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flordolhar

flordolhar

ela tem no olhar
um querer sentinela
passagem de raios
nuanças complexas
percorre arquedutos
abre portas secretas
e floresce nas íris
lumes de primavera

incandescente visagem
cores furtivas diversas
raideluz em seu rabo
coriscado de estrelas
relâmpago relapso
risca corte sem métrica
tremeluzentes pálpebras
tal a chama das velas

sacharuk



hoje ele não voltou

Hoje, ele não voltou

E então, Sônia vê seus sonhos revirados. Está aos auspícios de novos tempos.

Acende outro cigarro. Sempre o faz como pretexto para pensar. Tal pensar, para Sônia, carecesse pretexto.
Bafora despudorados clichês literários mesclados às nuvens negras das longas tragadas. A mesma cena e o mesmo cenário...sempre. Os seus devaneios culminam em eventos felizes, divertidos, sensuais, junto àqueles que intimamente elege. Cria histórias transcendentais, protagonizadas por sujeitos habitantes das suas memórias, das recentes e das antigas.

Alberto trabalha tanto. Saí cedo de casa para retornar tarde da noite. Viaja, todos os dias úteis, cerca de oitenta quilômetros até chegar. Ultimamente, reclama da tristeza e do cansaço.
Sônia lembra da formatura de Alberto. Sacrifício! Na época, teve de trabalhar muito enquanto o marido concluia a faculdade de direito. Por sorte, não tiveram filhos e, consolidados e estáveis, conquistam facilmente os objetos dos seus desejos. Mas Alberto trabalhava tanto!

No mês passado, Alberto, em duas oportunidades, teve o carro enguiçado e, naquelas noites, não voltou do trabalho. Dormiu num hotel. Mas, na última semana, aconteceu mais duas vezes... e hoje, ele não voltou.

Sônia banha-se demoradamente. Quente e refrescante. Hidrata demoradamente as pernas recém depiladas. Escolhe a meia negra. Com a perda dos três quilos durante a última semana, voltou a caber na sainha.
Pega os cigarros, acende um, as chaves do carro e sai.

sacharuk

diamantes falsos

diamantes falsos

pecaminoso
o bálsamo
extraído da flor
degradé furtacor

tanto incrédulos
quanto insanos
acordes teimosos
quebram pedras

uma a uma

irremediável torpor
orvalho e suor
cadentes gotas
ao piano

pecaminosos 
diamantes falsos
inventam amor
o sabem de cor

o som dos mistérios
a dor dos enganos
indecorosos
segredam pétalas

 sacharuk

velho blues

velho blues

hoje durmo na calçada
armo barraca na rua
meto o pé na estrada
lanço fumaça pra lua

passo a perna na vida
não faço sinal da cruz
eu sei viver na batida
o trem desse velho blues

lua cheirosa de incenso
no fogo da quintessência
no velho blues eu descanso
no embalo dessa cadência

e ainda eu junto as maricas
em busca de calor e luz
a barriga ronca larica
no trem desse velho blues

no trem desse velho blues

sacharuk

ataranto


ataranto

quando a garganta do vulcão
rasgou palavras de fogo

quando a boca do dragão
escarrou fluidos do ódio

tua calma
não encontrou a vertente

tua alma
não se banhou no riacho

sacharuk

esparramo reticências

esparramo reticências

vejo tudo de soslaio
oculto entre as verbenas
seus olhares estranhos
ora risonhos
ora tristonhos

por isso que eu traio
as parcas certezas

conviver é o ensaio
de cortesias e delicadezas
entre hipocrisia tamanha
ora artimanha
ora inocência

minhas ignorâncias
eu nem percebo

vejo tudo tão placebo
efêmeras cantilenas
paixões tão amenas
morrendo no vício
de múltipla falência

esparramo reticências
do que eu tenha
a ver com isso

cansei dos artifícios
photoshopadas belezas
sobre tecidos azedos
maquilando segredos
que não me dizem respeito

eu vivo do meu jeito
e ocupo minha vaga
a deslizar os dedos
sobre as chagas
dos meus próprios medos

sacharuk 





vambora


vambora

amora vambora
te prometo
o amor o inferno
e o gueto

amora vambora
te prometo
o amor o inferno
e o gueto

oh oh
oh oh oh 
olh
oh oh oh olh

amora
dont forget me
forever

amora
vambora
te prometo

amora
dont forget me
fovever

amora
let's go
I promise you

sacharuk




a menina do olhar caleidoscópico

a menina do olhar  caleidoscópico

depois de comer a marmelada
que ornamentava o céu
 a sua sorte 
fatalmente lançada
sobre diamantes de corte
pelas alamedas
de fluidez colorida

