A poesia delira ao diapasão e, logo, intenta aos acordes da lira. Poesia que tanto descreve saliva de beijo, bem como a imagem do pensador com o queixo poisado nos dedos. Poesia pode andar no eixo para não ouvir queixa, mas pode andar fora e criar desavenças. Há poesia das crenças, poesia do lixo, poesia pretensa, poesia das gentes, poesia dos bichos. Ela é o amálgama do mundo, verte por tudo. É ofício dos nobres, sedução dos espertos, marofa dos pobres e sina dos vagabundos. Também vive escondida na língua dos analfabetos. Poesia é isso tudo e mais outro tanto, no entanto, poesia não é absurdo. Absurdo é querer-se mudo; absurdo é querer-se surdo; absurdo é querer-se cego. (Tudo e mais outro tanto - sacharuk)

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segunda-feira, 27 de julho de 2020

"E se for pecado?", de Sacharuk, por Dani Maiolo - www.inspiraturas.org

"E se for pecado?", de Sacharuk, por Dani Maiolo

"Soneto sarcástico", de Lino D"Acácia, por Sacharuk - www.inspiraturas.org

"Soneto sarcástico", de Lino D"Acácia, por Sacharuk - www.inspiraturas.org

"Respondendo a um desafio brincando", de Lino D"Acácia, por Sacharuk - www.inspiraturas.org

"Respondendo a um desafio brincando", de Lino D"Acácia, por Sacharuk
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"Vielas", de Aglaure Martins, por Sacharuk - www.inspiraturas.org

"Vielas", de Aglaure Martins, por Sacharuk - www.inspiraturas.org

Entrevista de Ateu Poeta, do Jornal Delfos, com Sacharuk, em 06/11/2015

ENTREVISTA COM WASIL SACHARUK

ENTREVISTA COM WASIL SACHARUK

Wasil Sacharuk é de Pelotas-Rio Grande do Sul, criador da NOP-Nova Ordem da Poesia e outros grupos afins de literatura como o Balcão de Poemas e o Carabook e Inspiraturas.

Ateu Poeta 1:_ Desde quando você promove ações em prol da literatura na internet?

Wasil Sacharuk:_  Meu primeiro envolvimento efetivo com a literatura se deu em 2008, quando me aventurei a escrever meus primeiros textos. 

Eu imediatamente queria ter meus textos lidos, ao passo em que também almejava aprender com outros escritores mais experientes, todos envolvidos num contexto solidário e colaborativo. 

Desde então, proponho oficinas virtuais de criação, nas redes sociais, que podem favorecer tal contexto. Logo, note que, em última instância, minhas ações são focadas no meu próprio desenvolvimento, no entanto, fico feliz quando outros escritores possam beneficiarem-se quando envolvidos nos meus projetos.

AP 2:_ Quantos livros você já lançou em parcerias até hoje?

Sacharuk:_ Até o momento já publiquei quatro livros em co-autoria: "Catilinárias" (2009), com Luciana Brandão Carreira"Catilinárias II", com Luciana Brandão Carreira e, ainda, Aline de Mello Brandão e Antonio Kleber"Da Janela Virtual" (2011) com Decimar Biagini e "InspiraturasLab (2014)", com Dhenova

Ainda sonho em publicar algo em parceria com a poetisa Lena Ferreira.

AP 3:Qual a melhor coisa de conviver virtualmente com outros literatos?

Sacharuk:_Percebo meu envolvimento com a Literatura tal uma oficina, um laboratório de experimentos com as palavras. 

Tudo sempre ocorreu de modo empírico ou pragmático. Não me enquadro como um literato no sentido restrito do vocábulo. Para me enquadrar, precisaria dominar uma amplitude de leituras e conhecimentos aos quais não possuo. 

Mas o que há de melhor no convívio com outros autores oficineiros é a possibilidade sincera da troca de experiências. Todos aprendemos e nos desenvolvemos tanto no âmbito da escritura quanto no pessoal.

AP 4:_ Quantos sites você criou em prol do projeto Nova Ordem da Poesia?
Sacharuk:_Para o projeto Nova Ordem da Poesia, NOP, criei um fórum no extinto Orkut e um blog, também atualmente inexistentes. 

Há um grupo no Facebook, bastante conciso e informal, com alguns poucos escritores remanescentes do movimento.

AP 5:_ O que você acha que precisa acontecer no Brasil para que os autores possam publicar mais livros?.

