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segunda-feira, 18 de maio de 2020

Desafio EPÍSTOLA - CARTA - MISSIVA - www.inspiraturas.org


Epístola

Carta, missiva (latim), ou ainda epístola (grego), é o termo que descreve um manuscrito destinado a estabelecer uma comunicação interpessoal escrita, entre pessoas e/ou organizações, de cunho particular. Normalmente compõe-se de local, data, destinatário, saudação, corpo, despedida e assinatura.

Na literatura, além de se constituir no gênero literário da epistolografia, surge como um estilo epistolar de redação sem a intenção de ser correspondência. Para o modo epistolar puramente ficcional, pode não importar o destino de uma carta, porque o que importa é apenas o pretexto ou o exercício da escrita em si mesma. Pois que toda a literatura não deixa de ser uma carta a um interlocutor invisível, presente, possível ou futura paixão que liquidamos, alimentamos ou procuramos. Não interessa tanto o objeto, apenas pretexto, mas antes a paixão.

A epistolografia tem como ponto de partida de uma epístola poética a forma e a função pragmática da carta.

“Tens-te queixado de receberes cartas minhas escritas sem grandes pruridos de estilo. Mas quern é que escreve com pruridos se não aqueles cuja pretensão se limita a uma eloquência empolada? Se nós nos sentássemos a conversar, se discutíssemos passeando de um lado para o outro, o meu estilo seria coloquial e pouco elaborado; pois é assim mesmo que eu pretendo sejam as minhas cartas, que nada tenham de artificial, de fingido!” (Sêneca, Cartas a Lucílio).

Exemplos:

Caro Sir, Mago das Letras

Moro em um morro uivante e planto árvores falantes nos rochedos que arrodeiam a casa grande. Ultimamente minhas árvores andam sofrendo de um mal muito sério. Elas já não falam só sussurram. Fui informada que o senhor produz em seus caldeirões, algumas poções que poderiam ajudar a trazer a voz as minhas árvores.

Também nasceu aqui perto de um riacho uma plantinha esquisita de onde brotam peixes voadores. Acontece que após as últimas chuvas, os peixes têm nascido com asas e remos. O senhor Mago do Mar me disse que os remos é um efeito colateral de uma magia malfeita lá pelas bandas da cidade das nuvens e a que as chuvas que caíram aqui vieram de lá...

Será que o senhor saberia me dizer como retirar os remos de meus peixinhos? pois uma vez que os remos são pesados eles não têm voado naturalmente.

Aproveito e envio-lhe sementes de frases incríveis, plante-as em um solo claro. Deverão nascer uns dois dias após a lua cheia. Boa sorte com elas, e não as dê muita atenção, caso contrário viram tagarelas facilmente.

Conto com sua ajuda grande mago. E aguardo ansiosa sua resposta.

Um abraço

Fada do Reino da Luz (Márcia Poesia de Sá)


Resposta:

Cara Fada do Reino da Luz

De todos os males, que se extirpem as raízes. Se árvores sussurram decerto estão a conspirar. Considere que esses entes amotinados em suas tristezas, porventura, conspiram pelo próprio bem, e fazem da empreitada a salvaguarda da sanidade. Não suspeite de suas árvores, pois a maledicência não as cabe, mas sim às ameaças que espreitam aos arredores de seu malfadado morro uivante.

Prepararei a poção, no entanto, perceba-a falível em virtude de sua ação paliativa. A persistência da causa renovará os efeitos nocivos e, esses, tomarão grandeza ao passo em que se agregam ainda mais á rotina e à cultura do povoado. Ainda hoje colherei as raízes e procederei os ritos iniciais. Após a doce lua pousar um ou dois raios azulados sobre a solução, poderei solicitar que meu pupilo as entregue no Reino da Luz. Enquanto aguarda, tranquilize suas árvores.

Como bem disse o Mago do Mar, os peixes mutantes são procedentes da Cidade da Nuvens. Entretanto, não se tratam de um produto da alta magia, mas sim, um procedimento evolucionário comum a essas espécies. Esses estranhos animais não tardam a buscar os recursos adaptativos que a cadeia de eventos os solicita. Por essa natureza é que subsistem com tanto vigor. Se chover, nascem-lhes remos; se o Vulcão Earth cuspir sua lava, os peixes voadores se fazem duramente encouraçados. Há de se esperar pela conclusão da Era das Chuvas e o início da Era dos Ventos, quando logo crescerão suas asas enquanto seus remos diminuirão. Mas saiba, cara Fada, que os remos não sucumbirão pois, o signo da experiência evolutiva jamais se apaga da memória física de um ser.

