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chuva no quintal

chuva no quintal

o entardecer esteve comigo
choramos cristais e neblina
já não haviam gnomos
somente uma fome de paz
rondando o gramado do quintal

quiçá não houvesse sentido
em descansar sobre o húmus
e querer entregar minha sina
a um tolo lamento cabal

me vi finalmente rendido
enquanto esperava o escuro
só queria fechar a retina
para não ver nunca mais
meu novo mundo abissal

sacharuk




trôpego

trôpego

verso errático trôpego
cego afônico e átono
dado a chiliques encefálicos
para morrer proparoxítono

de pontacabeça  fálico
revelou-se cálido e rústico
encamisado com plástico
logrou-se meio estapafúrdio

depois tombou epiléptico
parabólico e estrambótico
movimentou-se tanto elíptico
entre cambaleios drásticos

e desfaleceu lânguido
cabisbaixo e cáustico
para anoitecer esquálido
enternecido e estúpido

sacharuk



haicai#6

eu chovo tristezas
quedam as águas na terra
salgando o meu chão


sacharuk





haicai#8

engodo e magia
a cortina de fumaça
brumas de poesia

sacharuk



a lua e mais nada


a lua e mais nada

vejo novembro
sob foco de lua
íris de ouro e prata
e tom nostalgia
luz que ecoa
na noite calada
em mim só encontro a lua
e mais nada

vejo novembro
sob prisma de poesia
corpo coberto com véu
 seduz e insinua
toma brilho do sol
e oferece à rua
espelha a face de Apolo
em calor e ousadia

vejo novembro
sob facho na estrada
 eloquência das marés
verves alteradas
nas danças insanas
nos saraus da geologia
morre distante dos olhos
quando a noite recua

vejo novembro dormir
quando dorme a lua

sacharuk



mana

mana

mana, algo tão diferente
saiu de dentro de mim
pela noite silente
tocaia da lua minguante
um fiat lux no meu abrigo

creias no que te digo
hoje todos viram luzes
por detrás das cruzes
iluminando as pedras
e criaturas estranhas
vindas de outras eras

mana, minhas ideias
são meras quimeras
ou tolices tamanhas
que apenas em outras esferas
poderiam ser entendidas

em nossas distintas vidas
cruzamos as mesmas estradas
paramos nas mesmas paradas
trilhando o curso dos amantes
tão livres
tão claros
e distantes

hoje vi os caminhantes
andando depressa
carregando pastas negras
e via de regra
vi os meninos da vila
que fica aqui ao lado
queimando uma vela
dançando sem camisa
no estacionamento 
do supermercado

mana, um dia ensolarado
estará chamando por nós
com seus raios energizados
quentinhos de felicidade
a secar as poças nas ruas

mas se chegar nova lua
nesse canto da cidade
por onde eu ando sozinho
te direi da necessidade
de contar com teu carinho

sacharuk




escreve Literatura

Escreve literatura

Expressa-te. Que digas, não importa o quê… Escreve, e não importa como, no entanto, expressa-te.

Escolhe as melhores palavras. Aquelas que dizem. As que te significam. As que revelam teus símbolos, escondem teus enigmas e tatuam teus emblemas. Prefere as  coloridas, saborosas, cheirosas… que cada qual traga plasmado teu universo interior.

Dispensa a línguagem geral, usa o teu dialeto, aquele que falas no teu mundo imaginário. Garanta-lhe a fineza artística da sutileza e da perspicácia para que seja agradável e que não perca o contato com o real.

Ama o dicionário e adora a gramática, mas não te entrega a eles! As letras são livres durante o sonho, logo, permite que algo primordial aconteça.

E, se quiseres que leiam, enfeita! Sejas artesão das belezas e  significados.

Deixa que teu fluxo desate na continuidade de um fio, cuja beleza em prosa habite nos meandros do desenredo ou, então, que imprima sua síntese em versos de poesia, tal pequenas pinceladas imbuídas de emoção e subjetividade. Mas, importa elaborar o percurso e fazer cadente e musical, tal as águas que quedam das pedras.