Sacharuk:_Publicar mais livros no Brasil é uma utopia ou, no mínimo, um projeto de muito longo prazo. Um povo que mal sabe ler, sob os auspícios de lideranças políticas que também mal sabem ler e não privilegiam a cultura e a educação, não terá súbito interesse pela literatura. 
O cidadão necessita comer para poder aprender, aprender para poder ler (e votar, e exigir...) e, finalmente, ler para poder comprar livros.
Entrevista concedida ao historiador Ateu Poeta em 06/11/2015
fonte: https://jornaldelfos.blogspot.com/2019/11/entrevista-com-wasil-sacharuk.html

Esses tais loucos... os poetas, de Lino D"Acácia, por sacharuk - www.inspiraturas.org

 
Esses tais loucos... os poetas, de Lino D'Acácia, por sacharuk

Foco narrativo ou ponto de vista - www.inspiraturas.org

“Por certo você adora ler histórias, não é mesmo? Muito bem, a leitura nos traz grandes benefícios: amplia nosso vocabulário, entretêm-nos, amplia nossa competência mediante a prática da escrita, enfim... Nossa! São tantos benefícios que ficaríamos um bom tempo somente falando deles. Pois bem, a partir de agora passaremos a conhecer um dos elementos que compõem os chamados textos narrativos. Para começar, pensemos o seguinte: o foco narrativo é um dos elementos da narrativa. 

Ao lermos uma história, há alguém que desempenha o importante papel de nos contar os fatos ocorridos nela, não é verdade? Esse alguém se chama narrador, mas precisamos saber também a forma da qual ele se utiliza para realizar essa importante tarefa. Pronto! Descobrimos o que é o foco narrativo, ou seja, a forma com que o narrador relata o discurso. 

Ele assume posições e papeis diferentes, os quais podem assim se classificar: 

* Narrador em primeira pessoa – Como podemos observar, se é de primeira pessoa ele participa dos fatos, ou seja, é também um personagem da história. Por esse motivo ele também é chamado narrador protagonista ou narrador coadjuvante. 

* Narrador em terceira pessoa – Assumindo esse papel, ele não participa dos fatos narrados, pois prefere ficar ali quietinho, quietinho. Sabe o que ele faz? Somente observa do lado de fora, para depois nos contar tudo. Assim sendo, podemos dizer que ele se classifica em duas modalidades:
- Narrador onisciente – Pode acreditar: esse tipo de narrador conhece toda a história, até mesmo o que pensam os personagens.
- Narrador observador – Esse, por sua vez, não é tão audacioso assim – ele, ao contrário do primeiro, não conhece toda a história, apenas se limita a narrar na medida em que os fatos acontecem.” 
Por Vânia Duarte//Graduada em Letras// http://escolakids.uol.com.br/foco-narrativo.htm


Foco narrativo ou ponto de vista - adotar este ou aquele ponto de vista de uma história pode torná-la diferente. Logo, o foco narrativo é a escolha que o escritor faz pela visão de qual personagem será acompanhada a história.

Posso usar vários pontos de vista diferentes? - Pode, mas procure deixar isso claro ao seu leitor. O que quero dizer com isso? Se vai trocar o ponto de vista, inicie um novo capítulo ou um novo segmento. É como se a câmera trocasse de dono. Seu leitor saberá disso, mesmo que inconscientemente.

Escritores iniciantes costumam confundir o autor com o narrador. Ou seja, você não é o narrador da história. Mesmo que você faça autoficção e narre uma situação da sua vida. Você estará criando um narrador em primeira pessoa para poder fazer isso. Será uma construção. O narrador nunca é o autor, embora ele possa ser o personagem.

Tipos de narradores, nível narrativo ou “participação do narrador”

Definir qual será a “participação” do narrador em sua história é muito importante. Uma história é o que seu narrador conta. Pode haver um enredo ruim bem contado. E pode se tornar uma grande história. Agora uma história boa com um narrador ruim nunca será boa literatura. Podemos considerar que o maior desafio de todo escritor é criar grandes narradores.

Narrador personagem/protagonista (ou Autodiegético)

Em resumo, ele participa da história e a conta em primeira pessoa. Este narrador tem como sua principal arma a possibilidade de apresentar uma história que depois irá se contradizer. Ou em que o leitor perceba que os fatos não são os apresentados pelo narrador.Esta técnica é comumente chamada de Narrador não-confiável.

