A poesia delira ao diapasão e, logo, intenta aos acordes da lira. Poesia que tanto descreve saliva de beijo, bem como a imagem do pensador com o queixo poisado nos dedos. Poesia pode andar no eixo para não ouvir queixa, mas pode andar fora e criar desavenças. Há poesia das crenças, poesia do lixo, poesia pretensa, poesia das gentes, poesia dos bichos. Ela é o amálgama do mundo, verte por tudo. É ofício dos nobres, sedução dos espertos, marofa dos pobres e sina dos vagabundos. Também vive escondida na língua dos analfabetos. Poesia é isso tudo e mais outro tanto, no entanto, poesia não é absurdo. Absurdo é querer-se mudo; absurdo é querer-se surdo; absurdo é querer-se cego. (Tudo e mais outro tanto - sacharuk)

OFICINA DE ESCRITA LITERÁRIA INSPIRATURAS - on line e presencial - novos desafios - inscreve-te! Integra conceitos, técnicas e inspiração em desafios lúdicos e escreve poesia, crônicas e contos

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Como as personagens falam no texto - www.inspiraturas.org


Como as personagens falam no texto

Um diálogo bem engendrado concede vivacidade e ritmo ao texto. Não se trata de um estratagema para preencher papel! Na ficção, uma boa conversa cumpre várias funções importantes: mostra o estado de espírito da personagem naquele momento; revela intrigas e projetos; gera suspense, quando ocorre entre personagens com opiniões opostas etc.

Neste contexto, é imprescindível ensinar as suas personagens a falar com naturalidade.

Primeiro: treine o ouvido. Escute, discretamente, as conversas alheias, captando os tiques próprios de um diálogo do quotidiano. Num caderno de notas, registe termos típicos da linguagem corrente, como “ouve lá”, “não é?”, “que tal?”, “pá”, “mmm”, “pronto!”, “sei lá”, “ora bolas!” Ao examinar a lista, verificará que uma conversa real inclui vocabulário simples, interjeições e até asneiras.

Segundo: não atribua mais de vinte e cinco palavras a cada fala. Se uma personagem falar durante uma dezena de linhas, por exemplo, tal não é realista, cansa o leitor e desacelera o enredo. Uma dica: interrompa as falas mais extensas com perguntas ou comentários do interlocutor: “tens a certeza?”, “vá, conta-me mais”, “a sério?”, “não me digas!” Outra hipótese consiste em referir gestos da personagem, que denunciem o seu estado de espírito: “tamborilou nervosamente na mesa” ou “desviou o olhar, embaraçado”.

Terceiro: tenha cautela no uso de expressões atributivas que soam ridículas na atualidade. Palavras invulgares desviam a atenção do leitor do que é dito para a forma como é dito, e assim quebram a fluidez do diálogo.

Em suma, se redigir uma conversa verossímil, o leitor “escutará” as personagens com a sua pronúncia, tiques e manias, e aderirá facilmente ao enredo. 

Exemplo adaptado de “Um dia”, do escritor inglês David Nicholls:

“Acho que o importante é fazer alguma diferença”, disse ela. “Mudar realmente alguma coisa, percebes?”

“O quê, tipo ‘mudar o mundo’, é isso?”

“Não o mundo inteiro! Só aquele pouquinho à tua volta.”

Ficaram os dois em silêncio durante um momento, de corpos enrolados um no outro, na cama de solteiro, e então desataram os dois a rir com as vozes graves de antes da aurora.

“Nem acredito no que acabei de dizer”, murmurou ela. “Parecia uma velha, não?”

“Um pouco.”

“Estou a ver se te inspiro! Se consigo animar essa alma imunda para a grande aventura que tens pela frente!”, virou-se para ele. “Não que necessites disso. Calculo que terás o futuro planejadinho. Provavelmente com um fluxograma, e tal.”

“Improvável.”

“Então, o que vais fazer? Qual é o teu grande plano?”

“Bem, os meus pais vêm buscar a minha tralha, largam-na em casa deles, e depois passo uns dias no apartamento deles, em Londres, para ver uns amigos. Depois, França… depois, talvez a China, ver que tal é aquilo; a seguir talvez vá para a Índia e viaje um bocado por lá…”

“Viajar”, suspirou ela. “Tão previsível.”



DESAFIO 1: Criar um diálogo NATURAL entre uma mãe e sua pequena filha, a quem tenta explicar os fatos da vida (nascimento, sexualidade, morte).

boa escrita!

Nenhum comentário:

Postar um comentário