Veste-te das tuas figuras, das tuas pessoas, incertezas e anseios. Pontua para respirar entre cada emoção e mantém o ritmo. Quebra-o, quando preciso. A estética no palco da beleza é livre para cantar e dançar. É onde a liberdade da criação encontra a identificação com aquele que lê.

Sensibiliza-te para que saibas sensibilizar.


o sentido da poesia

o que há de belo na poesia?
poucos entendem a sua beleza
ela não segue a um padrão
sequer se conforma à razão

seja clichê de céu turquesa
ou estrelado de idiossincrasia
recorte instantâneo do dia
com alguma ou nenhuma certeza

poesia respira e inspira emoção
trajada na lógica ou na abstração
na sua forma revela a fineza
e até mesmo se acalma na rebeldia

poesia que brilha na ousadia
e nos encantos da delicadeza
no colo sagrado da construção
onde a beleza apreende a lição

mas ser poeta não põe mesa
então, qual o sentido da poesia?
É ser surpreendido algum dia
surpreso com a própria surpresa!

sacharuk



as horas e as águas

as horas e as águas

quedam-se águas de tristeza
destemperanças derramadas
perdem-se gotas de beleza
amolecidas
e consternadas

as horas insistem paradas
descaso que abraça o instante
leito infinito
no rumo do nada
desoriente ao navegante

os cristais não mostram futuro
apenas rochas indiferentes
as gemas opacas no escuro
jamais terão outro presente

as horas destilam cadentes
ponteando um tempo tardio
a dor que brotou na nascente
não vai cessar
o curso do rio

sacharuk




haicai#1

haicai#1

Plata dos amantes
de Argentina milonga
e tango em Corrientes

sacharuk





fragmentos de um sistema qualquer

dia desses vi um filósofo 
chorando lágrimas de inexatidão 
sentado na pedra encravada 
solitária no meio do lago
pensava perdido no nada
mas o nada não era vago

cismava fagulhas lastimosas 
do desencanto com a razão
 viveu uma paixão viciosa
com a incerteza dos fatos

eis que o hiato 
entre o filósofo e o poeta 
é o reduto encantado
onde o fogo insano se aquieta
numa rima pobre.

poema mecanicista

ah! Sim, eu penso por mim
por mim que portanto penso
não lavo de choro meu lenço
tampouco acredito num fim

repenso em como pensar
para aprender com os erros
os cheiros ruins dos desterros
e os barcos que vi naufragar

logo cogito ergo sum
reviro a fração de um poema
sei fragmentar um sistema
transmuto o um em nenhum

aprendi a pensar a emoção
e chorar lágrimas de poesia
mas me perco da estrela guia
se sonego o valor da razão

sacharuk




nuvem sobre a mata


nuvem sobre a mata

a sombra de nuvem
um velho diabo
tatuou  em tua coxa
bem próxima ao vale
de pequenas árvores
de finos caules
onde estendem- se as faces
 charme e rusticidade
de tão bela botânica
onde o sol esgueira nuanças
e adorna-te as curvas

sacharuk

painting by Lilian Patrice 

o sol pela janela ☀️

o sol pela janela ☀️

viola as mucamas 
       que te servem
também aos teus deuses 
                             e diabos
lambe-os ao fio bruto 
               das mentiras
no leito ejaculado 
     das coisas ditas
estende o lençol de cetim
e esconde sentenças malditas
separa noites 
           desprovidas de razão
dos dias famintos de coração
para que jamais se encontrem
derruba a parede 
        do imponente castelo
que o conto de fadas acabou
melhor não contar outro
pois o sol continua o passeio
no rumo de escorpião
não mora em ti ano inteiro

sacharuk



das alturas


das alturas

enfrento as forças que ameaçam
desvio de ondas que não banham
das razões
a que eu desconheço
morro nas tramas que me apanham

são tantos ares
eu nem respiro
em tantos lares
eu já não entro
invado espaços que nem habito
moro em zonas que não frequento

viajo alturas que não alcanço
trago loucura para o remanso
sou prisioneiro da liberdade

