A poesia delira ao diapasão e, logo, intenta aos acordes da lira. Poesia que tanto descreve saliva de beijo, bem como a imagem do pensador com o queixo poisado nos dedos. Poesia pode andar no eixo para não ouvir queixa, mas pode andar fora e criar desavenças. Há poesia das crenças, poesia do lixo, poesia pretensa, poesia das gentes, poesia dos bichos. Ela é o amálgama do mundo, verte por tudo. É ofício dos nobres, sedução dos espertos, marofa dos pobres e sina dos vagabundos. Também vive escondida na língua dos analfabetos. Poesia é isso tudo e mais outro tanto, no entanto, poesia não é absurdo. Absurdo é querer-se mudo; absurdo é querer-se surdo; absurdo é querer-se cego. (Tudo e mais outro tanto - sacharuk)

OFICINA DE ESCRITA LITERÁRIA INSPIRATURAS - on line e presencial - novos desafios - inscreve-te! Integra conceitos, técnicas e inspiração em desafios lúdicos e escreve poesia, crônicas e contos

quinta-feira, 28 de maio de 2020

aprende


aprende

expande
            moléculas do ar
aprende 
                    com aquilo que sente
                           e com o que falta
escuta o arrebol
    que rasga o véu
            e declina na mata

inspira prende solta
             língua solta
          olhar ausente
imita as correntes
das águas do mar

escapa                   
da razão eloquente
e após desacata
as benesses do bem
as maldades do mal

                   no final
não resta um vintém
as crendices são mortas
esconde as tolices
depois fecha a porta

inspira prende solta
             língua solta
          olhar ausente
imita as correntes
das águas do mar

aprende a amar
se amar vale a pena
declama um poema
na língua do sol

sacharuk

sexta-feira, 22 de maio de 2020

mágica nuança

mágica nuança

ainda que o narizinho
de delineadas finezas
apontasse as nuvens
repletas de petulâncias
o olhar se encontrava
distante e perdido
no campo de algodão

os traços revestidos
derramavam vestígios
introspectiva suavidade

raro vê-la assim
tal preciosidade
outra mágica nuança
dentre tantas belezas

sacharuk


segunda-feira, 18 de maio de 2020

Desafio Fluxo de Consciência - Monólogo interior - www.inspiraturas.org


O Monólogo Interior

O monólogo interior é uma técnica literária que trata de reproduzir os mecanismos do pensamento no texto. Caracteriza-se por transcorrer na mente da personagem, como se o "eu" falasse a si próprio. Daí considerar-se o monólogo interior subentende a presença de um interlocutor, "o tu" (com quem se fala), ou seja, "o outro". Já por aí se vê, portanto, que teremos uma personagem desdobrada em duas entidades mentais: "o eu e o tu", ou melhor, "o eu e o outro", que trocam ideias ou impressões, confrontam-se, discutem e tentam se entender como pessoas diferentes.

De dois modos pode apresentar-se o monólogo interior:

a) Diretamente, sem marcas de intervenção do narrador, como introduções ou intercalações do tipo: pensava ele, dizia-se etc.; e mesmo as aspas. De maneira que a personagem expõe o conteúdo subterrâneo de sua mente, tendo o presente (do pensamento) como tempo dominante, numa espécie de confidência (direta) ao leitor, sem barreiras de qualquer ordem e sem obediência à normalidade gramatical.

A cama desaparece aos poucos, as paredes do aposento se afastam, tombam vencidas. E eu estou no mundo solta e fina como uma corça na planície. Levanto-me suave como um sopro, ergo minha cabeça de mundo, do tempo, de Deus. Mergulho e depois emerjo, como de nuvens, das terras ainda não possíveis, ah ainda não possíveis. Daquelas que eu ainda não soube imaginar, mas que brotarão. Ando, deslizo, continuo, continuo... Sempre sem parar, distraindo minha sede cansada de pousar num fim [...] — Estou me enganando preciso voltar. Não sinto loucura no desejo de morder estrelas, mas ainda existe a terra... (Clarice Lispector – Perto do Coração Selvagem)

b) Indiretamente, com a intervenção do narrador na transcrição do fluxo mental da personagem, que comenta, discute e explica (em 3ª pessoa), como se este detivesse o privilégio de sondar-lhe e captar-lhe o mundo psíquico sem deformá-lo, pelo menos aparentemente. Tudo se passa como se a personagem não conseguisse exprimir sua tumultuada psique. Forma-se então, no monólogo interior indireto, o triângulo narrador/protagonista/leitor, ao passo que no direto o primeiro desaparece completamente.

