A poesia delira ao diapasão e, logo, intenta aos acordes da lira. Poesia que tanto descreve saliva de beijo, bem como a imagem do pensador com o queixo poisado nos dedos. Poesia pode andar no eixo para não ouvir queixa, mas pode andar fora e criar desavenças. Há poesia das crenças, poesia do lixo, poesia pretensa, poesia das gentes, poesia dos bichos. Ela é o amálgama do mundo, verte por tudo. É ofício dos nobres, sedução dos espertos, marofa dos pobres e sina dos vagabundos. Também vive escondida na língua dos analfabetos. Poesia é isso tudo e mais outro tanto, no entanto, poesia não é absurdo. Absurdo é querer-se mudo; absurdo é querer-se surdo; absurdo é querer-se cego. (Tudo e mais outro tanto - sacharuk)

OFICINA DE ESCRITA LITERÁRIA INSPIRATURAS - on line e presencial - novos desafios - inscreve-te! Integra conceitos, técnicas e inspiração em desafios lúdicos e escreve poesia, crônicas e contos

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Ferramentas de Estilo – Ritmo e sons - www.inspiraturas.org

Ferramentas de Estilo – Ritmo e sons

Toda atividade humana se desenvolve dentro de certo ritmo. Nosso coração; nossa respiração, nossa gesticulação, nossos movimentos são ritmados.

O ritmo aparece também na produção artística do homem. Sua presença no tecido do poema pode ser facilmente percebida por um leitor atento, que é, ao mesmo tempo, um ouvinte. A poesia tem um caráter de oralidade muito importante: ela é feita para ser falada, recitada. Mesmo que estejamos lendo um poema silenciosamente, perceberemos seu lado musical, sonoro, pois nossa audição capta a articulação (modo de pronunciar) das palavras do texto.

A musicalidade está apoiada no ritmo do texto: simples, curto, contagiante:

Estava à toa na vida,
O meu amor me chamou,
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor. (Chico Buarque)


O ouvinte capta o apelo do texto, graças à harmonização de todos os seus elementos, um dos quais, o ritmo.

O ritmo simples e repetitivo facilita a memorização.

Você percebe as seguintes repetições: o som "I", na primeira linha ou primeiro verso; o som "M" no segundo verso; o som "P", no terceiro; e o som "Q" (grafado "c") no quarto. Em todos os versos há um outro som que se repete: a vogal "A":

O ritmo é formado pela sucessão, no verso, de unidades rítmicas resultantes da alternância entre sílabas acentuadas (fortes) e não-acentuadas (fracas); ou entre sílabas constituídas por vogais longas e breves.

O poema reúne o conjunto de recursos que o poeta escolhe e organiza dentro de seu texto. Cada combinação de recursos resulta em novo efeito. Por isso, cada poema cria um novo ritmo.

Simetria - Leia um trecho de "Remorso", de Olavo Bilac:

Sinto o que esperdicei na juventude;
Choro neste começo de velhice,
Mártir da hipocrisia ou da virtude.
Os beijos que não tive por tolice,
Por timidez o que sofrer não pude,
E por pudor os versos que não disse!


Para verificar a métrica do poema, vamos fazer a excansão do primeiro verso. Escandir significa dividir o verso em sílabas poéticas. Note que nem sempre as sílabas poéticas correspondem às sílabas gramaticais. Leia e releia em voz alta, percebendo a cadência do verso:

Sin- t~ó - que~és- per- di- CEI- na- ju- ven- TU (de)

Ao escandir, isto é, dividir um verso em sílabas métricas, em português, deve-se parar na última sílaba tônica. Se houver outra(s) depois dela, não se conta(m) para efeito métrico.

Versos Regulares - são os que obedecem às regras clássicas estabelecidas pela métrica, determinando a posição das sílabas acentuadas em cada tipo de verso. As rimas aparecem de modo regular, marcando a semelhança fônica no final de certos versos.

Versos Brancos - Quando os versos obedecem às regras métricas de acentuação, mas não apresentam rimas chamam-se versos brancos.

Versos Polimétricos - conjunto de versos regulares e de tamanhos diferentes. Embora de tamanhos diferentes, têm as sílabas fortes localizadas nas posições indicadas pelas regras métricas tradicionais.

Versos Livres - não obedecem a nenhuma regra preestabelecida quanto ao metro, à posição das sílabas fortes, nem à presença ou regularidade de rimas.

Estrofe - é um conjunto de versos. Uma linha em branco vem antes, e outra, depois da estrofe, separando-a das demais partes do poema e marcando a sua unidade.

Rimas - repetição de sons semelhantes, ora no final de versos diferentes, ora no interior do mesmo verso, ora em posições variadas, criando um parentesco fônico entre palavras presentes em dois ou mais versos.

Rima interna e externa - A rima externa ocorre quando se repetem sons semelhantes no final de diferentes versos. Pode haver rima entre a palavra final de um verso e outra do interior do verso seguinte. Temos, então, a rima interna. Trata-se de um recurso de grande efeito musical e rítmico.

Rima consoante e toante - Rima consoante é aquela que apresenta semelhança de consoantes e vogais. Rima toante é a que só apresenta semelhança na vogal tônica, sem que as consoantes ou outras vogais coincidam.

Figuras de efeito sonoro

Aliteração - é a repetição da mesma consoante ao longo do poema.

simples seara sem semente

Sônia simplesmente semeia
silencia sofrimento
sólido solo saqueia
singelos sonhos semeados

sorrir sem sentir
só seria
sensação suave
somente
sem serventia
sem soberania
simples seara
sem semente

sacrifica sério semblante
sela santo solo servil
supera sol solapante
sucumbe sentido sombrio

seria só sentir
sem sorrir
só suave sensação
sem sobrepor
sem servir
simples seara
sem semente

sacharuk


Assonância - repetição da mesma vogal no poema.

prefácio

fazer um prefácio
não é fácil
é algo que prende no lastro
tal algo
tanto falso

eis que se abriu cadafalso
entre laços entre laços
nos requebros dos meus rastros
a poetar alabastros
entre a claustrofobia
e o espaço
e depois servir no antepasto
um pouco de pão com poesia

ai quem me dera um dia
eu cair nos teus braços
depois que juras bandeira
em meu mastro
a bolinar brincadeiras
a arrebentar os esgaços
fazer rasgos
tal quem rasga
a folha da alface
num disfarce
sensual e macabro

e quem me dera eu abro
o meu rabo
a um dedo de poesia
daquelas
que me convence
e ainda pense o que pense
sem eurekas e sem cautela
a segurar o candelabro
enquanto olha a vela

se bem que fazer um prefácio
não é fácil
é algo que prende no lastro
tal algo
tanto falso

sacharuk


Anáfora - acontece sempre na mesma posição (início, meio ou final de vários versos).

domador

andei a colher alguns bons motivos
de amor colhe flor plantador colhe rosa
nos campos férteis de um recomeço
andei a sentir o espírito travesso

estive inclinado a riscar uma prosa
plantaflor colhe amor colhedor lenitivo
que tivesse um enfoque mais positivo
estive a buscar a essência poderosa

andei a esgueirar de qualquer tropeço
de medo arremedo arredor arremesso
em meio ao ciclone dessa rebordosa
andei a tentar ser mais digno e altivo

estive a pensar no valor de estar vivo
pensa amor sabedor pensador polvorosa
para relembrar o que sempre esqueço
estive ocupado em pensar ao avesso

assim descobri que a vida é curiosa
catamor cataflor catador e cativo
que basta um contato mais sensitivo
andei a domar minha alma teimosa

sacharuk

Nenhum comentário:

Postar um comentário