de asas seguras
eu não canso
a vida é dura
eis o encanto
não é utopia a felicidade

sacharuk





hoje quero ser fada

hoje quero ser fada

tenho na paleta
as cores mais vivas
para pintar o escudo
que protege teu mundo
das aventuras

vim te buscar
perambular pela rua
pintar sete no ar
rabiscos no céu

seremos princesas
provaremos vestidos
os que são proibidos
aos olhos da realeza

se puderes sorrir
dará tudo certo
abraçadas uma a outra
não haverá nada
que perturbe a gente

hoje quero ser fada
e te dar um presente

sacharuk



poesia não vale a pena

poesia não vale a pena

para quê presta poesia?
tenta comer um poema
decerto terás azia
caganeira e outros problemas
insônia e talvez anemia
poesia não vale a pena

ninguém compra poesia
vá procurar outro tema
dinheiro fofoca putaria
logo tu entras no esquema

vira-te contra a poesia
deixa de contar fonemas
sai dessa vida vadia
ocupa-te de coisas plenas
livra-te dessa porcaria
porque vai dia e vem dia
e a poesia não vale a pena

sacharuk




poema de água de rio

poema de água de rio

poema de água de rio
estrofes de mágoa e de frio
versos secos ao vento
salpicados de areia

poesia lírica sereia
canto onírico e lamento
melódico fio que cai lento
rimas que cursam as veias

poema maré lua cheia
ritmo gelado sombrio
num tom engasgado e senil
sem significado ou intento

poesia sem nó argumento
enlace de versos vazios
dor que corrente entremeia
as palavras mais feias

sacharuk




naked art


naked art

desnutri os meus tolos preceitos
diluí a razão das temáticas
foste tu recoberta de tintas
ao torpor das friezas realistas

encobri manchas fálicas
com cores primárias do peito
capturas de formas e gestos
linguagem nua sem retórica

desprezei paisagens cinzentas
de mortes brancas e pretas
desenhei uma fala drástica
nos teus lábios vermelhos sedentos

misturei nas cores meus restos
derramei as vontades pictóricas
fiz suave o atrito das cerdas
a lamber tuas entranhas malditas

e te fiz assim tão explícita
na orgia do meu manifesto
do teu ventre aberto inconfesso
donde surges  mulher magnífica

sacharuk



cada crença corresponde com cada cadáver

cada crença corresponde com cada cadáver

corriqueiramente
coveiro chega capela
cemtraliza cruz 
com cabeceira caixão
coloca castiçais com chamas
 convenientemente cintilantes
conquanto consome
 caneca com café
conforme chamusca cigarro

cabe coveiro corresponder cada corpo caído
com caixão contratado

convém colocar cravos
condecorando casaco

como colaborador com cemitério
conforme chega
coloca chapéu 
critério contra claridade
começa cavar chão... 
cava...cava...
cem centímetros
construindo cova
compatível com 
cumprimento caixão

conforme correm cerimônias
conduz criaturas chorosas
consanguíneas com cadáver
conduzirem cerimônia
carregando caixão
coberto com camiseta
correspondente com clube
cujo cadáver contribuía

criaturas cantam canções comovidas
como cadáver costumava cantar
contudo, choram copiosamente
conquanto cuidadoso coveiro
coloca cobertura 
cerrando caixão
centralizando com cova cavada 

como costume
caem crisântemos
como chuva colorida
celebrando cadáver

contudo
cadáver continua calado
completamente chateado
com culto cretino

sacharuk


colher de pau



colher de pau

bati ovos
até nevar
ela sentiu a aeração
daquela textura
conferiu a consistência
lambeu a doçura

caiu de beiços
na pontinha açucarada
na sequência
eu espargi leite fresco
na sua tigelinha melada

sacharuk



apocalipse aos ninguéns 🐂

apocalipse aos ninguéns

no derradeiro minuto
do dia último
ouviu- se o apito
o diabo vestiu candura
a cansada sofia
caiu no conto do sofista
sobre a ressurreição do mito
a moral abraçou a falcatrua
a graça esqueceu a poesia
a sorte desprezou a fortuna
a lua perdeu-se na rua

mas nenhum dos ninguéns
na face da terra
acometeu-se do ímpeto
sequer tomou susto
pois o genuíno ninguém
mantém-se um estúpido

sacharuk



poesia primeira

poesia primeira

poesia primeira
parafraseia pássaros
produz palavras pueris
por profissão

prodigioso poeta
pálpebras pesadas
pretas pintadas
piscam por pão
pedacinhos pontuais

poesia primeira
pode pairar prosaica
percorrer parágrafos
paradoxais

poisa plena
pura perplexidade
provê paixão por propósito
plenitude por pertencer

sacharuk

Painting by Ericamaxine Price

a máquina de fazer chuva

a máquina de fazer chuva

ela é operadora
da máquina de fazer chuva
pinga respinga
repica espirra replica
as águas varrem
martelam a terra
esculpem as pedras
e murmuram marés
cinzentas de ocasos

a máquina pode
acionar as torrentes
derramá-las dos vasos
expulsá-las dos canos
entorná-las dos cântaros
para inflar oceanos
e encher a concha
das mãos

sacharuk





Era maio, talvez setembro..

Era maio, talvez setembro..

Daquilo tudo o que eu era restaram somente palavras. Logo, não mais do que palavras é o que agora sou.  Alimento-me de sonoros substantivos. 

Fiz brotar húmus de flor para voltar ao princípio. Danço sapateando com o verbo.

Risquei um tempo insano sob o prisma de qualquer existência. Era tarde, quase noite, quando tremenda chuva de versos, diluídos ao whisky, derramou-se e, despudoradamente, fui banhado. Parti ao encontro da palavra pelado das roupas, das crenças e das ciências.

Desde então, fez-se outro o meu intento. 

Era maio, talvez setembro. Não sei ao certo... lembro apenas de ter visto um poeta pedalando uma bicicleta velha.

Dia desses tornei a vê-lo, sentado na asa de um avião.

sacharuk 




androfagia de amor

androfagia de amor

isento do egoísmo
morder-se-ia o louco
no antebraço das impossibilidades
o rasgo sangrento
naco de carne
doce exorcismo
de amor violento

sacharuk



feridas

feridas

não vertas
o azeite fervente
sobre tuas feridas

elas se curam sozinhas
num afago consciente
depuradas com carinho

sacharuk



fada borboleta

fada borboleta

ela queria somente
ser fada de asas abertas
e nos tempos quentes
voar tal borboleta
quando o dia arrebenta

decerto que pousaria
no dorso da minha mão
para sonhar poesia
uma bela adormecida
tanto mais atrevida

e assim eu me renderia
ao poder da sua mente
ao jugo da sua guarida
às emanações coloridas
das asas resplandescentes

sacharuk



palavra da morte e da vida


palavra da morte e da vida

busca a palavra que designa
quando morre toda a vida
quando seca a ferida

busca a palavra que é digna
quando a morte ressuscita
quando a primeira vez se grita

busca a palavra que resigna
quando a morte ou a vida
é tão contingente e iludida

busca a palavra - o signo
que representa a morte
que representa a vida
que sentencia a sorte
se vitoriosa ou perdida
que ruma a um novo norte
nova missão cumprida

busca a palavra da morte
busca a palavra da vida

sacharuk




fruto podre

Fruto podre

Oh, patife mordaz de olhos bovinos!
Não tens em teus secretos mensageiros
Da discórdia, alguns biltres assassinos
Que queiram lutar co’os de pés ligeiros?

Velho, filho do mal, Fruto estragado
Duma árvore maldita, tu também
Serás severamente torturado
Pelos demônios ríspidos do além.

Sentirás que num golpe do destino
Comichar a bicheira no intestino
A comer o teu bucho esfarrapado

Saberás que na volta dos ponteiros
o teu couro, tua honra e teu dinheiro
Servirão p'ra cobrir os teus cagados.