viu vagalumes iluministas
e ouviu aeromoças mudas
anunciarem o menu
de jujubas pontiagudas
com salada mista

e a vista
detrás do rayban
escondeu um par de sóis
espirais de caracóis
estampados nos olhos
caleidoscópicos

sacharuk



Ana e os pombos

Ana e os pombos

trago versos
em sementes de paz
imaculadas
se nao abarcar meus avessos
eu sou nada
além da poesia
que no curso do dia
seguiu minhas pegadas

das questoes lanço sementes
aos pombos da paz e da pedra
vislumbro imagens da sorte
no vácuo entre vidas e mortes

procuro caminhos à senda
detrás dos traços aparentes
alma que clama faminta e urgente
por um universo que a entenda

quero saber os conceitos
conhecer os normais
e as fadas
tenho braços abertos
mas nao sou alada
apenas sou poesia
que no curso do dia
seguiu minhas pegadas

o percurso das vidas é o mote
que me faz viva e forte
na fonte dos dias de contendas
conflitos de espécies diferentes

em cada aurora sigo em frente
já aprendi que nem sempre se acerta
que no aço afiado reside um corte
e nem todo louco é o Dom Quixote

estendo laços convexos
dou meu pao aos animais
nativos da minha calçada
de rumos incertos
e alma libertada
a colorir poesia
que no curso do dia
seguiu minhas pegadas

quero capturar o signo das lendas
assim entender os desígnios da gente
encontrar as razoes do que se sente
imprimir um sorriso na alma serena

para me recriar poesia
que no curso do dia
seguiu minhas pegadas

sacharuk



viagem da gota serena

viagem da gota serena

ela falou
já não quer me ver
não sou mais bonito
perdi os mistérios
entre outros delitos
esqueço de tomar
os remédios

serena
é a gota
que cai cai cai
única e lenta
cai cai cai
até quando cai plena
cai pouca
viagem da gota serena

mãos dadas com a morte 
cruzei a fronteira
visitei o inferno
alegre valsei
ao redor da fogueira
guiei um cometa
nas dunas de areia

costa vermelha
fogo nos pés
demônios sem fé
abismos internos
entre as sobrancelhas

serena
é a gota
que cai cai cai
única e lenta
cai cai cai
até quando cai plena
cai pouca
viagem da gota serena

serena
é a gota
que cai cai cai
única e lenta
cai cai cai
até quando cai plena
cai pouca
viagem da gota serena

sacharuk




versos de marcenaria

versos de marcenaria

o poeta artesão salva madeiras
dos armários, cadeiras desprezados
em mogno, eucalipto, cerejeira
talento marceneiro no esquadro

compõe criado mudo em cabeceira
a alma vai inteira no traçado
armário modulado e cantoneira
e poemas de primeira bem lixados

a tico-tico esgueira por um lado
um nó versificado na colcheia
na esteira de um metro encantado

poeta abençoado de mão-cheia
das artes que enleia articulado
o amor manifestado das suas veias

sacharuk 





Rick joga damas

Rick joga damas

Rick joga damas
ele é mestre das tramas
joga tal um magista

Rick come peça a peça
encurrala o oponente
ele tem boa cabeça
e por isso se garante

Rick não é nenhum tonto
nunca dorme no ponto
contra-ataca o adversário
não é jogo para otário

no combate não cabe calote
vence quem for mais letal
demanda domínio mental
e não depende de sorte

Rick é menino esperto
entende as lições da vida
já sabe o caminho certo
para ganhar a partida

o segredo da vitória
está no respeito e na cortesia
e escrever boa história
com estratégia e com poesia

sacharuk





pássaro negro

pássaro negro 

Os cabelos da mulher estão totalmente ocultos pelo capuz negro que revela apenas pequena parte da sua pálida face.

As águas que caem do céu encontram o chão de pedras e, quando unidas ao sopro drástico do vento, compõem um misterioso som que se apodera do vazio noturno. A tormenta obriga a pressa dos passos.

O frágil corpo carrega a angústia e o desespero. Incontáveis passos firmes serão ainda precisos sobre o solo enlameado que conduz ao topo. 

Ao cessar das forças, a natureza se encarrega de orquestrar o ato final.  

Plena de glória à margem do precipício, a mulher abre os braços prontos a abraçar o mundo e, tal corajoso pássaro, desafia as alturas em nome da liberdade. 

sacharuk







matéria de amor

matéria de amor

não entendo os auspícios
desse meu jeito
sou uma piada
em matéria de amor

não sei se o amor
se define em conceitos
sequer se os conceitos
têm vida ou cor

imagino que seja
caminho estreito
entre a cumplicidade
e o esplendor

asas abertas
no voo perfeito
passeio rasante
sobre ódio e rancor

não sei do que o amor
talvez seja feito
qualquer argumento
é muito suspeito
mas toda a vivência
tem o seu valor

imagino que seja
tanto rarefeito
não é predicado
tampouco sujeito
mas é indelével
igual ao vapor

sacharuk
 


Puxando os pés de Anita

Puxando os pés de Anita

Não guardo mais a lembrança da festa do meu último aniversário. Obviamente lembro da data. Ser capricorniano, outrora, foi relevante. Imagino que Anita estivesse presente com um dos seus vestidos decotados e alinhados às curvas generosas do seu corpo.

Brigamos muito por quaisquer motivos. Foi esse o mais evidente atributo da nossa convivência. Divorciar, ela não cogitava. Eu levantava o dinheiro que ela esbanjava com seus jovens amantes.

Minhas filhas também compareceram à festa, afinal, as reuniões de aniversário da família apenas aconteciam em virtude do mérito e esforço das meninas.

Hoje o cão esteve aqui. Passou cerca de dez minutos farejando algo no canteirinho. Talvez tenha percebido algum bicho desses que revolvem a terra e se alimentam das coisas decompostas.

O tempo passou tão rapidamente. O bom Toby está idoso, gordo e as patas pouco suportam o peso do seu corpo. Toby sempre vem aqui e descansa sobre o gramado. 

Há semanas não percebo as meninas e quanto à Anita, vaca megera, que se foda.

Consola-me saber que sempre que ela vir ao quintal terá de olhar para o canteiro que que ela mesmo cavou para semear a própria destruição. As memórias são indeléveis e a seguirão, ainda que ela mude de endereço.

Quando ela chegar aqui pertinho, deliciosa sobre seus sapatos altos, puxarei sem dó aos seus lindos pés. 

Livrar-se assim de mim, não fará com que me esqueça tão facilmente. 

Pobre Anita!

sacharuk 





O pingente

O pingente

Mariana finalmente encontrou o pingente no cantinho da pia marfim, ao lado da saboneteira. Lembrava de tê-lo perdido em algum lugar da casa há três ou quatro dias. Tentou segurá-lo firmemente, no entanto, molhada e escorregadia, a joia escapou e  tilintou sobre a torneira dourada, repicou repetidas vezes sobre a cerâmica cinza e perdeu-se novamente.

Dissuadida da nova busca, cuidou de abrir a água para encher a pequena banheira de hidromassagem. Sentou-se ao vaso e passou a escovar os cabelos com a escova de largas cerdas. Sentia arranhar levemente o couro cabeludo percorrendo memórias que escorriam às vertentes ao longo dos fios negros e lisos.

Penteada, segurou a toalha preta entre as duas mãos e descansou a face sobre ela. Comprimiu  o tecido contra os olhos que turbilhonavam memórias.

Enquanto despia-se, percorreu o chão com o olhar e avistou o pingente caprichosamente oculto no vão entre os dois tapetinhos azuis.

Abaixou-se, resgatou a peça e observou-a demoradamente. Logo, jogou-a hesitante dentro da banheira já quase cheia. 

Entrou lentamente no banho, resgatou a jóia e a prendeu na mão direita, fechou os olhos e deixou a água cobrir a cabeça. 

Imitando uma folhinha de palma, o pingente trazia um nome gravado no ouro, agora submerso junto às lembranças. Mas o nome não mais importa, quando a história chegou ao fim.

sacharuk 



Futuro da nação



Futuro do nação

“Tá vendo aquele lá, o carequinha? É filho do Sidnei. Entrou numas de ser do tipo "certinho" mas só levou na cabeça. Virou monge. Uma vergonha para a pobre família. É nisso que dá educar o guri com frouxidão. Gente assim não vai para frente. Já tem idiotas demais nesse país. Educação, Sacha. Educação é o xis da questão. E da falta dela, felizmente, os meus não padecem.

O Mateusinho, meu filho de oito anos, já disse para mim e para a mãe que quer ser criminoso quando crescer. Já me enche de orgulho desde pequenino. Mas não quero que ele seja criminoso que nem eu, que tive pouca oportunidade na vida. Quero que ele se desenvolva para algo maior, mais gratificante e que ele possa ser um bandido muito orgulhoso do que faz. Imagina, Sacha, se ele chega a deputado federal? Ou senador? Presidente já nem quero, pois o garoto iria ficar muito visado pelos invejosos. Prefiro que ele se conserve num nível mais intermediário no qual ele possa exercer a arte da falcatrua por muito tempo. Ele ainda vai me dar muita alegria.

É de guris como o Mateus que o futuro do Brasil depende. De bandidinho comum esse país já está cheio. Eu educo meus filhos para que eles tenham sucesso! Além disso, quem sabe bem o que quer, aprende como conquistar. Senão, vive correndo e suando para quitar impostos, igual esses fracassados que trabalham. 

Mas monge, igual ao filho do Sidnei, ah, isso o meu Mateusinho jamais vai ser. Que seja pastor, então!”

sacharuk 



tolo homem

tolo homem

sobre os ombros o estigma 
da eterna insatisfação
evitou conhecer o espelho
viveu a suplicar de joelhos
por uma oferta de pão

apenas mais um tolo homem
nem viu que viveu no inferno 
jurou odiar o demônio
logo após contraiu matrimônio
a procriação e o respeito terno

condenado à vida comum
como medíocre enfadonho
por covardia evitou o temor
por pecado sonegou o amor
abraçado ao preceito medonho

nem no Hades sequer no céu
disputaram sua triste presença
tomou o seu rumo a pé
trilhou o caminho da fé
e morreu na indiferença

sacharuk



cova das sinas


 cova das sinas

aberta uma porta
dessas crendices
para qualquer doença
correrão tolices
e desavenças

disseram que a poesia
nalgum certo dia
foi vista morta
tanto inexata
confusa e sepultada
na cova das sinas

que sobrou apenas cinzas
sobrou o nada
no viés das vias tortas
dessa vida que tenta
e retenta
mas nunca ensina

e eu e somente eu
que sou assim meio louco
não conheço o tal deus
nem tampouco
o fiadaputa do diabo

não temo livro sagrado
sequer tridente ou rabo
picho os muros do céu
e do inferno
num rabisco estabanado

um toque terno
de inocência
e certa demência

estou por aí tão soturno
esmagando cabeças
com meus coturnos
num passo vago
sem sentenças
ou pecados

à direita o anjo
toca trombeta
diz que a coisa tá preta
do outro lado

e o insano capeta
fazendo careta
em tom debochado
diz que porta aberta
quando fecha
sempre deixa uma brecha
donde se vê os estragos

sacharuk


nenúfar

nenúfar

se te fazes
-morena-
tão ninfácea
és nenúfar
que se destaca
doutros nenúfares
do grande jardim

se te quero possuir
e espero que sim
escalo as montanhas
alucino nas curvas
total sincronismo
entre a estrada
e o fio do abismo

empresta tuas águas
às minhas chuvas
e às enxurradas
ao olhar de Jaci
a agarrar o firmamento

espero o momento
de beijar-te
morena
de pele tão branca
que fica rosada
ao pordossol ciumento

 sacharuk




estrada de ferro

estrada de ferro

decerto
não és dormente
pelos carris atravessados
no balastro preparado
cascalhos e pedra rolada
de ânimo ausente
pelas ferrovias

trilhos sem atalhos
terrapleno sem sementes
caminhos malfadados
sem beleza ou poesia
pela cama de britas

decerto
não és um hemisfério
a dividir galerias
entre tirafundos cansados
sobre gravilhas
bem cravados
a sustentar o ferro
da rota das vidas

sacharuk




verbos alados

verbos alados

não desejo dizer impropérios
não pretendo ser esmagado
dessa sociedade banido
sem rastro de escrúpulo 
sem um bom motivo

não pedi para ser perdoado
o que  dói não pede remédio
minha fé  não oculta mistérios
meu ministério é o pecado

meu argumento incompreendido
pode partir como raio 
e pode ser lenitivo
porisso é relegado
a um total despautério

para se dizer carece critério
tratar das ideias
 com certo cuidado
não irromper de espírito despido
nem ser tão sincero 
sequer tanto agressivo

vejo que a felicidade 
passeia ao meu lado
não pede verdades
crenças e assédios
no ateísmo tenho refrigério
e encontro meus deuses
nos verbos alados

sacharuk



um dia de sorte

Um Dia de Sorte

Por volta das dezessete, Tomaschevski, o polaco, salta rápido da cama e apoia o pé direito no chão da cabana. Como de hábito, a despeito do sobressalto, faz um movimento reflexo surpreendentemente rápido para desviar a cabeça branca do mastro de sustentação da velha casinha de madeira. Há uns dois meses que o polaco jura tirar aquele pau dali, mas trata a experiência como intervenção divina de um famoso anjo amigo dos “bebuns”. Certo da própria integridade e vigília, atribui a culpa ao esverdeado despertador paraguaio.

─ Hoje sinto o aroma da sorte. ─ Balbucia pelo canto da boca cheia de espuma de sabonete. Logo, vai à sua ritualística meditação instantânea, cujo templo é o vaso sanitário. Momento sublime de carinhoso auto contato. O seu cão, no limite da impaciência, risca com as unhas a porta da cozinha. ─ Saudemos a amizade! Hora de forrar o estômago, se bem que, consideravelmente atrasada.

Enquanto o peludo vadio Platão devora a generosa sobra de arroz e ossos de frango, servida no mesmo prato sujo de ontem, Tom morde um biscoito doce e, com outros na mão, anda de um lado a outro no expediente de organizar a agenda mental.

Já é início da noite e, acompanhado de Platão, encontra a rua. Ao atravessá-la, sente o pedregulho bicudo que cutuca o solado gasto das botas de couro pretas. Platão se lança alegre em direção aos convivas quadrúpedes que se revezam na seletiva vistoria das abarrotadas latas de lixo.

O grande edifício está a pouco mais de dois quarteirões, decerto não se afastará. A proximidade o faz suar pelas têmporas. Lembra do ferro contorcido artisticamente que ornamenta o portão. Dali já pode vislumbrar a escultura metálica emoldurada em concreto e iluminada pela luz do poste torto. Um calafrio de pavor frente a imponência dura, com aspecto sacro. Motivação suficiente para seguir em frente. Hoje é dia de sorte, pode-se sentir o cheiro.

As botas negras são impiedosas contra as folhas amareladas despencadas do jardim urbano. O misericordioso vento noturno assovia baixinho enquanto sacrifica mais algumas folhinhas de salso-chorão, que flanam agonizantes e formam fagulhas cintilantes pelo caminho de cimento e cerâmica.

Bem à sua frente está o portão e o mesmo nó na garganta que experimentou pela manhã, antes de adormecer. É, talvez, o sinal que precede a bonança ou é, apenas, ressaca.

Tom interpela o velho de aparência resignada que se protege da noite numa guarita de madeira nobre e imensos vidros.

─ Por favor, Amanda Ianez. ─ Solicita de uma só vez para evitar o titubeio.

─ A esta hora? ─ Retruca contrariado o cansado recepcionista, enquanto abotoa o suspensório.

─ Por favor...

─ Está bem, meu amigo, não precisa explicar nada. Vou verificar, aguarde um momento, vou prender os cães.

No minuto seguinte o homem retorna trazendo aberto um livro pesado, encadernado em capa preta resistente.

─ Número doze mil, trezentos e vinte e um. É no penúltimo corredor da direita. Deve ser lá no final. O senhor não se preocupe, os cães estão presos.

Um breve e educado agradecimento expresso por um aceno com a cabeça e, vencida a fronteira, avança ao gran finale no fim do corredor indicado.

Enxuga a testa com a mão e lembra da infância na escola estadual, e também da voz grave de sua mãe reclamando da camisa branca sempre suja de terra. E segue-se a veloz apresentação de quadros passados.

Entre esculturas do divino, sente o temor de quem foge dos fardos da existência. Pisa sobre as folhas amarelas e o corredor escuro parece um interminável labirinto em linha reta.

Pensou em todos os colegas, os amigos do bar, que não sentem sua falta e nem sua presença.

Doze mil, trezentos e vinte e um à sua frente. Difícil achar no escuro, não fosse pelo brilho das iniciais A e I gravadas em alto-relevo no bronze. Todas as experiências se elaboram numa síntese que explica o sentido de todas as coisas. Sensação de inteireza acompanhada do medo do que pode ser maior.

Um toque gentil e amoroso de dedos trêmulos sobre o A de bronze, enquanto a outra mão tateia impacientemente o bolso interno do casaco bege. A letra I, mal iluminada pela precária luz que incide da esquerda, não prova da carícia de seu toque.

O último que viu o polaco foi um anjo sacana, que nas horas vagas perambula com bebuns e assemelhados repetindo um velho conselho: “tire o melhor proveito possível dos dias de sorte e pague as velhas promessas”.

sacharuk



sete sinas

sete sinas

sobras são separadas
semeando sua solidão
se sobra sangue são
será sua saúde sarada

seus sonhos serão salvos
sobreviverão solitariamente
seus segredos suportados
sete sinas, secularmente

seus sentidos sustados
serão seriamente serenados
salvo suas solicitudes

seus saberes sabatinados
sutilmente solidificados
serão segregados sem saúde

sacharuk



o sentido da poesia


o sentido da poesia

o que há de belo na poesia?
poucos entendem a sua beleza
se ela não segue a um padrão
sequer se conforma à razão

seja clichê de céu turquesa
ou estrelado de idiossincrasia
um recorte instantâneo do dia
com pouca ou muita certeza

poesia respira e inspira emoção
trajada na lógica ou na abstração
na sua forma revela a fineza
até mesmo se acalma na rebeldia

poesia que brilha na ousadia
e nos encantos da delicadeza
no colo sagrado da construção
onde a beleza apreende a lição

mas ser poeta não põe mesa
então qual o sentido da poesia?
É ser surpreendido algum dia
surpreso com a própria surpresa!

sacharuk




bússola

bússola

queria que tu sudeste
o teu sul
mas tu nordeste
e ainda disseste:
não cutuca meu centroeste
nem depois da minha norte
te contenta com minha bússola

sacharuk

art by Ekaterina Abramova


Pedevalsa e o Último Bolero

Pedevalsa e o Último Bolero 

Pedevalsa, o Milton, foi dançarino. Dos bons. Bem alcunhado pelo viés do talento. Moço bonito de bigode bem feito e um terno bege retro, quando pousava as mãos na parceira certa, aquela que o destino gentilmente lhe presenteara, não carecia mais do que três ou quatro parquetes para a eficácia da performance. Pedevalsa era galã canastrão e beberrão assíduo, mas dançava como nenhum outro. E, ainda moço, venceu mais de dez concursos de dança. Tudo dependia da escolha acertada da partner

Com Cristina venceu o último concurso, aposentou a noite, os sapatos brancos e casou. Trabalhou de ajudante do quitandeiro Helmut para poder garantir a prole. Não foi fácil. Teve de dançar, e muito. 

Hoje Pedevalsa saiu da consulta geriátrica e decidiu visitar o casarão abandonado do antigo "O Sobrado", a casa noturna onde dançou com as mais belas donzelas da cidade. Restavam apenas escombros circundando a pista onde deslizou seus mágicos pés por vinte e um anos. Suspirou fundo, circundou a fina cintura da esperança com seu fino braço esquerdo, e com o direito, segurou a mão da sina para o último bolero. 

sacharuk




nestes prados longínquos


nestes prados longínquos

nestes prados 
que miras longínquos
amigo paisano,
eu já deitei meus achegos
dobrei os meus vincos
acolherei desenredos

logo se devo 
não nego

o porvir é tal pingo
ferrado nos pregos
se fez espírito amanonciado
se vai a la cria
deitando a crina no minuano
trotando vadio haragano
para descansar sobre os prados

quando se toca a vacaria
no compasso de cantoria
ou poesia das grotas
descreve o sul com amor
versos livres de pajador

já reservei a fatiota
e uma pilcha engomada
pois vá que na próxima invernada
o inferno reclame o gaudério

a morte não guarda mistério
mas leva rumo tramposo
que derruba e nunca dá pouso
vitória e nem refrigério

se xerenga ficar minha sina
decerto depois se ilumina
no clarão guasqueado
que acende o boleio riscado
do estalo das três marias

e mais dia menos dia
não rende segurar o tranco
se a morte desce o barranco
e vem declamar poesia

sacharuk



a princesa do sul


a princesa do sul

amei-a no vale dos sonhos
na tarde de sexta-feira
num cochilo na cadeira
sonhei com seus olhos risonhos

finos traços de princesa
cabelos negros formavam espirais
única herdeira do amor dos seus pais
a sucessora da realeza

naquele vale havia uma aldeia
logo no centro do bosque encantado
onde a sorte daquele reinado
era manipulada pela feiticeira

sob o agouro de má tentativa
a magia negra no bosque vingou
não restaram esperanças vivas
porém a bela princesa escapou

e passaram-se dezesseis anos
quando logo tornou-se rainha
e sem apoio reinou sozinha
aos duros desígnios dos arcanos

mas num certo dia teve a visão
de uma deusa envolta num manto
que prometia quebrar o encanto
se a princesa beijasse o chão

a terra sedenta ofertou as mercês
o abraço materno envolveu-a ao colo
o encanto sombrio quebrou-se de vez
quando seus lábios tocaram o solo

o céu em festa recobrou seu azul
o velho pampa tornou-se cidade
digno recanto de felicidade
foi batizada Princesa do Sul

e nos meus sonhos eu quero
voltar sempre para a aldeia
à margem da praia espero
 a linda  princesa beijar lua cheia

sacharuk



mucama


mucama

mucama serve aconchegos
às clausuras do castelo
observa pela janela
pássaros poisam singelos
sobre o fio do horizonte

ela estende a cama
saudade rompe passagens
nas corredeiras dos rios
solidão canta vazios
tal sinfonia vienense
na igreja de Santa"Ana

tanto frio sente a mucama
tanta tristeza pertence
amor rebrota em nascente
sempre que emerge derrama

sacharuk



pela palavra

Pela Palavra 

É somente o uso da palavra que garante um pequeno grau de distinção entre as pessoas e os outros bichos. 

Quanto a mim, a timidez me confinou à eterna tentativa de domar meus instintos, enquanto Aristóteles assombrava com aquela ideia de animal político. E eu não encontrava tanta politicidade em minha animalidade.

Ainda questiono minha capacidade de integrar uma sociedade e constituir um Estado. É a palavra o único acesso que tenho ao mundo das pessoas... Por ela sou facilmente influenciado e posso tentar influenciar. É ela que me faz distinguir o meu bem do meu mal e disfarçar a imoralidade. Modelo o pensamento seguindo signos confusos que gritam no meu cérebro. Mas, o mais significativo, é que pela palavra invento alcunhas aos meus sentimentos e valores (quais?), e assim, faço uma bruta distinção entre as coisas e selo suas diferenças. Todos precisam de rótulos para ser animal político. 

Fico aqui, navegando no mesmo barco que Rousseau: não sei se preciso pensar para encontrar as palavras ou encontrar as palavras para pensar. Tudo no meu mundo é tão abstrato que só toma forma quando eu falo, quando escrevo... e se não falo ou escrevo, me escondo. 

Penso que toda essa complexidade se sintetiza num ser vivente, do tipo social, revestido da textura material das palavras e, invariavelmente, mal compreendido. Como escreveu Lispector: "Inútil querer me classificar... eu simplesmente escapulo... gênero não me pega mais..." 

Toda linguagem não dá conta dessa abstração. A brincadeira com os clichês me conduz ao entendimento dos rótulos. E na minha poesia, ingênua e simples, eu posso alcançar alguma catarse. E com ela ainda permito a expressão da animalidade. E nem gênero, espécie ou Aristóteles me pegam mais. 

sacharuk



brisa leve

brisa leve

janela aberta
ora sou vento e invado
corujo toco e acarinho
ela gosta

ora eu sorrio
ela delicada
sussurra coisas
ao pé do meu ouvido
de encantos
quentinhos

brisa leve
sopro de vida
faz cantar passarinho
essência adornada
sopra pétalas
pelo caminho
de chão colorido

ora sou rio
ela delicada
revolve as águas
inverte os sentidos
e eu canto
baixinho

brisa leve
sopro de vida
faz cantar passarinho
essência adornada
sopra pétalas
pelo caminho
de chão colorido

sacharuk



colírio

colirio

se desejas ver poesia
cata um pingo da próxima chuva
              numa garrafinha de vidro
deixa lá
      ‎luzindo tal vagalume
      ‎junto ao luar
  ‎
  ‎logo após
verte gotinhas faiscantes
      ‎na secura do teu olhar

sacharuk



usa os dentes


usa os dentes

usa os dentes
marca-me a carne
saliva e batom
meu prazer é teu dom

sê o cárcere
dos desejos urgentes
shakespeareana eloquente
a recitar-me com classe

perde o tom
provoca aflição
aniquila-me num passe
da tua magia impaciente

usa os dentes
que a pele esgace
dor arrepio frisson
língua garganta e mão

sê o ápice
de um gozo insurgente
apara delicadamente
ao explodir-te na face

sacharuk



cúmplice do teu alívio

cúmplice do teu alívio

por ti abri uma porta
e somente isso importa
já que pedias passagem
desliguei os benditos botões
mandei o ar dos pulmões
soprarem tuas asas
 leveza para a viagem
rumo à nova morada

lancei-te à própria sorte
no lapso do último corte
soltei a tua ancoragem
e isso baixou a pressão
que forçava o teu coração
a bater sem palavras
sem ritmo e sem emoção
bater a troco de nada

foi assim que tentei
aliviar ao teu sofrimento
e também ao meu
quando disseste amém
logo eu disse adeus

sacharuk




a fertilidade das ideias


a fertilidade das ideias

plantarei sementes 
em teu crânio
vingarão flores belas
visto que adubo já tem


sacharuk



escombros

escombros

o que restou
do nosso universo
não enche um verso
o que importa?

