A poesia delira ao diapasão e, logo, intenta aos acordes da lira. Poesia que tanto descreve saliva de beijo, bem como a imagem do pensador com o queixo poisado nos dedos. Poesia pode andar no eixo para não ouvir queixa, mas pode andar fora e criar desavenças. Há poesia das crenças, poesia do lixo, poesia pretensa, poesia das gentes, poesia dos bichos. Ela é o amálgama do mundo, verte por tudo. É ofício dos nobres, sedução dos espertos, marofa dos pobres e sina dos vagabundos. Também vive escondida na língua dos analfabetos. Poesia é isso tudo e mais outro tanto, no entanto, poesia não é absurdo. Absurdo é querer-se mudo; absurdo é querer-se surdo; absurdo é querer-se cego. (Tudo e mais outro tanto - sacharuk)

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terça-feira, 30 de junho de 2020

semeadura


semeadura

se sarasse sua saúde
seca semente

sobrariam sombras

sobre sertões
serenaria sol solapante

seria sábio
seca semente

salvar seus sonhos
semeando solo
servindo sociedade

saiba
seca semente

sol sempre seca
sempre...

savanas são serradas
selva silenciada
suplicando socorro

salve-se
seca semente
sonegaremos sua secura
sob sol sequestrado
serviremos sua semeadura

sacharuk

Gravidade, de Tim Soares em www.inspiraturas.org

Em meus sonhos
não há gravidade
Os braços seculares
nada agarram,
nada erguem
e nada afagam
Condenados
à eterna imobilidade
Diante
a magnânima alquimia
nada podem
e atrofiam
Se tornam

apenas vontade

Tim Soares

ao sopro norte dos ventos

ao sopro norte dos ventos

índia menina
nas terras da dor e da rima
da tribo dos versos rasgados
trazes tristeza enlaçada
nos cabelos entrançados

quero estar
nos traços da lua 
por querer te saber
por querer

viveste sonhos tantos
duraram dias inteiros
atravessaram janeiros 
ilusões e desencantos
desenganos e devaneios

índia, todos os dias
escreve no chão
um verso de poesia
no arroubo da perfeição
que de tão perfeito
provoque algum medo

deslizo os dedos
entre teus cabelos
beijo as madeixas
deitadas no meu peito
acarinho tuas queixas
afago as lembranças
liberto os lamentos
e desfaço tuas tranças
ao sopro norte dos ventos

sacharuk

Dig a pony, de Tim Soares em www.inspiraturas.org

Dig a pony

Façamos um brinde
Ao desenfreado desejo de um pouco de tudo ao mesmo tempo
Façamos um brinde
Á demência maquiada nas faces cínicas
Façamos um brinde
Á essa vã filosofia capenga tratada como puta barata
Façamos um brinde
Ao fanatismo que cria densas muralhas
Façamos um brinde
Às conjecturas absurdas sobre a vida
Façamos um brinde
Ao amor mal feito e à banal troca de fluídos
Façamos um brinde
Ao ensaio diário das nossas mortes
Façamos um brinde

Com as taças cheias de uma boa melancolia suave.

Tim Soares

do grafismo na poesia


Do grafismo na poesia:

"Eu sei o que são ruínas"

significa:
eu já li sobre ou visitei alguma

"Eu SEI o que são ruínas"

significa:
Eu já estive em ruínas

Afinal, o que são ruínas?
Pedaços resistentes ao tempo?

sacharuk

sete sinas

sete sinas

sobras são separadas
semeando sua solidão
se sobra sangue são
será sua saúde sarada

seus sonhos serão salvos
sobreviverão solitariamente
seus segredos suportados
sete sinas, secularmente

seus sentidos sustados
serão seriamente serenados
salvo suas solicitudes

seus saberes sabatinados
sutilmente solidificados
serão segregados sem saúde

sacharuk

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Manifesto por um Brasil literário

O escritor e poeta Bartolomeu Campos de Queirós lê o Manifesto por um Brasil literário e fala sobre a importância da leitura de literatura.


dos pampas ao topo do céu


dos pampas ao topo do céu

eu venho de longe
trago no alforje
um saco de pão e mel
a garrafa de cana
o livrinho de papel
e uns quarenta gramas

percorro vielas estranhas
dos pampas ao topo do céu
onde formigas sucumbem
aos saltos dos sapatos
quando pisam as nuvens

vivo das vidas que vivem
e não assinam contratos
somente se servem
da tolice dos atos
dos ateus e incréus
entre crentes sacanas

percorro vielas estranhas
dos pampas ao topo do céu
onde a ideia se nutre
da crueza dos fatos
derruba engana derrama

hoje comprei um pijama
que tem estampado
o instigante retrato
do chapolim colorado
e seu letal movimento
precisamente calculado

percorro vielas estranhas
dos pampas ao topo do céu
na efeméride dos tempos
acompanho os ventos
quando ventam
baseados

sacharuk

seixos segmentados

seixos segmentados

solte sua sábia semente seca
sob sol sentinela sutil
soterrando símbolos sagrados
sob solo sarado servil

seu sacerdócio 
sua súplica
seguirão sonhos singulares
sequestrarão sistemas solares

se sentires seus segredos 
serem sabiamente selados
sua serenidade será sangrada
sobrarão seixos segmentados

sacharuk




Felice


Felice 

ontem eu quis ver a Felicidade
e me preparei desde cedo
ela estava em outra cidade
então enviei um torpedo 

se eu pedisse
a amada Felice
para dar um passeio
talvez sobrasse patada
uma resposta debochada
esse era meu receio 

e quando chegou a hora
confesso que tive medo
pois eu só a via de fora
não participava do enredo 

então eu disse
Oi, Felice
senti falsear o joelho
pois eu vi na sua cara
uma certeza tão rara
como se olhasse o espelho 

saímos para comer pizza
e lá contei uns segredos
retratei-me das injustiças
admiti meus arremedos 

se eu sentisse
que Felice
não veio ouvir conselho
talvez ficasse calada
eu já não diria mais nada
além dos olhos vermelhos 

sacharuk

traços rasgados


traços rasgados

assim ficamos
cada qual para um lado
a romper os enganos
de instantes
doravante
fotografados

das memórias
fotocromáticas
inventei figuras
pitorescas

das juras
abolidas
fiz metades estáticas
e as metades outras
joguei na lixeira

agora
de outrora
restam cenas ligeiras

e morro esquecido
nas gavetas
em sépia enferrujado

ao lado
dos traços rasgados
das histórias
obsoletas

sacharuk

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Temporais, de Rogério Germani em www.inspiraturas.org


TEMPORAIS

Dentro de mim,
raso feito segunda camada,
há um poço
lugar discreto onde guardo lágrimas

há em suas escoras
algumas lembranças tristes
alguns cantos íntimos
onde a alma( quando lança-
se
em temporais)
não mais chora

evapora.

