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versos doces amantes

versos doces amantes

mulher
percorre teus dias
pela encosta verde 
que bebe dos rios
o assovio da ventania
e o impulso bravo das águas
levarão tristezas sem trégua
a outros quintos sombrios

águas livres na queda
espocam gotas incertas
vertem lençóis pelas noites
livre poesia ao luar

logo vou te encontrar
e espero que cantes
versos doces amantes

quero andar contigo
recitar versos cegos
pelas rotas perdidas
tatuar tuas asas lindas
com ditos da filosofia

mulher
o sol sempre brilha
durante as madrugadas
e logo esquenta a areia
o tempo inverte as regras
marés arrebentam nas pedras
em ondas de livre poesia

que as portas estejam abertas
e as janelas floridas
o amor sempre dá vida
para as coisas cinzentas

logo vou te encontrar
e espero que cantes
versos doces amantes

quero andar contigo
recitar versos cegos
pelas rotas perdidas
tatuar tuas asas lindas
com ditos da filosofia

sacharuk







thanatos

thanatos

por ti abri uma porta
e somente isso importa
já que pedias passagem
desliguei os benditos botões
mandei o ar dos pulmões
soprarem tuas asas
 leveza para a viagem
rumo à nova morada

lancei-te à própria sorte
no lapso do último corte
soltei a tua ancoragem
e isso baixou a pressão
que forçava o teu coração
a bater sem palavras
sem ritmo e sem emoção
bater a troco de nada

dessa forma eu quis
aliviar ao teu sofrimento
e também ao meu
assim tu disseste amém
e logo eu disse adeus

sacharuk




da falsa comiseração

da falsa comiseração

uma vez por ano, os biscuits eram recolocados na estante e queriam parecer vivos. Tinham olhares de vidro apontados para o centro do estábulo de palitos de picolé colado sobre a colina de isopor. O cenário não emprestava sentido ao antinatural e descabido. Salvaguardados três reizinhos engraçados que carregavam presentes e calçavam chinelas azuis diante de uma vaca de gesso que olhava para o lado enquanto outra pastava fiapos de celofane verde. O bebê repousava petrificado sobre uns trapinhos velhos pronto a percorrer viagem de dois milênios pelas vielas escuras das almas penitentes.

sacharuk



a morte não é um clichê

A morte não é um clichê

Antes de mais nada, importa dizer que os familiares estavam inconsoláveis, de coração inundado de tanta tristeza. Alguns já estavam de olho na fortuna incalculável, afinal, as relações familiares são uma caixinha de surpresas. 

A capela onde ocorreu o velório estava literalmente tomada de amigos que distribuíram abraços calorosos aos entes queridos da falecida, provocando um ruído ensurdecedor.

Morreu de fato após um ataque fulminante que detonou o seu pobre coração. A morte é infalível e todos dizem que ela fez por merecer. Era pessoa de poucos amigos. Bem, para morrer basta estar vivo, já dizia o mestre. Agora jazia lá, com o olhar fixo no teto. 

Ela lança farpas para todos os lados, enquanto faz uma série de colocações infelizes com requintes de crueldade. Age sem pensar, a todo vapor. Gerar polêmica é sua especialidade, bate de frente com as pessoas, pois é uma fonte inesgotável de criar confusões e tecer duras críticas ao comportamento alheio. Contudo, na vida real, ela trabalha muito para suprir suas necessidades básicas e respirar aliviada.

Acumulou grande fortuna por meio da sua atuação impecável de importância vital, correndo por fora e tocando para frente seus projetos de avançada tecnologia. Seus negócios prosperaram do Oiapoque ao Chuí. Pelo trabalho incansável obteve estrondoso sucesso. Trilhando o caminho, se tornou uma líder carismática que sempre consegue indicar uma luz no fim do túnel. Todos agora lamentam pela carreira meteórica que a transformou numa vítima fatal do estresse cotidiano. Realmente, uma perda irreparável. Ela é um verdadeiro tesouro.

Mas, a pergunta que não quer calar é: por que é tão maledicente se, via de regra, tem todos os meios materiais para conquistar sua felicidade? O dinheiro pode preencher uma lacuna na sua existência. Apesar da conta bancária recheada, tem um coração frio que, a cada dia, sofre prejuízos incalculáveis. A vida pregou uma peça e lhe aplicou uma sonora vaia.

Mesmo estando todos visivelmente emocionados, intimamente sabem que a justiça tarda mas não falha. 

sacharuk

esfria o ímpeto

esfria o ímpeto

esfria o ímpeto
Madalena
pendura a ira
no cabide dos versos

escuta algum disco
ou vai fazer sexo
nutre as orquídeas
as gramíneas
e as verbenas

ainda que sejas maria
distinta madame
ou qualquer helena
derrama café no tapete
da tua falsa aristocracia

espera o dia
Madalena
que ninguém mais terá culpa
dos teus próprios problemas
a sina isentará tuas multas
e a vida valerá a pena

sacharuk


podelança

podelança

tudo posso
se puder
poder contigo

sacharuk

canibalesco

canibalesco

sacrificar meu escroto
decerto sequer eu tento
a lógica dos argumentos
me proíbe de ser egoísta

bendita fêmea seccionada
servida em parcas partes
a fome lírica sofista
instintivamente saciada

os loucos                 esses sim!
podem morder a própria carne

amor
precisas saber
salteado e de cor
loucura e amor
é uma coisa só

os loucos                 esses sim!
podem morder a própria carne

sacharuk

de doer por teu amor

de doer por teu amor

lança-te a mim
demônio
come tudo
mastiga e engole
logo regurgita-me 
por intriga

não importa
se não suportas
o fardo do amor
ainda me fazes
a mais bonita
a mais maldita
a mais mulher

amordaça-me
malfeitor
sacia a fome
que sinto de ti

vivo cansada
de doer por teu amor

monstro cruel
a ti interessa
castigar-me sem pressa
e tua cegueira
te guia ao veneno
do teu fel
se sou o teu fim

lança-te a mim
demônio
o tanto que quiseres
o que for preciso
eu te aguento
estou preparada

estende em mim
tua onda furiosa
de impiedoso inverno
congela-me o ar

vivo cansada
de doer por teu amor

tuas garras 
meus pulsos
o prazer de sangrar

vivo cansada
de doer por teu amor

sacharuk


Acróstico para ITATIRA

Acróstico para ITATIRA

Ita pedra de sorte e de vida
Tapuia nativa da cordilheira
A terra acarinha feridas
Traduz dores em delicadezas
Inspira a graça hospitaleira
Resplandesce nas luas cheias
Ao crepúsculo das suas belezas

sacharuk




sob a lanterna dos luminares

sob a lanterna dos luminares

aprende gafanhoto, observa aos poetas a declinar golpes de sensibilidade na completude do vazio

escuta versos repletos de silêncio e música das águas do rio

entende gafanhoto, é preciso domesticar a dor e transmutå-la no peso morto que despenca pela colina e esvanece na distância

e a poesia se funda no dom de ver através da neblina sob a lanterna dos luminares

sente teu corpo quando danças, em cascatas e desatinos

eis que no abismo das ânsias,
as tuas escolhas serão sempre caminho

sacharuk

animala

animala

no dia em que te conheci
pulaste como uma foca
desfilaste tal pata
trombaste que nem elefoa
tramaste feito aranha
correste feito pantera

no dia em que te comi
rebolaste tal cobra
miaste que nem uma gata
rugiste feito leoa
mordeste feito piranha
gozaste como uma égua

sacharuk


cunhã

cunhã

cunhã tez tatuada
verde vestido ao vento
pedala a bicicleta velha
sobre o fogo da terra

cunhã aos passos lentos
entrecruza as queimadas
voz que encanta toada
voz que embala lamentos

cunhã pé de serra
dança sina sertaneja
palha de coco cimento
sol carnaúba e estrada

cunhã alma rendada
a paciência dos tempos
forjada nas incertezas
resignação e espera

cunhã dos sacramentos
das marias abnegadas
que a vida não lhe cobre nada
além dos próprios tormentos

sacharuk


fêmea indelicada



fêmea indelicada

percorro-te seda
infiéis digitais
outra e outra vez

circunferencio-te
branca tez
fina areia

morna brisa 
sopra do mar reentrâncias
hoje sou lua cheia
bebo teus córregos
enrosco tuas tranças
penetro teus poros
clandestinos da pele

assalto teus potes
teus tesouros
 oferendas

sirvo meu néctar
aos contornos da língua
indelicada fêmea
faminta na senda

morna brisa 
sopra do mar reentrâncias
hoje sou rio acima
escrevo tuas rimas
descrevo tuas ânsias
agarro tuas crinas
e te boto no curso

sacharuk




não apresse o raio (pioggia gentile)

não apresse o raio

no inverno
tão pouco chovias
sobre as igrejas
           só gotas frias

nas arenas
ruínas
chuva fina
pioggia gentile
          só gotas frias

          só gotas frias
chuvas confetes
serpentinas
canivetes

non correre il raggio
pioggia gentile

non correre il raggio
pioggia gentile

que tua melodia
            seja livre

e nos dias
carentes
de poesia
viveste a ira
imponente dos raios

o céu
com poeira de estrelas
traçou outras linhas
horizontes do eu
pioggia gentile
chuva minha

que tua melodia
           seja livre

que tua melodia
           seja livre

sacharuk

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Rain Lights byKateey

música de Mell Shirley


flordolhar

flordolhar

ela tem no olhar
um querer sentinela
passagem de raios
nuanças complexas
percorre arquedutos
abre portas secretas
e floresce nas íris
lumes de primavera

incandescente visagem
cores furtivas diversas
raideluz em seu rabo
coriscado de estrelas
relâmpago relapso
risca corte sem métrica
tremeluzentes pálpebras
tal a chama das velas

sacharuk




não estou para falar de amor se ele ainda não dói, nem rói, nem pede flor. Não há flores na minha poesia, as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura. Meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro, o único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente, e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza, só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista meio insano, meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história. Todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas, nem gnomos e crenças, nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim, o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira.