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A poesia delira ao diapasão e, logo, intenta aos acordes da lira. Poesia que tanto descreve saliva de beijo, bem como a imagem do pensador com o queixo poisado nos dedos. Poesia pode andar no eixo para não ouvir queixa, mas pode andar fora e criar desavenças. Há poesia das crenças, poesia do lixo, poesia pretensa, poesia das gentes, poesia dos bichos. Ela é o amálgama do mundo, verte por tudo. É ofício dos nobres, sedução dos espertos, marofa dos pobres e sina dos vagabundos. Também vive escondida na língua dos analfabetos. Poesia é isso tudo e mais outro tanto, no entanto, poesia não é absurdo. Absurdo é querer-se mudo; absurdo é querer-se surdo; absurdo é querer-se cego. (Tudo e mais outro tanto - sacharuk)

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sacharuk escreve em inspiraturas.org

as mulheres que te habitam

as mulheres que te habitam

quero deitar com essas mulheres
que habitam dentro de ti

com aquela feita de essência
de fé de cura e doença
também com a mulher inteireza
de alma de corpo e beleza
e ainda com a mulher verdade
de humor de desejo e vontades

mas quero deitar todo dia
com a mulher da fatal poesia

sacharuk

Art by Elena Markova

desmantelada

desmantelada

era eu dura pedra
ao pó desmantelada
pelo crivo da tua vontade
eis que o desejo persiste
teu signo na pele tatuada
ao toque das tuas digitais

minh'alma resiste marcada
meu âmago ninguém toca mais
meu gozo quer tua completude
ainda são teus os meus ais

sacharuk

painting by Lilian Patrice

banquete

banquete

um demônio espreita-te
estende o olhar agudo
deseja tuas entranhas

afasta pernas e braços
disposto a devorar-te
até que se locuplete
teus pedaços
servem o seu banquete
teus fluidos
são sua bebida

tua boca entreaberta
gargalha atrevida
e a criatura penetra
assusta e testa
a presa entorpecida

agora tu tão repleta
já não tem mais saída
porém isso não importa
pois novamente ele acerta
fazer tudo o que gostas

sacharuk

The nightmare - Henry Fuseli


haicai#3🦅

haicai#3🦅

o tempo é réu
desse deserto de ter
outra despedida


sacharuk




haicai#2🦅

haicai#2🦅

todos os anos
a gratidão ao outono
livre recriação


sacharuk



manufatura

manufatura

amarra teu cadarço
fecha tua gaveta
preserva teu cabaço
esfria tua cabeça

conjuga teu plural
penteia teus cabelos
melhora teu visual
apara teus pelos

aperta o teu nó
fecha tua braguilha
respeita tua avó
segura tua filha

protege tua raça
lava teus pratos
veste tua calça
calça teus sapatos

impõe teu gênero
esconde teu complexo
destila teu veneno
politicamente correto

sacharuk



até que fura

até que fura

o lábio que expele
a água mole
a boca que engole
a pedra dura
o pingo que cai
de dentro para fora
o choro que sai
doloroso com fúria
a noite que vai
irrompe a aurora
quando o corpo é açoite
das gotas da chuva

sacharuk



anahata dissonante

anahata dissonante

no centro do peito
a bolha inflada
júpiter abandonado
pedaços espalhados
tal solitários escombros
desprendidos das asas
da ternura

com devoção
graciosos demônios 
habitam os ombros
renunciam ao tempo de agruras
que cala a voz do coração

sacharuk 

Anahata Painting by Pascal Roy

🌹 sexy floral 💐


🌹 sexy floral 💐

menina linda inspira
e venta brisa do mar
para assaltar os seus poros
juro que não é mentira
o que eu quero cantar
cá nesses versos canoros🎵

menina linda tatua
uma nuvem carregada
enquanto chove lá fora
e ao espelho ela pinta
beiço vermelho de amora 💋
mestre na arte das tintas
encantadora encantada

menina linda visita
os animais no quintal
para tanger as galinhas 🐔🐤
e logo apara o jardim
veste o sexy floral
depois procura por mim
no terreiro do vizinho
na laranjeira o pardal
um dia desses fez ninho

menina linda é linda
por isso é tão amostrada
e se ela vive sozinha
quero que deite comigo
na minha rede cheirosa
eu quero ver a sua linha
que desce desde o umbigo
até achar sua rosa

menina linda inspira
a noite inteira provar
os sonhos deliciosos
juro que não é mentira
o que então quis cantar
cá nesses versos canoros🎵

sacharuk



toada

toada

ela dança a toada
regada de orvalho
supre a sede da vida
num tapete vermelho
tremeluz pelo espaço
ondeia suas fitas
exibe seus passos
e a saia de chita

sacharuk

fotografia: Alessandro Lombardo


da diversidade das coisas

da diversidade das coisas

sapos são pequenos seres
de natureza inexplicável
cada qual com sua loucura
desejam ser entendidos
porém ninguém se perturba

cada sapo coaxa uma coisa
ostenta uma língua diferente
diz poesia de cores dispersas
já não fazem sapos tão ébrios
como eram os de antigamente
pela rua ocultos nas moitas
recitavam seus versos à lua

sacharuk



triângulo das flores

triângulo das flores

no triângulo das flores
enigmas assentam os vértices
o sim o não o talvez
esculpem silencioso sorriso
que ora ilumina as coisas
pelas quais tanto esperaste
virada de costas ao sol

sacharuk



horizonte

horizonte

a terra repousa o céu
no limite de uma linha
distante dos olhos do mal
lá semeaste o amor
onde ninguém o percebe
e agora podes regá-lo
sob as cortinas abertas
do firmamento
num desenho de papel

sacharuk

Mr. Reiner Art site


tocaia

tocaia

aquilo que te denuncia
sempre amanhece à espreita
ainda que possa servir
à tirania da tua mordaça
fareja esconde suspeita
nega destrói e rechaça
te estuda tal inimigo
te percebe às avessas
aponta setas
enquanto corres perigo

sacharuk


no dia da lua cheia

no dia da lua cheia

permitam-se as borboletas
pousarem nas flores que germino
o sabor desprende da atmosfera
no dia que entra lua cheia

risco um círculo na areia
não olho o relógio
danem-se os danos do tempo
bebo sutilezas da fragrância
lançada ao curso dos ventos
e as nuvens enfileiradas
fundem as bordas
formas plasmadas no firmamento

no desapego das horas
então deito sob o plátano
para escutar um poema
bem dito no bico dos pássaros
a música envolve o espaço
atrito das ondas na laguna

a chuva derrama-se plena
percorre os cabelos da menina
despenca sobre os ombros
e inunda corpo de essências

sacharuk



fogata de outono

fogata de outono

a noite insinua
acordo de poesia
no calendário de outono

estampa a lua
amplo contorno
dançam meus dedos
perdidos em tua órbita

a língua te fala
exótica fonética
vibrações em teu centro
invade teu templo
até que faças chover
sobre mim

orgasma-te
faz estrelar
meu céu escuro

sacharuk

Cunnilingus by Tobias Diedrichsen


amores líquidos🎼🎻

amores líquidos🎼🎻

amores líquidos
sabem ouvir silêncios
são cera que percorre
as cordas dos violinos
derramam seu opus
sobre as águas turvas

amores líquidos
desafiam a secura
que parece os corpos
não temem a chuva
que alastra em ondas
de tantos capítulos

amores líquidos
donos da própria vontade
fluem mares indômitos
na corrente da liberdade
emergem à superfície
para beber poesia

amores líquidos
banhados nas mágoas
onde se juntam as águas
onde não há calmaria

sacharuk

fotografia por Ellen Cuylaerts