Rogério Germani

nereida de gesso - acróstico


fotografia: wasil sacharuk


nereida de gesso

Faltai-me
Indignas paixões
Quedai nos braços da paz
Um mar sem embarcação
E um porto abrigo sem cais

Encontrai o meu signo
Movendo velas no mastro

Pó de gesso, alabastros
Asas alçando o desígnio
Zarpando dentre os corais

sacharuk

meus guris

fotografia de Andréa Iunes

meus guris

não saiam da rima
não percam o clima
tudo o que a vida ensina
é a insistência dos dias
a perpetuação das manias
e os disfarces da poesia

como disse tia Marisa
se eu não me engano
sintam no rosto a brisa
liberta do minuano

escrevam em versos a vida
caso for dolorida
caso for desengano
façam dela poema
sem tino e sem plano
sem razão ou emblema
até fora de esquema
ou propósito insano

façam dos dias dilemas
dos inimigos teus manos
das danadas dores
dos amados amores
 não façam danos

jamais se esqueçam
que os nossos problemas
são desafios dos arcanos

e sempre compreendam
que o horror dos sistemas
são desígnios humanos

sacharuk

Marisa Schmidt "Degredo" em www.inspiraturas.org


DEGREDO

Não me tires a solidão
velha irmã companheira
que durante a vida inteira
me teve à palma da mão

Não me roubes o silêncio
tão pleno em sua quietude
pois que o vozerio só ilude
o coração sempre pênsil

Não caminhe ao meu lado
nem me conte seu segredo
que só sei mesmo de mim

Sou como um bicho alado
voando em auto degredo
numa rota sem meio ou fim.

Marisa Schmidt

o Filho da Lua é um cometa

o Filho da Lua é um cometa 

quem olha o céu não avista 
os traços do Filho da Lua 
as sementes de verve viúvas 
são súplicas secas sem chuva 

a beleza no cio ficou nua 
à espreita de uma conquista 
do afago sensual do artista 
quis morrer remoendo a lacuna 

e o verbo deixou a tribuna 
a ação do sujeito é reclusa 
argumento que não insinua 
entregue ao chasque pessimista 

e Sofia dormiu com o sofista 
a certeza engoliu falcatrua 
quando a sorte perdeu fortuna 
os diabos vestiram candura 

se a Lua morrer na clausura 
talvez essa espera desista 
de encontrar outro protagonista 
que alinhave a palavra que cura

sacharuk
a
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nua

nua

tu que amanheces
no meio das noites
perdida nos tempos
e fora da linha
no viés dos momentos

tão minha

revolves mares de sal
marés escravas da lua
ao passo que o sol
ainda veste pijama
tu vens e me amas
linda e nua

sacharuk

NAS MANHÃS VERDES AINDA, Lena Ferreira - www.inspiraturas.org



Nas manhãs verdes ainda
os seios das sementes trazidas pelas aves
amamentam a sutilíssima promessa
em juras de colher diálogos claros

de vento isentas, assistem ao ensaio
de uma brisa que adolesce, risonha e macia
enquanto sussurra umidades para o campo
ervado estranhamente em brevidades e hiatos

tudo é espera suave
- adubo, rega, zelo e capina -

Nas manhãs verdes ainda
o sol, preocupado, se ocupa a mais nessa campina:
amadurece a brisa e, amortecendo os silêncios graves,
a promessa da colheita logo está pronta a ser cumprida

NAS MANHÃS VERDES AINDA - Lena Ferreira -

www.parescencias-lenaferreira.blogspot.com.br

shantala

shantala

teus gestos vibram nuanças
a espargir harmonia
deslizam sutilezas mansas
onde nascentes de energia
jorram por sobre hemisférios

tuas mãos aquecem mistérios
nas temperaturas mais frias
a amar essas vidas crianças
que avançam na esteira dos dias
em busca de paz e confiança

teu toque descobre esperanças
sob as incertezas sombrias
num ritmo suave de dança
de mãos que transcendem poesia

sacharuk

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vestido de poesia

vestido de poesia

já fui musa vadia
lobisomem peludo
provoquei alergia
artífice dos contratempos

já fui mudo
engoli argumento
já pedi alforria
de tudo tudo
que significa alegria
ou configura lamento

já fui pachorrento
e da letargia
fiz ausência de tempo
procrastinei o meu mundo
até o poço profundo
da agonia

de tanto ir embora
eu agora
não ando mais lento
fiz do dia o intento
de escrever poesia
para vestir fantasia
das coisas que invento

sacharuk


de quem nada sabe


de quem nada sabe

sou como toda essa gente
gado apartado em travessia
procissão de eus enfileirados
e fracos espíritos domados

minha vida quer ser revelia
e precisa ser mais insurgente
ter os brios na linha de frente
para desbravar outras vias

sempre os mesmos resultados
de repetidos atos malfadados
a acasalar nossas almas vazias
com tudo o que é existente

quero tanto ver noutra lente
achar na luta cor e poesia
abrir meu lume encarcerado
e deixar todo medo de lado

e quando acender outro dia
quero despertar diferente
dar um beijo bem quente
nos lábios gélidos de sofia

sacharuk

Marisa Schmidt ";Eterno Fogo" em www.inspiraturas.org

ETERNO FOGO

Percorro os velhos caminhos
salpicados de novas pedras
entre a paz e o desassossego
que por conhecido não medra
o medo, ancestral torvelinho
pondo ondas em estreito rego

São os caminhos de sempre
onde situo cada facho de luz
e suas veredas assombrosas
Tudo está lá,e conforme supus
o eterno fogo em seu trempe
cozinha esperanças saborosas

Nos tempos vários, nada é novo
para quem é velha caminhante
deste mundo vivido por dentro
onde sempre se segue adiante
e na tangência que se faz centro
a cada passo uma pedra removo...