David Moura & Sacharuk



holofote

Holofote

Desenho poesia em teu corpo nu
Tuas curvas curvam meus versos
Mais-que-perfeito é teu olhar
Sem pena do mundo peço
Faça-me feliz
Vira minha mente pelo avesso
Seja o lirismo dos meus dias frios
A festa de um solitário escritor
Faça o amor
Seja atriz
A protagonista em cada linha
Numa vida que não se alinha
Mas se alinhavava ao meio-dia
Arranca-me a teia torpe da nostalgia!

Dança para mim ao som do blue
Mostra teus gestos convexos
O holofote da noite é o luar
Sou cativo dos seus excessos
Faça-me feliz
Desata-me o nó dos reversos
Esqueça os abismos sombrios
E faremos um arco de cor
Serei ator
Seja atriz
A personagem da minha sina
E sem querer me ensina
Beber do teu corpo a poesia
Que me liberta dessa agonia.

Ateu Poeta e Sacharuk



sei não

Sei não

Que sei eu da vida,
se a consciência revida
o que aqui se revela?
Dizem tanto que ela é bela
mas se há fome e morte
será que viver é sorte??

Sei não...

Há de se ir na contramão
andar capenga e a trote
fazer bolha e ferida
voltar de volta para a ida
fechar buracos do corte
antes que a vida esgote

Marisa Schmidt & Sacharuk



persistência

Persistência

O mundo percorre as distâncias
e o tempo marca o resto(de vida)
Segue o homem as circunstâncias
sem saber que a sina está decidida

Segue os caminhos das lembranças
de preto no branco quiçá coloridas
avanços agudos e das reentrâncias
de memórias vivas e das esquecidas

Na soma das probabilidades
numa conta que nunca dá certo
é difícil equacionar a felicidade
se o amor quase nunca está perto

E se vive a juntar os pedaços
reerguer o próprio amor das ruínas
a tentar preencher os espaços
dos incidentes na rota da sina.

Marisa Schmidt & sacharuk



o velho boga acentuado

o velho boga acentuado

meteu com tudo
um acento agudo
no u do seu boga
o oxítono dolorido
ortograficamente ferido
consultou o gramático sisudo
falou que no cu não se bota acento
a menos que o cú referido
seja por força de xingamento

sacharuk



sakura

sakura

quebradiço é o galho
que suspende a existência
eis que o tempo
envolve a efêmera flor
em transitória delicadeza

ouve o destino que clama
a perecer em tuas pétalas
ao chão do bosque copado
derrama nas dores humanas
teu aroma perfumado

floresço a ti com ardor
sakura amada
a esperança confiou-me o nome
e o empenho das madrugadas

assim um só nós seremos
no parque das cerejeiras
eis que o tempo
envolve a efêmera flor
recria o espaço das certezas

sacharuk

painting by Lilian Patrice


para te versos

para te versos

a noite é companhia
portanto não ando sol
tenho o corpo nuvens
e minha alma lua
a transmutar poesia

sacharuk




sufoco do tempo


sufoco do tempo

o tempo
anda perdido do tempo
sufoca nas ruas silentes
sucumbe ao boicote do vento
satura quarenta porcento
precisa ser intubado
repassa cenas do passado
escuta vozes distantes
percorre a esteira claudicante
vai dormir tão cansado
quase morto ao relento

sacharuk



das contradições

das contradições

a religião
morde teus pés
bocarra faminta
igual jacaré
parece absurdo
decerto não é
o humano animal
no templo de cristal
com cruel pretensão
ostentar compaixão
mas tratar desigual
em nome da fé

sacharuk



pandorga

pandorga

menina tu sabes
o que é uma pandorga?

