podcast

chuva no quintal

chuva no quintal

o entardecer esteve comigo
choramos cristais e neblina
já não haviam gnomos
somente uma fome de paz
rondando o gramado do quintal

quiçá não houvesse sentido
em descansar sobre o húmus
e querer entregar minha sina
a um tolo lamento cabal

me vi finalmente rendido
enquanto esperava o escuro
só queria fechar a retina
para não ver nunca mais
meu novo mundo abissal

sacharuk




trôpego

trôpego

verso errático trôpego
cego afônico e átono
dado a chiliques encefálicos
para morrer proparoxítono

de pontacabeça  fálico
revelou-se cálido e rústico
encamisado com plástico
logrou-se meio estapafúrdio

depois tombou epiléptico
parabólico e estrambótico
movimentou-se tanto elíptico
entre cambaleios drásticos

e desfaleceu lânguido
cabisbaixo e cáustico
para anoitecer esquálido
enternecido e estúpido

sacharuk



a lua e mais nada


a lua e mais nada

vejo novembro
sob foco de lua
íris de ouro e prata
e tom nostalgia
luz que ecoa
na noite calada
em mim só encontro a lua
e mais nada

vejo novembro
sob prisma de poesia
corpo coberto com véu
 seduz e insinua
toma brilho do sol
e oferece à rua
espelha a face de Apolo
em calor e ousadia

vejo novembro
sob facho na estrada
 eloquência das marés
verves alteradas
nas danças insanas
nos saraus da geologia
morre distante dos olhos
quando a noite recua

vejo novembro dormir
quando dorme a lua

sacharuk



escreve Literatura

Escreve literatura

Expressa-te. Que digas, não importa o quê… Escreve, e não importa como, no entanto, expressa-te.

Escolhe as melhores palavras. Aquelas que dizem. As que te significam. As que revelam teus símbolos, escondem teus enigmas e tatuam teus emblemas. Prefere as  coloridas, saborosas, cheirosas… que cada qual traga plasmado teu universo interior.

Dispensa a línguagem geral, usa o teu dialeto, aquele que falas no teu mundo imaginário. Garanta-lhe a fineza artística da sutileza e da perspicácia para que seja agradável e que não perca o contato com o real.

Ama o dicionário e adora a gramática, mas não te entrega a eles! As letras são livres durante o sonho, logo, permite que algo primordial aconteça.

E, se quiseres que leiam, enfeita! Sejas artesão das belezas e  significados.

Deixa que teu fluxo desate na continuidade de um fio, cuja beleza em prosa habite nos meandros do desenredo ou, então, que imprima sua síntese em versos de poesia, tal pequenas pinceladas imbuídas de emoção e subjetividade. Mas, importa elaborar o percurso e fazer cadente e musical, tal as águas que quedam das pedras.

Veste-te das tuas figuras, das tuas pessoas, incertezas e anseios. Pontua para respirar entre cada emoção e mantém o ritmo. Quebra-o, quando preciso. A estética no palco da beleza é livre para cantar e dançar. É onde a liberdade da criação encontra a identificação com aquele que lê.

Sensibiliza-te para que saibas sensibilizar.


o sentido da poesia

o que há de belo na poesia?
poucos entendem a sua beleza
ela não segue a um padrão
sequer se conforma à razão

seja clichê de céu turquesa
ou estrelado de idiossincrasia
recorte instantâneo do dia
com alguma ou nenhuma certeza

poesia respira e inspira emoção
trajada na lógica ou na abstração
na sua forma revela a fineza
e até mesmo se acalma na rebeldia

poesia que brilha na ousadia
e nos encantos da delicadeza
no colo sagrado da construção
onde a beleza apreende a lição

mas ser poeta não põe mesa
então, qual o sentido da poesia?
É ser surpreendido algum dia
surpreso com a própria surpresa!

sacharuk



as horas e as águas

as horas e as águas

quedam-se águas de tristeza
destemperanças derramadas
perdem-se gotas de beleza
amolecidas
e consternadas

as horas insistem paradas
descaso que abraça o instante
leito infinito
no rumo do nada
desoriente ao navegante

os cristais não mostram futuro
apenas rochas indiferentes
as gemas opacas no escuro
jamais terão outro presente

as horas destilam cadentes
ponteando um tempo tardio
a dor que brotou na nascente
não vai cessar
o curso do rio

sacharuk




fragmentos de um sistema qualquer

dia desses vi um filósofo 
chorando lágrimas de inexatidão 
sentado na pedra encravada 
solitária no meio do lago
pensava perdido no nada
mas o nada não era vago

cismava fagulhas lastimosas 
do desencanto com a razão
 viveu uma paixão viciosa
com a incerteza dos fatos

eis que o hiato 
entre o filósofo e o poeta 
é o reduto encantado
onde o fogo insano se aquieta
numa rima pobre.

poema mecanicista

ah! Sim, eu penso por mim
por mim que portanto penso
não lavo de choro meu lenço
tampouco acredito num fim

repenso em como pensar
para aprender com os erros
os cheiros ruins dos desterros
e os barcos que vi naufragar

logo cogito ergo sum
reviro a fração de um poema
sei fragmentar um sistema
transmuto o um em nenhum

aprendi a pensar a emoção
e chorar lágrimas de poesia
mas me perco da estrela guia
se sonego o valor da razão

sacharuk




nuvem sobre a mata


nuvem sobre a mata

a sombra de nuvem
um velho diabo
tatuou  em tua coxa
bem próxima ao vale
de pequenas árvores
de finos caules
onde estendem- se as faces
 charme e rusticidade
de tão bela botânica
onde o sol esgueira nuanças
e adorna-te as curvas

sacharuk

painting by Lilian Patrice 

o sol pela janela ☀️

o sol pela janela ☀️

viola as mucamas 
       que te servem
também aos teus deuses 
                             e diabos
lambe-os ao fio bruto 
               das mentiras
no leito ejaculado 
     das coisas ditas
estende o lençol de cetim
e esconde sentenças malditas
separa noites 
           desprovidas de razão
dos dias famintos de coração
para que jamais se encontrem
derruba a parede 
        do imponente castelo
que o conto de fadas acabou
melhor não contar outro
pois o sol continua o passeio
no rumo de escorpião
não mora em ti ano inteiro

sacharuk



hoje quero ser fada

hoje quero ser fada

tenho na paleta
as cores mais vivas
para pintar o escudo
que protege teu mundo
das aventuras

vim te buscar
perambular pela rua
pintar sete no ar
rabiscos no céu

seremos princesas
provaremos vestidos
os que são proibidos
aos olhos da realeza

se puderes sorrir
dará tudo certo
abraçadas uma a outra
não haverá nada
que perturbe a gente

hoje quero ser fada
e te dar um presente

sacharuk



poema de água de rio

poema de água de rio

poema de água de rio
estrofes de mágoa e de frio
versos secos ao vento
salpicados de areia

poesia lírica sereia
canto onírico e lamento
melódico fio que cai lento
rimas que cursam as veias

poema maré lua cheia
ritmo gelado sombrio
num tom engasgado e senil
sem significado ou intento

poesia sem nó argumento
enlace de versos vazios
dor que corrente entremeia
as palavras mais feias

sacharuk




naked art


naked art

desnutri os meus tolos preceitos
diluí a razão das temáticas
foste tu recoberta de tintas
ao torpor das friezas realistas

encobri manchas fálicas
com cores primárias do peito
capturas de formas e gestos
linguagem nua sem retórica

desprezei paisagens cinzentas
de mortes brancas e pretas
desenhei uma fala drástica
nos teus lábios vermelhos sedentos

misturei nas cores meus restos
derramei as vontades pictóricas
fiz suave o atrito das cerdas
a lamber tuas entranhas malditas

e te fiz assim tão explícita
na orgia do meu manifesto
do teu ventre aberto inconfesso
donde surges  mulher magnífica

sacharuk



cada crença corresponde com cada cadáver

cada crença corresponde com cada cadáver

corriqueiramente
coveiro chega capela
cemtraliza cruz 
com cabeceira caixão
coloca castiçais com chamas
 convenientemente cintilantes
conquanto consome
 caneca com café
conforme chamusca cigarro

cabe coveiro corresponder cada corpo caído
com caixão contratado

convém colocar cravos
condecorando casaco

como colaborador com cemitério
conforme chega
coloca chapéu 
critério contra claridade
começa cavar chão... 
cava...cava...
cem centímetros
construindo cova
compatível com 
cumprimento caixão

conforme correm cerimônias
conduz criaturas chorosas
consanguíneas com cadáver
conduzirem cerimônia
carregando caixão
coberto com camiseta
correspondente com clube
cujo cadáver contribuía

