A poesia delira ao diapasão e, logo, intenta aos acordes da lira. Poesia que tanto descreve saliva de beijo, bem como a imagem do pensador com o queixo poisado nos dedos. Poesia pode andar no eixo para não ouvir queixa, mas pode andar fora e criar desavenças. Há poesia das crenças, poesia do lixo, poesia pretensa, poesia das gentes, poesia dos bichos. Ela é o amálgama do mundo, verte por tudo. É ofício dos nobres, sedução dos espertos, marofa dos pobres e sina dos vagabundos. Também vive escondida na língua dos analfabetos. Poesia é isso tudo e mais outro tanto, no entanto, poesia não é absurdo. Absurdo é querer-se mudo; absurdo é querer-se surdo; absurdo é querer-se cego. (Tudo e mais outro tanto - sacharuk)

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segunda-feira, 28 de setembro de 2020

A leonina

A leonina

Tão logo a primeira tormenta da primavera deu trégua, a camareira do Hotel Campanile não desejou voltar para casa e preparar o jantar para Jonathan. Preferiu percorrer a alameda do parque Stanton. Seguiu alternando os passos revestida de tanta verdade que pouco percebeu as adoráveis árvores caprichosamente dispostas à margem ou seus sapatos lamacentos que chafurdavam nas poças. Egocêntrica, Melissa percebia-se pouco capaz de quedar-se à paixão. Confusa, ainda que satisfeita, arqueou o cantinho direito da boca cor-de-rosa desenhando um meio sorriso divertido. Até mesmo aos intuitivos e determinados, essas estranhas malhas que o destino tece envolvem surpresas. Ela que, invariavelmente, reluta em perder seu tempo aos estados depressivos da alma, rende lealdade aos próprios sonhos, somente a eles é devedora. Esse sentimento tão avassalador é artefato muito raro, então soltou os cabelos. Desejou experimentar o vento que mesclou os fios negros e cacheados aos brancos que sobressaiam tal tímidos intrusos. A indiferença é cansativa e Melissa a odeia. Permitiu que a longa saia voasse livre e descobrisse uma deliciosa porção das coxas morenas. Não importaram as consequências. Ela que jamais teme ser impulsiva, não cedeu às duras penas da mentira. 

Ao final da alameda há o córrego. Foi lá que a mulher afogou suas razões no calor úmido de uma boca. Sentiu a indiferença dissipada ao aperto firme das mãos que pousaram sobre suas nádegas. Não havia tempo a perder. 

sacharuk



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