A poesia delira ao diapasão e, logo, intenta aos acordes da lira. Poesia que tanto descreve saliva de beijo, bem como a imagem do pensador com o queixo poisado nos dedos. Poesia pode andar no eixo para não ouvir queixa, mas pode andar fora e criar desavenças. Há poesia das crenças, poesia do lixo, poesia pretensa, poesia das gentes, poesia dos bichos. Ela é o amálgama do mundo, verte por tudo. É ofício dos nobres, sedução dos espertos, marofa dos pobres e sina dos vagabundos. Também vive escondida na língua dos analfabetos. Poesia é isso tudo e mais outro tanto, no entanto, poesia não é absurdo. Absurdo é querer-se mudo; absurdo é querer-se surdo; absurdo é querer-se cego. (Tudo e mais outro tanto - sacharuk)

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segunda-feira, 28 de setembro de 2020

A leonina

A leonina

Tão logo a primeira tormenta da primavera deu trégua, a camareira do Hotel Campanile não desejou voltar para casa e preparar o jantar para Jonathan. Preferiu percorrer a alameda do parque Stanton. Seguiu alternando os passos revestida de tanta verdade que pouco percebeu as adoráveis árvores caprichosamente dispostas à margem ou seus sapatos lamacentos que chafurdavam nas poças. Egocêntrica, Melissa percebia-se pouco capaz de quedar-se à paixão. Confusa, ainda que satisfeita, arqueou o cantinho direito da boca cor-de-rosa desenhando um meio sorriso divertido. Até mesmo aos intuitivos e determinados, essas estranhas malhas que o destino tece envolvem surpresas. Ela que, invariavelmente, reluta em perder seu tempo aos estados depressivos da alma, rende lealdade aos próprios sonhos, somente a eles é devedora. Esse sentimento tão avassalador é artefato muito raro, então soltou os cabelos. Desejou experimentar o vento que mesclou os fios negros e cacheados aos brancos que sobressaiam tal tímidos intrusos. A indiferença é cansativa e Melissa a odeia. Permitiu que a longa saia voasse livre e descobrisse uma deliciosa porção das coxas morenas. Não importaram as consequências. Ela que jamais teme ser impulsiva, não cedeu às duras penas da mentira. 

Ao final da alameda há o córrego. Foi lá que a mulher afogou suas razões no calor úmido de uma boca. Sentiu a indiferença dissipada ao aperto firme das mãos que pousaram sobre suas nádegas. Não havia tempo a perder. 

sacharuk



domingo, 20 de setembro de 2020

Insights do China - A infância de Erico Zambini num colégio de padres - Véio China em www.inspiraturas.org

 

Insights do China - A infância de Erico Zambini num colégio de padres -

Estava com oito anos e a separação de papai e mamãe resultou num grande pequeno problema: o garoto Erico Zambini.

Sim, inegável, o pequeno Erico era terrível, destruidor nato, desses que deixam marcas dos pés no teto e que quebram todos enfeites e duas camas num único dia ao se imaginar o Gilmar dos Santos Neves, goleiro da seleção numa partida decisiva. E para ele não havia coisa mais fácil que quebrar camas, e para isso atirava a borracha escolar contra a parede do quarto e no retorno atirava-se à cama na tentativa de agarrá-la, evitando assim o gol dos adversários. Evidente, com isso o remetemos a 1962 e um dia de euforia – Brasil x Espanha -  Naquele início de tarde e com a rádio-vitrola ligada no último volume e com a narração de Pedro Luís, muitas vezes o pequeno Zambini evitou os gols da "Fúria" às custas das camas que quebrou,  sua e de sua mãe. Evidente, pés e estrados arreados procurou se esconder da outra fúria, a da sua mãe. Sim, correu para o quintal ao ouvir o ranger do portão de entrada, anúncio que a genitora retornava de mais um dia de árduo trabalho. Ufa, alívio, ela inspecionou a casa, viu as camas destroçadas e ele não apanhou, e nada aconteceu! Simplesmente gritou o seu nome, mas pela tonalidade  da voz já sabia que não apanharia. Com ela sempre fora assim; ou batia na hora ou não batia, e se não batia exercia o jogo das pressões psicológicas, além é claro do habitual e ameaçador chinelo na mão; Ah garoto se te pego....Ah se te pego, garoto.. - Ela sempre ameaçava.

