A poesia delira ao diapasão e, logo, intenta aos acordes da lira. Poesia que tanto descreve saliva de beijo, bem como a imagem do pensador com o queixo poisado nos dedos. Poesia pode andar no eixo para não ouvir queixa, mas pode andar fora e criar desavenças. Há poesia das crenças, poesia do lixo, poesia pretensa, poesia das gentes, poesia dos bichos. Ela é o amálgama do mundo, verte por tudo. É ofício dos nobres, sedução dos espertos, marofa dos pobres e sina dos vagabundos. Também vive escondida na língua dos analfabetos. Poesia é isso tudo e mais outro tanto, no entanto, poesia não é absurdo. Absurdo é querer-se mudo; absurdo é querer-se surdo; absurdo é querer-se cego. (Tudo e mais outro tanto - sacharuk)

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segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Restituição de bagagem

 Restituição de bagagem

No saguão do terminal 2 do aeroporto, o casal apressado para diante da grande tela eletrônica que reveza publicidade bancária com as informações pertinentes ao desembarque dos voos. A mulher veste confortável traje esportivo e traz uma menina de cinco anos pela mão firme. Logo, o homem encaminha-se calado até a esteira de número seis, onde malas de diversas cores e tamanhos desfilam e exibem etiquetas brancas aos seus prováveis proprietários.

A mãe e a criança agora escolhem chocolates na loja próxima ao portão de saída, enquanto o homem acompanha atentamente o passeio caleidoscópio das malas,  até que no súbito, estende a mão esquerda em direção à alça da mala amarela encardida que se exibe logo à sua frente. Ao mesmo tempo, outra mão impetuosa, ornada de anéis delicados e unhas vermelhas, tenta alçar sem sucesso a mesma mala. O disputado objeto escapa às vontades e segue seu trajeto mecânico, ao passo que os olhares surpresos dos dois interessados se entrecruzam. Suas faces sorriem constrangidas. O homem balbucia uma palavra curta e a mulher responde com outra.

Andando sem graça, afastam-se alguns poucos metros.

Quando o mecanismo retorna a mala encardida, a mulher decidida a pega com rapidez e se retira guiando-a sobre as rodinhas e batendo ritmadamente os saltos sobre o mármore.  O homem, que já não atenta à esteira, hesita por um instante e depois a segue.

Ele não demora a reencontrá-la frente ao táxi, ao fim de uma curta faixa de pedestres. Ainda distante, parece chamá-la dizendo algo e acenando brevemente. Aproximam-se e olham-se demoradamente. Quando ele quer iniciar a dizer algo, as pontas vermelhas de dois dedos pousam sobre seus lábios que, imediatamente, se calam.

Ela empurra a mala para dentro do táxi, embarca e parte, enquanto ele a observa se afastar.

 De volta à esteira, ele observa estático uma única mala passando à sua frente repetidas vezes. A mãe e a menina brincam no saguão.

sacharuk

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