é uma singela armação
em formato de losango
cuja base é uma cruz
de duas varetas
de taquara ressecada
recobertas por fina folha
de papel encerado
docemente planificada
em vivas cores
completada por inquieta rabiola
em tiras de trapos velhos
emendados uma à outra
feito amor divertido

do centro da engenhoca
a linha de barbante fino
e estende por metros
e segura na mão de um mago
voa tal ave colorida
abrindo portas no céu

e tu menina dirias
que quando pandorga voa
é exótico passarinho
com asas de poesia

sacharuk








voltarei na primavera

voltarei na primavera

tu nada disseste
sequer uma torta palavra
apenas seguiste
minha estranheza engraçada
quando nossas largas passadas
pisaram fofas

nossos corpos inclinados
desprovidos de roupas
projetados à frente
cruzaram a rua dos tempos
sobre os tetos das casas
sobre pessoas e plátanos
carrossel de hologramas
luzes furtadas das coisas
daquele lugar

para o próximo encontro
deixo flores perfumadas
no parapeito da tua janela
entremeadas pela trepadeira
logo te chamo num sonho
com cores de primavera

sacharuk



antiquário

antiquário

                  deliciosa
é a ridícula sensação
     de viver apaixonado
não foi melhor explicado
              o poder da mente
tatear um corpo distante

                            e o tesão
desvenda percursos insólitos
disfarçado em roupas esquisitas
       fetiches estrambóticos
  sussurra línguas mortas
                       bebe saliva

                         e o amor
  é o velho transviado
fumando canabis sativa
        colecionador de selos
desmanchado em develos
enquanto estende a cama
                   para te esperar

sacharuk

painting Lilian Patrice


macambúzio


macambúzio    

um olho mareia
    a garganta entala
     mar revolto embala
              os grãos de areia
        letras gotejam palavras
palavras rebrotam mancheias
            o livro da vida se cala
a música engasga colcheias
   o sonho morre de fadiga
e o tempo tem falta de ar
 o vento assovia cantiga
  para a tristeza chorar

                   sacharuk

The old guitarrist - Pablo Picasso




o descrente

o descrente

A razão, ainda que sobrepujada, é imbatível. A consciência, ainda que ultrajada, é inevitável. No confronto com a solidão um homem achou a inexistência divina, quando nenhuma criatura se apresentou para ocupar a vacância dos espaços e amainar as dores inexplicáveis. Finalmente entendeu que a crença é o indeclinável compromisso de enfiar um deus em todas as coisas. Subterfúgio humano institucionalizado. Sobrava ao referido deus a crença que faltava aos filhos, que faltava à árvore antiga, ao sorriso desdentado do seu avô. Era desperdício de foco. A crença passava dia todo sentada num trono comandando facções criminosas sob a adoração dos seus escravos. Morava nos parágrafos das deontologias que entoavam discursos medievais ao domínio das massas. Tanta súplica pela salvação dirigida a um deus surdo. Tal homem, agora, apenas admira aqueles vitrais cortados por feixes de luz e a persistência daquela poeira oculta nas sombras dos templos. Sabe ele que os artistas são deuses extraordinários, artífices das coisas belas, da música, da poesia, da pintura, da escultura. Nos signos da criação se guarda o verdadeiro embrião de divindade. Entendeu que o amor não é monopólio das crenças e é a chave que abre todas as portas. Agora ele é realmente feliz, sem nada pedir, sem nada dever.

sacharuk



das semelhanças

das semelhanças

cruza olhares
com espíritos da floresta
fala com pedras
ama saber- se ouvida
seus pedidos atendidos
suas ideias compreendidas

o campo é aconchego
assoalho dos seus passos
bailarina no espaço
refugiada na nudez
é repleta de poesia
minguada de sensatez

sacharuk



clichê de outono

clichê de outono

eles passam sequer reparam
a folha seca flanando suave
quando despenca da árvore

maldizem a noite de frio
os pingos gelados da chuva
praguejam ao contratempo
das mudanças de temperatura

não veem que o outono é feito
com nuanças de poesia
e tons sépia de cura
que o silêncio da melancolia
convida a dançar na rua

sacharuk



vórtice ascendente

 vórtice ascendente

tremia corpo inteiro e assaltavam os poros toda vez que espocava faísca no cérebro. espiralada no ventre, a serpente maior que jibóia, menor que sucuri, verde, tal as algas. náusea não cabia, apenas a necessidade de chorar sem emoção, falar sem razão. mudava de pele a feiosa. naquela hora, a gosma viscosa desprendia da nojenta e ela, silenciosa, não se movia. despertar era o que queria. cada vez que a eletricidade percorria a espinha, impulsionada por forte assopro, a carne revirava ao avesso. quando acordou, nada de sobrenatural aconteceu, nada de dor, nada de medo. ocorreu que aquilo o que já se sabia passou a morrer. sem apegos e sem assombro.  apenas certezas transmutadas em escombros.