na velha casa
não há mais porta
só escombros e marcas
morreram os campos
e também nossas vacas

tudo o que vemos
distante uma milha
da janela vazia
é a árvore aflita
no alto da coxilha
reinando solita

nela amarrei a razão
para viver da lembrança
daquele bendito dia
que entre chuva e vento
nasceu a nova poesia

se há outra vida
do lado de dentro
eu não sei
e lamento
prefiro ficar aqui fora
no rincão que provei
teus lábios doces de amora

sacharuk





hipotenusa

hipotenusa

o traço da mi'a vida hipotenusa
nas rimas mal inclusas nos sonetos
que passa por quartetos dor difusa
na rota que recusa o ângulo reto

e no vértice aberto está intrusa
a escrita que desusa o obsoleto
quadrado dos catetos soma escusa
a linha que acusa o longe e o perto

nem sempre que aperto parafusa
sequer encontro musa nos tercetos
nem sempre que eu tento sou esperto

nos versos encobertos jaz confusa
a letra inconclusa pelos ventos
traduz seu comprimento em dialeto

sacharuk



meu intento

meu intento

não estou para falar de amor
se ele ainda não dói
nem rói
nem pede flor

não há flores na minha poesia
as arrancadas são mortas
são decoração de sepultura
meu poema é heresia

conheço esse tal de amor
não encontrei deus algum
e amor e deus
até podem ser compatíveis
mas não dependem um do outro
o único ponto em comum
eles não são invencíveis

não falarei de coisas
que desconheço
pois o meu apreço
é pelo amor que sinto
e não devo a uma criatura
que o senso comum insinua
e minha cabeça não atura

minha escrita é a riqueza
que colho do meu presente
mesmo que seja inventado
pois poeta mente
mas não se faz ausente
e eu não vivo de passado
nem me dedico à tristeza
só quando fico parado

grito contra o que abomino
e não suporto determinismo
minha ferramenta é o poema
e meu alvo é o sistema

sou tipo existencialista
meio insano
meio analista
falso moralista
talvez sartreano
tenho a marca da história
todo gaúcho é artista
e sou pampeano
com muita honra e glória

sou amigo da filosofia
e esta não é feita de fadas
nem gnomos e crenças
nem de almas penadas
ou universais desavenças

eu vim aqui escrever poesia
e isso para mim
não é só brincadeira
pois no fim
o que consome energia
é o abre e fecha
da porta da geladeira

sacharuk





princesa de areia

princesa de areia

ela era a princesa
do reino da freguesia
e seus dotes de musa
orgulhavam a realeza
que a mantinha reclusa

eu a observava de cima
sobre castelos de areia
 sempre lá estava ela
a mais linda donzela
de toda a aldeia

eu a olhava disperso
entre o dia e a ceia
ela lia meus versos
entre a ceia e o dia
trocávamos poesia

quisera jogasse tranças
tal a linda Rapunzel
eu teria mais esperança
de tirá-la dessa cadeia
da mente que devaneia
em mundos de papel

sempre a vejo
tal fosse uma Cinderela
talvez a princesa Bela
aguardando adormecida
que o amor do meu beijo
restitua sua vida

sacharuk






não estou para falar de amor se ele ainda não dói, nem rói, nem pede flor. Não há flores na minha poesia, as arrancadas são mortas, são decoração de sepultura. Meu poema é heresia. Conheço esse tal de amor, não encontrei deus algum e amor e deus até podem ser compatíveis mas não dependem um do outro, o único ponto em comum: eles não são invencíveis. Não falarei de coisas que desconheço, pois o meu apreço é pelo amor que sinto e não devo a uma criatura que o senso comum insinua e minha cabeça não atura. Minha escrita é a riqueza que colho do meu presente, mesmo que seja inventado, pois poeta mente, mas não se faz ausente, e eu não vivo de passado nem me dedico à tristeza, só quando fico parado. Grito contra o que abomino e não suporto determinismo. Minha ferramenta é o poema e meu alvo é o sistema. Sou tipo existencialista meio insano, meio analista, falso moralista, talvez sartreano. Tenho a marca da história. Todo gaúcho é artista e sou pampeano com muita honra e glória. Sou amigo da filosofia e esta não é feita de fadas, nem gnomos e crenças, nem de almas penadas ou universais desavenças. Eu vim aqui escrever poesia e isso para mim não é só brincadeira, pois no fim, o que consome energia é o abre e fecha da porta da geladeira.