Marisa Schmidt


orégano rosa

orégano rosa

lancei fogos em riscos
a lumiar noite crua coriscos
fagulhas faíscas e lascas

roguei o extermínio da praga
a contar conto triste da saga
ao tormento alimento do medo

revelei um ou outro segredo
ouvi dois ou três com desvelo
poesia nem sempre é uma farsa

e levei uma vida bem farta
oferenda de verso e cachaça
batendo poeira da alegria

dediquei nossas vidas
a qualquer poesia

sacharuk

(para Bento Calaça)
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a mágoa que cutuca

a mágoa que cutuca

nas cruzadas
por tua rua, a dor
dela bem sei de cor
o caminho
hesita no meu passo
a longa espera

a mágoa que cutuca
é tão crua, amor
a espera pra ter de volta
o teu carinho
que da mágoa que cutuca
faz quimera

nas cruzadas
de vida nua, amor
os pássaros
voltarão a fazer ninho
a saudade desce a rua
e vai...

quem dera!

sacharuk



"Nenhum Roberto", de Tim Soares em www.inspiraturas.org

Nenhum Roberto

Eu, coisa
Uma coisa qualquer
Coisa disforme, incolor
E acho até que não tenho sabor
E se o tiver
Não há de ser dos melhores
Não tenho bandeira
E nem uma crença que me roube a razão
Não rimo com coisa alguma
Não sou sinal de sangue
E nem tatuagem
Não sou nenhum Roberto

Mas ás vezes, chego perto!

Tim Soares

deletério

deletério

tenho ratos 
no quarto de hóspedes
vieram salvos nos caibros
na última enchente

vieram bichos
morar com as gentes
e o lixo 
entra indolente
pela porta da frente

sacharuk

Pretérito Imperfeito

Pretérito Imperfeito

Ah! Se ele soubesse ler a essência minha
Se soubesse...dispersaria a maresia;
Gotículas de amarguras, densa e fria
E aconchegando-me ao seu peito, diria:
- Serei navegante em seu mar, constante

Se eu lhe fizesse saber da carência minha
Se dissesse... concretizaria a utopia;
Respiraria vida pura, noite e dia
E entregando-me em seu leito, seria
A louca viajante desse amor, distante

Se ele pudesse perceber a ausência minha
Se pudesse... seria minha companhia;
E despiria a armadura, e sorriria
E me enroscando em seu jeito, faria
O amor embriagante sem cessar, rompante.

Ah...Se ele quisesse...Eu não seria minha
E se quisesse...Definitivo eu me despediria
Dessa arrogante senhora: Dona Agonia
Que me entorpece numa dor cortante

Se ele dissesse...Vem! Sê somente minha!
Se sussurasse meu nome...me lançaria
Na imensidão de desejos contidos; arderia
Nos seus laços-abraços; a alma entregaria
Levaria à eternidade a imagem desse instante

Lena Ferreira & Sacharuk

Chuvisco, por Marisa Schmidt em www.inspiraturas.org


CHUVISCO

Tempo passa, passatempo
chuva cai em modo lento
coração em fogo brando
cria fumaça e brumas
chuvisco é tênue espuma
se desmanchando na areia

Passa o tempo neste dia
no ritmo da garoa fria
no compasso da lembrança
enquanto o escuro avança
no jardim molhado e sem lua
uma flor noturna insinua
o perfume de um velho poema.

Noite chuvosa sempre é tema
de misteriosa volta ao passado
numa viagem estática e silenciosa
cujo trem é a alma ociosa,
a saudade solitária passageira
e a paisagem é a vida inteira...

Marisa Schmidt

Poema das Almas Inquietas

Poema das Almas Inquietas

Das frases suspensas nas fases de estio
vazio suspeito dobrando viéses
das vezes que verso em rima de frio
verbo por um fio remete a reveses

Das vozes sedentas das dores de cio
fastio que sustenta solvendo osmoses
das doses de inverno em clima sombrio
o inferno bravio reclama os algozes

Das vezes que o vento ventou sobre as folhas
daquelas escolhas tidas como certas
das reses cobertas, envoltas em bolhas
perto se fez longe  das portas abertas

Das bases que o tempo calcou sobre as formas
das normas cuspidas julgadas corretas
das fezes fedidas banhadas de aromas
forjou-se o poema das almas inquietas.

Lena Ferreira & Sacharuk




ao amigo do lado de lá

"Véio China" - arte de Lanoia


ao amigo do lado de lá

morro tanto quanto imenso
se de mim morre um amigo
morro quando perco dente
morro tanto quando ausente

tu desligas quando eu ligo
sei que sentes quando penso
eu no chão e tu suspenso
paralisas quando eu sigo

nossas vidas insurgentes
seguem rumos diferentes
sei dos ares que respiro
quando busco teu consenso

tu és um no documento
e és outro no convívio
tuas vidas são latentes
se fizeram tão presentes

és da paz enquanto eu brigo
fazes ser enquanto eu tento
tu és pó eu sou cimento
mas eu fui feliz contigo

sacharuk

Dionísio

Dionísio

trago na fronte
a folha da videira
donde crescerão uvas

amassadas
e fermentadas
tornar-se-ão vinho

libertino
e consagrado

sacharuk

Tim Soares em "Da libertação do corpo" - www.inspiraturas.org

Da libertação do corpo

Livre,
ser livre da prisão matéria
Da dor
que me é contemporânea
Do navegar
na cólera instantânea
Que pulsa
e arde na vulgar artéria

É o eufórico
e calmo fim da linha
Minha renúncia
é sedutora urgência
E o despertar
da pura essência
Que minha carne
refém mantinha.

Tim Soares

sobre águas e poemas afins


sobre águas e poemas afins

tal os versos de poesia
minhas pontes se elevam
sobre rastros perigosos
unem pontos que equidistam
e abreviam travessias

percorro suas sinas
entre mares revoltosos
sobre rios em calmaria
e colunas me sustentam
um traço entre colinas

percorro minhas trilhas
sem saber aonde levam
e meus passos desastrosos
que em versos interligam
minhas noites e meus dias

sacharuk

conto do vigário

conto do vigário

ai compadre
toca o alarme
e faz o alarde

perdi os meus pontos
e cai no conto
de um tal
do caradepau
da Editora Madre

ai compadre
agora é tarde
eu fui muito tonto
se dei um desconto
para o covarde
paulinho de andrade

sacharuk

E O PALHAÇO O QUE É?...


E O PALHAÇO O QUE É?...

“Acordei com recordações, enchendo meus olhos.

Nesse momento vi a saudade viver em mim”. Danilo Mendes
Drapejava, no topo do mastro, imponente pendão escarlate. Ao sopro da brisa estival, a flâmula exercitava-se, demarcando fronteiras. O ostentoso manto de lona, circular, pespontado em gomos vermelhos e amarelos, debruçava-se sobre cabos, barras, hastes, mastros e cordas. À força do braço, o vigor da batida, definia a cadência da marreta à estaca. Estais embrenhavam-se ao solo, violentando castas vertentes, alastrando raízes. Ao alumbramento de um matizado colar, sucumbira o negrume. A cintilação intermitente das contas emprestava à mantilha ar juvenil.

Trêileres, carros-reboque, caminhões, ônibus, circundavam, vigilantes, a praça de espetáculos. Cada núcleo familiar concorria à consonância e integridade coletiva: uma só confraria. Religiões distintas, raças e povos diversos, múltiplos mananciais de linguagem. Uma única expressão: a da milenar arte circense. Vestes requintadas e pequenas peças repousavam na cuidadosa rouparia. A sensibilidade das mãos, imersa no fascínio dos cosméticos, acentuava a beleza dos corpos e traços faciais. A conservação do vestuário, a alimentação coletiva e atividades especiais recebiam o concurso de profissionais da comunidade. A manutenção, revisão e disponibilidade de halteres, redes e trapézios exigiam o desvelo de peritos de longo curso.

Saudavam a alvorada rugidos, guinchos, bramidos, latidos e relinchos, que se contraditavam a sonoros trinados, gorjeios e chilreados. Punha-se a mesa ao café matinal. Na alvura dos lençóis, o cansaço ainda dormitava. Nos varais, a intimidade desnuda: o segredo dos talhes, a insinuação dos perfis. Criançada a caminho da escola. Garante-se a vaga em ato legal. À perfeição, busca incessante. Ao bom desempenho, ensaios constantes.

O cortejo incitava, pelas ruas centrais, multidões às calçadas. A experiência do idoso harmonizava-se à ousadia e curiosidade dos jovens. Por trás de janelas, olhares discretos, mãos comedidas afastavam leves cortinas. A banda, entusiasticamente, ao som de dobrados, musicava convites. A trupe reunia, indiferente a cores, credos e raças, esbeltas mulheres, vigorosos ginastas e personagens excêntricas. Desfilavam, arrancando aplausos e risos, hábeis malabaristas, arrojados acrobatas, elegantes e graciosas bailarinas, a gigantesca mulher barbada, Hércules – o senhor dos músculos de ferro –, índios norte-americanos – com vistosos cocares –, o enigmático senhor da magia, e pilares da arte circense: palhaços e anões.

Na face inocente, o olhar inquietante. Ao rosto marcado retornavam lembranças. A mão pequenina, revelava temor, e se amparava nas mãos maternais. O trator pachorrento arrastava gaiolas e jaulas. Inquietavam-se as feras ao ribombar dos foguetes. O chicote estalava, impondo obediência. O atavismo curvava-se à doma e o selvagem tornava-se dócil. Domesticava-se o tigre. Adestrava-se o pônei. Distribuíam-se ingressos à noite de estréia, tornando inviável recusar cortesias.

Palhaços em pernas de pau e monociclos equilibravam-se na audácia. O som amplificado passeava com o vento. Intercalava-se, a composições musicais, a programação com sotaque espanhol. Na bilheteria, a simpática senhora, comercializava ingressos e distribuía amabilidades. Ambulantes regalavam-se, aumentando vendas e acrescendo rendas. Aromas, bálsamos e cheiros confundiam-se no assar das carnes, no molho do cachorro-quente e no estalar de pipocas. Cestos e balaios ziguezagueavam, oferecendo algodão-doce róseo e azul, amendoim com cobertura salgada e caseiras balas de mel. A sirene ecoara pela terceira vez: estava próximo o descerrar da cortina. Um pequeno atraso aumentava a expectativa. Consumira-se o primeiro saquinho com pipocas. A sede e a premência de ir ao banheiro eram quase incontroláveis. Crianças... A ousadia sobrepunha-se ao temor. Por baixo da lona traquinas se esgueiravam sem receio a reprimendas.

A luz intensa dava lugar ao insulamento. Os holofotes derramavam fluxos de claridade no mestre de cerimônias: orgulhosamente, postava-se no meio do picadeiro, vestia smoking vermelho com caudas longas, calças de equitação, colete chamativo, cartola preta, gravata borboleta vermelha, chicote, botas até o joelho e destacado bigode preto. E o brado empolgante, ecoava, provocando arrepios:

– “Damas y cabelleros, respeitável público, com vocês: o mundo encantado do circo!”

Ao som de ‘The Circus Bee’, composto por Henry Fillmore, afastavam-se as faces do cortinado carmim. Ressoava um silvo estridente, dando ao corso passagem à arena. À frente, garbosos cavalos brancos, e venustas amazonas com longos cabelos. Ao término, astutos macacos traziam pôneis à rédea.

Fechavam-se os olhos a voos audazes. Na corda estendida, a intrepidez caminhava. No impulso dos corpos: o aéreo bailado. De um lado a confiança da espera, de outro a esperança na entrega. E no trapézio voejavam bravura e temores. Ouvidos cobertos, temia-se o estrondo. Fumegava o canhão, homem-bala lançado. E a rede aparava o humano projétil. Diminuía a tensão, imperava a galhofa; cambalhotas, cabriolas: hilários palhaços. E a inocência aflorava no riso pueril. No arremesso de facas, a caixa rufava. O disco rodava, acentuando o perigo. Olhos vendados, nervos de aço. E tracejavam silhuetas, arrancando murmúrios. Na destreza das mãos, lenços, esferas e cartas. Da cartola encantada saiam coelhos, ovos e pombas. Serrava-se ao meio a formosa assistente. Espadas varavam suspeitos baús. E o mágico sumia à varinha de condão. Na ponta das hastes os pratos giravam. Pirâmide humana, tochas ardendo. Longa barra de ferro, pedaladas no ar. E o cabo de aço era o chão do equilíbrio. Numa estrada sem retas, quatro motos roncavam. Tresloucadas manobras tangenciavam o perigo. E celebrava-se a vida no globo da morte.

Sucederam-se manhãs primaveris e tardes hibernais. A divulgação da chegada de um circo francês leva-me à infância. As recordações me entorpecem. No meu circo o palhaço foi rejeitado pela bailarina. Nosso destino, por vezes, embalou-se na ‘corda bamba’. Lançamo-nos em ‘saltos no escuro’. Mesmo assim, a lágrima incontida apanhou-me sem máscara, e a brisa sussurrou, saudosamente:

– “Hoje tem marmelada?”

– “Tem, sim senhor!”

– “Hoje tem goiabada?”

– “Tem, sim senhor!”

– “E o palhaço, que é?”

– “Ladrão de mulher” .

Jorge Moraes - jorgemoraes_pel@hotmail.com - maio de 2015
 
Jorge Moraes, natural de Rosário do Sul RS, cidadão pelotense; Professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira; Membro das academias Sul-brasileira de Letras e Pelotense de Letras.


a sombra que nos espicha


A sombra que nos espicha

A sombra que nos espicha
infelizmente não explica
a alma que busca espaço.

Somos estranhas figuras
que entre risos e agruras
segura a vida no braço...

A sombra que nos indica
fatalmente enfeitiça
de ver o eu projetado

Somos estampas escuras
decalcadas nas ruas
represadas nos traços.

Marisa Schmidt & Sacharuk

do pó que faz pedra nas águas

do pó que faz pedra nas águas

tantos anos passados
não foram poucas
as navegações
pelas rotas mais loucas
a rodar timões
desenganados

estivemos lado a lado
copos na mesa
navegamos whisky derramado
marolas e ressacas
ondas de incertezas

nossa velha barcaça
move a vela 
de toalha de mesa
traz memórias acessas
tão vivas como antes
histórias de navegantes
pouco ou nada diferentes

nosso encontro na foz
fez poema de versos correntes
cuja origem é nascente das mágoas

assim somos nós
assim fomos feitos

do pó que se encerra
habita o fundo das águas
constitui antigo agregado

e lá do outro lado, na terra
aguardamos o dia perfeito
em que voltaremos ao pó

assim somos pedras
assim somos sós

sacharuk

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figuras e máculas

figuras e máculas

ao longo das tuas omoplatas
pousei minhas mãos trêmulas
na textura frágil compacta
deslizaram lentas efêmeras

percorri tuas curvas fêmeas
carícias caíram em cascatas
teu seio de mamas gêmeas
enfeitiçou os meus olhos

um mar de atóis e abrolhos
avistei das areias morenas
e teus gentis territórios
devastei com gana pirata

vi tua nudez pelas matas
tal andarilha sonâmbula
de deliberações inexatas
a letal borboleta falena

poesia lasciva e obscena
que sussurraste insensata
teu corpo de luzes helenas
resplandecentes no ofertório

em minha tez tatuei capitólio
com tuas expressões sarracenas
plasmei traços compulsórios
das nossas figuras e máculas

sacharuk


O limpador de chaminés

O limpador de chaminés

Isaac Bashevis Singer
Tradução Mirra Ginsburg

Há pancadas e pancadas. Uma pancada na cabeça não é brincadeira. O cérebro e um órgão delicado, se não fosse assim, por que a alma estaria localizada no cérebro? Por que não no fígado ou, se me perdoam, nas tripas? Pode-se ver a alma nos olhos. Os olhos são janelinhas pelas quais a alma espia.

Tínhamos um limpador de chaminés na cidade, cujo apelido era Yash Preto. Todos os limpadores de chaminé são pretos - que mais podem ser? mas Yash parecia ter nascido preto. Seu cabelo era eriçado e negro como o piche. Os olhos eram negros e a pele nunca estava limpa da fuligem. Só os dentes eram brancos. O pai tinha sido limpador de chaminés da cidade e Yash herdara o oficio. Já era um homem adulto, mas continuava solteiro e morava com a velha mãe, Maciechowa.

Vinha a nossa casa uma vez por mês, descalço, e a cada passo deixava uma marca negra no chão. Minha mãe, que ela descanse em paz, corria para recebe-lo e não deixa-lo ir além. Era pago pela cidade, mas as mulheres lhe davam um groschen ou uma fatia de pão quando acabava o serviço. Era o costume. As crianças tinham terror dele, embora nunca fizesse mal a ninguém. E enquanto foi limpador de chaminés, as chaminés nunca pegaram fogo. Aos domingos, como todos os cristãos, ele se lavava e ia a igreja com a mãe. Mas, lavado, parecia ainda mais negro do que antes; talvez por isso nunca encontrasse esposa.

Uma segunda-feira - lembro-me como se fosse ontem -, Feitel, o aguadeiro, entrou e nos contou que Yash caíra do telhado de Tevye Boruch. Tevye Boruch era dono de um sobrado na praça do mercado. Todos sentiram pena do limpador de chaminés. Yash sempre trepara pelos telhados com a agilidade de um gato, mas se um homem esta predestinado a sofrer um acidente, não há como evitá-lo. E tinha que ser no prédio mais alto da cidade. Feitel disse que Yash batera com a cabeça, mas não quebrara nenhum membro. Alguém o levara para casa. Ele morava nos arredores da cidade, próximo as matas, num casebre decrépito.