Óbvio, mesmo diante da destruição e do seu aborrecimento com o filho se viu nela um certo alívio, enfim, não só dela mas da nação brasileira, pois tanto ela como o povo deve ter feito as mesmas defesas que o malandro na vitória suada e de virada por 2 x 1 contra os espanhóis   E talvez ela também se recorde que voltando para casa presenciou a branda comemoração e os discretos gritos dos torcedores que,  com seus pequenos rádios de pilha vibraram com o  triunfo canarinho (Era uma época de manifestações discretas, literalmente diferentes aos dias de hoje) Contudo e alguns jogos depois e aí com algum estardalhaço o Brasil se tornaria o bicampeão mundial nas terras de Pablo Neruda. E foi um título festejado e às custas principalmente de Amarildo e Garrincha, este último aclamado como o deus da copa (Pelé esteve ausente ao se machucar no segundo jogo da fase inicial).

Depois disso a vida caminhou num mesmo patamar até que no início do ano de 1963 veio a surpresa: Liceu Nossa Senhora Auxiliadora - Mais conhecido por Liceu Salesiano de Campinas – Um colégio com sistema interno e dirigido por padres.

E para lá ele foi enviado para cursar o 3º ano primário e o seu tempo naquele internato durou até o início de 1965 quando definitivamente se despediu dos padres, os quais aprendeu a gostar e respeitar.

Porém o pequeno Erico não estava acostumado à excelência e nem às austeridades dum sistema rígido e assemelhado ao dos quartéis onde talvez  a exceção fosse a negra batina assumindo o lugar das insígnias e do uniforme verde oliva..

Entretanto ali ele aprendeu muitas coisas e um pouco de tudo, assim como o latim (o rezado nas missas)

E a sonoridade desta língua tão curiosa e principalmente acentuada aos finais "um e  ium" - lhe trazia  problema tanto quanto aos seus infantis joelhos que se condoídos  às 7 horas de todas as manhãs ao enfrentarem uma missa jamais inferior aos 80 minutos.

Consequentemente suas rótulas se tornavam doloridas e queimavam, pois mais de 3/4 da missa eram consumidos com os alunos ajoelhados, inclusive à hora do sermão. Um pouco mais tarde a Igreja Católica percebeu que o ato mais sugeria imolação, e assim determinou para todos um maior tempo sentado, o que fatalmente alegrou as nádegas de milhões de fiéis.

Ali também ele se tornou coroinha num processo seletivo; os melhores alunos se tornavam os escolhidos, e o quê para os padres se traduzia merecimento, para os alunos, evidente, um alívio, pois era a certeza  de ouvirem o sermão sentados, mesmo que num desconfortável banco de madeira de três lugares.

Foi lá também que pela primeira vez sentiu vontade de roubar. Sim, leram corretamente: Roubar. Não, não se tratava de surrupiar dinheiro, o tênis do armário do vizinho ou lesar algum amigo na contagem dos pontos numa partida de ping pong ou de pebolim. Não, definitivamente não eram essas as questões e o que corroía o pequeno Zambini era a obsessiva intenção de profanar o vinho do padre, talvez induzido pelas tentações dum demônio que vez ou outra dava as caras apesar de todas as rezas.

E o vinho esteve em suas mãos assim como o jarro de vidro imitando o cristal, líquido que os padres guardavam como quem esconde diamantes, pois o óbvio; havia outros pequenos e ávidos olhares. E a verdade é que fascinado pela a peça o líquido encarnado esteve em suas mãos e a intenção de emborcar um longo gole se manifestou, porém, repentinamente se sentiu vigiado como se olhos pudessem estar vendo além de sua alma. Assustado olhou para todos os lados e não havia a presença humana, portanto, aqueles olhos só poderiam ser de Deus, a quem nada escapava. Hoje e bem mais velho e experiente o Erico Zambini confessa sem medo de retaliações religiosas que, se aquele vinho fosse na Universal do Reino de Deus teria bebido e se embriagado, e não teria medo do inferno, do diabo e muito menos de estar lesando a propriedade privada de Deus.