Narrador observador/testemunha (ou Homodiegético)

É o narrador fascinado por outro personagem, e que conta em primeira pessoa a história deste outro personagem. Importante: sem ser o protagonista. É o tipo de narrador ideal quando a história gira em torno de um personagem fascinante. Porque você pode torná-lo ainda mais interessante pelos olhos de outra pessoa. Ou deixar o leitor na dúvida se o tal personagem admirado é assim tão bom.

Narrador onisciente intrometido (Héterodiegético)

É como a ideia que temos do Deus bíblico. O narrador onisciente sabe de tudo. Pensamentos, emoções e desejos dos personagens. E é héterodiegético por não ser parte da história. Mas muitas das vezes parece ser parte, pois ele opina, julga, disserta etc.

Narrador onisciente neutro (Héterodiegético)

Neutralidade é sempre um ponto de vista, mas é o que propõe este narrador. É um narrador em terceira pessoa que conta a história sem fazer julgamentos, mas mostrando a consciência de um personagem.

Narrador do discurso indireto livre (Héterodiegético)

O que o Narrador do Discurso Indireto Livre faz é fundir-se ao personagem-foco, mas continuar narrado em terceira pessoa. Ainda assim sendo héterodiegético, não sendo um personagem. É como se ele narrasse tudo do ponto de vista do personagem-foco. Até mesmo usasse suas palavras e símiles, mas seguisse falando em terceira pessoa. O autor abre mão de seu “suposto estilo” para empregar o “estilo do personagem.”Para facilitar o entendimento, um trecho de A festa do bode, de Mario Vargas Llosa, que utiliza este narrador:

“Logo que deixou Román para trás, uma figurinha patética chapinhando no lodo, seu mau humor desapareceu. Deu uma risadinha. De uma coisa ele estava certo: Pupo ia mover céus e terras, soltaria os cachorros para que o problema fosse reparado. Se aquilo acontecia com ele vivo, o que não iria acontecer quando não pudesse mais impedir pessoalmente que a incompetência, o descaso e a imbecilidade jogassem por terra o que tanto esforço custou?”

Qual narrador usar? 

Vais usar regionalismo na linguagem? primeira pessoa.
Teu personagem-foco fará longos discursos? primeira pessoa.
O leitor deve se identificar profundamente com seu personagem-foco? primeira pessoa ou a terceira com o Narrador do Discurso Indireto Livre.
Apresentar seu personagem de fora, como em um filme? terceira pessoa próxima ou distante.
Intercalar suas opiniões com a do personagem? Narrador Onisciente Intrometido.
Prefere baixa identificação entre o leitor e o personagem? Terceira pessoa distante.

DESAFIO: Cena de despedida - www.inspiraturas.org


DESAFIO: Cena de despedida - www.inspiraturas.org

Se me esqueceres, só uma coisa, esquece-me bem devagarinho. Mario Quintana

Despedir-se de um amor é despedir-se de si mesmo. É o arremate de uma história que terminou, externamente, sem nossa concordância, mas que precisa também sair de dentro da gente. Martha Medeiros

Toda despedida é dor... tão doce todavia, que eu te diria boa noite até que amanhecesse o dia. William Shakespeare

A vida me ensinou a dizer adeus às pessoas que amo, sem tirá-las do meu coração. Fênix Faustine

A despedida entre verdadeiros amigos nunca existirá, pois os nossos verdadeiros amigos não estão apenas no nosso dia a dia, mas estão no mais profundo sentimento da alma, independente de distância, circunstâncias e problemas amizades verdadeiras continuam a crescer. Lucas Ben David

Se a dor não for maior que a necessidade, até a solidão será melhor que a despedida! Reinaldo Ribeiro - O Poeta do Amor

É evidente que todo relacionamento é marcado de bons e maus momentos. é maduro saber que quando os maus momentos tomam mais tempo que os bons momentos, é porque chegou a hora de cada um seguir seu próprio caminho. Mesmo que ainda haja amor. Borgys

De todas as festas, passeios, viagens, shows, chegadas, saídas, encontros, despedidas e amores. A única coisa que podemos guardar são as fotografias. Arthur Manson


DESAFIO INSPIRATURAS: Uma cena de despedida. Conto ou crônica:

1.sem diálogos
2.narrador protagonista, primeira pessoa do discurso.