Durante algum tempo ninguém soube notícias de Yash. Mas que importava um limpador de chaminés? Se não podia mais trabalhar, a cidade contratava outro. Então um dia Feitel voltou, com dois baldes de agua no balancim e disse a minha mãe:

– Feige Braine, soube das notícias? Yash, o limpador de chaminés agora lê pensamentos.

Minha mãe riu e cuspiu.

– Que brincadeira é essa? - perguntou.

– Não é brincadeira, Feige Braine. Não é brincadeira mesmo. Ele está deitado no catre com a cabeça enfaixada adivinhando os segredos de todo mundo.

– Você ficou maluco? – ralhou minha mãe.

Não tardou e a cidade inteira estava comentando. A pancada na cabeça de Yash afrouxara algum parafuso em seu cérebro e ele se tornara vidente.

Tínhamos um professor na cidade, Nochem Mecheles, e ele chamava Yash de adivinho. Quem já ouvira falar numa coisa dessas? Se uma pancada na cabeça podia tornar um homem vidente, deveria haver centenas deles em cada cidade. Mas as pessoas tinham ido lá e presenciado com os próprios olhos. Um homem podia pegar um punhado de moedas no bolso e perguntar: “Yash, o que tenho na mão?”. E Yash respondia: “Tantas moedas de trêsgroschen, tantas de quatro e de seis copeques”. Contavam as moedas e estava tudo certinho até o ultimo groschen. Outro homem perguntava: “Que foi que fiz na semana passada a essa hora em Lublin?”. E Yash dizia que fora a uma taverna com dois homens. E os descrevia como se estivessem diante dele.

Quando o médico e as autoridades da cidade ouviram a história, foram correndo ver. O casebre de Maciechowa era tão minúsculo e tão baixo que os chapéus dos visitantes tocavam no teto. Começaram a interrogá-Io e ele respondia tudo certo. O padre se alarmou; os camponeses estavam dizendo que Yash era santo. Um pouquinho mais, e principiariam a sair com ele em peregrinação como se fosse um ícone. Mas o médico dizia que não deviam removê-lo. Além do mais, ninguém nunca vira Yash na igreja exceto aos domingos.

Bem, lá estava ele deitado na enxerga, falando como uma pessoa normal - comendo, bebendo, brincando com o cachorro que a mãe criava. Mas sabia tudo: o que as pessoas traziam nos bolsos do casaco e nos bolsos das calças; onde esse tinha escondido o dinheiro; quanto aquele gastara em bebidas anteontem.

Quando a mãe viu o afluxo de visitantes, começou a cobrar um copeque de entrada por pessoa. E elas pagavam. O médico escreveu uma carta para Lublin. O prefeito da cidade mandou - como chamam agora? - um relatório, e vieram personagens em altos postos de Zamosc e Lublin. Diziam que o próprio governador enviara um representante. O prefeito se assustou e mandou limpar todas as ruas. A praça do mercado ficou tão limpa que não se via nenhum graveto ou palha no chão. A prefeitura foi rapidamente caiada. E tudo por causa de quem? De Yash, o limpador de chaminés. A casa de Gitel, o estalajadeiro, estava num alvoroço - quem alguma vez sonhara com hospedes tão importantes?

A comitiva inteira partiu para ver Yash em seu casebre. Interrogaram-no, e as coisas que disse encheram de medo os corações dos funcionários. Quem sabe as culpas que pessoas assim carregam? Todas recebiam suborno, e ele lhes disse. Do que entende um limpador de chaminés? O visitante mais ilustre - esqueço seu nome - insistiu que Yash estava doido e devia ser mandado para um hospício. Mas o nosso médico argumentou que o paciente não podia viajar, isso o mataria.

Corria o boato de que o médico e o representante do governador tinham trocado palavras ásperas e quase chegaram as vias de fato. Mas o nosso médico também era funcionário publico; era o médico da municipalidade e fazia parte da junta de alistamento. Era um homem inflexível - ninguém conseguia compra-lo, por isso não temia a clarividência de Yash. Seja como for, o médico venceu. Mas depois o representante informou que Yash estava louco, e deve ter se queixado do médico, porque não tardou e ele foi transferido para outro distrito.

Nesse meio tempo, a cabeça de Yash sarou e ele voltou a limpar chaminés. Mas conservou os seus estranhos poderes. Entrava numa casa para receber o seu groschen e a mulher lhe perguntava: “Yash, o que esta guardado na gaveta do lado esquerdo?”, ou: “O que tenho na mão?”, ou: “O que ceei ontem a noite?”. E ele dizia tudo. Perguntavam:

“Yash, como e que você sabe disso?” Ele dava de ombros: “Sei. Foi a pancada na cabeça”. E apontava para a têmpora. Poderia ter sido levado para as grandes cidades e as pessoas comprariam entradas para vê-lo, mas quem se preocupava com essas coisas.

Havia diversos ladrões na cidade. Roubavam roupa dos sótãos e tudo o mais em que pudessem por as mãos. Agora já não podiam roubar. A vítima procurava Yash e ele dizia o nome do ladrão e o lugar onde o produto do roubo estava escondido. Os camponeses das aldeias próximas ouviram falar de Yash e sempre que um cavalo era roubado, o dono vinha vê-lo para descobrir onde se encontrava. Muitos ladrões já estavam na cadeia. Os ladrões ficaram de olho nele e diziam abertamente que era um homem marcado. Mas Yash sabia de seus pianos com antecedência. Foram espanca-lo certa noite, mas ele se escondera no celeiro do vizinho. Atiravam pedras, mas ele pulava de lado ou se abaixava bem antes da pedra passar voando.

As pessoas esqueciam onde punham as coisas - dinheiro, joias - e Yash sempre lhes dizia onde acha-las. Nem parava para pensar. Se uma criança se perdia, a mãe corria para Yash, e ele a levava até a criança. Os ladroes começaram a dizer que ele próprio sequestrara a criança, mas ninguém lhes dava credito. Ele nem mesmo recebia pela consulta. A mãe exigia dinheiro, mas ele era um bobalhão. Nunca aprendera muito bem o valor de uma moeda.