As sementes de frases incríveis iluminarão os sorrisos presentes no Festival dos Magos. Agradeço a cortesia do envio dessas raras espécies. Aproveito para pedir-lhe que nos honre com sua presença luminescente no festival. Entre os preparativos dessa safra contaremos com um sarau onde os poemas declamarão seus poetas.

Que sua paz seja profunda

Sir W (Sacharuk) 
 


Sr. Guardião de dons e talentos,

Sempre considerei admirável, por sua nobreza, a tarefa que desempenhas. Não só guardas todos os dons e talentos, mas também te agradas sobremaneira em distribuí-los entre os humanos, de modo que seja edificada a vida de um com o talento do outro. Nesta benemérita mutualidade, propões que ofertemos ao outro o nosso melhor.

É fascinante como derramas sobre os artistas teus fluidos generosos, cabendo aos poetas, verdadeiros chefs da poética gourmet, preparar com arte a palavra-alimento que sacia as almas famintas de sensibilidade e carentes de beleza interior.

Aos músicos concedes como dádiva criativas sonoridades; aos artistas plásticos, fantásticas imagens, cor e forma; e aos literatos, o som, a cor e a forma que a poesia desenha, pinta e sonoriza.

Pude sentir teu toque. Foi na madura idade, de coração contrito. Tu bem sabias da dor daquela perda me pesando a alma. Senti teu orvalho, teu refrigério. E a inspiração vinda do teu mundo fez eclodir em mim lampejos de arte. Talvez considerasses que era chegada a hora de eu me despedir do meu artista plástico que fora para junto de ti havia meses. Desenhei, naquela tarde, surpreendentes e admiráveis imagens reveladoras de singela beleza a retratar boas lembranças. Aqueles desenhos simbolizaram uma homenagem póstuma. Nunca mais desenhei.

Quando me abri a receber mais de ti, me surpreendeste com pequena porção do gosto pela escrita. Ainda homenageei o meu irmão-artista com o meu primeiro poema. Sei que ele o leu no meu coração. Não parei mais de escrever.

Agradeço-te por isso, sábio guardião, mas principalmente por teres me apresentado a Oficina de Arte de Todas as Letras. Lá fui recebida por teus talentosos poetas, teus agraciados artistas que fazem da palavra seu instrumento musical, sua tela, sua obra de arte em prosa e verso. E a cada encontro tens preparado um banquete de talentos, para nos deliciarmos com as melhores porções que preparamos e servimos uns para os outros.

Com gratidão,

Tua oficineira

Eva Crochemore, janeiro de 2019.


resposta:

Cara Eva

Tanto me impressiona a engenharia natural das palavras! Cada bloco compõe fundação e soergue paredes, ora, é o abandono estendido sobre as mesmas ruinas que plasmarão novas existências. É mágica, bem sabemos!

Escolhemos conspirar contra as fatalidades ao dedicarmos pequenas frações semanais à alquimia da palavra. Provamos do ímpeto da motriz criadora de cada vocábulo vertido sobre uma página branca. Emprestamos vozes à beleza e à sabedoria que brotam da nascente da existência e ao exercício do tempo. Assim, cara escritora, é nobre minha tarefa, dada a paixão que emana ao pousar meus sentidos sobre escrituras artísticas repletas de energia vital. Não declino do prazer e da força suspensos sobre cada texto que bebe na fonte da beleza e amor pelo grato ofício. E a arte, em sua pedagogia, afirma-se em espírito criador, quando irrompe da página para ser ouvida, provada, sentida e, sobretudo, para cumprir a sina de ser compartilhada e confiada aos auspícios do apreciador.

Saibas, escritora, já vi a palavra romper fortalezas, sarar chagas tantas, aproximar espíritos e dirimir distâncias. Vi as coisas complexas transmutadas ao acorde da sua lira. Quando a palavra canta, será sempre ouvida. Tal o abraço da natureza que abriga e das centelhas que dela se desprendem. Dela se extrai o fluido que traduz o amálgama de todas as artes. Por isso a escolhi como signo do meu sacerdócio.

Sempre encontrarás refrigério ao colo sensível das escrituras que compões com tanto esmero e amor. Elas conversam diretamente com teu coração. Não há diálogo mais sincero e bonito. E sempre permitas que o olhar da arte ilumine a vertente. Que todos conheçam o poder de quem projeta beleza em prosa ou versos.

A gratidão é uma reciprocidade entre nós, que aprendemos a viajar com segurança sobre as asas um do outro.

Paz profunda

sacharuk
 
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DESAFIO: Idealizar um destinatário e escrever CARTA contendo reflexões sobre a própria literatura. A escrita deve ter intenção literária.

Boas inspirações!

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