"De manhã. Onde estivera alguma vez, em que terra estranha e milagrosa já pousara para agora sentir-lhe o perfume? Folhas secas sobre a terra úmida. O coração apertou-se-lhe devagar, abriu-se, ela não respirou um momento esperando... Era de manhã, sabia que era de manhã... recuando como pela mão frágil de uma criança, ouviu abafado como em sonho, galinhas arranhando a terra. Uma terra quente, seca... o relógio batendo tin-dlen... tin-dlen... o sol chovendo em pequenas rosas amarelas e vermelhas sobre as casas. Deus, o que era aquilo senão ela mesma? Mas quando? Não, sempre..." (Clarice Lispector – Perto do Coração Selvagem)
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DESAFIO:

Esse é um desafio diferente. Sente-o e não tentes compreendê-lo.

Ele serve para derramar:

- fluxo da consciência;
- fluxo da inconsciência;
- sentimentos e sentidos, com ou sem direção.
- o que se tem por dentro, tirando qualquer tipo de barreira ou mito sobre o que se passa conosco sem precisar ser totalmente cognitivo ou algo parecido.

Quando as palavras ainda são pouco, derrama a ideia. Nada é insano e despropositado, apenas os olhares são diferentes e, talvez, a estética.

Então estamos combinados: se fores mergulhar, sobe para nos contar como foi. 
 
Boas inspirações!

Desafio Mímese e Verossimilhança - www.inspiraturas.org



Mímese e Verossimilhança

Em Platão, a arte como mímese desloca o artista para o papel de um imitador de terceiro grau, uma vez que este imitaria o mundo material o qual já seria uma representação do mundo das ideias. Haveria prejuízo para a percepção o que relegaria à arte uma menor importância. Mais que isto, a arte figuraria como obstáculo à verdade, onde os objetos teriam aparência ilusória. O poeta imitativo seria capaz, utilizando-se da emoção, de levar o cidadão ao engano.

A Poética de Aristóteles compreende a poesia como mimese, mas em oposição a Platão, não a relega a uma mera imitação de terceiro grau. A arte, por meio da linguagem e da língua, imita a realidade, mas também representa e elabora o mundo imaginário. Aristóteles percebe a poesia como elemento representativo que imita a ação humana. Ele considera a relação entre autor e receptor, assim como principalmente o efeito da arte no público. 
 

A verossimilhança é a característica que a arte tem de estabelecer semelhanças com o real. Este elemento artístico é construído pelo processo de mimese onde o artista se aproxima da realidade, mas sem dela ser refém. O afastamento da realidade entra como parte do processo artístico. O artista cria quando se distancia do real. Quando existe perfeita correspondência entre realidade e produção, há mais proximidade com ciência do que com a arte. Esta última cria seu próprio mundo, verificável somente em si mesmo.

Verossimilhança é a impressão da verdade que a ficção consegue provocar no leitor. Alguns filmes, novelas, livros são exemplos de verossimilhança pois apresentam os fatos semelhantes ao que acontecem na realidade vivida.

Outro ponto de vista define a verossimilhança não como a semelhança dos elementos da obra com o mundo real, mas a credibilidade que esses elementos demonstram em relação ao mundo de ficção apresentado. Sob essa perspectiva, portanto, adequação à realidade e verossimilhança são conceitos independentes, podendo, por exemplo, uma obra introduzir elementos que se correspondem fielmente com a realidade, mas não são verossímeis no contexto de ficção construído na obra.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Verossimilhan%C3%A7a

PRODUÇÃO:

Fazer uma produção em PROSA com o seguinte tema “Melancolia”, com narrador onisciente e no mínimo duas personagens.

oficinainspiraturas@gmail.com

Haicai - haiku - www.inspiraturas.org


HAICAI – Inspiraturas oficina de escrita literária

O Haicai, também chamado de “Haiku” ou “Haikai”, é um poema curto de origem japonesa. A palavra haicai é formada por dois termos “hai” (brincadeira, gracejo) e “kai” (harmonia, realização).

Estrutura e Características do Haicai

O tradicional haicai japonês possui uma estrutura específica, ou seja, uma forma fixa composta de três versos (terceto) formados por 17 sílabas poéticas, ou seja:

Primeiro verso: apresenta 5 sílabas poéticas (pentassílabo)
Segundo verso: apresenta 7 sílabas poéticas (heptassílabo)
Terceiro verso: apresenta 5 sílabas poéticas (pentassílabo)

O Haicai no Brasil - O teórico literário Afrânio Peixoto foi um dos primeiros a apresentar essa forma poética no país, quando a compara com as trovas no ensaio “Trovas Populares Brasileiras”, escrito em 1919. Nas palavras do autor:

“Os japoneses possuem uma forma elementar de arte, mais simples ainda que a nossa trova popular: é o haikai, palavra que nós ocidentais não sabemos traduzir senão com ênfase, é o epigrama lírico. São tercetos breves, versos de cinco, sete e cinco pés, ao todo dezessete sílabas. Nesses moldes vazam, entretanto, emoções, imagens, comparações, sugestões, suspiros, desejos, sonhos... de encanto intraduzível.”

O modelo de haicai produzido por Guilherme de Almeida foi cunhado de “modelo Guilhermino”, onde o primeiro e terceiro verso possuem rimas e no segundo verso, encontra-se a rima interna entre a segunda e sétima sílaba.

HAICAI - POESIA DA NATUREZA

O haicai sempre nasce de uma cena ou objeto natural. Mesmo nos instantes em que cita assuntos humanos, isto se dá através de uma grande reviravolta filosófica, em que o homem não é mais considerado o centro do universo, ou uma entidade separada da natureza, como é habitualmente colocado pela cultura ocidental. Em verdade, o homem é parte integrante da natureza, submisso a ela, e assim passível de se transformar em assunto de haicai.

Tradicionalmente, a menção à natureza é feita através de um termo- de- estação, mais conhecido pela palavra japonesa kigo. Pode-se questionar a validade das quatro estações no Brasil, mas é inegável a existência de um ciclo anual, ao qual os vegetais e os animais se moldam, e dentro do qual o homem organiza suas atividades. Entendido de uma maneira ampla, o kigo é a palavra ou expressão associada a uma entidade natural, capaz de disparar associações afetivas a partir de uma cena concreta, de maneira muito econômica.

Como parte desta herança, reconhecemos o caráter simbólico tradicionalmente atribuído a cada estação:

Primavera: alegria, renovação, amor, flores, juventude;
Verão: vivacidade, liberdade, calor, maturidade;
Outono: melancolia, decadência, nostalgia, colheita, senectude;
Inverno: tranquilidade, reclusão, morte, repouso, frio.

O haicai sempre exprime um momento vivenciado no presente. Sendo baseado na natureza, obrigatoriamente fala de coisas concretas, com existência física. E ao falar do presente através de coisas concretas, necessariamente alude à temporalidade, ao provisório e ao efêmero, marcas do mundo terreno. Em outras palavras, o haicai é um veículo para a expressão da transitoriedade, e esta é evidenciada através do uso dos termos-de-estação ou kigos. Signos de um mundo em constante mutação, os kigos se sucedem ao longo do ciclo anual, representando a própria imagem da transitoriedade.



Ao exprimir um momento do presente, baseado na realidade física, o haicai se aproxima da fotografia. Sempre que olhamos para uma foto, aquela impressão visual se reaviva e se torna presente para nós. O haicai faz o mesmo, através da descrição objetiva de uma sensação física, que além de visual, pode ser também auditiva, tátil, olfativa ou de paladar. Esta sensação pode disparar uma lembrança ou um sentimento, o que pode ser expresso no poema.