Tínhamos um rabino na cidade, Reb Arele. Viera de uma cidade grande. No Grande Sabá antes da Pascoa ele pregou na sinagoga. E qual foi o tema? Yash, o limpador de chaminés. Os céticos, disse, negam que Moises seja profeta. Dizem que tudo deve ser explicado pela razão. No entanto, como e que Yash, o limpador de chaminés, sabe que Itte Chaye, a padeira, deixou cair a aliança no poço? E se Yash, o limpador de chaminés, sabe das coisas ocultas, como alguém pode duvidar dos poderes dos santos? Havia alguns hereges na cidade, mas nem eles tinham resposta.

Nesse interim, as noticias sobre Yash tinham chegado a Varsóvia, e outras cidades. Os jornais escreveram sobre ele, e de Varsóvia enviaram uma comissão. Mais uma vez o prefeito despachou o pregoeiro da cidade para avisar que as casas e quintais deviam ser limpos. A praça do mercado foi novamente varrida ate ficar tinindo. Depois do Sukkoth[1] vieram as chuvas. Só tínhamos uma rua calcada - a da igreja. Tábuas e toras foram estendidas por toda a parte para que as pessoas importantes de Varsóvia não precisassem andar na lama. Gitel, o estalajadeiro, preparou camas e acomodações. A cidade inteira se alvoroçou. Yash era o único que não ligava. Continuava a correr as casas e a limpar chaminés, como de costume. Nem tinha o bom senso de recear os funcionários de Varsóvia.

Mas escutem só: um dia antes da comissão chegar, houve uma nevada e uma súbita geada. Na noite anterior, viram faíscas e até línguas de fogo voando da chaminé de Chaim, o padeiro. Chaim, preocupado que irrompesse um incêndio, mandou buscar Yash, o limpador de chaminés. Yash veio com a vassoura e limpou a chaminé. O forno de um padeiro permanece aceso muitas horas e uma grande quantidade de fuligem se prende a chaminé. Quando Yash estava descendo, escorregou e tornou a cair. Bateu mais uma vez com a cabeça, mas não com tanta força quanto da primeira vez. Nem saiu sangue. Ele se levantou e foi para casa.

Meus queridos amigos, no dia seguinte, quando a comissão chegou e começou a interrogar Yash, ele não sabia nada. A primeira pancada abrira alguma coisa, e a segunda a fechara. Os figurões perguntaram quanto dinheiro traziam, o que fizeram no dia anterior, o que comeram uma semana atrás aquela hora, mas Yash apenas sorria como um tolo e respondia: “Não sei”.

Os funcionários se enfureceram. Repreenderam o chefe de polícia e o novo médico. Exigiram saber por que tinham vindo de tão longe para ver aquele parvo, aquele campônio que não passava de um limpador de chaminés comum.

O chefe de polícia e os outros juraram que Yash sabia de tudo ha um ou dois dias atrás, mas os visitantes não quiseram escutar. Alguém lhes disse que Yash caíra de um telhado e tornara a bater com a cabeça, vocês sabem como as pessoas são: só acreditam no que veem. O chefe de polícia se aproximou de Yash e começou a bater com os punhos na cabeça dele. Talvez o parafuso se soltasse outra vez. Mas, uma vez que a portinhola no cérebro se fecha, permanece fechada.

A comissão regressou a Varsóvia e negou a historia do princípio ao fim. Yash continuou a limpar chaminés mais um ou dois anos. Então irrompeu uma epidemia na cidade e ele morreu.

O cérebro é cheio de todo tipo de portinholas e câmaras. As vezes uma pancada na cabeça desarruma tudo. Ainda assim, tudo isso tem relação com a alma. Sem a alma, a cabeça seria tão sabia quanto o pé.


[1] Festa religiosa judaica que comemora a colheita de outono, também chamada Festa dos Tabernáculos. (N. do T.)
http://contosquevalemapena.blogspot.com.br/2015/05/45-o-limpador-de-chamines-i-b-singer_1.html

meu abraço

meu abraço

eu quero muito te dar um abraço
também necessito da tua guarida
eu me vejo carente e abandonado
passei a viver num mundo quadrado

eu quero poder entrar na tua vida
também preciso apertar esse laço
encolher distâncias entre os espaços
dispensar as memórias doloridas

eu quero muito estar ao teu lado
também necessito ser consolado
soprar a aspereza das tuas feridas
fazer do meu colo o teu descanso

eu quero tanto andar no teu passo
também preciso encontrar a saída
quiçá construir um sonho dourado
e tentar fazer que ele seja de fato

quero te dar a canção mais bonita
também necessito acertar o compasso
suprir de carinho o amor tão escasso
verter poesia do que a alma dita

sacharuk


vislumbre

vislumbre

as mãos abriram a cela
busquei espaços
novos traços
novas esferas
a compreensão
de um novo código

naveguei nas galeras
perdi o avião
voltei como pródigo
para apertar os laços
e não perder a razão
beijar o cimento do chão

as mãos rasgaram a mudez
da timidez de versos rasos
vaguei infinitos parnasos
vales de letras belas
e jamais terei a certeza
de que saí da minha janela

sacharuk
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tu me confundes

tu me confundes

tu me confundes
articulosa
gata manhosa
podes ter
aos teus pés
minha fé
meu bem-querer

tu me confundes
insinuas formosa
coberta de rosas
podes ver
versos do céu
caírem sobre o papel
onde vou escrever

sacharuk

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pela palavra

Pela Palavra 

É somente o uso da palavra que garante um pequeno grau de distinção entre as pessoas e os outros bichos. 

Quanto a mim, a timidez me confinou à eterna tentativa de domar meus instintos, enquanto Aristóteles assombrava com aquela ideia de animal político. E eu não encontrava tanta politicidade em minha animalidade.

Ainda questiono minha capacidade de integrar uma sociedade e constituir um Estado. É a palavra o único acesso que tenho ao mundo das pessoas... Por ela sou facilmente influenciado e posso tentar influenciar. É ela que me faz distinguir o meu bem do meu mal e disfarçar a imoralidade. Modelo o pensamento seguindo signos confusos que gritam no meu cérebro. Mas, o mais significativo, é que pela palavra invento alcunhas aos meus sentimentos e valores (quais?), e assim, faço uma bruta distinção entre as coisas e selo suas diferenças. Todos precisam de rótulos para ser animal político. 

