A poesia delira ao diapasão e, logo, intenta aos acordes da lira. Poesia que tanto descreve saliva de beijo, bem como a imagem do pensador com o queixo poisado nos dedos. Poesia pode andar no eixo para não ouvir queixa, mas pode andar fora e criar desavenças. Há poesia das crenças, poesia do lixo, poesia pretensa, poesia das gentes, poesia dos bichos. Ela é o amálgama do mundo, verte por tudo. É ofício dos nobres, sedução dos espertos, marofa dos pobres e sina dos vagabundos. Também vive escondida na língua dos analfabetos. Poesia é isso tudo e mais outro tanto, no entanto, poesia não é absurdo. Absurdo é querer-se mudo; absurdo é querer-se surdo; absurdo é querer-se cego. (Tudo e mais outro tanto - sacharuk)

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quarta-feira, 17 de junho de 2020

Imagética na poesia - desenho verbal em www.inspiraturas.org



SOBRE A IMAGÉTICA NA POESIA - DESENHO VERBAL:

A poesia imagética é um todo organizado, um cimentado de tijolos vocabulares, de requintada elaboração semântica. Surge poesia imagética quando a escultura de palavras transcende a literalidade para envolver o leitor nos detalhes arquitetônicos de sentidos e significados.

O poeta é um mágico que guarda segredos, esconde propósitos nas entrelinhas. Dar, deliberadamente, um significado para as palavras é limitá-las; Desta forma, o poeta percebe que, se souber manusear as palavras como um artesão, potencializará o poder do infinito literário.

“Poesia é o belo trabalhado, é uma artesania. Ela acontece, ela chega ao fim quando você conseguiu dar as formas [...] à cada palavra, cada sílaba, cada letra” (BARROS).

“A palavra garça em meu perceber é bela. Não seja só pela elegância da ave. Há também a beleza letral. O corpo sônico da palavra e o corpo da ave se comungam. Olhando a garça-ave e a palavra garça, sofro uma espécie de encantamento poético.” (BARROS)

O start vem, de fato, do poeta. Mas a imagem de uma garça, onde ela se encontra, como se encontra, e todas as variáveis dependem exclusivamente da bagagem imagética do leitor.

“É isso mesmo o que eu chamo de Desenho Verbal, né? Que você consegue colocar uma imagem na vista do leitor.” (BARROS).

A palavra se torna a sua principal ferramenta. E sobre o papel das palavras diz ainda mais: “São as palavras que provocam os meus sonhos, sabe? Elas que tomam conta dos meus sonhos, produzem os meus sonhos. A utilidade da palavra é realizar o sonho do poeta” (BARROS)

DESAFIO 1: composição poética inspirada na garça!

Nota: INSPIRADA na garça e não SOBRE a garça, pois a poesia não se limita com significados, mas sinaliza as muitas possibilidades do signo “garça”.

A partir da imagem da ave, o poeta se direciona à palavra garça. E se permite vagar pela fonética da palavra, e esta, vaga pelo imaginário do leitor. “O corpo sônico da palavra/ E o corpo níveo da ave se comungam”: O relacionamento mais íntimo da palavra-garça e da imagem-garça. O corpo fonético da palavra, que, sônica, leva em si a elegância significativa dos sons de voo da ave. O corpo alvo da ave. A palavra que voa sônica, a ave que é palavra.

O Desenho Verbal é estabelecido.

Boas inspirações!


garça

sei que poisas para mim
teus castelos jardins
em virtudes tão plácidas
diluídas nas curvas
e plasmadas nas sombras
com luzes cálidas

sei que riscas serpentes
sob o céu de penumbra
da minha mente esquálida
que perdida em escusas
e fogueiras folclóricas
verte verve das musas
com tanto de vodka

sei que bailas graciosa
nos teus voos de ousadia
com incertas passadas
e tuas asas largas

pois sei ver poesia
numa garça
estabanada

sacharuk

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A poesia converte a pedra, a cor, a palavra e o som em imagens. E o fato de serem imagens, e o estranho poder de suscitarem no ouvinte ou no espectador constelações de imagens, transforma em poemas todas as obras de arte. (PAZ).

DESAFIO 2: "esculpir" o cenário de uma cascata evitando a descrição literal do ambiente, isto é, utilizando-se de metáforas, analogias e outras figuras de estilo.

Nota: O resultado poderá despertar no leitor uma imagem diversa de uma cascata, no entanto, isso é desejável para o exercício.

Boas inspirações!

Referências: POESIA E IMAGEM – O DESENHO VERBAL: UMA ANÁLISE NA OBRA DE MANOEL DE BARROS, por KAMILLA REGINNA SILVA OLIVEIRA

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