o parágrafo inicial num conto - www.inspiraturas.org

As funções do parágrafo inicial num conto

As primeiras linhas constituem o cartão-de-visita de um texto. Num conto, por exemplo, permitem:
a) Indicar o género em que a narrativa se insere;
b) Revelar o tom do texto e o estilo da escrita do autor;
c) Apresentar a personagem principal e, eventualmente, outras;
d) Interessar o leitor pelo problema enfrentado pelo protagonista ou alguém próximo a este;
e) Estabelecer o tempo e o lugar onde a ação se desenrola;
f) Criar interesse e expectativa no leitor;
g) Vislumbrar o conteúdo da história.

Quando não há nada que nos obriga a ler, é o incipit que nos leva a continuar ou a abandonar a leitura. É o que determina o pacto de leitura entre o autor e o leitor. Neste contexto, um incipit funcional atrai a atenção do leitor, prende-o à obra, convida-o para uma dança de fantasia.

Tipos de parágrafos iniciais

Seja uma narrativa de ação ou um drama íntimo, todo e qualquer elemento plausível, imaginativo e motivador que retire o protagonista do conforto quotidiano, o perturbe ou o chame para a aventura é, metaforicamente, uma bomba. Sem isso, não existe uma história, porque não se gera nem a tensão nem o conflito que desencadeiam a busca, interior ou física, da personagem.

Apresentar esse elemento no início de uma narrativa, por si só, não suscita necessariamente o interesse do leitor; um corpo não está vivo até lhe serem insufladas alma e verosimilhança. Um parágrafo inicial cativante deve cumprir um ou mais dos seguintes objetivos:

· Suscitar a curiosidade do leitor acerca de uma personagem;
· Gerar um cenário interessante para a história;
· Criar uma atmosfera.
· Chocar ou surpreender o leitor;
· Introduzir um elemento de mistério e intriga.

Suscitar a curiosidade do leitor acerca de uma personagem

Quando eu era pequena, passava às vezes pela praia um velho louco e vagabundo a quem chamavam o Búzio. O Búzio era como um monumento manuelino: tudo nele lembrava coisas marítimas. A barba branca e ondulada era igual a uma onda de espuma (Andresen, 1992: 147).

Andresen insufla vida numa personagem de papel e tinta, através do recurso a adjetivos (louco e vagabundo), a uma comparação inovadora entre o Búzio e o monumento manuelino, e a uma metáfora que, apesar de pouco original, é sugestiva e identifica o velho com o oceano (“A barba branca e ondulada era igual a uma onda de espuma”). Em escassas linhas (um parágrafo e o início do seguinte), a narradora imprime na mente do leitor a imagem de um vagabundo idoso e perturbado, uma presença intrigante sobretudo para uma rapariga atenta. A propósito deste homem, podemos perguntar-nos: quem é o Búzio? por que enlouqueceu? o que o faz percorrer as praias? de que modo marcou a narradora? qual a relação entre o Búzio e o título do conto (“Homero”)?

Gerar um cenário interessante para a história

Outra forma de começar uma narrativa consiste em gerar um cenário interessante e adequado ao enredo. A estrutura e a extensão de um romance permitem que o autor despenda vários parágrafos em descrições mais ou menos pormenorizadas de espaços, épocas, personagens, animais e objetos, para suscitar na mente do leitor uma imagem vívida destes.

Os longos retratos são de evitar sobretudo no conto, que é por definição uma narrativa breve, com uma unidade de efeito (isto é, coesa), pronta para ser lida de uma assentada, como afirmava o mestre das histórias de terror Edgar Allan Poe. O conto tem uma economia específica, onde só há espaço para o essencial, sem devaneios nem exposições que muitas vezes mergulham o enredo num oceano de irrelevâncias.

Assim, o autor não pode exceder-se ao descrever cenários ou personagens, sob pena de aborrecer o destinatário, de gerar uma desproporção entre as várias partes da história, e de subtrair ao leitor o direito e o prazer de imaginar.

