A poesia delira ao diapasão e, logo, intenta aos acordes da lira. Poesia que tanto descreve saliva de beijo, bem como a imagem do pensador com o queixo poisado nos dedos. Poesia pode andar no eixo para não ouvir queixa, mas pode andar fora e criar desavenças. Há poesia das crenças, poesia do lixo, poesia pretensa, poesia das gentes, poesia dos bichos. Ela é o amálgama do mundo, verte por tudo. É ofício dos nobres, sedução dos espertos, marofa dos pobres e sina dos vagabundos. Também vive escondida na língua dos analfabetos. Poesia é isso tudo e mais outro tanto, no entanto, poesia não é absurdo. Absurdo é querer-se mudo; absurdo é querer-se surdo; absurdo é querer-se cego. (Tudo e mais outro tanto - sacharuk)

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quarta-feira, 17 de junho de 2020

A crônica em foco - www.inspiraturas.org

A CRÔNICA EM FOCO

O hibridismo inerente ao gênero crônica tem causado certa polêmica. Ocorre que disparidades classificatórias têm se confrontado. De um lado, a consideração da crônica enquanto gênero menor; de outro, a dúvida sobre sua natureza jornalística ou literária. Essa “diminuição” do gênero é explicada por seus postuladores em virtude da efemeridade do tratado, ou seja, o fato de ser datada torna precária a sua sobrevida. Há também a questão do pouco tempo para se trabalhar o texto, uma vez que a crônica é um gênero de publicação periódica.

Narrada normalmente em primeira pessoa – o que caracterizaria a função emotiva da linguagem, a crônica pode se afastar ou se aproximar do Subjetivo ou do Referencial, conforme o plano do escritor. Pode, ainda, florescer sob uma luz lírica.

Antônio Candido ressalta a condição de comentário leve, apresentando-a como “composição aparentemente solta”, com “ar de coisa sem necessidade”, que “se ajusta à sensibilidade de cada dia”. Jorge de Sá, por sua vez, explica que ela consiste num “registro circunstancial feito por um narrador-repórter que relata um fato”. Massaud Moisés acredita que, mesmo ao serem publicadas em livro, as crônicas são textos fugazes, que não detém a durabilidade do romance ou do conto.

Quanto aos subgêneros identificados:

– Crônica-Diálogo –o cronista e seu interlocutor se revezam trocando pontos de vista e informações (ex.: Carlos Drummond, Fernando Sabino).

– Crônica Exposição Poética – quando faz uma divagação sobre um acontecimento ou personalidade, tecendo uma série de associações (ex.: Paulo Mendes Campos).

– Crônica Biográfica Lírica – narrativa poética da vida de alguém (ex.: Paulo Mendes Campos).

– Crônica narrativa – quando se desenvolve em torno de uma estória ou de um episódio, o que a aproxima do conto (ex.: Fernando Sabino, Rubem Braga)

– Crônica metafísica – quando o autor tece reflexões filosóficas sobre acontecimentos ou homens (ex.: Machado de Assis e Carlos Drummond)

– Crônica poema-em-prosa – de conteúdo lírico, seria o “extravasamento da alma do artista”, povoada de “episódios cheios de significados” (ex.: Rubem Braga, Manuel Bandeira, Raquel de Queiroz)

– Crônica-comentário –trata de vários assuntos diferentes (ex.: Machado de Assis e José de Alencar)

É mesmo da própria natureza da crônica a flexibilidade, a mobilidade, a irregularidade.

Mais poéticas ou mais bem-humoradas, mais sensíveis ou mais debochadas, a vasta gama de possibilidades da crônica indica sua complexidade, seus limites imprecisos, as largas opções de desenvolvimento. Aproximar-se mais do jornalismo ou da literatura está a cargo do escritor.

Nos estudos de Cândido (1992), Coutinho (2003) e Massaud Moisés (1967), ressalvadas as diferenças, vamos encontrar o elogio de traços específicos para a definição de crônica: ‘graciosidade’, ‘coloquialidade’ da escrita, ‘leveza’ para tratar de ‘coisas sérias’. Enquanto Cândido chama a atenção para a delicadeza do comentário, Coutinho enfatiza o aspecto estrutural da crônica e Moisés sublinha o seu caráter jornalístico.

O cronista reage imediatamente ao evento em questão, sendo que, quanto a técnica empregada, oscila entre a reportagem e a literatura, entre o relato impessoal, frio e descolorido de um acontecimento trivial e a recriação do cotidiano por meio da imaginação.

É o resultado da visão pessoal, subjetiva, do cronista diante de um fato qualquer, colhido no noticiário do jornal ou no cotidiano. Quase sempre explora o humor; às vezes, diz as coisas mais sérias por meio de uma aparente conversa fiada; outras vezes, despretensiosamente, faz poesia da coisa mais banal e insignificante. Registra o circunstancial do cotidiano mais simples, acrescentando, aqui e ali, fortes doses de humor, sensibilidade, ironia, crítica e poesia, o cronista, com graça e leveza, proporciona ao leitor uma visão mais abrangente, que vai além do fato; mostra-lhe, de outros ângulos, os sinais de vida que diariamente deixamos escapar da nossa observação.

Linguagem:

-Direta; Espontânea; Jornalística; de imediata apreensão. O cronista não se perde em devaneios;
-Estilo variando entre oral e literário;
- Reflete temas do cotidiano;
- Ausência de questões transcendentes;
- De vida efêmera. 
 

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