Porém o mesmo do abatimento moral à frustrada intenção de profanar o vinho jamais ocorreu com as sagradas  hóstias. E talvez assim tenha sido pela descoberta que elas eram fabricadas por uma grande panificadora local. Sim, estava ali no rótulo das embalagens. A princípio foi choque para os seus olhos cristãos, não havia nada de sagrado ali, e o apropriar-se de algumas unidades provavelmente não constituiria  sacrilégio, afinal não se tratava de  manah ofertado pelos céus, mas sim apenas mercadorias como outras quaisquer, tais quais as latas de sardinhas ou os pacotes de salsichas que eram fervidas e servidas com pãezinhos no café da manhã. E relembra das tantas vezes que foi incumbido de buscar as hóstias e a bordo de uma sacola de lona com algumas frases em latim e uma enorme cruz. Nessas ocasiões ia tratar do resgate das hóstias com o cozinheiro chefe (sim, somente o chefe tinha autorização de entregá-las). Por vezes Erico não o achava tão facilmente e o procurava pela imensidão duma cozinha industrial e o encontrava por entre fogões enormes e panelas tão altas que certamente teriam mais da metade da sua estatura. E ele acomodava as hóstias na sacola santa e era tão excitante vê-las adormecidas em sacos plásticos transparentes, onde talvez coubessem 300 ou 400 unidades. E a excitação dava lugar à compulsão e ao sair da cozinha o furto se manifestava diante a fragilidade do lacre das embalagens. E de olhos vivos como se fosse um agente secreto procurava por cantos ermos e retirava de uma das embalagens 10 ou 15 unidades   e ainda mais porque sabia que o Padre Conselheiro jamais daria pela falta. Contravenção confirmada ele as escondia num lenço e as colocava dentro do armário, afinal era muito bom comê-las com uma margarina Claybom, que não por coincidência também se encontrava dentro (Sim, aqui duas confissões; a margarina sempre foi objeto dos seus lépidos dedos, assim como jamais serviram a verdadeira manteiga à mesa do café). Entretanto todo delito deixa vestígio e cobra um preço, e foi assim que se viu obrigado a dividir com o vizinho de dormitório o lucro das suas pequenas trapaças, já que Valtinho o pegara com a boca na botija, melhor dizendo, com a boca nas hóstias. Ele jamais vai se esquecer que a chantagem ocorreu numa tarde de violenta tempestade e de obrigatório confinamento nos dormitórios.

É bom que se diga: Nesse colégio Erico Zambini aprendeu coisas fantásticas além do latim, a educação e o gosto por estudar com afinco. Sim, ali ele aprendeu a jamais ser um dedo-duro e entregar um amigo, fosse o preço que fosse. E tanto que recorda das ocasiões em que ficou de castigo e com os braços voltados para trás tocando as colunas do pátio por não ter dedurado a arte de um colega. Claro, os padres jamais acreditariam em evasivas do tipo “não sei, não vi, não estava aqui" respostas que invariavelmente indicavam lealdade com os amigos. Hoje ele se recorda do fato e sorri. Sim, havia ali um código de honra mantido entre os bons garotos da divisão dos MENORES (entre 7 e 10 anos) e os que assim não procediam não tinham o respeito e a consideração dos demais. E novamente ele sorri, pois era bem provável que Deus não visse os alcaguetas com olhos da benevolência.

Ali o garoto também tomou ciência de outras coisas importantes, mas que uma fulminante paixão aos 17 (nove anos mais tarde) o fez abortar o seu sonho em ser um famoso jogador de futebol.  Sim! No Liceu ele aprendeu a ser um ótimo centroavante, o dono absoluto da camisa nove (dum tempo onde o 7 era ponta direita e o 11 esquerda)

E a maior parte dos créditos por ser um bom rompedor de área se deve ao Padre Catequista, já que, sábio, ensinava a ele: “Garoto, jamais abandone a marca do pênalti. Jamais!” O pequeno Zambini, aliás, o "Toureiro" (apelido dado pelos garotos pelo fato de tourear os beques adversários com dribles) aprendeu a lição ministrada pelo religioso técnico, e apesar dos seus excessivos offsides (impedimentos) foi artilheiro de sua divisão por dois anos consecutivos. “Olé, olé, dá-lhe Toureiro!” Incentivam os "menores" e eles vibravam com seus gols diante dos times visitantes. Sim, relembra que o Externato São José  e times de outros colégios vez ou outra apareciam para a disputa de algum jogo ou torneio.

