A poesia delira ao diapasão e, logo, intenta aos acordes da lira. Poesia que tanto descreve saliva de beijo, bem como a imagem do pensador com o queixo poisado nos dedos. Poesia pode andar no eixo para não ouvir queixa, mas pode andar fora e criar desavenças. Há poesia das crenças, poesia do lixo, poesia pretensa, poesia das gentes, poesia dos bichos. Ela é o amálgama do mundo, verte por tudo. É ofício dos nobres, sedução dos espertos, marofa dos pobres e sina dos vagabundos. Também vive escondida na língua dos analfabetos. Poesia é isso tudo e mais outro tanto, no entanto, poesia não é absurdo. Absurdo é querer-se mudo; absurdo é querer-se surdo; absurdo é querer-se cego. (Tudo e mais outro tanto - sacharuk)

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segunda-feira, 27 de julho de 2020

Crônica Literária em www.inspiraturas.org

Crônica literária 
É um gênero intermediário entre o jornalismo e a literatura. Na crônica, é admitido alto grau de subjetividade. Por seu estilo diferenciado e, de certa forma, liberto de exigências como objetividade, imparcialidade, urgência ou furo jornalístico, a crônica se apresenta como espaço privilegiado para a defesa de opiniões que fogem ao senso comum presente na abordagem das notícias.

O cronista observa o mundo e o apresenta aos leitores segundo sua interpretação, assumindo o papel do intelectual conectado com os conflitos de seu tempo. A liberdade com relação às regras que direcionam a prática jornalística concede ao cronista maior autonomia para divulgar visões alternativas a respeito de temas da atualidade e, não raro, suscitar perplexidades. Nesse sentido, a crônica funciona como um elemento de perturbação da objetividade, ampliando as possibilidades de leitura do jornal. Se os fatos e o tempo são a matéria-prima da notícia, é também com fatos e com atualidade que a crônica joga. Só que ela os explora para ultrapassá-los.

• Narração curta: O texto é curto e de linguagem simples, de imediata percepção, o que o torna ainda mais próximo de todo tipo de leitor e de praticamente todas as faixas etárias. 
• Aspectos da vida social e quotidiana: Exposição de um ou mais eventos em uma determinada sequência temporal. Especula contrastes sociais, apresenta episódios reais ou fictícios da política, dos desportos, da literatura, da economia, das artes etc. 
• Caráter humorístico, crítico, sarcástico, satírico e/ou irônico: A sátira, a ironia, o uso da linguagem coloquial demonstrada nas falas, a exposição dos sentimentos e a reflexão sobre o que se passa estão presentes nas crônicas. A intenção é levar o leitor a observar de outra forma o que à primeira vista é evidente demais para ser notado. Uma crônica de qualidade é elaborada com base nos pormenores. 
• Personagens comuns: Geralmente o autor utiliza poucos personagens ou até mesmo nenhuma criatura fictícia. 
 • Linguagem simples: É uma leitura que envolve, uma vez que utiliza a primeira pessoa e aproxima o autor de quem lê. Como se estivessem em uma conversa informal, o cronista tende a dialogar sobre fatos até mesmo íntimos com o leitor. A oralidade e o coloquialismo nas falas são úteis. Também se admite a narração na terceira pessoa.

Discurso na crônica Pode comportar diversos modos de expressão, isoladamente ou em simultâneo: narração, descrição, contemplação/efusão lírica, comentários, reflexão;

Pode variar do coloquial ao literário;
A linguagem pode explorar duplos sentidos / jogos de palavras / conotações;
Predominância da função emotiva da linguagem sobre a informativa;
Vocabulário variado e expressivo de acordo com a intenção do autor;
Pontuação expressiva.

Dicas para Escrever uma Crônica 

1. A Escolha do Fato Cotidiano nas notícias ou na própria experiência do cronista; importa que o autor tenha uma opinião formada sobre aquilo que vai escrever.
2. Inicie o texto com uma frase curta e objetiva, deixando claro ao leitor sobre o que você pretende escrever.
3. A crônica não exige a presença de personagens, exatamente por levar ao leitor um ponto de vista do autor, a crônica, muitas vezes, perde essa concepção de pessoa, tempo e espaço.
4. Mantenha os pés no chão. Fantasiar é permitido, desde que você mantenha o fato em destaque, utilizando a sua experiência para criar essa fantasia. Mas lembre-se: o fato é o centro do texto, não a fantasia. É possível usar elementos do conto e da poesia, mas sem exageros. A crônica não deve perder a característica de comentário do cotidiano.
5. Ao fazer citações, referente a nomes ou acontecimentos, investigue as fontes e confirme os dados. Não existe meia informação. Na dúvida, evite. Há sempre um outro modo de se dizer ou se referir à mesma coisa.
6. As respostas à essas perguntas podem ajudar na escritura da crônica:
• Quando penso no tema, qual a primeira coisa que me vem à mente? • Qual minha opinião sobre o tema?
• Como seria se eu estivesse na situação sugerida pelo tema? • Qual minha reação quando eu soube da notícia? • De que forma o tema está relacionado comigo? • Qual a opinião pública sobre o tema? • Qual seria uma possível solução?