criaturas cantam canções comovidas
como cadáver costumava cantar
contudo, choram copiosamente
conquanto cuidadoso coveiro
coloca cobertura 
cerrando caixão
centralizando com cova cavada 

como costume
caem crisântemos
como chuva colorida
celebrando cadáver

contudo
cadáver continua calado
completamente chateado
com culto cretino

sacharuk


colher de pau



colher de pau

bati ovos
até nevar
ela sentiu a aeração
daquela textura
conferiu a consistência
lambeu a doçura

caiu de beiços
na pontinha açucarada
na sequência
eu espargi leite fresco
na sua tigelinha melada

sacharuk



apocalipse aos ninguéns 🐂

apocalipse aos ninguéns

no derradeiro minuto
do dia último
ouviu- se o apito
o diabo vestiu candura
a cansada sofia
caiu no conto do sofista
sobre a ressurreição do mito
a moral abraçou a falcatrua
a graça esqueceu a poesia
a sorte desprezou a fortuna
a lua perdeu-se na rua

mas nenhum dos ninguéns
na face da terra
acometeu-se do ímpeto
sequer tomou susto
pois o genuíno ninguém
mantém-se um estúpido

sacharuk



poesia primeira

poesia primeira

poesia primeira
parafraseia pássaros
produz palavras pueris
por profissão

prodigioso poeta
pálpebras pesadas
pretas pintadas
piscam por pão
pedacinhos pontuais

poesia primeira
pode pairar prosaica
percorrer parágrafos
paradoxais

poisa plena
pura perplexidade
provê paixão por propósito
plenitude por pertencer

sacharuk

Painting by Ericamaxine Price

a máquina de fazer chuva

a máquina de fazer chuva

ela é operadora
da máquina de fazer chuva
pinga respinga
repica espirra replica
as águas varrem
martelam a terra
esculpem as pedras
e murmuram marés
cinzentas de ocasos

a máquina pode
acionar as torrentes
derramá-las dos vasos
expulsá-las dos canos
entorná-las dos cântaros
para inflar oceanos
e encher a concha
das mãos

sacharuk





Era maio, talvez setembro..

Era maio, talvez setembro..

Daquilo tudo o que eu era restaram somente palavras. Logo, não mais do que palavras é o que agora sou.  Alimento-me de sonoros substantivos. 

Fiz brotar húmus de flor para voltar ao princípio. Danço sapateando com o verbo.

Risquei um tempo insano sob o prisma de qualquer existência. Era tarde, quase noite, quando tremenda chuva de versos, diluídos ao whisky, derramou-se e, despudoradamente, fui banhado. Parti ao encontro da palavra pelado das roupas, das crenças e das ciências.

Desde então, fez-se outro o meu intento. 

Era maio, talvez setembro. Não sei ao certo... lembro apenas de ter visto um poeta pedalando uma bicicleta velha.

Dia desses tornei a vê-lo, sentado na asa de um avião.

sacharuk 




androfagia de amor

androfagia de amor

isento do egoísmo
morder-se-ia o louco
no antebraço das impossibilidades
o rasgo sangrento
naco de carne
doce exorcismo
de amor violento

sacharuk



feridas

feridas

não vertas
o azeite fervente
sobre tuas feridas

elas se curam sozinhas
num afago consciente
depuradas com carinho

sacharuk



holofote

Holofote

Desenho poesia em teu corpo nu
Tuas curvas curvam meus versos
Mais-que-perfeito é teu olhar
Sem pena do mundo peço
Faça-me feliz
Vira minha mente pelo avesso
Seja o lirismo dos meus dias frios
A festa de um solitário escritor
Faça o amor
Seja atriz
A protagonista em cada linha
Numa vida que não se alinha
Mas se alinhavava ao meio-dia
Arranca-me a teia torpe da nostalgia!

Dança para mim ao som do blue
Mostra teus gestos convexos
O holofote da noite é o luar
Sou cativo dos seus excessos
Faça-me feliz
Desata-me o nó dos reversos
Esqueça os abismos sombrios
E faremos um arco de cor
Serei ator
Seja atriz
A personagem da minha sina
E sem querer me ensina
Beber do teu corpo a poesia
Que me liberta dessa agonia.