sacharuk






ceifa

ceifa

forte presença se manifesta
da ancestralidade eterna
ao coração da floresta
o ecossistema agrega
emanações de memórias
brotadas da terra

a vida seca é madeira
da lavra da motosserra
que ceifa a alma da mata
e a morte abre clareiras
para passar a boiada

sacharuk



o alienígena

 o alienígena

Todas as manhãs o alienígena acorda e toca o próprio corpo para sentir que existe de fato. No quarto, o espelho embaçado pelo seu assopro é a certeza da sua interferência nas coisas do mundo. Roda e roda pelo submundo. Também visita lugares seletos, mas só ouve murmúrios incompreensíveis das pessoas que conversam em seus próprios dialetos. Alheio a tudo, suas ideias também não são acessíveis aos mundanos de qualquer lugar. Assovia uma melodia singular. Todavia, o alienígena voa, quando poderia simplesmente andar, mas prefere se locomover logo acima das cabeças dessa gente esquisita. Vez por outra, ouve vozes distantes e sons dissonantes e isso tudo o irrita. Também vivencia eventos antecipados nos sonhos premonitórios. Tudo ocorre da forma como sonhou. Seu olhar é um observatório, por isso vê as pessoas por dentro. Não tudo, mas os traços das personalidades e um tanto de seus pensamentos. Ele simplesmente sabe quando alguém é do bem. Além disso, lê os mais finos gestos de mãos, as falas mais rebuscadas, os sorrisos... Assim ele conhece vários níveis de qualquer pessoa e suas conclusões são infalíveis. Alguns o assustam, outros provocam tristeza, poucos o fazem sorrir timidamente. Ninguém o faz sentir-se contente, leve e cheio de asas resplandecentes.

sacharuk



Flora parida sob o jambeiro

Flora parida sob o jambeiro

fofo chão 
de pétalas rosadas
a natureza ofertou o leito
ondas de afeto para a chegada
toques de amor e acolhimento

do útero materno rumo estreito
a menina viu um raio de sol 
entre os galhos do jambeiro
aqueceu o evento sensorial

mulheres provaram 
o empoderamento
bem nascido do parto natural
Flora provou 
um novo sentimento
ao romper o seu laço umbilical
logo a menina buscou o peito
doula parteira 
e mãe encantadas
renderam à vida todo o respeito
quando a violência foi rejeitada

sacharuk



caboca

caboca

caboca sabe que o mar
apaga o fogo da terra
que a lua que brilha na serra
também movimenta maré

caboca tem pé jenipapo
e tem outro pé canindé
carnaúba cerrado banana
tem coco tem sede tem fé

caboca tem nome de ana
alice francisca maria 
tem maracatu tem poesia
na festa de são josé

sacharuk

Paróquia Menino Deus - Itatira CE


haicai #5🚫

haicai #5🚫

presente oculto
de energia a vibrar
futuro irreal

sacharuk



🔪💀o feminicídio da cunhã poranga

🔪💀o feminicídio da cunhã poranga

ela bailarinava
tal dama do xadrez
percorria os lados
ocupava os espaços
saltava tantos
de uma só vez

seminua perambulava
descaminhos da noite
ao covil desses homens💀
de brios rachados
e do toque gelado
vergão de açoite

ela dançava
tão linda quanto louca💃
movia a boca
para imitar a toada🎶

era só ela e mais nada
a mais linda da tribo
e não havia sentido
morrer de morte matada

sacharuk

grafite Seth



não estou para falar de amor se ele ainda não dói, nem rói, nem pede flor. Não há flores na minha poesia, as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura. Meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro, o único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente, e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza, só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista meio insano, meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história. Todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas, nem gnomos e crenças, nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim, o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira.