podcast

meus demônios


meus demônios

meus demônios de ouro
têm lua na arte
ascendente escorpião
veneno das máculas
criaturas e entidades
que vigiam as águas
e habitam cidades
entre o alto do céu
e o fundo do chão

meus demônios precários
não trazem do ser a semente
são diabos errantes
e indiferentes
metades de santos
dos mitos e enigmas

legítimos signos
da farsa humana de existir

meus demônios de cânhamo
presos numa garrafa
curandeiros das farsas
dos enganos e trapaças
nos dias de chuva
observam a vida fluir
por detrás da vidraça

meus demônios imundos
desconhecem a lástima
que num poço profundo
foi vertente das lágrimas
renegam as graças
do abismo da crença
e as sentenças alvissareiras

meus demônios da dança
giram em volta à fogueira
junto às chamas do amor

sacharuk






clichê de outono

clichê de outono

eles passam sequer reparam
a folha seca flanando suave
quando despenca da árvore

maldizem a noite de frio
os pingos gelados da chuva
praguejam ao contratempo
das mudanças de temperatura

não veem que o outono é feito
com nuanças de poesia
e tons sépia de cura
que o silêncio da melancolia
convida a dançar na rua

wasil sacharuk



guia de pilotagem

guia de pilotagem

voar é coisa
de passarinho
já sai do ninho
batendo asas
dando rasantes
sobre as casas

voar é coisa
de poeta
pega caneta
inventa palavras
mísseis errantes
flechas aladas

voar é coisa
de maluco
e de bocomoco
lança às favas
decola imprudente
livre de amarras

que nem borboleta

wasil sacharuk




pérola rosa

pérola rosa

nasceu no canteiro
exótica flor
lua no olhar
sorridente de sol
amor de poesia
astúcia de prosa
a vovó já dizia:
minha Pérola Rosa!

a crescer girafinha
a girar bailarina
doce de mel
boneca de pano
lápis de cor
risos em ramos
pétalas de amor
histórinhas rabiscadas
no universo de papel

cheirinho de terra
leveza do céu
cores faceiras
flor amorosa
sua essência preciosa
de um mundo encantado

quando estou lado a lado
com a florzinha dengosa
pousam nós nossos ombros
mil mariposas graciosas

wasil sacharuk





pele e sal

pele e sal

poros de areia
teu par de dunas habita
doces fantasias

wasil sacharuk




quid pro quo

quid pro quo

cruzou águas imensas
deitada na sua canoa
desenhou com o dedo
mil promessas
riscadas nas nuvens

havia vazio em seu meio
uma vertigem
certa dor um receio
não era medo
horizonte quebrado
esse vazio tinha nome
tinha cor tinha cheiro
abria sombras aladas
para voar com as garças

ela viu de tão perto
que o nada é o nada
e que todo o nada
esvazia repleto
transborda tão cheio
de vazios incompletos

sacharuk




carne

carne

sacrificar meu escroto
decerto sequer eu tento
a lógica dos argumentos
me proíbe de ser egoísta

bendita fêmea seccionada
servida em parcas partes
a fome lírica sofista
instintivamente saciada

os loucos                 esses sim!
podem morder a própria carne

amor
precisas saber
salteado e de cor
loucura e amor
é uma coisa só

os loucos                 esses sim!
podem morder a própria carne

wasil sacharuk



desses jogos confusos


desses jogos confusos

pensei em sangrar
os meus pulsos
pensei em cortar
os meus cabelos
escrever uma carta
pela última vez
registrar minhas letras

porém das lembranças
que terei do futuro
de mim voarão borboletas
cintilantes estrelas
no céu mais escuro

dos murros
dos muros
e das incertezas
desses jogos confusos

então quero viver
pintar aves nos céus
amainar asperezas
negociar com os sonhos
perdoar as mentiras
e morrer natural
pelos dias lentos
aprender a sorrir
eu quero viver

pensei em conter
meus impulsos
pensei em contar
meus segredos
pensei palavras exatas
dissecar minha tristeza
em poesia

mas as certezas
que eu ainda tinha
migrarão tal andorinhas
e outras novas belezas
tomarão seu lugar

então quero viver
e poisar no papel
as lágrimas belas
do universo tristonho
entender diferenças
e morrer bem normal
sem meus lamentos
aprender a viver
eu quero viver