Ateu Poeta e Sacharuk



para te versos

para te versos

a noite é companhia
portanto não ando sol
tenho o corpo nuvens
e minha alma lua
a transmutar poesia

sacharuk




das contradições

das contradições

a religião
morde teus pés
bocarra faminta
igual jacaré
parece absurdo
decerto não é
o humano animal
no templo de cristal
com cruel pretensão
ostentar compaixão
mas tratar desigual
em nome da fé

sacharuk



voltarei na primavera

voltarei na primavera

tu nada disseste
sequer uma torta palavra
apenas seguiste
minha estranheza engraçada
quando nossas largas passadas
pisaram fofas

nossos corpos inclinados
desprovidos de roupas
projetados à frente
cruzaram a rua dos tempos
sobre os tetos das casas
sobre pessoas e plátanos
carrossel de hologramas
luzes furtadas das coisas
daquele lugar

para o próximo encontro
deixo flores perfumadas
no parapeito da tua janela
entremeadas pela trepadeira
logo te chamo num sonho
com cores de primavera

sacharuk



das semelhanças

das semelhanças

cruza olhares
com espíritos da floresta
fala com pedras
ama saber- se ouvida
seus pedidos atendidos
suas ideias compreendidas

o campo é aconchego
assoalho dos seus passos
bailarina no espaço
refugiada na nudez
é repleta de poesia
minguada de sensatez

sacharuk



ceifa

ceifa

forte presença se manifesta
da ancestralidade eterna
ao coração da floresta
o ecossistema agrega
emanações de memórias
brotadas da terra

a vida seca é madeira
da lavra da motosserra
que ceifa a alma da mata
e a morte abre clareiras
para passar a boiada

sacharuk



o alienígena

 o alienígena

Todas as manhãs o alienígena acorda e toca o próprio corpo para sentir que existe de fato. No quarto, o espelho embaçado pelo seu assopro é a certeza da sua interferência nas coisas do mundo. Roda e roda pelo submundo. Também visita lugares seletos, mas só ouve murmúrios incompreensíveis das pessoas que conversam em seus próprios dialetos. Alheio a tudo, suas ideias também não são acessíveis aos mundanos de qualquer lugar. Assovia uma melodia singular. Todavia, o alienígena voa, quando poderia simplesmente andar, mas prefere se locomover logo acima das cabeças dessa gente esquisita. Vez por outra, ouve vozes distantes e sons dissonantes e isso tudo o irrita. Também vivencia eventos antecipados nos sonhos premonitórios. Tudo ocorre da forma como sonhou. Seu olhar é um observatório, por isso vê as pessoas por dentro. Não tudo, mas os traços das personalidades e um tanto de seus pensamentos. Ele simplesmente sabe quando alguém é do bem. Além disso, lê os mais finos gestos de mãos, as falas mais rebuscadas, os sorrisos... Assim ele conhece vários níveis de qualquer pessoa e suas conclusões são infalíveis. Alguns o assustam, outros provocam tristeza, poucos o fazem sorrir timidamente. Ninguém o faz sentir-se contente, leve e cheio de asas resplandecentes.

sacharuk



Flora parida sob o jambeiro

Flora parida sob o jambeiro

fofo chão 
de pétalas rosadas
a natureza ofertou o leito
ondas de afeto para a chegada
toques de amor e acolhimento

do útero materno rumo estreito
a menina viu um raio de sol 
entre os galhos do jambeiro
aqueceu o evento sensorial

mulheres provaram 
o empoderamento
bem nascido do parto natural
Flora provou 
um novo sentimento
ao romper o seu laço umbilical
logo a menina buscou o peito
doula parteira 
e mãe encantadas
renderam à vida todo o respeito
quando a violência foi rejeitada

sacharuk



🔪💀o feminicídio da cunhã poranga

🔪💀o feminicídio da cunhã poranga

ela bailarinava
tal dama do xadrez
percorria os lados
ocupava os espaços
saltava tantos
de uma só vez

seminua perambulava
descaminhos da noite
ao covil desses homens💀
de brios rachados
e do toque gelado
vergão de açoite

ela dançava
tão linda quanto louca💃
movia a boca
para imitar a toada🎶

era só ela e mais nada
a mais linda da tribo
e não havia sentido
morrer de morte matada

sacharuk

grafite Seth


desmantelada

desmantelada

era eu dura pedra
ao pó desmantelada
pelo crivo da tua vontade
eis que o desejo persiste
teu signo na pele tatuada
ao toque das tuas digitais

minh'alma resiste marcada
meu âmago ninguém toca mais
meu gozo quer tua completude
ainda são teus os meus ais

sacharuk

painting by Lilian Patrice

manufatura

manufatura

amarra teu cadarço
fecha tua gaveta
preserva teu cabaço
esfria tua cabeça

conjuga teu plural
penteia teus cabelos
melhora teu visual
apara teus pelos

aperta o teu nó
fecha tua braguilha
respeita tua avó
segura tua filha

protege tua raça
lava teus pratos
veste tua calça
calça teus sapatos

impõe teu gênero
esconde teu complexo
destila teu veneno
politicamente correto

sacharuk



toada

toada

ela dança a toada
regada de orvalho
supre a sede da vida
num tapete vermelho
tremeluz pelo espaço
ondeia suas fitas
exibe seus passos
e a saia de chita

sacharuk

fotografia: Alessandro Lombardo


amores líquidos🎼🎻

amores líquidos🎼🎻

amores líquidos
sabem ouvir silêncios
são cera que percorre
as cordas dos violinos
derramam seu opus
sobre as águas turvas

amores líquidos
desafiam a secura
que parece os corpos
não temem a chuva
que alastra em ondas
de tantos capítulos

amores líquidos
donos da própria vontade
fluem mares indômitos
na corrente da liberdade
emergem à superfície
para beber poesia

amores líquidos
banhados nas mágoas
onde se juntam as águas
onde não há calmaria

sacharuk

fotografia por Ellen Cuylaerts




terraplanismo

terraplanismo

  chato
          pensar plano
  na terra que acaba
       no final do ano
   na ponta do rumo
       de pedra batida
  e some onde cruza
   o fio do horizonte
com a linha da vida

pior que chato
                é vexame
 da ideia desnutrida
    do olhar obsceno
      tonto e calhorda
    que vê só a borda
           do terrapleno

sacharuk



flores de sexta-feira

flores de sexta-feira

falo com paredes
escuto as palavras
observo impressões
e nessa à direita
uma passagem estreita
leva ao jardim encantado

onde colhes orquídeas
e as flores esquizofrênicas
de sexta-feira

se a lua incide faceira
ilumina a câmara pela janela
emoldurada pela cortina
a parede branca é a tela
e as nossas mãos
imitam o voo das aves meninas

sacharuk



roda-viva


roda-viva

o tempo
sempre o tempo
roda espirais
agruras de vento
dança rodamoinho
corrupio e atropelo
das vidas pequeninas
depois chora ruínas
no jazigo dos lamentos

sacharuk

rodaviva


essencial

Essencial

Essencial é teu sorriso aberto
tua alma num frasco
nosso encontro em versos
em qualquer direção, tempo
[ou espaço

Natural como o afeto
que acalma em seu laço
recôncavo e reconvexo
qualquer conjugação, momento
[ou lapso

Necessário feito o ar
é tua musa em cadência
o lastro direito de sonhar
em qualquer estação, luz
[ou frequência

Que flua em teu mar
vocábulos na correnteza
e o desejo de nadar
na argumentação, no som
[na eloquência .

Rogério Germani & sacharuk



na rota do estupor

na rota do estupor

e mulher velha 
pela casa insalubre
arrasta esfarrapadas pantufas 
com odor de cachorro molhado

o seu grande legado
a essas alturas da existência 
é o aprendizado
de que comer e dormir
talvez dormir e comer
evita medidas drásticas

introjeta emoções homeopáticas 
nas novelas televisivas 
e nos programas de auditório
quanto mais pobres de utilidade
melhores serão
resguardam a sensibilidade 
do cansado coração
que lá essas coisas
já não anda

eis que troca as demandas 
por um café reforçado
dois ou três pães franceses 
quentinhos e estufados 
com presuntos e queijos

seu único desejo
habita entre a cama e a mesa
na rota do estupor
donde tem a certeza
se um dia desses se for
nesse dia irá sem dor

sacharuk





martelo

martelo

decerto alguns dias
são mais amargos
noutros vertem
doces fofuras

nos primeiros
tomo uns estragos
nos restantes
é pinga pura

sacharuk


margarita

margarita

margarita das ancas
redondas
madrepérola pele
opaca leitosa
pérola esfera
lúcida curva
a virgem translúcida
de concha e alcova

sacharuk

ostra

noite misteriosa dos mitos


noite misteriosa dos mitos

na noite passada
aqui fez tanto frio
calei as súplicas
de algum abraço
procurei por Ana
no espaço vazio
mas nada emana
no vazio do espaço 

na noite passada 
eu ouvi umas vozes
silenciando pronúncias
em vertigens de gritos
na noite solitária 
dos meus algozes
na noite misteriosa 
dos meus mitos

não sei onde perdi
o senso de direção
onde o sono não vive
onde habita a exaustão
estou assim tão só 
enquanto Ana dorme
vivo assim tão só 
quando Ana é livre

na noite passada 
morri em lençõis brancos
para ser despertado
pelo toque do beijo
que me faça libertado
de um encanto
que me faça libertado
de um desejo

na noite passada 
persegui os medos
atores de histórias
feitas de monstros
na noite solitária 
dos meus segredos
na noite misteriosa 
dos meus desencontros

não sei onde perdi
o domínio da razão
onde eu nunca estive
onde não é o meu chão
estou assim tão só 
enquanto Ana dorme
vivo assim tão só 
quando Ana é livre

estou assim tão só 
enquanto Ana dorme
vivo assim tão só 
quando Ana é livre

sacharuk


Capuchinho

Capuchinho

rubro era o seu pecado
tingido na vã inocência
passeava só sem licença
com docinhos confeitados
de sabores atávicos

trazia o cesto de enlaces
com sonhos de chocolates
deleites aos vícios
com poemas riscados
de versos rasgados
falantes de falos
e orifícios

perseguia auspícios
cordeiros em pele de lobos
seduzidos aos sonhos
de comê-la

e ela pequena
melindrada cobria a cabeça
com rubros panos
para que o dó dos enganos
jamais lhe apareça

sacharuk



Beatriz

Beatriz

Seu rosto, branca tela em nu semblante,
Beatriz que, a mim, seu Dante, fez omisso.
Mostrou-se em todo o viço e o torturante
Requebro serpenteante a torna aquela

De olhares de gazela e seus rompantes
Com brilho de diamantes, de silícios.
Em frestas e interstícios balbuciantes,
Segreda-nos desplantes, minha bela,

O deus que me acautela e é tão gigante
Que faz mirabolantes meus suplícios
E remete-me aos vícios, oh, donzela:

Mulher que se revela e, ofegante,
Se dá exorbitante em sacrifício.
Se faz meu precipício, minha cela...

Magmah & Sacharuk



da lógica estrambótica incompreensiva das coisas

da lógica estrambótica incompreensiva das coisas

entro e saio da metafísica
chego pertinho da ética
vislumbro o traçado na lógica
insana cruel estrambótica

logo

tuas manhas são coisas
que minha cabeça não toca
a ti são moedas de troca
terror versus racionalidade
colagem de alguns fragmentos
inventam qualquer verdade

eu queria um apelo holístico
sensível e também silogístico
mas só revirei sentimento
enxaqueca gastrite lamento
e a maldita incompreensão
escambo entre o sim e o não

eu queria ir além da razão
sobre-humano divino ou ético
com premissa e conclusão
um lampejo profético
de inconformismo dialético
a fé numa puta falácia

também queria eficácia
saber juntar os caquinhos
e enquanto vivo sozinho
lerei versos de alegria
talvez eu cometa a audácia
e risque uma nova poesia

sacharuk


Restituição de bagagem

Restituição de bagagem

No saguão do terminal 2 do aeroporto, o casal apressado para diante da grande tela eletrônica que exibe publicidade bancária junto às informações pertinentes ao desembarque dos voos. A mulher veste confortável traje esportivo e traz uma menina de cinco anos pela mão firme. Logo, o homem encaminha-se calado até a esteira de número seis, onde malas de diversas cores e tamanhos desfilam e exibem etiquetas brancas aos seus prováveis proprietários.

A mãe e a criança agora escolhem chocolates na loja próxima ao portão de saída, enquanto o homem acompanha atentamente o passeio caleidoscópio das malas, até que, num súbito, estende a mão esquerda em direção à alça da mala amarela que se exibe logo à sua frente. Ao mesmo tempo, outra mão impetuosa, ornada de anéis delicados e unhas vermelhas, tenta alçar sem sucesso a mesma mala. O disputado objeto escapa às vontades e segue seu trajeto mecânico, ao passo que os olhares surpresos dos dois interessados se entrecruzam. Suas faces sorriem constrangidas. O homem balbucia uma palavra curta e a mulher responde com outra. Andando sem graça, afastam-se alguns poucos metros.

Quando o mecanismo retorna a mala amarela, a mulher decidida a pega com rapidez e se retira guiando-a sobre as rodinhas e batendo ritmadamente os saltos sobre o mármore.  O homem, que já não atenta à esteira, hesita por um instante e depois a segue.

Em frente ao portão de saída, ele a vê abandonar o prédio em direção à curta faixa de pedestres e acena brevemente erguendo a palma da mão. Hesitante ela para e logo retorna até a vidraça do saguão, aproximam-se e olham-se demoradamente. Quando ele parece querer dizer algo, as pontas vermelhas de dois dedos da mulher pousam na vidraça tal quisessem cerrar os seus lábios que, imediatamente, se calam.

Então ela se afasta até o táxi, empurra a mala para dentro, embarca e parte, enquanto ele, através do vidro, a observa partir.

De volta à esteira, ele estático, quase não vê uma única mala amarela passando à sua frente repetidas vezes, enquanto distraídas, a mãe e a menina brincam no saguão.

sacharuk



botão

botão

pequena morte
o corpo festivo
não mais lhe pertence
mãos perdidas
sem cautela tateiam
todos os cantos

verte a seiva
aos olhos encorajados
que sorriem 
quando a veem
desabrochado botão

orvalhado ao toque
se contrai
tremeluzem os dedos
ao abandono
dos seus ais

sacharuk



sozinha

sozinha

aquilo que busca
a palavra em tua boca
perfaz poemas vertidos
borrifadas umbrellas
perfumados vestígios
harpa tosca
das vozes singelas

da janela
sempre sozinha
lançada ao vago
observas os astros
plasmados no espaço
com inveja das asas
das andorinhas

sacharuk
swallow-wall-art

fascínio

fascínio

replica-me ao espelho
contornos do belo
impressionante signo
redenção e desígnio
da paixão entorpecida

ama-me atrevida
pelos tantos reflexos
tagarela amaldiçoada
ressonância dos ecos
de ninfa encantada

bebe nas cavidades
dos meus olhos de pedra
o liquor da beleza
lume das profundezas
das águas eternas

replica-me ao espelho
as linhas tenras
a desvendar faces belas
inevitável fascínio
duplo legítimo
da paixão entorpecida

sacharuk

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tsunami

tsunami

eu quis inventar a canção
mas eu tive medo
e quis te prender na prisão
não era mais do que farsa

essa sina oferta
tantas certezas escassas
e hoje acordo mais cedo
para ver se o sol me abraça

manterei a casa aberta
enquanto a chuva não passa
beberei cada pingo do chão
num tsunami que se alastra

sacharuk

sétimo

sétimo

dos rústicos sentidos
desde os despertos
aos adormecidos
há um sétimo
tão cáustico
e drástico
do qual eu não sei

sou apenas humano
portanto uma lástima
tal os outros
para servir de consolo
vivo de enganos
e estou sujeito às leis
dos tolos

algum sentido me faz absorto
em tom grave circunflexo
entre insights desconexos
penso falar com os mortos
monologar a minha loucura

palavras surgem obscuras
não sei se são híbridas
sequer se são puras
provém dos desígnios da noite
e relatos de bruxas

desfilam versos sem roupa
na poesia mais tímida
ou na prosa mais dura
na dor do sétimo açoite
a cortar o dorso da lua

ouço pitonisas loucas
reescrevendo o curso da vida
com promessas de cura
com mensagens urgentes
e nuas

(o sétimo carece sentido)

se solta um grito retido
que suplica pelo lume
ou qualquer sabedoria
serão apenas queixumes
no hades da poesia

sacharuk


rio oceano

rio oceano

sobrevoo o rio
martim das asas azuis
da linha da vida o risco
do norte até o sul
costura rasgos sombrios

então oferto às águas
todas as coisas que sou

percorro córregos mansos
pelos teus recantos
até beber o oceano
vertido sobre teus olhos

sobrevoo o rio
ave intrusa
asas que não encolhem
sequer sob a chuva
que queda por nós

então oferto às águas
todas as coisas que sou

percorro tuas rotas
por todos cantos
até beber o oceano
vertido sobre teus olhos

sacharuk





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