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pela palavra

Pela Palavra 

É somente o uso da palavra que garante um pequeno grau de distinção entre as pessoas e os outros bichos. 

Quanto a mim, a timidez me confinou à eterna tentativa de domar meus instintos, enquanto Aristóteles assombrava com aquela ideia de animal político. E eu não encontrava tanta politicidade em minha animalidade.

Ainda questiono minha capacidade de integrar uma sociedade e constituir um Estado. É a palavra o único acesso que tenho ao mundo das pessoas... Por ela sou facilmente influenciado e posso tentar influenciar. É ela que me faz distinguir o meu bem do meu mal e disfarçar a imoralidade. Modelo o pensamento seguindo signos confusos que gritam no meu cérebro. Mas, o mais significativo, é que pela palavra invento alcunhas aos meus sentimentos e valores (quais?), e assim, faço uma bruta distinção entre as coisas e selo suas diferenças. Todos precisam de rótulos para ser animal político. 

Fico aqui, navegando no mesmo barco que Rousseau: não sei se preciso pensar para encontrar as palavras ou encontrar as palavras para pensar. Tudo no meu mundo é tão abstrato que só toma forma quando eu falo, quando escrevo... e se não falo ou escrevo, me escondo. 

Penso que toda essa complexidade se sintetiza num ser vivente, do tipo social, revestido da textura material das palavras e, invariavelmente, mal compreendido. Como escreveu Lispector: "Inútil querer me classificar... eu simplesmente escapulo... gênero não me pega mais..." 

Toda linguagem não dá conta dessa abstração. A brincadeira com os clichês me conduz ao entendimento dos rótulos. E na minha poesia, ingênua e simples, eu posso alcançar alguma catarse. E com ela ainda permito a expressão da animalidade. E nem gênero, espécie ou Aristóteles me pegam mais. 

sacharuk



brisa leve

brisa leve

janela aberta
ora sou vento e invado
corujo toco e acarinho
ela gosta

ora eu sorrio
ela delicada
sussurra coisas
ao pé do meu ouvido
de encantos
quentinhos

brisa leve
sopro de vida
faz cantar passarinho
essência adornada
sopra pétalas
pelo caminho
de chão colorido

ora sou rio
ela delicada
revolve as águas
inverte os sentidos
e eu canto
baixinho

brisa leve
sopro de vida
faz cantar passarinho
essência adornada
sopra pétalas
pelo caminho
de chão colorido

sacharuk



colírio

colirio

se desejas ver poesia
cata um pingo da próxima chuva
              numa garrafinha de vidro
deixa lá
      ‎luzindo tal vagalume
      ‎junto ao luar
  ‎
  ‎logo após
verte gotinhas faiscantes
      ‎na secura do teu olhar

sacharuk



usa os dentes


usa os dentes

usa os dentes
marca-me a carne
saliva e batom
meu prazer é teu dom

sê o cárcere
dos desejos urgentes
shakespeareana eloquente
a recitar-me com classe

perde o tom
provoca aflição
aniquila-me num passe
da tua magia impaciente

usa os dentes
que a pele esgace
dor arrepio frisson
língua garganta e mão

sê o ápice
de um gozo insurgente
apara delicadamente
ao explodir-te na face

sacharuk



cúmplice do teu alívio

cúmplice do teu alívio

por ti abri uma porta
e somente isso importa
já que pedias passagem
desliguei os benditos botões
mandei o ar dos pulmões
soprarem tuas asas
 leveza para a viagem
rumo à nova morada

lancei-te à própria sorte
no lapso do último corte
soltei a tua ancoragem
e isso baixou a pressão
que forçava o teu coração
a bater sem palavras
sem ritmo e sem emoção
bater a troco de nada

foi assim que tentei
aliviar ao teu sofrimento
e também ao meu
quando disseste amém
logo eu disse adeus

sacharuk




a fertilidade das ideias


a fertilidade das ideias

plantarei sementes 
em teu crânio
vingarão flores belas
visto que adubo já tem


sacharuk



escombros

escombros

o que restou
do nosso universo
não enche um verso
o que importa?

na velha casa
não há mais porta
só escombros e marcas
morreram os campos
e também nossas vacas

tudo o que vemos
distante uma milha
da janela vazia
é a árvore aflita
no alto da coxilha
reinando solita

nela amarrei a razão
para viver da lembrança
daquele bendito dia
que entre chuva e vento
nasceu a nova poesia

se há outra vida
do lado de dentro
eu não sei
e lamento
prefiro ficar aqui fora
no rincão que provei
teus lábios doces de amora

sacharuk





hipotenusa

hipotenusa

o traço da mi'a vida hipotenusa
nas rimas mal inclusas nos sonetos
que passa por quartetos dor difusa
na rota que recusa o ângulo reto

e no vértice aberto está intrusa
a escrita que desusa o obsoleto
quadrado dos catetos soma escusa
a linha que acusa o longe e o perto

nem sempre que aperto parafusa
sequer encontro musa nos tercetos
nem sempre que eu tento sou esperto

nos versos encobertos jaz confusa
a letra inconclusa pelos ventos
traduz seu comprimento em dialeto

sacharuk



meu intento

meu intento

não estou para falar de amor
se ele ainda não dói
nem rói
nem pede flor

não há flores na minha poesia
as arrancadas são mortas
são decoração de sepultura
meu poema é heresia

conheço esse tal de amor
não encontrei deus algum
e amor e deus
até podem ser compatíveis
mas não dependem um do outro
o único ponto em comum
eles não são invencíveis

não falarei de coisas
que desconheço
pois o meu apreço
é pelo amor que sinto
e não devo a uma criatura
que o senso comum insinua
e minha cabeça não atura

minha escrita é a riqueza
que colho do meu presente
mesmo que seja inventado
pois poeta mente
mas não se faz ausente
e eu não vivo de passado
nem me dedico à tristeza
só quando fico parado

grito contra o que abomino
e não suporto determinismo
minha ferramenta é o poema
e meu alvo é o sistema

sou tipo existencialista
meio insano
meio analista
falso moralista
talvez sartreano
tenho a marca da história
todo gaúcho é artista
e sou pampeano
com muita honra e glória

sou amigo da filosofia
e esta não é feita de fadas
nem gnomos e crenças
nem de almas penadas
ou universais desavenças

eu vim aqui escrever poesia
e isso para mim
não é só brincadeira
pois no fim
o que consome energia
é o abre e fecha
da porta da geladeira

sacharuk





princesa de areia

princesa de areia

ela era a princesa
do reino da freguesia
e seus dotes de musa
orgulhavam a realeza
que a mantinha reclusa

eu a observava de cima
sobre castelos de areia
 sempre lá estava ela
a mais linda donzela
de toda a aldeia

eu a olhava disperso
entre o dia e a ceia
ela lia meus versos
entre a ceia e o dia
trocávamos poesia

quisera jogasse tranças
tal a linda Rapunzel
eu teria mais esperança
de tirá-la dessa cadeia
da mente que devaneia
em mundos de papel

sempre a vejo
tal fosse uma Cinderela
talvez a princesa Bela
aguardando adormecida
que o amor do meu beijo
restitua sua vida

sacharuk





verde de limo



verde de limo

tenho sido titubeio
entre vontade e destino
não sou florbelo
também não sou feio
hades com flores no meio
ou apenas poeta menino

sou pedra verde de limo
inerte seguro no freio
desorientado
e com receio

tenho sido o vacilo
precipício e desatino
poeta preso no estilo
tal cavalo no arreio
hoje acabou o passeio
mas ainda sou peregrino

procuro o talento divino
acertar sempre em cheio
descomplicado
e sem rodeio

sacharuk



da falsa comiseração

da falsa comiseração

uma vez por ano, os biscuits eram recolocados na estante e queriam parecer vivos. Tinham olhares de vidro apontados para o centro do estábulo de palitos de picolé colado sobre a colina de isopor. O cenário não emprestava sentido ao antinatural e descabido. Salvaguardados três reizinhos engraçados que carregavam presentes e calçavam chinelas azuis diante de uma vaca de gesso que olhava para o lado enquanto outra pastava fiapos de celofane verde. O bebê repousava petrificado sobre uns trapinhos velhos prestes a percorrer rumo pelas vielas escuras das almas penitentes.

