de mãos dadas vou agora
pois eu andava cego
ela sabe
que preciso
aconchegar meus medos
no seu peito

sacharuk


esqueletos

esqueletos

naveguei tantos mares
explorei outras terras
remei o dó nas galeras
com dores nas costas
e de olhos tristonhos
em busca do porto
para ancorar alguns sonhos

marés de tantos azares
outras de sorte ou quimeras
abandonei causas velhas
pisei na fama e na bosta
mirei destinos tacanhos
joguei pérolas aos porcos
servi senhores estranhos

separei dos meus pares
fui ovni entre estrelas
ficamos eu e as panelas
pois eu perdi as apostas
que fiz com deus e demônio
vi meus sonhos aos ossos
de esqueletos medonhos

o vestido


o vestido

teu vestido
costurado à mão
traz sonhos e notas
encantos coloridos
estamparia de passarinhos

carrego na bolsa
minhas agulhas e linhas
para suprir alinhavos
pregar em tuas costas
par de asas
para voar sobre as águas

desliza tua mão
sobre esse tecido
sente a textura fria
sincera e serena
costura fina
das cartas da alma
e versos de poesia
que tanto combinam
com a maciez da tua voz

escolhe um batom
que ostente a palavra
alimente o fogo
e ilumine o decote

a agulha faz dor
quando toca o íntimo
e o vestido
insinua vestígios
se não tem drapeados

sacharuk


de tanto voar criou asas

de tanto voar criou asas

ele brincou sozinho
com palitos de fósforo
e embalagens vazias
legítimo arquiteto
do seu mundo disperso

acompanhou passarinhos
de um helicóptero
com hélice de polia
e girou torvelinho
sobre uma cobertura
feita de papel

do alto do céu
estudou a geografia
inventou a arquitetura
das praias e das casas
da cidade e suas ruas

de tanto voar criou asas
planou na envergadura
no último voo rasante
espatifou-se na poesia

sacharuk


tua geometria

tua geometria

o crop quadrado
o retrato
teus membros oblongos
formavam retângulos
toda a perspectiva
revelava ângulos
emparelhados
teus picos eriçados
coroavam os redondos

sacharuk


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rasgando e reunindo

rasgando e reunindo percorro minha vida a te navegar pelas águas que pairam a me refletirem e desbravo-te pelo louco querer o laço da tua vi...