Há histórias onde o cenário desempenha um papel importante, por ser simbólico ou apresentar alguma semelhança com o estado de espírito da personagem, por exemplo. O conto “A Queda da Casa de Usher” (“The Fall of the House of Usher”, 1839), de Poe, é um caso onde o aspecto sinistro de uma mansão e a atmosfera de trovoada refletem o estado de espírito de um visitante:

Durante um dia carregado, sombrio e mudo do Outono desse ano, em que as nuvens pairavam no céu opressivamente baixas, atravessava sozinho, a cavalo, uma porção de campo estranhamente lúgubre; e acabei por me encontrar, ao cairem as sombras do final da tarde, à vista da melancólica Casa de Usher. Não sei como tal aconteceu, mas, mal pousei o olhar no edifício, apossou-se-me do espírito uma insuportável tristeza. Digo insuportável porque tal sensação não era sequer mitigada por qualquer desses sentimentos meio agradáveis, porque poéticos, com que o espírito normalmente acolhe mesmo as mais sombrias imagens naturais da desolação ou do terror. Contemplei o cenário que tinha diante de mim ­— a casa solitária e as características simples da paisagem, as paredes fustigadas pelo vento, as janelas vazias que pareciam olhos, algumas junças luxuriantes e uns tantos troncos brancos de árvores definhadas — com uma extrema depressão de ânimo para a qual não encontro comparação mais adequada com alguma sensação terrena que não seja a que sobrevém ao sonho da orgia do ópio: a amarga queda na vida quaotidiana; o medonho tombar do véu. Havia uma frieza glacial, um abatimento, um mal-estar uma irremediável escuridão de pensamentos que nenhum aguilhão da imaginação poderia deturpar, transformando-o em algo de sublime. Que seria — detive-me a pensar — que seria que tanto me desalentava na contemplação da Casa de Usher? (Poe, 1998: 57, 58).

Neste excerto do primeiro parágrafo, o narrador descreve o edifício senhorial e seus arredores com um vocabulário criteriosamente escolhido para suscitar o medo e a inquietação no leitor.

Criar uma atmosfera

A atmosfera engloba uma combinação subtil em que imagens e sons, impressões subjetivas e acontecimentos, ressoam na mente do leitor, ajudando-o a entranhar-se no universo ficcional.

Na atualidade, o escritor mexicano-americano Rudolfo Anaya (1937- ) constrói em vários contos e romances uma atmosfera de realismo mágico, onde a paisagem, as tradições e as lendas do Novo México se combinam. A abertura da sua obra-prima, o romance de estreia Abençoa-me, Ultima (1972), é um exemplo trabalhado desta arte:

Ultima veio viver connosco nesse Verão em que eu tinha sete anos de idade. Quando ela chegou, a beleza do llano abriu-se perante os meus olhos e as águas gorgolejantes do rio cantaram ao ritmo do sussurro da terra em movimento. O tempo mágico da infância permanecia imóvel e o pulso da terra viva empurrava o seu mistério para dentro das minhas veias. Ela pegou na minha mão e os poderes silenciosos e mágicos que possuíam espalharam em redor uma beleza feita do llano despido e afogado no calor do sol, do vale verde do rio e da abóbada azul onde vive o sol, intenso e branco. Os meus pés descalços sentiram o pulsar da terra e o meu corpo tremeu de entusiasmo. O tempo parou e partilhou comigo tudo o que tinha vindo antes e depois, e tudo o que estava para vir... (Anaya, 2005: 17).

A beleza metafórica do texto, escorada pela aplicação de verbos enérgicos e por vários adjetivos, traduzem o ambiente de maravilhoso e de onírico que nimba o romance. O leitor é preparado, ab initio, para respeitar e acarinhar a figura de Ultima, a curandeira velha e sábia que assistirá o pequeno António na descoberta da sua identidade e da paixão pela terra-mãe.

A abertura do romance ET: O Extraterrestre (1985), do escritor norte-americano e argumentista William Kotzwinkle (1943- ) é um caso paradigmático:

A nave espacial flutuava suavemente, ancorada à terra por um feixe de luz lavanda. Se alguém fosse aparecer neste local de aterragem, poderia, durante um momento, pensar que um gigantesco ornamento de uma velha árvore de Natal caíra do céu nocturno — pois a nave era redonda, reflectiva e apresentava uma inscrição de um delicado desenho gótico (Kotzwinkle, 1982: 5).

Neste trecho, bastante breve, a comparação entre o engenho alienígena e a estrela de um pinheiro enfeitado para o Natal ajuda o leitor a visualizar a cena insólita e, portanto, a aceitar com mais facilidade esta inverosimilhança. Não é, no fim de contas, uma das qualidades de um bom escritor tornar o estranho familiar e o familiar estranho?

Como criar atmosfera num conto?


a) O escritor pode passear pelo local onde decorre a ação da sua história, se este for real, para absorver o genius loci.
b) Estudar atentamente o trabalho de outros escritores, para desvendar as técnicas que estes empregaram;
c) Imaginar uma banda sonora para a história (aliás, são inúmeros os autores que trabalham ao som da música, escolhendo melodias em consonância com a atmosfera que desejam criar);
d) Trabalhar com cores, atribuindo a cada atmosfera uma determinada tonalidade. O cor-de-rosa, deduzo, seria apropriado para um ambiente romântico; o azul-escuro para uma cena noturna; o violeta para evocar memórias, etc.

Chocar ou surpreender o leitor

Que situações criam suspense? O teórico da escrita criativa e agente literário Evan Marshall sugere que o parágrafo inicial deve apresentar uma crise (ou, acrescento, um conflito ou desafio). Uma crise, para o ser verdadeiramente, tem de cumprir três requisitos:

Ser adequada ao género literário da narrativa e ao destinatário da obra;

Virar do avesso a vida do protagonista, tornando-se numa prioridade a resolver;

Suscitar o interesse do leitor (uma crise invulgar, dilemática ou chocante, por exemplo)

Um parágrafo inicial que escandalize ou surpreenda o leitor tem sempre impacto garantido e gera um irresistível desejo de prosseguir a leitura. O escritor austríaco Franz Kafka consegue tudo isto no seu extenso conto “A Metamorfose”, em menos de quinze palavras: “Uma manhã, ao acordar de sonhos inquietos, Gregor Samsa viu-se transformado num gigantesco inseto” (Kafka, 1996: 19). A reação a este evento pode variar de leitor para leitor: muitos horrorizar-se-ão; alguns experimentarão fascínio; outros, piedade pelo protagonista. Em comum, todos se sentirão compelidos a prosseguirem a leitura depois de um início tão insólito quanto provocante.

Introduzir um elemento de mistério e intriga


Este tipo de parágrafo tem a vantagem e o risco inerentes ao imediatismo: por um lado, garra com facilidade o leitor; por outro, exige um desenvolvimento à altura do interesse suscitado, sob pena de diluir o efeito surpresa e de o desapontar, como uma promessa quebrada.

Um melhores exemplos é o parágrafo inicial do romance da escritora norte-americana Kathryn Harrison, O Beijo (The Kiss, 1997): “Encontramo-nos em aeroportos. Encontramo-nos em cidades onde nunca tínhamos estado. Encontramo-nos onde não possamos ser reconhecidos por ninguém” (Harrison, 1997: 11). As frases curtas e o paralelismo geram uma cadência quase hipnótica, em sintonia com o estilo geral da obra, feito de revelações e testemunhos íntimos sobre o amor proibido entre uma filha e um pai. O parágrafo aponta para espaços públicos e, por isso mesmo, anónimos, numa gradação cada vez mais abrangente: aeroportos, cidades desconhecidas, qualquer lugar onde ninguém identifique os amantes. A estes locais incaracterísticos, frios até, opõem-se a cumplicidade, a partilha apaixonada, e também o sentimento de culpa.

O início de uma narrativa ficcional condiciona largamente o desejo de prosseguirmos ou abandonarmos a leitura. O escritor, tendo em conta o género do texto, deve encontrar simultaneamente uma forma clara e eficaz de captar a atenção, e de criar uma crise (tensão, conflito, desafio) que desencadeie a procura do protagonista. Nesta linha, o autor pode suscitar a curiosidade acerca de uma personagem relevante para o enredo; gerar um cenário curioso; criar uma atmosfera; chocar ou surpreender; introduzir um elemento de mistério e intriga.

Fonte: file:///C:/Users/Acer/AppData/Local/Temp/4623-Artigo-8058-1-10-20200128.pdf 

no conto tudo importa - www.inspiraturas.org

Um conto é uma narrativa curta. Não faz rodeios: vai direto ao assunto.

No conto tudo importa: cada palavra é uma pista. Em uma descrição, informações valiosas; cada adjetivo é insubstituível; cada vírgula, cada ponto, cada espaço – tudo está cheio de significado. [...]

(André Fiorussi, In: Antônio de Alcântara Machado et alii. De conto em conto. São Paulo; Ática, 2003. p. 103)