sacharuk



haicai#13

haicai#13

enquanto não colhes
a natureza te ama
e te deixa dormir

sacharuk



visionário


visionário

o instável momento precário
reluta mas pede a alforria
mas não passa de agrura
e prevalece a feroz criatura

para o ritual de todo o dia
colei uma foto no armário
ao lado do meu calendário
à esquerda dessa poesia

quero verdade mais pura
quero além da simples jura
quero uma doce rebeldia
quero toque mais refratário

nem sei se a mente depura
nem sei se tenho estrutura
nem sei se é outra mania
nem sei se me faço otário

aprendi a não ser solitário
e já sei consertar avaria
já sei cozinhar pra gastura
nem sei se a vida me atura

são as peças do meu relicário
instâncias de toda a ousadia
encantos de vã travessura
sem os toques da amargura

o que dizem que é utopia
fui buscar no meu dicionário
é um tipo de nó visionário
da mais perfeita alegria

sacharuk



poema do fogo

poema do fogo

hoje queimo a matéria no fogo
a matéria é o pão
é decerto as tiranias

disfarçadas democracias
o corpo enseja a competição
ei poeta, louco
qual seu lugar nesse jogo?

raiva, medo
uma mancha no pulmão
taquicardias, esquizofrenias
desveladas rebeldias
ataques no coração

caricatura das manias
das angústias, agonias
o poeta não é demagogo
e vai vomitar emoção
hoje o dia é da destruição

ei poeta, louco
hoje queimo a matéria no fogo!

sacharuk




menina dos olhos de deus

menina dos olhos de deus

a doce menina
dos olhos de deus
denotava pureza
aos auspícios da crença
sob as luzes do espírito
de fé e esperança
certo dia o demônio
das duas cabeças
trouxe a filosofia
cuspiu política
recitou poesia
logo beijou-lhe os mamilos
elogiou suas belezas
e ela esteve suspensa
gravitando de amor

sacharuk

painting art by Lilian Patrice




crendice



crendice

inútil manter
espelhos cobertos
se raios riscam poesia
no leito azul do céu
as luzes declinam versos

sacharuk



torrente

torrente

dos montes que te adornam
despenca vertente
         saliva súbita em caudal
          a inundar-te os córregos

preenche vales
  invade declives
       segue a linha curva
            ao contorno do leito

até inundar
a encantada caverna
encobrindo fluidos
e vapores quentes

sacharuk 





falo do mundo

falo do mundo

ignoro-te
catarse poética
pois o poema
quando arrebenta
irrompe epiléptico
canais entrecruzados
fumaça de orégano rosa
influência de boa prosa
e memórias da alucinação

sou vivente
de bom coração
mas não carrego
alma bucólica
provo da náusea
do cotidiano
com natural sofreguidão
risco versos cibernéticos
ensaio virtual estrambótico
de fundamento insano
e algum desfecho caótico

improviso o intento
de confessa manipulação
fantasia sofismo retórica
travestido de argumento
de umbigocêntrica sedução

meu poema tem rubrica
e não é isento
de posição

sacharuk



estrelas te vigiam abismadas


estrelas te vigiam abismadas

aceita-te assim
bicho selvagem
sem maldades
pouca bagagem
nenhum controle

aceita também
as tuas metades
o desgaste dos ossos
 teu ofício
os excessos os vícios
o tesão as vaidades

aceita o sacrifício
que demandam os ritos
e outras tolices
abraça as crendices
mesmo que nelas
não creias

aceita que estrelas
te vigiam abismadas
ora brilhantes
ora ofuscadas
elas te julgam
pela tua inocência

aceita a falsa ciência
dos que falam de amor
ocitocina adrenalina
borboleta e flor
que tanto dizem
sem nada explicar

aceita a falta de ar
os ditames da dor
a vida corroída
a comida estragada
as águas que sanam
transportam venenos

sacharuk

1-foto-articolo

menina frente ao espelho

menina frente ao espelho

tão doce menina
frente ao espelho
derrama cachoeira
despenca melenas
ensaia às dezenas
atrevimentos e beijos
tão logo carimba
os lábios vermelhos

exótica dança
descuido e trejeito
humor que balança
os maduros peitos

menina poesia
parece criança
não tem mais jeito
todos os dias
oferta as cortesias
para seu dia perfeito

sacharuk


luzes e sombras

luzes e sombras

esbelta é a particular
silhueta intermitente
que captura e apreende
projeções do teu olhar
dramas de carne e espírito
moldura de aço e de vidro
plano mágico que atrai
e logo te trai
teus reflexos sem avesso
jamais te confessam
quebra-os!