wasil sacharuk 









astrofísica

astrofísica

ela lê poesia
no canto ensolarado
da janela

as rimas ricas
metáforas belas
suas relíquias
mundo encantado
e suas quimeras

ela intui a mensagem
que vêm das estrelas

sacharuk





de água elemento


de água elemento

confesso à lua azul
insólitos desejos
se nenhum segredo
meu mar desconhece

sou fluido nas águas
deságuo pela afluência
ao encalço das revoadas
se nada
meu mar desconhece

passeio pelo céu
deitado numa canoa
a espelhar as gaivotas
se nenhuma resposta
meu mar desconhece

navego à margem
do mundo inteiro
as águas envolvem
bolinam montanhas
nos desfiladeiros

onde banhas teus seios
para soltar a areia
logo que amanhece

sequer teus anseios
meu mar desconhece

sacharuk




mergulho

mergulho

quando morrer o dia
estarei louco
doido varrido
louco da poesia
afogado e perdido
na maré das verdades

sacharuk



explodida das veias abertas

explodida das veias abertas

tu és medo em estrofes diretas
quando a sina se torna agonia
tantas letras e um só argumento
a versar lágrimas e ventos

tu que nasces no ventre do dia
enredada nas horas dispersas
quando a luz retorna inquieta
encoberta se torna sombria

tu és verve cingida em lamentos
a acidez que ruiu monumentos
perfilaste ideias cinzentas
em busca da própria alforria

tu tens asas que movem dispersas
e eu te faço sublime poesia
te amparo nua em rebento
plasmo versos no teu firmamento

tu que nasces sem sabedoria
explodida das veias abertas
quando flui a vida repleta
entre as guerras e a calmaria

wasil sacharuk

fotografia: sacharuk

nova canção de amor


nova canção de amor

esse amor diz coisas
que eu já não entendo
esse amor faz coisas
que não sei explicar

esse amor que adentra
por janelas abertas
esse amor sopra vento
rasga raio e tormenta

amor-pimenta
amor-safadeza
das vontades intensas
esse amor clandestino

amor-espinho
amor-singeleza
das coisas pequenas
esse amor-passarinho

esse amor sente coisas
que cortam por dentro
esse amor que tem coisas
que me fazem voar

esse amor se inventa
por palavras incertas
esse amor canta o tempo
feito em música e letra

amor-pimenta
amor-safadeza
das vontades intensas
esse amor clandestino

amor-espinho
amor-singeleza
das coisas pequenas
esse amor-passarinho

wasil sacharuk



fadinha

fadinha

fadinha de vestido rosa
e de cabelos violeta
trocou poesia por prosa
mudou a ordem das letras

trouxe um buquê de cores
com beijos de borboletas
e quis uma paleta de flores
plasmada nas asas abertas

fadinha nem sempre acerta
sua mágica não é perfeita
contudo se ama e se aceita
por isso ela é muito esperta

sacharuk


texto inacabado

texto inacabado

O portão de ferro. Na sua metade inferior, a ferrugem contempla pequenos pedaços quase soltos do ferro oxidado. O chão de cimento cru, sem revestimento, revela um vasto caminho que leva até o fundo. Na metade do percurso há uma velha porta de madeira, tal o portão de entrada, apodrece lentamente por baixo, e sua pintura branca tem manchas de sol. O teto parece ter sido branco, tal as paredes. Nessas despencam nacos de tinta velha no chão de cimento.

Paredes em farelos.

Um ventilador de teto com teias de aranha. Recostada à parede, uma estreita escadinha de madeira. Sobre seus degraus, copos, garrafas já abertas, uma carteira de documentos, chaves diversas e o aparelho celular.

O televisor antigo de onze polegadas permanece ligado. Na tela, homens discutem e vestem gravatas.

Uma poltrona funda e ampla guarnecida por travesseiros. 

O homem sentado tem a cabeça caída sobre o ombro direito parece dormir. Entre seus dedos, uma caneta. Logo a sua frente, na escrivaninha de ferro, um caderno. Nele repousa um texto inacabado.

wasil sacharuk

deixo meus disfarces

deixo meus disfarces

meus disfarces abandonados
traumas vícios pecados
hoje faço vigília na noite
e uso os meus artifícios
para o teu doce descanso

sou remanso enluarado
dormes sem sacrifício
e fico bem ao teu lado
a zelar pelo sono
e uso os meus feitiços
para que tenhas proteção

largo meus disfarces
entre nossas conversas
intercalados nos versos
e nas linhas da face
que toco com os dedos
para descobrir
teus insanos segredos

meu coração machucado
teme que sumas
em qualquer titubeio
e fica acordado a pensar
o tempo inteiro
em merecer teu carinho
inundado de amor

troco meus disfarces
por portas abertas
e algumas promessas
para o desenlace
dos teus enredos
e ver sucumbir
os teus medos

e também
os meus

deixo meus disfarces
bem junto aos teus
nas entrelinhas
das nossas palavras

(palavras que impregnam
eu sinto)

sacharuk






narciso em teus reflexos

narciso em teus reflexos

deságua na língua
ágil que te pronuncia
nas tranças da poesia
de um narciso
em teus reflexos

fodes aos versos
eles fodem contigo
caem de boca
fatal puta louca
das pernas abertas

geme manhosa
sujeiras escrotas
devassas da prosa
verte chá de boceta
no caderno
de escrituras

musa bruxa
manipresta negra
refletes indecorosa
no espelho mágico
das minhas letras

 sacharuk




véu do mistério

véu do mistério

despencadas brumas
das cúmplices estrelas
luz de lua e velas
falseadas penumbras
sob o véu do mistério

do olhar do abutre
o auspício
o precipício
a virgem
o ébrio
vida e vertigem
morte e remédio

suplicas mudas
palavras pela janela
das teclas à tela
minúcias absurdas
riscadas no espelho

essa lida nutre
um vício
pelo ofício
da linguagem
caso sério
de vida e coragem
de morte e silêncio

wasil sacharuk



palavra da morte e da vida


palavra da morte e da vida

busca a palavra que designa
quando morre toda a vida
quando seca a ferida

busca a palavra que é digna
quando a morte ressuscita
quando a primeira vez se grita

busca a palavra que resigna
quando a morte ou a vida
é tão contingente e iludida

busca a palavra - o signo
que representa a morte
que representa a vida
que sentencia a sorte
se vitoriosa ou perdida
que ruma a um novo norte
nova missão cumprida

busca a palavra da morte
busca a palavra da vida

sacharuk




o velho boga acentuado

o velho boga acentuado

meteu com tudo
um acento agudo
no u do seu boga
o oxítono dolorido
ortograficamente ferido
consultou o gramático sisudo
falou que no cu não se bota acento
a menos que o cú referido
seja por força de xingamento

wasil sacharuk



gosto para tudo

 há gosto para tudo... já dizia uma véia


fruto podre

Fruto podre

Oh, patife mordaz de olhos bovinos!
Não tens em teus secretos mensageiros
Da discórdia, alguns biltres assassinos
Que queiram lutar co’os de pés ligeiros?

Velho, filho do mal, Fruto estragado
Duma árvore maldita, tu também
Serás severamente torturado
Pelos demônios ríspidos do além.

Sentirás que num golpe do destino
Comichar a bicheira no intestino
A comer o teu bucho esfarrapado

Saberás que na volta dos ponteiros
o teu couro, tua honra e teu dinheiro
Servirão p'ra cobrir os teus cagados.

David Moura & Wasil Sacharuk



amor e confinamento

amor e confinamento

semente de laranjeira
até que brota faceira
se semeada ao acaso
porém cresce pequena
cultivada em vaso

eu queria dar a ela
o reino do grande prado
onde o silêncio é absurdo
para que vingasse inteira
e amor de sina campeira
para benzer os seus frutos

wasil sacharuk



🌹 sexy floral 💐


🌹 sexy floral 💐

menina linda inspira
e venta brisa do mar
para assaltar os seus poros
juro que não é mentira
o que eu quero cantar
cá nesses versos canoros🎵

menina linda tatua
uma nuvem carregada
enquanto chove lá fora
e ao espelho ela pinta
beiço vermelho de amora 💋
mestre na arte das tintas
encantadora encantada

menina linda visita
os animais no quintal
para tanger as galinhas 🐔🐤
e logo apara o jardim
veste o sexy floral
depois procura por mim
no terreiro do vizinho
na laranjeira o pardal
um dia desses fez ninho

menina linda é linda
por isso é tão amostrada
e se ela vive sozinha
quero que deite comigo
na minha rede cheirosa
eu quero ver a sua linha
que desce desde o umbigo
até achar sua rosa

menina linda inspira
a noite inteira provar
os sonhos deliciosos
juro que não é mentira
o que então quis cantar
cá nesses versos canoros🎵

sacharuk



estio



estio

vertente sem graça
sem força deságua
eis que o tempo sangra
nascentes escassas
quando a poesia
descansa na foz

tal as pedras antigas
as palavras frias
são só pó e ruínas
ao espelho de sol

sacharuk



pela palavra

Pela Palavra 

É somente o uso da palavra que garante um pequeno grau de distinção entre as pessoas e os outros bichos. 

Quanto a mim, a timidez me confinou à eterna tentativa de domar meus instintos, enquanto Aristóteles assombrava com aquela ideia de animal político. E eu não encontrava tanta politicidade em minha animalidade.

Ainda questiono minha capacidade de integrar uma sociedade e constituir um Estado. É a palavra o único acesso que tenho ao mundo das pessoas... Por ela sou facilmente influenciado e posso tentar influenciar. É ela que me faz distinguir o meu bem do meu mal e disfarçar a imoralidade. Modelo o pensamento seguindo signos confusos que gritam no meu cérebro. Mas, o mais significativo, é que pela palavra invento alcunhas aos meus sentimentos e valores (quais?), e assim, faço uma bruta distinção entre as coisas e selo suas diferenças. Todos precisam de rótulos para ser animal político. 

Fico aqui, navegando no mesmo barco que Rousseau: não sei se preciso pensar para encontrar as palavras ou encontrar as palavras para pensar. Tudo no meu mundo é tão abstrato que só toma forma quando eu falo, quando escrevo... e se não falo ou escrevo, me escondo. 

Penso que toda essa complexidade se sintetiza num ser vivente, do tipo social, revestido da textura material das palavras e, invariavelmente, mal compreendido. Como escreveu Lispector: "Inútil querer me classificar... eu simplesmente escapulo... gênero não me pega mais..." 

Toda linguagem não dá conta dessa abstração. A brincadeira com os clichês me conduz ao entendimento dos rótulos. E na minha poesia, ingênua e simples, eu posso alcançar alguma catarse. E com ela ainda permito a expressão da animalidade. E nem gênero, espécie ou Aristóteles me pegam mais. 

sacharuk



o servo


O servo

Ele lutou, relutou, denunciou fatalidades vivas e pulsantes ao passo que deglutiu tamanha raiva canina. Bebeu café, assistiu aos clientes, bebeu outro café e, logo depois, acalmou-se.
dinheiro-3-300x220
Questionou o objetivo das coisas. Ouviu novamente as tantas e tantas verdades servidas nas mesas, pregadas nos cultos, na cardiopatia que acomete a sociedade dos sentidos repleta de sentimentos nobres. Por fim, ainda que sem respostas, repetiu orgulhoso cada discurso floreado das melhores intenções. 

Acreditou na justeza dos advogados, na ética dos comerciantes, da pureza dos pastores, nos médicos, no irmão, no vizinho.  

Pretendeu colher pérolas virgens daquelas ostras escancaradas. Pernoitou de novo com a compreensão e com a esperança.

Concentrado, conduziu seu carro novinho e brilhante, contabilizou resultados e aguardou ansioso que o próximo fruto viçoso surgisse dependurado no galho seco. 

Vendeu seguros. Desejou estar seguro. 

Buscou por um senso de justiça que não o tocava. Limpou a mente da torpeza dos preconceitos que jamais adquiriu. 

Assistiu a novela, o futebol, o jornal. Serviu uísque, fumou um baseado. Falou com as horas na espera que o dia acabasse de novo e de novo e de novo. Agradeceu ao Deus, já que é necessário, mas também ao Mamom, o único que sempre surge para conversar.

wasil sacharuk

Quase luz no imenso vazio


Quase luz no imenso vazio

Na janela, ela aguarda eclipses
ouve passos de enfunados sapos
arrisca um assovio 
um chiste
uma palavra que traga nova estrela
na ponta do dedo em riste

Na janela, ela não desiste
o olhar desenha outros espaços
no concreto, nos rios
na paisagem triste
planta motes de incauta beleza
na longitude dos traços

na outrora janela de sorrisos largos
ela insiste em coroar um verso
(quase luz no imenso vazio)
arrisca passos úmidos no puído caderno
e encontra a rima perfeita em seu silêncio
lágrima que desperta a poesia na alma

o sal liquefeito de amálgama
dispensa o amparo do lenço
e se funde no insight eterno
sobre um tempo de estio
quando o sol foi reflexo
e a poesia o afago.

Rogério Germani & Sacharuk



para somente existir

para somente existir

sou necessariamente
tudo o que sou
do jeito que sou
ente genuíno
ato puro equivalente
ao que dizem divino

sob minha casca
tenho a razão suficiente
o fundamento do nada
o apriorístico universo
tal bloco de rascunho
sobre a mesa da possibilidade
de ser eu no mundo

sou na verdade
o poder vir a ser
não há outra causa
para somente existir

wasil sacharuk



magnetismo animal



magnetismo animal

ela oferta uma veia
quando a cobra imóvel olha
a língua torta serpenteia
enquanto seu cu chacoalha

wasil sacharuk



meus óculos precisam de lentes

meus óculos precisam de lentes

andei
e não cheguei
a lugar algum

tal o caetano
há tantos anos
perdi o lenço
os documentos
agora espero
que o tempo vente

metabolizo poesia
e decerto não poderia
fazer diferente
não me leves a mal
meus óculos de grau
precisam de lentes

estive em busca de mim
e no fim
estive ausente
andei de frente para trás
andei de trás para frente

acho que sei
como funciona
o processo da mente
que agrega valor
e arquiva seus bytes
em rabiscos de amor
num beat eloquente

andei e não cheguei
a lugar algum

na última vez que veio ao sul
meu saudoso amigo raul
baixou no meu terreiro
bebeu da minha marafa
e ainda roubou meu isqueiro

está circunscrito
na estrofe inicial
e nas subsequentes
melhor não ser aflito
achar tudo normal
e se dar por contente

wasil sacharuk



violetas viradas

violetas viradas

o quarto bagunçado
da porta entreaberta
e o trinco emperrado
da janela arrombada
as violetas viradas
clamavam cuidados

havia o corpo estirado
havia a cama desfeita
brinquedos espalhados
por todos os lados

sobre o tapete
manchado vermelho
no coração magoado
estilhaços do espelho

tampouco eu ligava
eu nada sentia
eu só revelava
a história que eu lia
numa fotografia

sacharuk

oráculo da dor



oráculo da dor

a primeira dor a gente sente
após a segunda ou terceira
é a dor que sente a gente

sacharuk

espilicute



espilicute

espilicute
das cores silvestres
e sabores sutis
a paixão repercute
se a razão arrefece
sob teus flertes
e teus toques gentis

wasil sacharuk



vladimir


vladimir

bailava detrás da janela
Vladimir calçava chinelas
um shortinho colado estranho
 parecia até bem contente
ainda que o humor escondesse
a brancura dos dentes

triunfou nos esportes
era amante das artes
um amor sobretudo ferino
amor entretanto contrário
amor ao poder solitário
de subjugar pela morte

wasil sacharuk

no jardim


no jardim

amo -te ao relento
logo ao sol tu convéns
jorrar cores em feixes
de calor alimento

wasil sacharuk



brasilidade

brasilidade

cidadania de merda
atrai as moscas da peste
influencers da internet
e uma praga de ismos
fascismo lulismo batismo
num carnaval de enganos
idiotas bozoloides e milicianos
entre lições da anita
que mostra que bom artista
sacode as bochechas do ânus

sacharuk

o duende

o duende

não deixa-te morrer
ao jugo do duende bostonaldo
garimpeiro da planície
rumpelstilsken do planalto
capitão da milicia
dos soldados dos abostados
dos crentes e das carniças
o chupacabras
da alma do gado

wasil sacharuk



de doer por teu amor

de doer por teu amor

lança-te a mim demônio
come tudo mastiga e engole
logo regurgita-me por intriga
não importa se não suportas
o fardo do amor
ainda me fazes a mais bonita
a mais maldita a mais mulher

amordaça-me malfeitor
sacia a fome que sinto de ti
vivo cansada de doer por teu amor

monstro cruel
a ti interessa 
castigar-me sem pressa
e tua cegueira te guia 
ao veneno do teu fel
se sou o teu fim

lança-te a mim demônio
o tanto que quiseres
o que for preciso
eu te aguento
estou preparada
estende em mim tua onda furiosa
de impiedoso inverno
congela-me o ar
vivo cansada de doer por teu amor

tuas garras meus pulsos
o prazer de sangrar
vivo cansada de doer por teu amor

wasil sacharuk

algumas coisas safadas

algumas coisas safadas

sussurro teu nome
desarrumo os cabelos
bebo beijos
e as roupas
já eram poucas
por mim são negadas

d'algumas coisas sagradas
jamais se esquece

vejo a ti tão assim
quando enfim
sinto fome
boca que come
dentes e língua
a dança alucinada

quero ser poeta
entre pernas abertas
sem pressa ou decoro
tal fera alimentada

algumas coisas safadas
eu nunca disse

vejo a ti tão assim
nos confins
dos desejos
entre meus dedos
sou teu homem
me digas que sim
e a mim
não recuses nada

as coxas afastadas
revelam os pelos
ocultam segredos
numa língua embriagada

algumas coisas pensadas
entre minhas tolices

vejo a ti tão assim
em suspiros aflitos
despida dos mitos
traduzida em mulher
meu poema te quer
crua e desvairada

deixo marcas espalhadas
pelas entradas
escorridas nos cantos
percorrendo os encantos
da poesia apaixonada

sacharuk

Rosa Elétrica - Algumas coisas safadas (Sacharuk-Moskito)


aprendiz de silêncios

aprendiz de silêncios

me deixa quedar
no abismo das ânsias
para entender o luar
as distâncias

me ensina as nuanças
do silêncio que fala
e que não sei escutar

mas que preciso
mesmo que não digas nada
que eu seja
aprendiz de silêncios

me deixa fluir
tal rio
na harmonia das calmas
em gotas serenas
uma a uma

me deixa ser rio
que te cerca
e tenta
a costear as vivências

dissolver coerências
molhar teus cabelos
que voam fáceis

me deixa na luz
da tua lua
tuas fases refletir
rio de ondas lilases

talvez em mim nades

me deixa fluir
tal rio
na harmonia das calmas
em gotas serenas
uma a uma

afaga as dores
acalma meus ventos
me ensina a ouvir
teus silêncios
teus silêncios
teus silêncios
um a um

sacharuk


não digas nada (negra)

não digas nada (negra)

preciso
mergulhar-te os confins
desse olhar diamante
estender uma ponte
unindo nossas pupilas,

não digas nada
negra

deixa-me querer
nada é impossível
as três da manhã
ainda despencam pétalas
das hastes

visito os ninhos
das garças estabanadas
pelas rotas abandonadas
pelos dias que passam
batendo as asas

preciso
tuas mãos frias
sobre minha fronte
ver tuas ancas
serpenteando dilemas
salvando meus sonhos

não digas nada
negra

agora sozinho
no escuro das estradas
pelas noites devastadas
os camaradas passam
e não dizem nada

preciso
tuas mãos frias
sobre minha fronte
e não digas nada
no meu último dia,
negra

e não digas nada

nada

wasil sacharuk






pelos mares sem astrolábio

pelos mares sem astrolábio

a morte beijou-lhe os lábios
✝️💀 🧟‍♀️tão docemente

o sangue verteu-lhe regato
🧟‍♂️🧟‍♀️🧟‍♂️ tão docemente

legião tomou-lhe o corpo
✝️💀✝️ tão docemente

sobranceiro findou o seu sopro
🧟‍♂️🧟‍♂️🧟‍♀️ tão docemente

foi tão docemente

o anjo o levou para o sábio
✝️💀✝️ tão docemente

o destino zombou tanto ingrato
🧟‍♂️🧟‍♂️🧟‍♂️🧟‍♂️ tão docemente

o eterno atracou ao seu porto
💀⚓ tão docemente

a morte o lançou ao espaço
💀✝️✝️⚓tão docemente

arrastaram as correntes
a vida desfeita num laço
tão docemente

pude ouvi-la partir
tão docemente

sacharuk


www.inspiraturas.org

o descrente

o descrente A razão, ainda que sobrepujada, é imbatível. A consciência, ainda que ultrajada, é inevitável. No confronto com a solidão um hom...