A poesia delira ao diapasão e, logo, intenta aos acordes da lira. Poesia que tanto descreve saliva de beijo, bem como a imagem do pensador com o queixo poisado nos dedos. Poesia pode andar no eixo para não ouvir queixa, mas pode andar fora e criar desavenças. Há poesia das crenças, poesia do lixo, poesia pretensa, poesia das gentes, poesia dos bichos. Ela é o amálgama do mundo, verte por tudo. É ofício dos nobres, sedução dos espertos, marofa dos pobres e sina dos vagabundos. Também vive escondida na língua dos analfabetos. Poesia é isso tudo e mais outro tanto, no entanto, poesia não é absurdo. Absurdo é querer-se mudo; absurdo é querer-se surdo; absurdo é querer-se cego. (Tudo e mais outro tanto - sacharuk)

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segunda-feira, 27 de julho de 2020

DESAFIO INSPIRATURAS: “Há beleza nas ruínas” - www.inspiraturas.org


Ismália

Alphonsus de Guimaraens


Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...


ALGUMAS CARACTERÍSTICAS DO SIMBOLISMO:

      elementos sombrios
      figuras de som
      antítese
      subjetividade explícita
      emprego de palavras raras
      mística inspiratória entre o religioso, o grotesco e o mágico
      presença da morte, o desconsolo, sombrio, melancólico e lúgubre
      o conflito entre a alma e a vida terrena
      desejo de se pensar sobre o que não se pode saber
      dor de se viver num mundo sem sentido
      busca pela significação da existência
      o real e o imaginário em constante disputa
      peleja entre a vida e a morte
      metáforas e ambiguidades

SIMBOLISMO E SURREALISMO

A beleza vista pelo encanto do abandono através do surrealismo surge como um encanto terreno, transitório, que está no abandono, nas coisas pequenas, imperceptíveis, uma beleza que existe entre o sonho, a imaginação e a vida terrena.

O conceito de beleza para o surrealismo se define por um encanto que vem do inconsciente, transitório, efêmero, fruto da histeria e da loucura, do maravilhoso, contrário à ideia de beleza racional, do sublime e do eterno.


“O maravilhoso é sempre belo, qualquer maravilhoso é belo, só mesmo o maravilhoso é belo” (BRETON, 1985).
Para Breton, o maravilhoso não depende do valor estético ou moral. A beleza se dá na ausência de todo controle exercido pela razão, fora de toda preocupação estética ou moral”

O maravilhoso é considerado como uma espécie de choque, uma sensação convulsiva de admiração, uma perturbação dos sentidos, e essa sensação vertiginosa torna-se a qualidade da arte.  Trata-se do fenômeno que Freud denominou de “estranho”.

O princípio estético da beleza convulsiva aproxima o maravilhamento e a morte como categorias do abandono. O encanto e a sensação perturbadora causada pela imagem dos lugares em abandono são compreendidos por esse princípio estético.

Os surrealistas deslocam a função original dos objetos cotidianos transformando-os em objetos perturbadores, deslocam o conceito de uma beleza centrada sobre a ideia romântica e racionalista para um conceito de estética convulsivo.


A beleza das ruínas



Heloísa Seixas



A velha está sentada à mesa. As mãos trêmulas cruzadas à frente, na altura do rosto, como se rezasse. Dessas mãos escorrem veias grossas que parecem carregar em sua seiva a história de muitas décadas. São mãos como troncos, como garras de pássaros, de pele áspera e desenhada por sulcos, veios, nós. Traz manchas de vários matizes, mapas de segredos e descobrimentos. Há beleza nessas mãos, nesses braços desfeitos. É a mesma beleza que vemos nas construções antigas, nas ruínas. Só que ali é a pedra - e não a pele - que nos conta histórias.

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A beleza de ser ruína



Minha mãe dizia que não entendia o sentido de pessoas pagarem para verem ruínas. "Por que viajar para tão longe para ver coisas quebradas?". Engraçado, eu amava as admirar. Acho que era uma questão de ponto de vista. Ela olhava para aqueles pedaços de concreto e cimento e via apenas isso, apenas uma estrutura demolida pelo tempo, pela guerra. Eu não, eu via uma história, eu via marcas. Parava diante das ruínas e analisava o formato das demolições, imaginando o que poderia ter causado justo aquela marca específica. Olhava e imaginava o medo dos que a viram ruir, o orgulho dos que a fizeram cair. Imaginava as pessoas que um dia pisaram naquele lugar quando ainda era uma construção inteira, quando ainda não havia buracos e rachaduras. Imaginava a dor daqueles que perderam alguém amado no processo, ou a dor daqueles que tiveram que ver com os próprios olhos a crueldade do ser humano. Havia tanta beleza numa ruína, numa história a céu aberto. E acho que eu sempre fui assim, sempre me encantei pelo o que estava aos pedaços, sempre me encantei pelas histórias que existiam por trás de marcas e cicatrizes. Talvez seja por isso que me apaixonei por você, amor. Porque no meio de tantas pessoas inteiras, você era a ruína mais bela. Você tinha uma história pra contar, você tinha um mistério que me envolvia e me fazia querer inventar quem você tinha sido antes de lhe acertarem com tudo e derrubarem uma parte da sua estrutura. Você me forçava a chegar perto e analisar suas marcas tentando descobrir se o que lhe atingira fora uma flecha, uma bala ou um amor não correspondido. Ah amor, poderia ter sido tudo de uma só vez pela fragilidade das suas paredes. E eu amava isso. Amava como tinha segredos de um passado que talvez eu nunca conhecesse, um passado que lhe transformou no que você é hoje. E amava o sorriso que você me dava quando eu tocava nas suas feridas e dizia que elas lhe faziam a construção mais bela que eu já pude contemplar. Ah, pessoas inteiras nunca poderiam entender a beleza das ruínas. E por mais que até hoje eu queira lhe roubar a dor que sentiu ao ver aquela bomba lhe acertar, sei que você nunca precisou de um telhado para estar completa. E quando a noite chega e o céu fica iluminado pelas estrelas, eu posso contemplar o reflexo delas dentro da sua estrutura ruída... e ah, como é lindo.



Letícia

O encanto pelas ruínas revela lugares que guardam memórias afetivas, individuais ou coletivas, lugares que são recipientes de memória, os quais exigem uma reflexão sobre a destruição da memória dessas construções abandonadas.

DESAFIO INSPIRATURAS:
“Há beleza nas ruínas”

Em prosa ou em versos.

www.inspiraturas.org

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