Bem...aconteceram muitas coisas nesse Liceu, mas que provavelmente poderão ser contadas mais tarde. O importante é que aos 11 anos o garoto saiu do Salesiano (numa difícil fase monetária dos pais) e ganhou o mundo e um quarto só para si no apartamento alugado por sua mãe. Sim! Agora havia a intimidade para ser ele, aliás, haveria a privacidade e não somente ele mas também para seus dois ou três discos duns jovens cabeludos que, ganhando o mundo estouravam no Brasil; os Beatles. Já ouviram falar deles? Porém o seu universo não era restrito aos quatro cabeludos de Liverpool, mas também às pernas de Vanderleia e às tardes de domingo na Jovem Guarda. Ali no seu quarto e atrás da porta havia um dos presentes que ganhara do tio e pelo qual nutria adoração; Um enorme pôster do seu Santos Futebol Clube com Pelé em feição de realeza (Sim! Ele podia...ele era o Rei).

E foi nesse ano de 1965 que o garoto da sacristia cursou o “Admissão” no Colégio São Paulo - O que era "Admissão? -  Admissão era um período intermediário e obrigatório entre o fim do curso primário e a primeira série do ginásio.

E o jovenzinho estando em São Paulo fincou base e cursou o ginasial nesse mesmo colégio privado e num bairro chamado Belém.  Além dos mais era uma outra escola católica e a paróquia levava o mesmo nome. Inclusive à época havia por lá um grêmio recreativo para os alunos que se sobressaíssem no futebol (O Brasil de então era unicamente o país do futebol. Havia o basquete, mas poucos se importavam com ele) Bem, o fato é que o menino acabou por se tornar um dos bambambãs da sua classe, e não por ser metido ou gostoso, não, mas simplesmente  por ser bom no futebol e ótimo aproveitamento no aproveitamento escolar, já que a bagagem trazida do Liceu era tão infinitamente superior que, até à 2ª série do ginásio se deparou com matérias que anteriormente passara os olhos.

Mas não era pelo estudo que ansiava, não, não era, queria ir mais além, queria aquilo que pouco lhe legaram; a liberdade. Agora nada queria com as missas, cabelos de corte americano, bermudas escolares ou os ensinamentos religiosos. E sua mudança era tão incontestável que mais nada pedia em suas orações para o antigo ídolo São João Batista. E com o afastamento da religião, inerente foi distanciar-se da fé e agora era outro e se excitava com as mundanices dos garotos de rua e não sentiu qualquer culpa ao folhear num certo dia uma pequena revista tratada por "catecismo". O catecismo referenciado aqui não abordava assuntos religiosos ou os ditames da fé, mas sim de desenhos em quadrinhos que narravam histórias chulas e pornográficas.

Sim!  Estava ali a evidência da força de Satã, e ele trinfou ao usar um colega de classe para levar a imoralidade para a sua vida e para de outros incautos colegas de classe.