Crônicas recomendadas:


Machado de Assis: Crônicas; Crônicas de Lélio; Comentários da Semana; Ao Acaso. Clarice Lispector: Contos, Crônicas e Novelas; Visão do Esplendor; Para Não Esquecer Nunca; Clarice na Cabeceira. Carlos Heitor Cony: Da Arte de Falar Mal; O Ato e o Fato; Posto Seis; Os Anos Mais Antigos do Passado; O Harém das Bananeiras; O Suor e a Lágrima; O Tudo ou o Nada; Para Ler na Escola. Carlos Drummond de Andrade: Lição de Coisas; Os Dias Lindos; Boca de Luar; Amor Natural. Fernando Sabino: As Melhores Crônicas de Fernando Sabino; A Cidade Vazia; O Homem Nu; A Mulher do Vizinho; A Companheira de Viagem; A Inglesa Deslumbrada; Deixa o Alfredo Falar!; A Falta que Ela me Faz. Rubem Braga: O Conde e o Passarinho; O Morro do Isolamento; Ai de Ti, Copacabana; A Traição das Elegantes; As Boas Coisas da Vida; O Verão e as Mulheres; Uma Fada no Front; O Menino e o Tuim. Paulo Mendes Campos: O Cego de Ipanema; Homenzinho na Ventania; O Colunista do Morro; Hora do Recreio; O Anjo Bêbado; O Amor Acaba; Cisne de Feltro; Balé do Pato e Outras Crônicas. Affonso Romano de Sant'Anna: A Mulher Madura; Como Andar no Labirinto. Nelson Rodrigues: O Óbvio Ululante: Primeiras Confissões; A Cabra Vadia; O Remador de Ben-Hur; A Pátria Sem Chuteiras; A Mulher do Próximo; O Berro Impresso nas Manchetes. Lêdo Ivo: A Cidade e os Dias; O Navio Adormecido no Bosque; As Melhores Crônicas de Lêdo Ivo.
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Cansada de ser fria – crônica de Nelson Rodrigues

Quando o irmão apareceu na porta do escritório, perguntou:

— Qual é o drama?

E Gervásio, arriando na cadeira:

— Preciso muito falar contigo.

Apanha um cigarro.

— Fala!

Então, já com os olhos cheios de lágrimas, o outro pede:

— “Primeiro, fecha a porta”. Felipe sente que o irmão está arrasado.

Surpreso, levanta-se e passa a chave na porta. Volta-se e pergunta:

— Mas o que é que há?

Gervásio tem um soluço imenso:

— Sou traído! Adélia me trai! Tem um amante!

Estupefato, Felipe balbucia:

— Não é possível! Não pode ser!

Repete:

— Me trai, sim! — E batia no peito: — Sou traído!

— Não acredito, só vendo!

ADÉLIA

A princípio, Felipe pensou num caso de ciúmes doentios. Mas o outro o desiludiu. Mandara seguir a mulher por um detetive particular. E agora sabia de tudo — nome, endereço, dias de encontros, horários. Na véspera, metera-se com o detetive num táxi e lá foram os dois,

para a esquina do apartamento do pecado. Viram quando Adélia saltara de outro táxi e entrara no edifício. Gervásio podia ter uma atitude qualquer, de marido, de homem. Mas desde a véspera que se limitava a chorar. Gemia para o irmão: — “Sou um pulha, um tarado! Não fiz, nem vou fazer nada”. E súbito, no seu desespero, crispa a mão no braço do irmão:

— Agora compreendo tua situação. Imagino o que não sofre!

Felipe volta-se, espantado:

— Minha situação? — Sem entender, continua: — Mas que situação?

Gervásio passa as costas da mão nos olhos. Arqueja: — “Nós também somos irmãos em desgraça. Eu sou traído por um lado: tu és traído por outro!”.

Há uma pausa. Felipe instiga:

— Sou traído e…

— Pois é: — és traído e sabes, como eu.

Por um momento, Felipe não sabe o que pensar ou o que dizer. E, súbito, sem que o Gervásio possa prever-lhe o gesto, agarra-o pela gola do paletó e o sacode:

— Você vai me contar tudo, tudinho, seu cachorro! Quem lhe disse que eu sou traído e que sabia? Fala ou te arrebento.

Desconcertado, Gervásio debate-se:

— Mas que é isso? Não faça isso! Calma!

Felipe trincou os dentes:

— Quero a verdade, toda a verdade!

REVELAÇÃO

Sacudido por Felipe, que o ameaçava de quebrar a cara e até de lhe dar um tiro na boca, Gervásio confundiu-se todo:

— Eu pensei que você soubesse. Todos pensam que você sabe e perdoa!

Felipe interrompeu: — “Não quero comentários. Quero informações. Anda!”. Então, esquecido da própria tragédia, lá foi o Gervásio falando. O outro corta outra vez:

— Quero o nome do amante!

O irmão vacila, mas acaba tomando coragem:

— São vários!

Recua, desgovernado: — “Vários?”. E insiste: — “Mais de um?”.

Gervásio confirma. Então, diz, com um meio riso hediondo:

— Tens mais sorte do que eu. A tua só tem um! Mas continua! Gervásio contou-lhe o resto. Parentes, amigos, simples conhecidos sabiam de tudo. E ela não discriminava, não escolhia, como se o seu destino fosse trair, apenas trair. Felipe apertava a cabeça entre as mãos.

Faz uma pergunta, que é um lamento: — “Por quê, meu Deus, por quê?”.

Vira-se, com o rosto devastado:

— Quer dizer que todo o Rio de Janeiro sabia, menos eu? Gervásio levanta-se. Felipe o acompanha até a porta. Bate-lhe nas costas, com um humor ignóbil:

— Parabéns, porque a tua só tem um e a minha vários!

O CHOQUE

Durante uma hora, uma hora e pouco, ele ficou só no gabinete, entregue a uma meditação ardente e vazia. Quando apareceu uma funcionária com uns papéis, explodiu: — “Vai-te para o diabo que te carregue!”. A moça fugiu apavorada. Por fim, ele levantou-se, pôs o paletó e apanhou o revólver na gaveta. Meia hora depois, chega em casa.

Entra e, impassível, faz um sinal para a mulher:

— Vamos bater um papinho lá dentro.

Tranca-se à chave com a esposa. Ela pergunta: — “Alguma novidade?”. Rápido ele puxa o revólver. A esposa recua: — “Que é isso?”. Foi sumário:

— Soube isso assim, assim. É verdade? Responda.

Ergue o rosto:

— É verdade.

Há uma pausa. Ele, quase chorando, pergunta: — “Já que confessa, quero que me responda: — você merece a morte?”. Ela teve uma breve vacilação. Acabou respondendo, com uma firmeza não isenta de doçura:

— Mereço. Eu mereço a morte.

E ele:

— Escuta: — eu devia te matar como a uma cachorra. Mas há, nisso tudo, um mistério. Eu te perdoarei a vida se me disseres a verdade. Por que me traíste? Fala!

— Por quê?

O marido continua:

— Eu sempre te conheci fria, de gelo, de pedra, de morte. Já no namoro, tinhas horror de um simples beijo. No casamento, a mesma coisa. Sempre me disseste que odeias a parte física do amor. Responde: — não me disseste sempre?

Felipe está ofegante. Prossegue: — “A mulher fria é a única que não tem o direito de trair. Por que me traíste, por quê?”.

Durante um momento, os dois se olharam apenas. Ela se tornara para o marido a última das desconhecidas.

O marido insiste: — “Se me explicares, eu não te farei nada, juro!”.

Então, sem desfitá-lo, a mulher fala:

— Eu te traí na esperança do amor de que todos falam. Minhas amigas contavam maravilhas dos seus amores. Eu quis encontrar o meu.

— E daí? Encontraste?

Ela ficou calada. Finalmente respondeu:

— Nunca.

O DESFECHO

Sem uma palavra, ele abre a gaveta e guarda lá o revólver. Levanta-se e sai. Imóvel e silenciosa, vê o marido abrir a porta, atravessar a sala e sair. Então, sozinha, apanha um lápis e um papel e escreve, uma porção de vezes: — “A mulher que não pode amar também não deve viver”. Horas depois, tira da gaveta o revólver do marido. Já que ele não a matara, ela se matou — cansada de ser fria.

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Apelo

Dalton Trevisan

“Amanhã faz um mês que a Senhora está longe de casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa de esquina. Não foi ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho.

Com os dias, Senhora, o leite pela primeira vez coalhou. A notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no chão, ninguém os guardou debaixo da escada.

Toda a casa era um corredor deserto, e até o canário ficou mudo. Para não dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite eles se iam e eu ficava só, sem o perdão de sua presença a todas as aflições do dia, como a última luz na varanda.

E comecei a sentir falta das pequenas brigas por causa do tempero na salada o meu jeito de querer bem. Acaso é saudade, Senhora? As suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham. Não tenho botão na camisa, calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolhas? Nenhum de nós sabe, sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa, Senhora, por favor!

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