podcast

sozinha

sozinha

aquilo que busca
a palavra em tua boca
perfaz poemas vertidos
borrifadas umbrellas
perfumados vestígios
harpa tosca
das vozes singelas

da janela
sempre sozinha
lançada ao vago
observas os astros
plasmados no espaço
com inveja das asas
das andorinhas

wasil sacharuk
swallow-wall-art

sei não

Sei não

Que sei eu da vida,
se a consciência revida
o que aqui se revela?
Dizem tanto que ela é bela
mas se há fome e morte
será que viver é sorte??

Sei não...

Há de se ir na contramão
andar capenga e a trote
fazer bolha e ferida
voltar de volta para a ida
fechar buracos do corte
antes que a vida esgote

Marisa Schmidt & Wasil Sacharuk



Gira mundo

Gira mundo

Girei meu mundinho no ar
Ligeiro tal qual um pião
Num amplo espaço a rodar
Nadando nessa imensidao
Dançando sobrava lugar
Espaço sem céu e sem chão

Girei...
E giro no mundo sem par
Buscando maior amplidão
Não quero da vida levar
Migalhas desse mundo cão
No giro que a gira me dá
Sufoco a dor. O meu lugar
Procuro, me viro, em vão...

Lena Ferreira & Wasil Sacharuk



prefácio

prefácio

fazer um prefácio
não é fácil
é algo que prende no lastro
tal algo tanto falso

eis que se abriu cadafalso
entre laços entre laços
nos requebros dos meus rastros
a poetar alabastros
entre a claustrofobia
e o espaço
e depois servir no antepasto
um pouco de pão com poesia

ai quem me dera um dia
eu cair nos teus braços
depois que juras bandeira
em meu mastro
a bolinar brincadeiras
a arrebentar os esgaços
fazer rasgos
tal quem rasga
a folha da alface
num disfarce
sensual e macabro

e quem me dera eu abro
o meu rabo
a um dedo de poesia
daquelas que me convencem
e ainda pense o que pense
sem eurekas e sem cautela
a segurar o candelabro
enquanto olha a vela

se bem que fazer um prefácio
não é fácil
é algo que prende no lastro
tal algo tanto falso

wasil sacharuk

choro comprado

choro comprado

quando extinguirem
meus átomos
sobrarão meus enfados
dentre alguma sujeira

serei sempre lembrado
pelo choro comprado
das fiéis carpideiras

wasil sacharuk



flor de cacto

 Flor de Cacto


O que sabes sobre poesia? 
Se o meu canto nasce sob o teu olhar e te sobrevoa os sentidos
pousa em ti sementes
bebe de tuas nascentes e ainda não o consegues captar?

Que pensas tu sobre os dias
que meus encantos se diluem num mar de risos divertidos
que ora se fazem ausentes
entregues às vertentes das noites sem luar?

O que sabes sobre a saudade? 
Quando a minha asa de ausência, outra de presença 
permanecem presas no teu colo por vontade de estar? 

Que pensas tu das verdades?
se a minha inocência se desfaz maledicência
pela correnteza onde vejo o meu mundo naufragar?

Flor de cacto, tão singela
que se espinha 
e sangra toda ao brotar...

Flor de cacto, tão bela
tão sozinha
quebra
se o vento soprar

O que sabes sobre o amor? 
Quando ele não rima morte com dor
querer com indiferença
teimosia com desistência?

Que pensas tu sobre a flor
jogada sobre um fundo sem cor
a morrer nas descrenças
das mitologias e das ciências?

O que sabes sobre minhas cores e meus aromas? 
Sobre os meus sorrisos e seus significados? 
Sobre os recônditos de minhas belezas? 
Sobre minha nuvem e da chuva que dela jorra? 
Sobre meus pedaços e inteireza? 
Sobre minha crueza e nudez?

O que sabes de mim? 
que pensas tu das certezas?
Que te torna tão dono de um amor-abandono assim?
e por fim, a flor de cacto
é bela nas asperezas

Flor de cacto, tão singela
que se espinha 
e sangra toda ao brotar...

Flor de cacto, tão bela
tão sozinha
quebra
se o vento soprar.

Mell Shirley Soares & Wasil Sacharuk



Açucena de Maria

Açucena de Maria

Açucena de Maria
 flor solitária
na terra queimada

não surgiu beladona
pelos rios e riachos
floresceu do substrato
desabrochou da tristeza

Açucena de Maria
altivez da beleza
flor mulher
da terra cansada
a única flor
onde não vinga nada

wasil sacharuk



tudo e mais outro tanto

Tudo e mais outro tanto

A poesia delira ao diapasão e, logo, intenta aos acordes da lira. Poesia que tanto descreve saliva de beijo, bem como, a imagem do pensador com o queixo poisado nos dedos. Poesia pode andar no eixo para não ouvir queixa, mas pode andar fora e criar desavenças. Há poesia das crenças, poesia do lixo, poesia pretensa, poesia das gentes, poesia dos bichos. Ela é o amálgama do mundo, verte por tudo. É ofício dos nobres, sedução dos espertos, marofa dos pobres e sina dos vagabundos. Também vive escondida na língua dos analfabetos. Poesia é isso tudo e mais outro tanto, no entanto, poesia não é absurdo. Absurdo é querer-se mudo; absurdo é querer-se surdo; absurdo é querer-se cego.

wasil sacharuk




jardim bonito da flor cheirosa


jardim bonito da flor cheirosa

move-se crua
ao distante oriente
guardiã dos absurdos
resplandecente
ao colo da lua

exibe-se nua
revela o risco
que parte do umbigo
para achar sua rosa
bipartidas pétalas
jardim tão bonito
da flor cheirosa

a noite secreta
tranquila sussurra
salpica-lhe os cabelos
com brilhos perdidos
de estrelas antigas

em desvelos
mergulha ao perigo
no oásis da sede
calado de um porto

e suas costas ao sol
bebem raios ansiosos
que queimam-lhe o corpo

wasil sacharuk



as horas e as águas

as horas e as águas

quedam-se águas de tristeza
destemperanças derramadas
perdem-se gotas de beleza
amolecidas
e consternadas

as horas insistem paradas
descaso que abraça o instante
leito infinito
no rumo do nada
desoriente ao navegante

os cristais não mostram futuro
apenas rochas indiferentes
as gemas opacas no escuro
jamais terão outro presente

as horas destilam cadentes
ponteando um tempo tardio
a dor que brotou na nascente
não vai cessar
o curso do rio

wasil sacharuk




urdidura


urdidura

contaste segredos
                em versos
universo onde mora
     teu medo
anverso dos teus
               arremedos
  degredo
dos risos dispersos

largaste a mão
      nos teus nexos
sem aviso
        nem dó
               nem senão
improviso ou sequer
        escansão
canção dos destinos
                perplexos

costuraste remendo
                 ao avesso
      enredo
 em tecido espesso
sem ritmo
        sem tino
               nem rima

perdeste a razão
           em protesto
clamando atenção
     no teu gesto
ridículo e de baixa
      autoestima

              wasil sacharuk



antropófaga

antropófaga

ela habita 
 altas colinas
e indelicada
manipula elementos

faminta
ela vinga nas matas
enfrenta os ventos
mastiga raízes
engole frutos absurdos
repelentes da dor

ela adora
 acentos agudos
nas palavras esdrúxulas 
sobre o dó das cicatrizes
sangra lamentos
e o riscado de esporas
demarca suas vírgulas

antropófaga
poisa nas várzeas
insensata devora
os próprios músculos
desde o crepúsculo
até a aurora
do próximo amor

wasil sacharuk

maxresdefault (1)

a máquina de fazer chuva

a máquina de fazer chuva

ela é operadora
da máquina de fazer chuva
pinga respinga
repica espirra replica
as águas varrem
martelam a terra
esculpem as pedras
e murmuram marés
cinzentas de ocasos

a máquina pode
acionar as torrentes
derramá-las dos vasos
expulsá-las dos canos
entorná-las dos cântaros
para inflar oceanos
e encher a concha
das mãos

wasil sacharuk





Era maio, talvez setembro..

Era maio, talvez setembro..

Daquilo tudo o que eu era restaram somente palavras. Logo, não mais do que palavras é o que agora sou.  Alimento-me de sonoros substantivos. 

Fiz brotar húmus de flor para voltar ao princípio. Danço sapateando com o verbo.

Risquei um tempo insano sob o prisma de qualquer existência. Era tarde, quase noite, quando tremenda chuva de versos, diluídos ao whisky, derramou-se e, despudoradamente, fui banhado. Parti ao encontro da palavra pelado das roupas, das crenças e das ciências.

Desde então, fez-se outro o meu intento. 

Era maio, talvez setembro. Não sei ao certo... lembro apenas de ter visto um poeta pedalando uma bicicleta velha.

Dia desses tornei a vê-lo, sentado na asa de um avião.

wasil sacharuk 




algoritmo


algoritmo

por detrás da minha face
ninguém sabe meus intentos
todas coisas que eu penso
todas coisas que eu sinto

não sabem dos artefatos
que jamais serão usados
minha prece ao oceano
em silêncio desvelado

e não podem ver as ruas
os saraus onde eu estive
meus versos aleatórios
pelo algoritmo d'alma

não vislumbram os vestígios
se rios quedam dos olhos
nem percebem o concreto
que comporta as vertentes

também não veem o sangue
que escorre das feridas
desconsideram os medos
cimentados nas paredes

e são cegos para as sombras
quando iludem a visão
misturadas às penumbras
traçam minha intuição

até tentam ver a lua
onde vive a solidão
meus versos aleatórios
pelo algoritmo d'alma

não vislumbram os vestígios
se rios quedam dos olhos
nem percebem o concreto
que comporta as vertentes

não entendem quando a dor
se esconde sob a pele
e não falam o dialeto
os subterfúgios da mente

jamais podem flagrar nuas
minhas musas eloquentes
e meus versos aleatórios
pelo algoritmo d'alma

wasil sacharuk



alma das paredes

alma das paredes

aqui é cinzento
nessas casas lindas
do século XVIII

suas paredes têm alma
aqui são tristes
passam calmas
as noites frias
e dos úmidos dias
apenas ouço os murmúrios

aqui é escuro
profundo
tal poço
as cores sombrias perpassam 
os olhos intrusos
que me habitam

eu ainda te vejo
eu ainda te vejo
te vejo para sempre

aqui é cinzento
nessas casas lindas
do século XVIII

eu ainda te vejo
eu ainda te vejo
te vejo para sempre

wasil sacharuk


tarefa inglória


tarefa inglória

repete todo santo dia
faço sempre a mesma coisa
preciso calçar as galochas
e desfilar entre rochas
de mármore e granito

revisito o mesmo rito
enquanto a carne esfria
se o dito é poeta se lê poesia
se o cujo é crente se lê oração
mas no fim é só casca e caixão

eu já cavei tantos buracos
ouvindo o choro dos fracos
mandei alguns para o lado de lá
em golpes contritos de pá
e ofícios de carpideiras

mas juntar as caveiras
é a tarefa mais inglória
pois vejo uma sombra ilusória
que se lança e se esgueira
nas ruas de mármore frio

sempre sinto um calafrio
mas aprendi a manter a calma
pois sempre haverá uma alma
assombrando o terreno
em busca de um lugar ameno

wasil sacharuk


se calas

se calas

poeta poeta
por que não te calas 
e apenas consentes?

quando calas 
sinto-te presente
e o silêncio das pedras
consigo escutar

poeta aparvalhado 
desconheces o lugar
das escolhas coerentes
e de cor e salteado
sei do teu jeito simplório
sei também teus intentos

permaneço abrindo poros
os meus e os teus
vidrada no sangue 
que jorra vertente
sobre as folhas secas
apócrifas manchas
fazem sépia nas letras

poeta poeta
por que não escreves
de trás para frente?

wasil sacharuk






🔪💀o feminicídio da cunhã poranga

🔪💀o feminicídio da cunhã poranga

cunhã bailarinava
tal a dama do xadrez
percorria os lados
ocupava os espaços
saltava tantos
de uma só vez

seminua perambulava
descaminhos da noite
ao covil desses homens💀
de brios rachados
e de toques gelados
vergão de açoite

ela dançava
tanto linda quanto louca💃
a sexy mímica da boca
entoava a toada🎶

era ela e mais nada
índia mais linda da tribo
coisa mais sem sentido
morrer de morte matada

wasil sacharuk

grafite Seth


manto

manto

escrevi poesia dos tempos
fiz marola dos ventos
lancei sinais de fumaça
em rimas pobres

não me cobres
dores de esperança
dores de desgraça
se só concretei
os signos que inventei
nos bytes do documento

dos males fiz lamento
dos lamentos fiz troça
estrangulei estrofes
tal rapinagem das aves

profetizei nas conclaves
furei os olhos da crença
vi a morte pelos cantos
lavei a honra na vingança

mas escrever não me cansa
nos versos eu tenho recanto
a letra na ponta da lança
e a poesia é meu manto

wasil sacharuk


pegada

pegada

não escapas!
se te viras
tem rabo

wasil sacharuk


bebês borboleta


bebês borboleta 

qual tom cinzento
ousará adentrar
o céu colorido 
de doces virtudes
e tudo o que
amiúde
 bebês borboleta
voando tão fácil
poderão inventar?

wasil sacharuk
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fotografia de Andréa Iunes

trôpego

trôpego

verso errático trôpego
cego afônico e átono
dado a chiliques encefálicos
para morrer proparoxítono

de pontacabeça  fálico
revelou-se cálido e rústico
encamisado com plástico
logrou-se meio estapafúrdio

depois tombou epiléptico
parabólico e estrambótico
movimentou-se tanto elíptico
entre cambaleios drásticos

e desfaleceu lânguido
cabisbaixo e cáustico
para anoitecer esquálido
enternecido e estúpido

wasil sacharuk



nuvem sobre a mata


nuvem sobre a mata

um sombreado de nuvem
o velho diabo
tatuou  em tua coxa
bem próxima ao vale
de pequenas árvores
 finos caules
onde estendem- se as faces
 charme e rusticidade
 tão bela botânica
o sol esgueira nuanças
e adorna-te as curvas

wasil sacharuk

painting by Lilian Patrice 

canibalismo cidadão

 Circundavam calçada, centenas criaturas com camisetas coloradas, confeccionadas com cara chapada criatura chamada Che. Comunistas coordenados conclamavam cizânia, clamavam chamamento: "Calamar candidato" "Calamar candidato", carregavam cartazes com caricatura Calamar Cachaceiro. Criaturas com cútis coloridas, confinadas conduziram cartazes condizentes com "conservar cotas" "coordenados contra corfobia" "Calamar comprometido contra corfobia", clamavam consideração. Criaturas chacoalhavam colhões, chacoalhavam chibil, cu, considerando comover comunidade contra chavascofobia, contra caralhofobia, contra cacofonia, contra coxinhas, contra capitão coisonauro, contra coisominions, contra crentes, contra chãoplanistas, contra capitalismo. Criaturas cagavam chão calçada conclamando cruzada contra cufobia.

Conduzindo campanha, capitão coisonauro comandava carreata com centenas ciclomotores, cujos condutores, criaturas conhecidas como coisominions, coibiam cuidados contra coronavirus, carregavam cartazes com "candidatura colegiada com cédula carimbada".  Comando Combatentes chefiava cadetes conduzindo carreata com canhões centenários, chamuscantes como chaleiras carbonizadas, colocando canhões contra cara comunidade contrária convicções cretinas.  Coordenadores Congregação Cristã Cristo Chegará comercializavam cura conquanto conduziam culto comandando crentes, como carneiros confusos, conforme cantavam canções cafonas, criarem cruzada contra convicções comuns, contra candidaturas contrárias. Chãoplanistas chegavam conclusões catastroficamente calhordas. Chefia chinelicias cariocas, composta com conhecidos criminosos condenados, conclamava capitão coisonauro conquanto comandava crimes contra civis.

com cabeça cheia, cismei:

-caguei!  Comprarei cachaça com crédito contra covid  conseguido com caixeconômica.

wasil sacharuk




desmantelada

desmantelada

era eu dura pedra
ao pó desmantelada
pelo crivo da tua vontade
eis que o desejo persiste
teu signo na pele tatuada
ao toque das tuas digitais

minh'alma resiste marcada
meu âmago ninguém toca mais
meu gozo quer tua completude
ainda são teus os meus ais

wasil sacharuk





atitudes irracionais

atitudes irracionais

incrível como nosso subconsciente
nos condiciona mais e mais
a atitudes irracionais

creio que sejam normais
essas nuanças da gente
que se mantém no frio
mas sempre está quente
é o que a gente faz

incrível sentir o calafrio
um choque elétrico ardente
e não ficar indiferente
a tua nudez deslumbrante
do tipo fêmea no cio

incrível como nosso subconsciente
nos faz ficar assim
a mil
do arcoíris pueril
ao degradê do sombrio

mas de ver tua imagem silente
nessas fotos de costas
de dorsos, de frentes
fico com cara de idiota
e um sorriso contente

eis que nunca está morta
a verve de quem sente

wasil sacharuk



persistência

Persistência

O mundo percorre as distâncias
e o tempo marca o resto(de vida)
Segue o homem as circunstâncias
sem saber que a sina está decidida

Segue os caminhos das lembranças
de preto no branco quiçá coloridas
avanços agudos e das reentrâncias
de memórias vivas e das esquecidas

Na soma das probabilidades
numa conta que nunca dá certo
é difícil equacionar a felicidade
se o amor quase nunca está perto

E se vive a juntar os pedaços
reerguer o próprio amor das ruínas
a tentar preencher os espaços
dos incidentes na rota da sina.

Marisa Schmidt & wasil sacharuk



fascínio

fascínio

replica-me ao espelho
contornos do belo
impressionante signo
redenção e desígnio
da paixão entorpecida

ama-me atrevida
pelos tantos reflexos
tagarela amaldiçoada
ressonância dos ecos
de ninfa encantada

bebe nas cavidades
dos meus olhos de pedra
o liquor da beleza
lume das profundezas
das águas eternas

replica-me ao espelho
as linhas tenras
a desvendar faces belas
inevitável fascínio
duplo legítimo
da paixão entorpecida

wasil sacharuk

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sétimo

sétimo

dos rústicos sentidos
desde os despertos
aos adormecidos
há um sétimo
tão cáustico
e drástico
do qual eu não sei

sou apenas humano
portanto uma lástima
tal os outros
para servir de consolo
vivo de enganos
e estou sujeito às leis
dos tolos

algum sentido me faz absorto
em tom grave circunflexo
entre insights desconexos
penso falar com os mortos
monologar a minha loucura

palavras surgem obscuras
não sei se são híbridas
sequer se são puras
provém dos desígnios da noite
e relatos de bruxas

desfilam versos sem roupa
na poesia mais tímida
ou na prosa mais dura
na dor do sétimo açoite
a cortar o dorso da lua

ouço pitonisas loucas
reescrevendo o curso da vida
com promessas de cura
com mensagens urgentes
e nuas

(o sétimo carece sentido)

se solta um grito retido
que suplica pelo lume
ou qualquer sabedoria
serão apenas queixumes
no hades da poesia

wasil sacharuk


fragmentos de um sistema qualquer

dia desses vi um filósofo 
chorando lágrimas de inexatidão 
sentado na pedra encravada 
solitária no meio do lago
pensava perdido no nada
mas o nada não era vago

cismava fagulhas lastimosas 
do desencanto com a razão
 viveu uma paixão viciosa
com a incerteza dos fatos

eis que o hiato 
entre o filósofo e o poeta 
é o reduto encantado
onde o fogo insano se aquieta
numa rima pobre.

poema mecanicista

ah! Sim, eu penso por mim
por mim que portanto penso
não lavo de choro meu lenço
tampouco acredito num fim

repenso em como pensar
para aprender com os erros
os cheiros ruins dos desterros
e os barcos que vi naufragar

logo cogito ergo sum
reviro a fração de um poema
sei fragmentar um sistema
transmuto o um em nenhum

aprendi a pensar a emoção
e chorar lágrimas de poesia
mas me perco da estrela guia
se sonego o valor da razão

wasil sacharuk




holofote

Holofote

Desenho poesia em teu corpo nu
Tuas curvas curvam meus versos
Mais-que-perfeito é teu olhar
Sem pena do mundo peço
Faça-me feliz
Vira minha mente pelo avesso
Seja o lirismo dos meus dias frios
A festa de um solitário escritor
Faça o amor
Seja atriz
A protagonista em cada linha
Numa vida que não se alinha
Mas se alinhavava ao meio-dia
Arranca-me a teia torpe da nostalgia!

Dança para mim ao som do blue
Mostra teus gestos convexos
O holofote da noite é o luar
Sou cativo dos seus excessos
Faça-me feliz
Desata-me o nó dos reversos
Esqueça os abismos sombrios
E faremos um arco de cor
Serei ator
Seja atriz
A personagem da minha sina
E sem querer me ensina
Beber do teu corpo a poesia
Que me liberta dessa agonia.

Ateu Poeta e Wasil Sacharuk



colcha de margaridas

colcha de margaridas

teu umbigo
é um ótimo abrigo
para querer ir morar
os mamilos
são equidistantes
aos teus olhos de mar
que acusam marés
desinteressadas

teus cabelos
quase assanhados
confessam os cachos
quedam florindo
sorrisos divertidos

eu te desadorno
eu te desenfeito
desrascunho
e desescrevo
cada pedaço de ti

e tu aí
tão linda
nudez em relevo
sobre o plano
da velha colcha
de margaridas

wasil sacharuk


mais que um momento

mais que um momento

percorro as noites
pelas ruas
meus caminhos incertos

percorro erros
percorro acertos
me perco sob as luas

e do lado de fora

do lado de fora
sei que o sol só brilha
a quem sabe beber chuvas

apenas a quem tenta

linda tu és mais
que um momento
me fizeste grande
me fizeste homem

linda tu és mais
que um momento

és meu tempo inteiro

procuro as falhas
no desenho celeste
reorganizo as estrelas

desato as amarras
que me vestem
em busca do que sou

e do lado de fora

do lado de fora
sei que a força da terra
só floresce em versos

apenas a quem tenta

linda tu és mais
que um momento
me fizeste grande
me fizeste homem

linda tu és mais
que um momento
és o  meu tempo inteiro

e do lado de fora


do lado de fora
um sentido desordeiro
se derrama em versos

apenas a quem tenta

wasil sacharuk



as diferenças

as diferenças

a alma das dores
reverbera nas noites
pela eternidade

não é por desavença
nem pelo vergão do açoite
não é a sina da negritude
sequer a farsa da liberdade

sobrevivem as diferenças
na corrupção da atitude
e na falta de boa vontade

wasil sacharuk


amores líquidos🎼🎻

amores líquidos🎼🎻

amores líquidos
sabem ouvir silêncios
são cera que percorre
as cordas dos violinos
derramam seu opus
sobre as águas turvas

amores líquidos
desafiam a secura
que perece os corpos
não temem a chuva
que alastra em ondas
de tantos capítulos

amores líquidos
donos da própria vontade
fluem mares indômitos
na corrente da liberdade
emergem à superfície
para beber poesia

amores líquidos
banhados nas mágoas
onde se juntam as águas
onde não há calmaria

wasil sacharuk

fotografia por Ellen Cuylaerts




bailarina das Luas

bailarina das luas

dissolvo-te as reentrâncias
ensaio cores nuanças
reviradas nas águas
para lamber tuas pernas

descubro-te com feixes
de espíritos da terra
talvez sejam peixes
criaturas estranhas
ou almas insanas
suplicantes
dos teus átomos

e faço-te em matizes
das minhas cerdas
com cuidado
para riscar os deslizes
dos teus contornos
abstratos

sinto-te nas cores
tal fossem sabores
revestidos na sépia
de inventados outonos
a negar os calores
e as primaveras

inventei a tua nudez
aos auspícios
dos raios da lua
ela louca se fez
perdida na vastidão
dos seus vícios
de poesia
e de escuridão

certo dia
peguei tua mão
e gravei em tua palma
traços de incertezas
e o açoite da espera
que ronda as noites
da minha janela

bailarina das luas
e dos arcanos
te fazes mais bela
se danças nua
no teu oceano

eu somente
estrela cadente
busco tua senda
na angustia da queda

revelo-te silente
tal quem nada espera

wasil sacharuk


do pó que faz pedra nas águas

do pó que faz pedra nas águas

tantos anos passados
 foram tantas as navegações
pelas rotas mais loucas
a rodar timões desenganados

estivemos lado a lado
copos na mesa
navegamos whisky derramado
marolas e ressacas
ondas de incertezas

nossa velha barcaça
move a vela 
de toalha de mesa
traz memórias acessas
tão vivas como antes
histórias de navegantes
pouco ou nada diferentes

nosso encontro na foz
fez poema de versos correntes
cuja origem é nascente das mágoas

assim somos nós
assim fomos feitos

do pó que se encerra
habita o fundo das águas
constitui antigo agregado

e lá do outro lado, na terra
aguardamos o dia perfeito
em que voltaremos ao pó

assim somos pedras
assim somos sós

wasil sacharuk

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das marés escravas da lua

das marés escravas da lua

cheguei nascituro
no dia presente
portador de incertezas
demais eloquentes
e umbigo partido
com livre tesoura
vim no tubo de óleo
que hidrata assaduras

cheguei bolhadágua
que pinga das fontes
furtacores dos prismas
irreais diamantes
dono rico do brilho
calhorda das ruas
vim pela delicadeza
indiscreta da lua

cheguei no flash
de insight errante
angelical urubu
ou delicado elefante
diabo resplandescente
da aura mais pura
vim na estrela cadente
na noite escura

cheguei atrasado
no próximo instante
na primeira lâmina
da cruel cartomante
escorpião que envenena
com sua picadura
vim da dor que me mata
e da dor que me cura

wasil sacharuk

meu castigo

meu castigo

lancei um pedido
nas águas do mar
estive perdido
para me encontrar

tanto fui louco
a dialogar tuas mãos
por espaços
de coisas
fora do lugar

vivo escondido
na esteira do tempo
para nao sentir
tua falta
nunca mais

vivo escondido
detras da tua porta
para nao sentir
tua falta
nunca mais

eu sei
pioggia
meu castigo
pioggia

eu choro
pioggia
meu castigo
pioggia

eu vivo escondido
por espaços
de coisas
fora do lugar

lancei um pedido
para nao sentir
tua falta
nunca mais

eu sei
pioggia
meu castigo
pioggia

eu choro
pioggia
meu castigo
pioggia

wasil sacharuk

elisabetta buonanno - il mare d'inverno

elétricos

elétricos

tu me fase
eu te fio
tu me terra

wasil sacharuk

cada crença corresponde com cada cadáver

cada crença corresponde com cada cadáver

corriqueiramente
coveiro chega capela
cemtraliza cruz 
com cabeceira caixão
coloca castiçais com chamas
 convenientemente cintilantes
conquanto consome
 caneca com café
conforme chamusca cigarro

cabe coveiro corresponder cada corpo caído
com caixão contratado

convém colocar cravos
condecorando casaco

como colaborador com cemitério
conforme chega
coloca chapéu 
critério contra claridade
começa cavar chão... 
cava...cava...
cem centímetros
construindo cova
compatível com 
cumprimento caixão

conforme correm cerimônias
conduz criaturas chorosas
consanguíneas com cadáver
conduzirem cerimônia
carregando caixão
coberto com camiseta
correspondente com clube
cujo cadáver contribuía

criaturas cantam canções comovidas
como cadáver costumava cantar
contudo, choram copiosamente
conquanto cuidadoso coveiro
coloca cobertura 
cerrando caixão
centralizando com cova cavada 

como costume
caem crisântemos
como chuva colorida
celebrando cadáver

contudo
cadáver continua calado
completamente chateado
com culto cretino

wasil sacharuk


curta

É só uma frase,
vai passar,
assim que chegar ao ponto.


wasil sacharuk


feridas

feridas

não vertas
o azeite fervente
sobre tuas feridas

elas se curam sozinhas
num afago consciente
depuradas com carinho

wasil sacharuk



roda-viva


roda-viva

o tempo
sempre o tempo
roda espirais
agruras de vento
dança rodamoinho
corrupio e atropelo
das vidas pequeninas
depois chora ruínas
no jazigo dos lamentos

wasil sacharuk

rodaviva


vive teu isolamento

vive teu isolamento

vive teu isolamento
as feridas de dentro
o lixo toma o mundo
isso é tão duro

abdica ao poder
essa é a hora
é preciso amor
querer olhar para fora
dividir para socorrer

conhece a penúria
compartilha do medo
dos homens simples
dos que sabem que a sina
qualquer dia 
espreitará da esquina

vive teu isolamento
pratica poesia
oferta ao teu corpo
luz do sol
aprende a estar só
para amanhã ficar junto
faz de ti instrumento
de conforto

wasil sacharuk


androfagia de amor

androfagia de amor

isento do egoísmo
morder-se-ia o louco
no antebraço das impossibilidades
rasgo sangrento naco de carne
doce exorcismo de amor violento

wasil sacharuk



seus sais

seus sais

sinto salgados
seu suor
seu sêmem
sua saliva

seu sexo
secreta
sabores solares

sou somente
sua serva
sorvo seus sais
sem segredos

sei sanar
seus sentidos
sabores servidos
sonhos sexuais

sei sumir
seu sabre
saborosamente
sem sacrifícios

wasil sacharuk







ao Trancarrua das Almas


ao Trancarrua das Almas

quero entender os agouros
dialética das minhas dores
e a solidão dessas luas
meu senhor trancarruas
hospedeiro das almas

quero poisar outras cores
na noite de negro e ouro
a espera do dia vindouro
fronteira da vida e da morte
acaso sejam contrárias

quero uma capa igual a tua
senhor trancarrua das almas
sobre meu túmulo sem flores
a esconder meus tesouros
medalhas das minhas batalhas

quero um evento simplório
evite outro circo dos horrores
a mentira que se insinua
a verdade que se diz crua
apenas a pena que valha
quero cerrar os meus olhos
morrer atento aos rumores
no berço dos meus esplendores
guardados junto aos entulhos
e viver das migalhas

wasil sacharuk




musa

musa

não me proíbas de pintar-te nua
capturar-te emoldurada
       sedimentar teus fluidos
          plasmar teus suspiros

não me proíbas de ver-te tal musa
                         derramar-te poesia
oferendas à deusa
          dos mil sacrifícios

wasil sacharuk

Archibald J. Motley Jr. | Nude (Portrait of My Wife) (1930) |

seriema

seriema

canta bonito
seriema avoada
daqui te ouço
flauteando a toada
dos versos compridos

aninha-te ao leito
árido dolorido
chão de cerrado
daqui te vejo
espectro refletido
do firmamento

canta bonito
seriema avoada
anuncia a chuvarada
percute em lamentos
tuas frases rasgadas

daqui te sinto
esvoaçante ao ventos
desenhando pegadas
no infinito

wasil sacharuk


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rasgando e reunindo

rasgando e reunindo percorro minha vida a te navegar pelas águas que pairam a me refletirem e desbravo-te pelo louco querer o laço da tua vi...