Uau! Aquilo sim que era liberdade! Aliás, mais que liberdade, libertinagem! E ele queria voar, ser também o dono de uma fração do mundo, e deixou o cabelo crescer e a franja cair sobre os olhos assim como faziam os garotos europeus. Ele era outro agora, descolado, mesmo que ainda continuasse a curtir pernas femininas no Jovem Guarda, principalmente as coxas loiras e os verdes olhos de Valdirene (aquela do... Sou a garota papo firme que o Roberto falou).  Porém o perfil do Jovem Guarda começava lhe parecer algo produzido para garotinhas histéricas e ele se irritava com os gritinhos de "Aii Roberto ou, Erasmo, você é um pão!" e   então se esqueceu do programa e à medida que seus cabelos cresciam queria e cada vez mais que o tivessem por um "beatlemaníaco"  uma espécie de Paul McCartney tupiniquim. Personalidade assumida, agora não podia voltar atrás e atormentou a sua mãe até ganhar as botas negras semelhantes às de George Harrison. E era com elas que ele se sentava às escadarias da paróquia numa tentativa de impressionar às meninas à saída do turno da manhã. E se munia de pose e chacoalhava a cabeça até a franja incomodar os seus olhos e insistia ao seu jeito na canção "A hard Days Night" um estrondoso sucesso dos novos reis do iêiêiê cantado nos quatro cantos do planeta. Algumas simplesmente não se davam conta da sua existência, outras, se mostravam tão curiosas que passavam rente a ele para escutarem os seus estralo de dedos marcando o compasso e a sua voz absurdamente desafinada  "Itis bim â rard dêis náite"  ele cantava num idioma que nem mesmo sabia o qual.

E elas apenas riam e ele sorria e a existência se mostrava cada vez mais interessante e cheia de coisas por conquistar. E agora ele, Zambini, era o máximo ao negociar a sua bicicleta Monark em pandarecos por uma jaqueta de couro negro com um dos amigos de rua, uma quase igual à que Marlon Brando usou no filme "O Selvagem".

E Erico sentia que parte do mundo lhe cabia e andava pelas ruas, liberto, cão sem coleira, e não mais como um boi a caminho do matadouro, como nos passos que lhe eram ditados dentro dos muros do Salesiano.

E essa nova atmosfera o excitava e os garotos do colégio São Paulo o estimulavam e por lá as coisas aconteciam e estavam acontecendo sempre, inexplicáveis e até explicáveis como as belas pernas e o estupendo bumbum curvilíneo de dona Eunice, sua professora de religião.  Quanta ironia, Zambini! Justamente uma criatura temente a Deus teria que ter uma bunda daquela? E o par de nádegas colocou Erico à prova e foi por culpa dele (apesar de ela jamais saber) que aprendeu a se masturbar. Lembra-se de como foi e que aquilo se iniciou com o amigo Desidério, dois anos mais velho que ele. Parece que ainda consegue ouvi lo: “Faça assim com o teu pau: Pra frente, pra trás, pra frente, pra trás e bastante rápido que vai te dar um treco gostoso e logo a coisa vem” - Ele explicara. Recorda também de ter perguntado ao Desidério: “A coisa que vem é aquela coisa branca?” - Lógico, mais que nunca ele tinha que dar a impressão que sabia mais ou menos das coisas, que era um cara entendido, afinal, ele conhecia até catecismo. O amigo o olhou aturdido e respondeu na lata: “Que coisinha branca, xará? Aquilo é porra! Tá me entendendo, cara? Aquilo tem o nome de porra, seu bosta!”

Bem, com a explicações na cabeça e o tesão nas pontas dos dedos lá se foi o Zambini para uma nova experiência, já que antes da descoberta  acreditava que  a curtição fosse apenas a ficar folheando as tais revistinhas para ficar de pênsis ereto, assim como  ficava  nas noites que revivia os justos vestidos e a região glútea da professora de religião. Porém foram necessárias algumas sessões para aperfeiçoar-se nos macetes da masturbação, pois nas primeiras vezes o Junior (assim denominou o seu pênis) ficara ereto e dolorido e nada mais. Recorda-se em que nada acontecendo voltou ao amigo Desidério e esse persistiu incentivando - “Tem que insistir, cara! Pressão na mão e pra frente, pra trás, sem parar” – Por fim e por sua feição de quem não estava compreendendo como o amigo não assimilara algo tão simples perguntou se estava fazendo de forma que ensinara, ao que Zambini respondeu: - “Claro, Dério! Pra frente e pra trás, tipo ioiô, vai e vem” – O amigo Desidério olhou e riu -  “É isso aí cara, tipo ioiô! Pressão nos dedos e jeito na munheca e tu vai ver que o lance é mais fácil que saber cantar “A hard   Days Night" acredite!  - Ele ouviu atentamente o amigo e naquele dia daria tudo o que tinha para se chamar Desidério, afinal, o amigo além de ser um bom de punheta, ainda sabia cantar "Itis bim â rard dêis náite” corretamente.

