Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas tu podes treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras ainda não escritas.
OFICINA DE ESCRITA LITERÁRIA INSPIRATURAS - Repaginada para 2020 - novos desafios - inscreve-te! Integra conceitos, técnicas e inspiração em desafios lúdicos e escreve poesia, crônicas e contos

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Haicai - haiku - www.inspiraturas.org


HAICAI – Inspiraturas oficina de escrita literária

O Haicai, também chamado de “Haiku” ou “Haikai”, é um poema curto de origem japonesa. A palavra haicai é formada por dois termos “hai” (brincadeira, gracejo) e “kai” (harmonia, realização).

Estrutura e Características do Haicai

O tradicional haicai japonês possui uma estrutura específica, ou seja, uma forma fixa composta de três versos (terceto) formados por 17 sílabas poéticas, ou seja:

Primeiro verso: apresenta 5 sílabas poéticas (pentassílabo)
Segundo verso: apresenta 7 sílabas poéticas (heptassílabo)
Terceiro verso: apresenta 5 sílabas poéticas (pentassílabo)

O Haicai no Brasil - O teórico literário Afrânio Peixoto foi um dos primeiros a apresentar essa forma poética no país, quando a compara com as trovas no ensaio “Trovas Populares Brasileiras”, escrito em 1919. Nas palavras do autor:

“Os japoneses possuem uma forma elementar de arte, mais simples ainda que a nossa trova popular: é o haikai, palavra que nós ocidentais não sabemos traduzir senão com ênfase, é o epigrama lírico. São tercetos breves, versos de cinco, sete e cinco pés, ao todo dezessete sílabas. Nesses moldes vazam, entretanto, emoções, imagens, comparações, sugestões, suspiros, desejos, sonhos... de encanto intraduzível.”

O modelo de haicai produzido por Guilherme de Almeida foi cunhado de “modelo Guilhermino”, onde o primeiro e terceiro verso possuem rimas e no segundo verso, encontra-se a rima interna entre a segunda e sétima sílaba.

HAICAI - POESIA DA NATUREZA

O haicai sempre nasce de uma cena ou objeto natural. Mesmo nos instantes em que cita assuntos humanos, isto se dá através de uma grande reviravolta filosófica, em que o homem não é mais considerado o centro do universo, ou uma entidade separada da natureza, como é habitualmente colocado pela cultura ocidental. Em verdade, o homem é parte integrante da natureza, submisso a ela, e assim passível de se transformar em assunto de haicai.

Tradicionalmente, a menção à natureza é feita através de um termo- de- estação, mais conhecido pela palavra japonesa kigo. Pode-se questionar a validade das quatro estações no Brasil, mas é inegável a existência de um ciclo anual, ao qual os vegetais e os animais se moldam, e dentro do qual o homem organiza suas atividades. Entendido de uma maneira ampla, o kigo é a palavra ou expressão associada a uma entidade natural, capaz de disparar associações afetivas a partir de uma cena concreta, de maneira muito econômica.

Como parte desta herança, reconhecemos o caráter simbólico tradicionalmente atribuído a cada estação:

Primavera: alegria, renovação, amor, flores, juventude;
Verão: vivacidade, liberdade, calor, maturidade;
Outono: melancolia, decadência, nostalgia, colheita, senectude;
Inverno: tranquilidade, reclusão, morte, repouso, frio.

O haicai sempre exprime um momento vivenciado no presente. Sendo baseado na natureza, obrigatoriamente fala de coisas concretas, com existência física. E ao falar do presente através de coisas concretas, necessariamente alude à temporalidade, ao provisório e ao efêmero, marcas do mundo terreno. Em outras palavras, o haicai é um veículo para a expressão da transitoriedade, e esta é evidenciada através do uso dos termos-de-estação ou kigos. Signos de um mundo em constante mutação, os kigos se sucedem ao longo do ciclo anual, representando a própria imagem da transitoriedade.



Ao exprimir um momento do presente, baseado na realidade física, o haicai se aproxima da fotografia. Sempre que olhamos para uma foto, aquela impressão visual se reaviva e se torna presente para nós. O haicai faz o mesmo, através da descrição objetiva de uma sensação física, que além de visual, pode ser também auditiva, tátil, olfativa ou de paladar. Esta sensação pode disparar uma lembrança ou um sentimento, o que pode ser expresso no poema.

O minúsculo tamanho do haicai não comporta cenários dramáticos, amplos movimentos ou planos em sequência. Também não se trata de suprimir todos os elementos sintáticos como num telegrama, visando comprimir o máximo de palavras dentro de 17 sílabas. A descrição simples e sem artifícios estilísticos de uma sensação, deixando grande espaço para a sugestão, é a regra a ser seguida.

"Haikai não é síntese, no sentido de dizer o máximo com o mínimo de palavras. É antes a arte de, com o mínimo, obter o suficiente". - Paulo Franchetti

NÃO AO EGO

Negar o ego não significa proibir a palavra "eu". Haicais na primeira pessoa são perfeitamente viáveis. Mas a objetividade do haicai deixa pouco espaço para a expressão do universo interior do autor.

O subjetivismo e sua derivação, o sentimentalismo, são praticamente condenados, junto com qualquer traço de intelectualismo. Os sentimentos humanos, quer sejam os do autor ou não, são expressos com parcimônia, sempre submetidos à sensação física que os gerou, e aparecem puros, livres de elaboração racional e conceituação intelectual.

O haicai não se presta para expressar um raciocínio, do tipo A+B=C. É mais frequente que contraste dois elementos sem conexão lógica, cabendo ao leitor reconciliá-los em um novo plano de significado (o que não quer dizer que o haicai seja uma charada ou adivinha). Tão pouco o haicai serve para expressar juízos ou sentenças. A natureza não trabalha assim, estando acima do bem e do mal, categorias inventadas pelo homem. Por consequência, aforismos e lições de moral estão fora da esfera do haicai.

O Poeta

“Caçador de estrelas.
Chorou: seu olhar voltou
com tantas! Vem vê-las!”

(Guilherme de Almeida)


“Ah! estas flores de ouro,
que caem do ipê, são brinquedos
pr'as criancinhas pobres...”

(Jorge Fonseca Jr)


“Tremendo de frio
no asfalto negro da rua
a criança chora.”

(Fanny Luíza Dupré)


“Viver é super difícil
o mais fundo
está sempre na superfície”

(Paulo Leminski)


“Nos dias quotidianos
É que se passam
Os anos”

(Millôr Fernandes)


“Nariz na vidraça.
Guri de rua acompanha a
Ceia de natal.”

(Hazel de S. Francisco)


“Depois da geada,
nas faces do espantalho,
lágrimas geladas.”

(Roberto Saito)


“Pequena borboleta
Enfeitando meus cabelos
Por um momento.”

(Clície Pontes)


“Das noites juninas
de outrora, anciãs agora,
estão as meninas.”

(Cyro Armando Catta Preta)


“A pedra atirada ...
Fundo lago de outono
desmorona o céu.”

(Francisco Handa)


fonte: http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/portals/cadernospde/pdebusca/producoes_pde/2009_uel_portugues_md_ivanete_mazzieri.pdf

Nenhum comentário:

Postar um comentário