Fico aqui, navegando no mesmo barco que Rousseau: não sei se preciso pensar para encontrar as palavras ou encontrar as palavras para pensar. Tudo no meu mundo é tão abstrato que só toma forma quando eu falo, quando escrevo... e se não falo ou escrevo, me escondo. 

Penso que toda essa complexidade se sintetiza num ser vivente, do tipo social, revestido da textura material das palavras e, invariavelmente, mal compreendido. Como escreveu Lispector: "Inútil querer me classificar... eu simplesmente escapulo... gênero não me pega mais..." 

Toda linguagem não dá conta dessa abstração. A brincadeira com os clichês me conduz ao entendimento dos rótulos. E na minha poesia, ingênua e simples, eu posso alcançar alguma catarse. E com ela ainda permito a expressão da animalidade. E nem gênero, espécie ou Aristóteles me pegam mais. 

sacharuk

a busca




“Quanto tempo temos antes de voltarem, aquelas ondas?

Que vieram como gotas em silêncio, tão furioso.
Derrubando homens entre outros animais,
Devastando a sede desses matagais.
Devorando árvores, pensamentos, seguindo a linha,
Do que foi escrito pelo mesmo lábio, tão furioso.
E se seu amigo vento não te procurar,
É porque multidões ele foi arrastar.”
(Eternas ondas – Zé Ramalho)

A busca 

É madrugada e se pode claramente ouvir os passos. São curtos e rápidos. Os cabelos da mulher estão totalmente ocultos pelo capuz negro que revela apenas pequena parte da face de pele muito branca. E ela avança pela escura ruela banhada por uma contínua e espessa chuva que promete não se esgotar. Molhadas, as vestes negras aderem totalmente às formas do corpo da mulher.

—É preciso encontrá-lo já e me antecipar ao vento que quer tomá-lo de mim.

As águas que caem do céu encontram o chão de pedras e, quando unidas ao sopro drástico do vento, compõem um misterioso som que se apodera do vazio noturno. A tormenta obriga a pressa dos passos.

—Talvez não haja mais tempo para dissuadi-lo! 

O lado direito revela o caminho que deve ser tomado e conduz inevitavelmente à velha ponte. Faz-se necessária a travessia para quem quer seguir o rumo que alcança o alto do monte. 

O capuz molhado ainda absorve a chuva que se mistura às lágrimas que descem pela suavidade do rosto jovem. 

Passos decididos vencem a travessia da ponte e investem cansados contra o alto. A força supera a pressa e no frágil corpo transparece toda a angústia e o desespero. Incontáveis passos firmes serão ainda precisos sobre o solo enlameado que conduz ao topo. 

— Estará ele ainda lá? 

A fadiga mina a vontade e debilita a matéria. Ao cessar das forças, a natureza se encarrega de orquestrar o ato final. 

Com os joelhos afundados no barro a mulher tem as lágrimas secas pelo espanto. Por um breve instante cessou todo o medo, mas não há mais fôlego. 

Surgindo pleno de glória da margem do precipício, um homem abre os braços prontos a se agarrar ao mundo e, tal como um corajoso pássaro, desafia a grande chuva e as alturas, em nome da liberdade. 

sacharuk


curta

É apenas uma frase,
já vai passar,
quando chegar ao ponto.

sacharuk


sexta-feira, 26 de junho de 2020

palavra da morte e da vida


palavra da morte e da vida

busca a palavra que designa
quando morre toda a vida
quando seca a ferida

busca a palavra que é digna
quando a morte ressuscita
quando a primeira vez se grita

busca a palavra que resigna
quando a morte ou a vida
é tão contingente e iludida

busca a palavra - o signo
que representa a morte
que representa a vida
que sentencia a sorte
se vitoriosa ou perdida
que ruma a um novo norte
nova missão cumprida

busca a palavra da morte
busca a palavra da vida

sacharuk
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Audiverimus - "Palavra da morte e da vida" (Sacharuk)

inverno no sul


inverno no sul

o inverno malevo corta
a noite cai 
súbito em recuerdo
queima a lenha 
da nossa saudade
balda de cuia 
que aquece a mão

pendura os arreios 
detrás da porta
recolhe a piazada mais cedo
repete os causos da mocidade
das madrugadas mais frias 
do nosso rincão

chama os guaipecas para a volta
que deitem focinho nos pelegos
chama os piás e a prenda 
para a amizade
compartilhada na roda
do chimarrão

sacharuk

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fotografia de Andréa Iunes

domingo, 21 de junho de 2020

via crucis

Via crucis 
Antes de abrir a porta, sabia dos estragos no tapete da sala, das luzes apagadas e do perfume barato. Queria girar a chave, entrar e se manter acordado, queria não ouvir passos. (Andréa Iunes)
Entraste e fechaste a porta por dentro, enlaçaste as tramelas de ferro. Havia, naquela parede, a réplica da santa ceia e, para ela, olhaste. Para nada mais. Andaste seis passos até a poltrona. Permaneceste sentado de olhos fechados.

Lembro quando disseste que entendes a morte tal artífice do improviso e que se veste de tipos diferenciados para livremente ceifar as tolas cabeças. Decerto ela guarda, no mínimo, um par de mistérios: o de fazer desfilar, num peculiar espelho, a esteira das ações, com flashes dos seus deletérios, suas subtrações e, também, o de saber o oriente dessas curvas insólitas que conduzem aos portais do inferno.

À noite, sonhaste com uma dúzia de abutres famintos pousando sobre o tapete. O mais furioso bicava teus pés e tuas mãos e, logo após, espargiu suas garras atrozes sobre a tua cabeça.

Quando acordaste os policiais já estavam aqui. Te forçaram a carregar o corpo até o final da rua. Lá, a viatura da central de homicídios já nos aguardava. Depois, bem sabes, eu entrei novamente na tua história.

Dessa feita, te dei uma partida lenta e segura onde tiveste braços longos e abertos, tal asas, e teus pés juntos perfizeram uma cauda. Novamente pudeste voar.

Das tantas vezes que te libertei, ainda me intriga saber por qual razão ainda te amedrontas quando ouves os meus passos.

sacharuk