O certo é que as nádegas da professora Eunice continuavam mexendo com o forasteiro, e o "Pra frente, pra trás" ainda não vingara até que pela 7ª ou 8ª vez  aconteceu e subiu pelo seu corpo um calor tão intenso e  inexplicável que ele pensou que aquilo era melhor que ouvir os discos dos Beatles e dos Stones. Depois da sensação de quentura algo espirrou tão prazeroso que acabou por se viciar naquilo. Aliás, vícios estavam se tornando a sua especialidade, e não raras vezes pedia dinheiro  à sua mãe, mas não eram  os sonhos ou tortinhas de morango (sua alegação) que comprava na padaria, ao contrário, atravessava a rua para adquirir no Bar do Joaquim unidades isoladas de cigarros da marca Consul, mentolado. Recorda que certa vez quase que dona Eunice o flagrou fumando um daqueles, ocasião que se rapidamente se escondeu ao se abaixar atrás de um Jeep numa rua próxima da escola.   Ah se dona Eunice soubesse dos cigarros e das suas "tocadas"... estaria perdido. Porém hoje, decorrido um pouco menos de meio século Erico Zambini presta loas e se recorda perfeitamente de cada detalhe da feição de dona Eunice, além do seu glorioso traseiro, óbvio. E ele sorri, afinal Eunice foi a mulher das primeiras sensações, e como sempre dizem; A primeira mulher jamais se esquece.

Enfim, retornando àquele tempo, e no decorrer daquele ano o jovem Zambini acabou por se tornar um bróder, enturmado e cheio das nove horas. E como era bom de bola foi arregimentado para a Cruzada do Colégio São Paulo, o grêmio esportivo que funcionava no subsolo da própria Paróquia. Ele relembra que na sede havia jogos como o de pebolim, ping pong, botões, dominó, mini bilhar e até o Banco Imobiliário, e tudo para manter unidos os melhores jogadores das duas classes de Admissão existentes no colégio.  Claro, eles jogaram muitas partidas, pois oficialmente havia um único time que representava o colégio no Salão da Criança (Pavilhão do Ibirapuera). E esse time era justamente o dele, já que o torneio era disputado por garotos na faixa etária dos 11 aos 12 anos. Antes de iniciar o torneio o time treinou muito e participou de algumas disputas e foi bem em alguns, apesar de não ganhar qualquer delas. E ele se perguntava: “Será que Deus não está do nosso lado?” – Nunca obteve a resposta, pois provavelmente Deus estava muito ocupado para tão pequenas desimportâncias. E a falta da resposta fez criar nele a sensação que estava sendo punido pelos seus pecados, principalmente àqueles que homenageavam a querida mestra. E tanto acreditou que poderia ser desagravo de Deus que jamais se permitiu comentar o fato com os garotos do time, ´principalmente à época do Salão da Criança, afinal, nos dois anos que participou do torneio o Cruzada São Paulo foram desclassificados próximos às quartas de finais, portanto e  se houvesse confessado achariam o culpado, aquele que não permitiu o avanço.

À época ele pensou muito em toda aquela situação e pretendia voltar a ter fé em Deus, pois sentia que aos poucos ela fugia de sua alma. E as outras das suas questões eram o futebol, os Beatles, Stones e às saias cada vez mais curtas no período matinal.  Logo e por conseguinte  se existisse algum Deus sabia que ele lhe dava a liberdade de atos e o de ser o seu próprio advogado, e jamais seria injusto e não o fora à época do torneio, pois a maior das realidades era que o melhor vencia o Salão da Criança. Justo ou não o fato é que vez por outra a culpa retornava e ele se sentia o peso dos seus crimes e tinha pesadelos e neles os dedos esquerdo e direito pareciam cruéis e apontavam acusadores, como lhe dissessem; Seu devasso, deixe a rabo da dona Eunice em paz - e ele acordava sobressaltado do maldito pesadelo que permitia que dedos falassem. E eles se repetiram duas, três e uma infinidade de vezes e novamente Erico voltava a se preocupar com a opinião de Deus, talvez o Todo Poderoso se aborrecesse com o profano dos seus atos, ainda mais com uma de suas servas. Não! Definitivamente não! Era preciso deixar as nádegas de dona Eunice em paz, então centrou-se em outras professoras, bonitas até, mas não surtia o mesmo efeito, e ele virava para o outro lado da cama e acaba adormecendo. Enfim, pois por mais que quisesse transferir a sua devassidão, sabia, dona Eunice seria insubstituível.

E assim foi por todo tempo que permaneceu no Colégio São Paulo onde cursou até o quarto ano ginasial e sem jamais se livrar do estupendo traseiro da professora de religião. E quem sabe se ela não o esperasse para se casarem num futuro não tão distante? Sim, afinal dona Eunice era solteira.

Que Deus o perdoasse!

 

sábado, 19 de setembro de 2020

poesia primeira

poesia primeira

poesia primeira
parafraseia pássaros
produz palavras pueris
por profissão

prodigioso poeta
pálpebras pesadas
pretas pintadas
piscam por pão
pedacinhos pontuais

poesia primeira
pode pairar prosaica
percorrer parágrafos
paradoxais

poisa plena
pura perplexidade
provê paixão por propósito
plenitude por pertencer

sacharuk

Painting by Ericamaxine Price

O eu outro



O eu outro

Vê o espelho à tua frente. É mágico! Esbelto é o reflexo ao olhar traidor. Quebra-o!

sacharuk

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

DECÁLOGO DO PERFEITO CONTISTA - HORACIO QUIROGA - www.inspiraturas.org

DECÁLOGO DO PERFEITO CONTISTA - HORACIO QUIROGA 

I Crê num mestre – Poe, Maupassant, Kipling, Tchekov – como na própria divindade. 

II Crê que sua arte é um cume inacessível. Não sonha dominá-la. Quando puderes fazê-lo, conseguirás sem que tu mesmo o saibas. 

III Resiste quanto possível à imitação, mas imita se o impulso for muito forte. Mais do que qualquer coisa, o desenvolvimento da personalidade é uma longa paciência. 

IV Nutre uma fé cega não na tua capacidade para o triunfo, mas no ardor com que o desejas. Ama tua arte como amas tua amada, dando-lhe todo o coração. 

V Não começa a escrever sem saber, desde a primeira palavra, aonde vais. Num conto bem-feito, as três primeiras linhas têm quase a mesma importância das três últimas. 

VI Se queres expressar com exatidão esta circunstância – “Desde o rio soprava um vento frio” -, não há na língua dos homens mais palavras do que estas para expressá-la. Uma vez senhor de tuas palavras, não te preocupa em avaliar se são consoantes ou dissonantes. 

VII Não adjetiva sem necessidade, pois são inúteis as rendas coloridas que venhas a pendurar num substantivo débil. Se dizes o que é preciso, o substantivo, sozinho, terá uma cor incomparável. Mas é preciso achá-lo. 

VIII Toma teus personagens pela mão e leva-os firmemente até o final, sem atentar senão para o caminho que traçaste. Não te distrai vendo o que eles não podem ver ou o que não lhes importa. Não abusa do leitor. Um conto é uma novela depurada de excessos. Considera isso uma verdade absoluta, ainda que não o seja. 

IX Não escreve sob o império da emoção. Deixa-a morrer, depois a revive. Se és capaz de revivê-la tal como a viveste, chegaste, na arte, à metade do caminho. 

X Ao escrever, não pensa em teus amigos nem na impressão que tua história causará. Conta como se teu relato não tivesse interesse senão para o pequeno mundo de teus personagens e como se tu fosses um deles, pois somente assim obtém-se a vida num conto.

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

quid pro quo

quid pro quo

cruzou águas imensas
deitada na sua canoa
desenhou com o dedo
mil promessas
riscadas nas nuvens

havia vazio em seu meio
uma vertigem
certa dor um receio
não era medo
horizonte quebrado
esse vazio tinha nome
tinha cor tinha cheiro
abria sombras aladas
para voar com as garças

ela viu de tão perto
que o nada é o nada
e que todo o nada
esvazia repleto
transborda tão cheio
de vazios incompletos

sacharuk