O minúsculo tamanho do haicai não comporta cenários dramáticos, amplos movimentos ou planos em sequência. Também não se trata de suprimir todos os elementos sintáticos como num telegrama, visando comprimir o máximo de palavras dentro de 17 sílabas. A descrição simples e sem artifícios estilísticos de uma sensação, deixando grande espaço para a sugestão, é a regra a ser seguida.

"Haikai não é síntese, no sentido de dizer o máximo com o mínimo de palavras. É antes a arte de, com o mínimo, obter o suficiente". - Paulo Franchetti

NÃO AO EGO

Negar o ego não significa proibir a palavra "eu". Haicais na primeira pessoa são perfeitamente viáveis. Mas a objetividade do haicai deixa pouco espaço para a expressão do universo interior do autor.

O subjetivismo e sua derivação, o sentimentalismo, são praticamente condenados, junto com qualquer traço de intelectualismo. Os sentimentos humanos, quer sejam os do autor ou não, são expressos com parcimônia, sempre submetidos à sensação física que os gerou, e aparecem puros, livres de elaboração racional e conceituação intelectual.

O haicai não se presta para expressar um raciocínio, do tipo A+B=C. É mais frequente que contraste dois elementos sem conexão lógica, cabendo ao leitor reconciliá-los em um novo plano de significado (o que não quer dizer que o haicai seja uma charada ou adivinha). Tão pouco o haicai serve para expressar juízos ou sentenças. A natureza não trabalha assim, estando acima do bem e do mal, categorias inventadas pelo homem. Por consequência, aforismos e lições de moral estão fora da esfera do haicai.

O Poeta

“Caçador de estrelas.
Chorou: seu olhar voltou
com tantas! Vem vê-las!”

(Guilherme de Almeida)


“Ah! estas flores de ouro,
que caem do ipê, são brinquedos
pr'as criancinhas pobres...”

(Jorge Fonseca Jr)


“Tremendo de frio
no asfalto negro da rua
a criança chora.”

(Fanny Luíza Dupré)


“Viver é super difícil
o mais fundo
está sempre na superfície”

(Paulo Leminski)


“Nos dias quotidianos
É que se passam
Os anos”

(Millôr Fernandes)


“Nariz na vidraça.
Guri de rua acompanha a
Ceia de natal.”

(Hazel de S. Francisco)


“Depois da geada,
nas faces do espantalho,
lágrimas geladas.”

(Roberto Saito)


“Pequena borboleta
Enfeitando meus cabelos
Por um momento.”

(Clície Pontes)


“Das noites juninas
de outrora, anciãs agora,
estão as meninas.”

(Cyro Armando Catta Preta)


“A pedra atirada ...
Fundo lago de outono
desmorona o céu.”

(Francisco Handa)


fonte: http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/portals/cadernospde/pdebusca/producoes_pde/2009_uel_portugues_md_ivanete_mazzieri.pdf

Desafio EPÍSTOLA - CARTA - MISSIVA - www.inspiraturas.org


Epístola

Carta, missiva (latim), ou ainda epístola (grego), é o termo que descreve um manuscrito destinado a estabelecer uma comunicação interpessoal escrita, entre pessoas e/ou organizações, de cunho particular. Normalmente compõe-se de local, data, destinatário, saudação, corpo, despedida e assinatura.

Na literatura, além de se constituir no gênero literário da epistolografia, surge como um estilo epistolar de redação sem a intenção de ser correspondência. Para o modo epistolar puramente ficcional, pode não importar o destino de uma carta, porque o que importa é apenas o pretexto ou o exercício da escrita em si mesma. Pois que toda a literatura não deixa de ser uma carta a um interlocutor invisível, presente, possível ou futura paixão que liquidamos, alimentamos ou procuramos. Não interessa tanto o objeto, apenas pretexto, mas antes a paixão.

A epistolografia tem como ponto de partida de uma epístola poética a forma e a função pragmática da carta.

“Tens-te queixado de receberes cartas minhas escritas sem grandes pruridos de estilo. Mas quern é que escreve com pruridos se não aqueles cuja pretensão se limita a uma eloquência empolada? Se nós nos sentássemos a conversar, se discutíssemos passeando de um lado para o outro, o meu estilo seria coloquial e pouco elaborado; pois é assim mesmo que eu pretendo sejam as minhas cartas, que nada tenham de artificial, de fingido!” (Sêneca, Cartas a Lucílio).

Exemplos:

Caro Sir, Mago das Letras

Moro em um morro uivante e planto árvores falantes nos rochedos que arrodeiam a casa grande. Ultimamente minhas árvores andam sofrendo de um mal muito sério. Elas já não falam só sussurram. Fui informada que o senhor produz em seus caldeirões, algumas poções que poderiam ajudar a trazer a voz as minhas árvores.

Também nasceu aqui perto de um riacho uma plantinha esquisita de onde brotam peixes voadores. Acontece que após as últimas chuvas, os peixes têm nascido com asas e remos. O senhor Mago do Mar me disse que os remos é um efeito colateral de uma magia malfeita lá pelas bandas da cidade das nuvens e a que as chuvas que caíram aqui vieram de lá...

Será que o senhor saberia me dizer como retirar os remos de meus peixinhos? pois uma vez que os remos são pesados eles não têm voado naturalmente.

Aproveito e envio-lhe sementes de frases incríveis, plante-as em um solo claro. Deverão nascer uns dois dias após a lua cheia. Boa sorte com elas, e não as dê muita atenção, caso contrário viram tagarelas facilmente.

Conto com sua ajuda grande mago. E aguardo ansiosa sua resposta.

Um abraço

Fada do Reino da Luz (Márcia Poesia de Sá)


Resposta:

Cara Fada do Reino da Luz

De todos os males, que se extirpem as raízes. Se árvores sussurram decerto estão a conspirar. Considere que esses entes amotinados em suas tristezas, porventura, conspiram pelo próprio bem, e fazem da empreitada a salvaguarda da sanidade. Não suspeite de suas árvores, pois a maledicência não as cabe, mas sim às ameaças que espreitam aos arredores de seu malfadado morro uivante.

Prepararei a poção, no entanto, perceba-a falível em virtude de sua ação paliativa. A persistência da causa renovará os efeitos nocivos e, esses, tomarão grandeza ao passo em que se agregam ainda mais á rotina e à cultura do povoado. Ainda hoje colherei as raízes e procederei os ritos iniciais. Após a doce lua pousar um ou dois raios azulados sobre a solução, poderei solicitar que meu pupilo as entregue no Reino da Luz. Enquanto aguarda, tranquilize suas árvores.

Como bem disse o Mago do Mar, os peixes mutantes são procedentes da Cidade da Nuvens. Entretanto, não se tratam de um produto da alta magia, mas sim, um procedimento evolucionário comum a essas espécies. Esses estranhos animais não tardam a buscar os recursos adaptativos que a cadeia de eventos os solicita. Por essa natureza é que subsistem com tanto vigor. Se chover, nascem-lhes remos; se o Vulcão Earth cuspir sua lava, os peixes voadores se fazem duramente encouraçados. Há de se esperar pela conclusão da Era das Chuvas e o início da Era dos Ventos, quando logo crescerão suas asas enquanto seus remos diminuirão. Mas saiba, cara Fada, que os remos não sucumbirão pois, o signo da experiência evolutiva jamais se apaga da memória física de um ser.

As sementes de frases incríveis iluminarão os sorrisos presentes no Festival dos Magos. Agradeço a cortesia do envio dessas raras espécies. Aproveito para pedir-lhe que nos honre com sua presença luminescente no festival. Entre os preparativos dessa safra contaremos com um sarau onde os poemas declamarão seus poetas.

Que sua paz seja profunda

Sir W (Sacharuk) 
 


Sr. Guardião de dons e talentos,

Sempre considerei admirável, por sua nobreza, a tarefa que desempenhas. Não só guardas todos os dons e talentos, mas também te agradas sobremaneira em distribuí-los entre os humanos, de modo que seja edificada a vida de um com o talento do outro. Nesta benemérita mutualidade, propões que ofertemos ao outro o nosso melhor.

É fascinante como derramas sobre os artistas teus fluidos generosos, cabendo aos poetas, verdadeiros chefs da poética gourmet, preparar com arte a palavra-alimento que sacia as almas famintas de sensibilidade e carentes de beleza interior.

Aos músicos concedes como dádiva criativas sonoridades; aos artistas plásticos, fantásticas imagens, cor e forma; e aos literatos, o som, a cor e a forma que a poesia desenha, pinta e sonoriza.

Pude sentir teu toque. Foi na madura idade, de coração contrito. Tu bem sabias da dor daquela perda me pesando a alma. Senti teu orvalho, teu refrigério. E a inspiração vinda do teu mundo fez eclodir em mim lampejos de arte. Talvez considerasses que era chegada a hora de eu me despedir do meu artista plástico que fora para junto de ti havia meses. Desenhei, naquela tarde, surpreendentes e admiráveis imagens reveladoras de singela beleza a retratar boas lembranças. Aqueles desenhos simbolizaram uma homenagem póstuma. Nunca mais desenhei.

Quando me abri a receber mais de ti, me surpreendeste com pequena porção do gosto pela escrita. Ainda homenageei o meu irmão-artista com o meu primeiro poema. Sei que ele o leu no meu coração. Não parei mais de escrever.

Agradeço-te por isso, sábio guardião, mas principalmente por teres me apresentado a Oficina de Arte de Todas as Letras. Lá fui recebida por teus talentosos poetas, teus agraciados artistas que fazem da palavra seu instrumento musical, sua tela, sua obra de arte em prosa e verso. E a cada encontro tens preparado um banquete de talentos, para nos deliciarmos com as melhores porções que preparamos e servimos uns para os outros.

Com gratidão,

Tua oficineira

Eva Crochemore, janeiro de 2019.


resposta:

Cara Eva

Tanto me impressiona a engenharia natural das palavras! Cada bloco compõe fundação e soergue paredes, ora, é o abandono estendido sobre as mesmas ruinas que plasmarão novas existências. É mágica, bem sabemos!

Escolhemos conspirar contra as fatalidades ao dedicarmos pequenas frações semanais à alquimia da palavra. Provamos do ímpeto da motriz criadora de cada vocábulo vertido sobre uma página branca. Emprestamos vozes à beleza e à sabedoria que brotam da nascente da existência e ao exercício do tempo. Assim, cara escritora, é nobre minha tarefa, dada a paixão que emana ao pousar meus sentidos sobre escrituras artísticas repletas de energia vital. Não declino do prazer e da força suspensos sobre cada texto que bebe na fonte da beleza e amor pelo grato ofício. E a arte, em sua pedagogia, afirma-se em espírito criador, quando irrompe da página para ser ouvida, provada, sentida e, sobretudo, para cumprir a sina de ser compartilhada e confiada aos auspícios do apreciador.

Saibas, escritora, já vi a palavra romper fortalezas, sarar chagas tantas, aproximar espíritos e dirimir distâncias. Vi as coisas complexas transmutadas ao acorde da sua lira. Quando a palavra canta, será sempre ouvida. Tal o abraço da natureza que abriga e das centelhas que dela se desprendem. Dela se extrai o fluido que traduz o amálgama de todas as artes. Por isso a escolhi como signo do meu sacerdócio.

Sempre encontrarás refrigério ao colo sensível das escrituras que compões com tanto esmero e amor. Elas conversam diretamente com teu coração. Não há diálogo mais sincero e bonito. E sempre permitas que o olhar da arte ilumine a vertente. Que todos conheçam o poder de quem projeta beleza em prosa ou versos.

A gratidão é uma reciprocidade entre nós, que aprendemos a viajar com segurança sobre as asas um do outro.

Paz profunda

sacharuk
 
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DESAFIO: Idealizar um destinatário e escrever CARTA contendo reflexões sobre a própria literatura. A escrita deve ter intenção literária.

Boas inspirações!