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A poesia delira ao diapasão e, logo, intenta aos acordes da lira. Poesia que tanto descreve saliva de beijo, bem como a imagem do pensador com o queixo poisado nos dedos. Poesia pode andar no eixo para não ouvir queixa, mas pode andar fora e criar desavenças. Há poesia das crenças, poesia do lixo, poesia pretensa, poesia das gentes, poesia dos bichos. Ela é o amálgama do mundo, verte por tudo. É ofício dos nobres, sedução dos espertos, marofa dos pobres e sina dos vagabundos. Também vive escondida na língua dos analfabetos. Poesia é isso tudo e mais outro tanto, no entanto, poesia não é absurdo. Absurdo é querer-se mudo; absurdo é querer-se surdo; absurdo é querer-se cego. (Tudo e mais outro tanto - sacharuk)

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sacharuk escreve em inspiraturas.org

A leonina

A leonina

Tão logo a primeira tormenta da primavera deu trégua, a camareira do Hotel Campanile, dessa feita, não desejou voltar para casa e preparar o jantar para Jonathan. Preferiu percorrer a alameda do parque Stanton. Seguiu alternando os passos revestida de tanta verdade que pouco percebeu as adoráveis árvores caprichosamente dispostas à margem ou seus sapatos lamacentos que chafurdavam nas poças. Egocêntrica, Melissa percebia-se pouco capaz de quedar-se à paixão. Confusa, ainda que satisfeita, arqueou o cantinho direito da boca cor-de-rosa desenhando um meio sorriso divertido. Até mesmo aos intuitivos e determinados, essas estranhas malhas que o destino tece envolvem surpresas. Ela que, invariavelmente, reluta em perder seu tempo aos estados depressivos da alma, rende lealdade aos próprios sonhos, somente a eles é devedora. Esse sentimento tão avassalador é artefato muito raro, então soltou os cabelos. Desejou experimentar o vento que mesclou os fios negros e cacheados aos brancos que sobressaiam tal tímidos intrusos. A indiferença é cansativa e Melissa a odeia. Permitiu que a longa saia voasse livre e descobrisse uma deliciosa porção das coxas morenas. Não importaram as consequências. Ela que jamais teme ser impulsiva, não cedeu às duras penas da mentira.

Ao final da alameda há o córrego. Foi lá que a mulher afogou suas razões no calor úmido de uma boca. Sentiu a indiferença dissipada ao aperto firme das mãos que pousaram sobre suas nádegas. Não havia tempo a perder.

sacharuk




poesia primeira

poesia primeira

poesia primeira
parafraseia pássaros
produz palavras pueris
por profissão

prodigioso poeta
pálpebras pesadas
pretas pintadas
piscam por pão
pedacinhos pontuais

poesia primeira
pode pairar prosaica
percorrer parágrafos
paradoxais

poisa plena
pura perplexidade
provê paixão por propósito
plenitude por pertencer

sacharuk

Painting by Ericamaxine Price

O eu outro



O eu outro

Vê o espelho à tua frente. É mágico! Esbelto é o reflexo ao olhar traidor. Quebra-o!

sacharuk

quid pro quo

quid pro quo

cruzou águas imensas
deitada na sua canoa
desenhou com o dedo
mil promessas
riscadas nas nuvens

havia vazio em seu meio
uma vertigem
certa dor um receio
não era medo
horizonte quebrado
esse vazio tinha nome
tinha cor tinha cheiro
abria sombras aladas
para voar com as garças

ela viu de tão perto
que o nada é o nada
e que todo o nada
esvazia repleto
transborda tão cheio
de vazios incompletos

sacharuk




teu toque tua voz

teu toque tua voz

     sou maluco no jeito
que acarinhas minha face
fotografia de enlaces
estéticos efeitos

sei o quanto bem sabes
   meus olhos te falam
       o escuro inunda
           podes ouvir
   o que os sonhos dizem

sinto silêncio em mim
          se me olhas
          tal olhas agora

vasculho vestígios
         distâncias afora
 cheiro de mato
      as linhas doces
      das tuas  mãos
 falam mais que a voz

sacharuk