sacharuk



moldando a água


moldando a água

lavei tristezas
moldando a água
segurei suas belezas
para que não fugissem
pelos vãos

foram-se as mágoas
as incertezas
uma correnteza
fez com que sumissem
quando abri as mãos

na vida espalmada
fatalmente molhada
 dentro da pia
com água moldada
esculpi poesia

sacharuk



sopro minuano de vento

sopro minuano de vento

índia menina
na terra da dor e da rima
nativa de versos rasgados
a tristeza tu tens enlaçada
nos cabelos entrançados

vivo nos traços da lua 
por querer te saber
por tanto querer

a noite ecoa o teu canto
perdura dias inteiros
atravessa os janeiros
sonhos e desencantos
desenganos e devaneios

índia, todos os dias
risca no chão
um verso de poesia
no arroubo da perfeição
que de tão perfeito
provoque algum medo

deslizo meus dedos
entre teus cabelos
beijo as madeixas
espalhadas no peito
acarinho as queixas
afago as lembranças
liberto lamentos
desfaço tuas tranças
ao sopro minuano do vento

sacharuk

The Indian Woman by Manisha Raghav
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poema dos erros

poema dos erros meus dedos desenham letras do teu nome em poesia de amor minha língua prova o gosto da tua boca em poesia de amor portanto escrevi para ti o poema dos erros falei dos degredos do desvelo também sobre naufrágios no dia que leres ouvirás minha voz até posso te ver lendo os versos com meu sorriso favorito tão divertido teu rosto iluminado até posso te ouvir dizendo os versos num tom desconexo depois indagando o que resta a nós dois? tu podes saber eu posso sentir teu toque
linda ouço tua voz teu toque
linda ouço tua voz sacharuk



águas claras–acróstico

águas claras

Ah se a maré é da lua
Gelará coesa em cristais
Utópicas moléculas espúrias
Água suja em mananciais
Sequestrada na boca das ruas

Clara não é sempre a água
Lacrimal vertente de oceano
A água empurra as mágoas
Ribeirões estouram os canos
Assim somente deságua
Seus correntes instintos insanos

sacharuk



algoritmo


algoritmo

por detrás da minha face
ninguém sabe meus intentos
todas coisas que eu penso
todas coisas que eu sinto

não sabem dos artefatos
que jamais serão usados
minha prece ao oceano
em silêncio desvelado

e não podem ver as ruas
os saraus onde eu estive
meus versos aleatórios
pelo algoritmo d'alma

não vislumbram os vestígios
se rios quedam dos olhos
nem percebem o concreto
que comporta as vertentes

também não veem o sangue
que escorre das feridas
desconsideram os medos
cimentados nas paredes

e são cegos para as sombras
quando iludem a visão
misturadas às penumbras
traçam minha intuição

até tentam ver a lua
onde vive a solidão
meus versos aleatórios
pelo algoritmo d'alma

não vislumbram os vestígios
se rios quedam dos olhos
nem percebem o concreto
que comporta as vertentes

não entendem quando a dor
se esconde sob a pele
e não falam o dialeto
os subterfúgios da mente

jamais podem flagrar nuas
minhas musas eloquentes
e meus versos aleatórios
pelo algoritmo d'alma

sacharuk



vem mulher andar comigo

vem mulher andar comigo

vem mulher andar comigo
          pela costa da laguna
     onde o amor faz abrigo
e Netuno faz a Lua
brotar na sua cabeça

espia a tristeza na rua
e meu mergulho inusitado
lê meu poema encantado
 antes que me esqueças
            vê nas frestas da janela
            que essa noite espera
            que sejamos amantes

o caminho tão distante
        vou cego viajante
no traçado das quimeras
            provar a tua pele
na língua portuguesa

o demônio sobre a mesa
o messias sobre as águas
quando ainda me aguardas
na torre onde tu moras
onde sempre te acordas
ao sopro do meu fantasma

ele te devolve a vida
num feixe iluminado
o teu barco à deriva
tem a guia na vontade
do meu coração calado
              duro de pedra

o caminho tão distante
        vou cego viajante
no traçado das quimeras
            provar a tua pele
na língua portuguesa

vem mulher andar comigo
              pela costa do mar
imprimir nossas pegadas
   pelo curso das gaivotas
no próximo sol doce
eu só quero te abraçar

jardineiro das memórias
eu cato as flores mortas
que viveram tão valentes
são crianças inocentes
horizontes da história
reflexos da eternidade
nossas faces no espelho

o caminho tão distante
        vou cego viajante
no traçado das quimeras
            provar a tua pele
na língua portuguesa

sacharuk






O Último Charrua

O Último Charrua

No alto de uma coxilha
Viu-se um índio repontando horizonte
Um lobo sem sua matilha
O último cocar de sua brava gente

Filho de Tupan, esquecido pelo tempo
Preso a miséria da civilização escassa
O cusco ovelheiro, seu único alento
Índio cor de cobre, esteio de sua raça
Em uma bombacha e encarnado lenço
Pés descalços e pobre, domava que dava graça

Modesto Charrua, a coronilha da raça
Que sina a sua, a última alma que passa

Parecia com pingo sem tropilha
Viveu de saudade sem canga errante
Mas não se reculutou na pandilha
Viu o encanto nativo cada vez mais distante

O rebenque da sorte guasqueou o intento
Entendeu que na lida há o dia da caça
E cantou solito aporreando o relento
A milonga tristonha de esperança escassa
Se o desejo do homem é cambicho sedento
A bonança de um é do outro a ameaça

Modesto charrua, o fim é o livramento
Que sina a sua, espírito xucro do vento.

Decimar Biagini e Sacharuk




drops de sabedoria popular

quem empurra os outros
não chega na frente
já dizia uma véia sem dente


sacharuk



com quem andas aonde vais

com quem andas aonde vais

quero saber de ti 
o que cantas 
com quem andas 
aonde vais  

não choramingo meus ais 
sequer escrevo uma carta
sobre a saudade que mata
e o nó que não ata
nunca mais

deixo para trás
as ciências exatas
as premissas mais chatas
verdades universais

pretendo nada demais
apenas a medida certa
onde a cabeça não esquenta
além dos níveis normais

quero saber de ti
o que cantas
com quem andas
aonde vais

a apenas falar contigo
algumas palavras banais

sacharuk





fé de outro não me cheira

fé de outro não me cheira

sou vivente de pouca fé
mas não sou tapete
pra cristão bater pé
sei muito bem como é
melhor ir descrente pra frente
do que ir crente de ré

sacharuk




tristeza arraigada

tristeza arraigada

hoje sou homem apenas
simples tal a palavra
mas verdadeiro amigo
que te convida a voar
fazer da lua o abrigo
e travessuras no ar

sorver da noite 
a delicadeza
descansar na beleza
desatar nossos medos
e logo acordar mais cedo
com meia dúzia de rimas
contra a dor

nem tirano nem mestre
ou professor
(te despojo em minhas asas
como ao solo a flor)
apenas frágil humano

arrancarei do engano
essa estranha tristeza
vertente de águas
nem de amores ou mágoas
quero ser águia ou anjo
voaremos até quando
despencarem segredos

(quero ter pés descalços
e palavras desnudas)

vem, abre as asas
não deixa-as mudas
rasga no céu um caminho
voa sobre as casas
não me deixa sozinho
prometo que não te deixo 
olhar para baixo

acima das certezas
e também incertezas
tu me verás cabisbaixo
eu pedirei um sorriso
ou talvez outro abraço

tua face no meu ombro
teus enganos, fardos 
talvez se reduza o espaço
entre os escombros
dos mundos encantados

apenas repousas
e também me acolhes
me sinto confortável
no teu toque delicado

quero colher um lindo sorriso
entre as tuas preocupações
que nascerá clandestino
cheiro forte como bálsamo

e quando eu voltar
cantarei uma torta canção
no reverso da estrada
tentando esquecer os refrãos
dessa tristeza arraigada

sacharuk



o benquererte

o benquererte

o benquererte
testou a paciência
das tuas marés
desafiou liberdades
do grande oceano
mergulhou os pés
à margem dos enganos
e os rios provaram revés
engoliram a foz
estouraram os canos

sacharuk




não estou para falar de amor se ele ainda não dói, nem rói, nem pede flor. Não há flores na minha poesia, as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura. Meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro, o único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente, e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza, só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista meio insano, meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história. Todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas, nem gnomos e crenças, nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim, o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira.