A poesia delira ao diapasão e, logo, intenta aos acordes da lira. Poesia que tanto descreve saliva de beijo, bem como a imagem do pensador com o queixo poisado nos dedos. Poesia pode andar no eixo para não ouvir queixa, mas pode andar fora e criar desavenças. Há poesia das crenças, poesia do lixo, poesia pretensa, poesia das gentes, poesia dos bichos. Ela é o amálgama do mundo, verte por tudo. É ofício dos nobres, sedução dos espertos, marofa dos pobres e sina dos vagabundos. Também vive escondida na língua dos analfabetos. Poesia é isso tudo e mais outro tanto, no entanto, poesia não é absurdo. Absurdo é querer-se mudo; absurdo é querer-se surdo; absurdo é querer-se cego. (Tudo e mais outro tanto - sacharuk)

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segunda-feira, 27 de julho de 2020

Bairro Renascimento

Bairro Renascimento

Samanta não desalinha nos saltos altos. Anda graciosa e sorridente alternando as longas pernas coroadas pela graciosa minissaia. Absolutamente tudo, em Samanta, transpira certa audácia. 

Segura a bolsa com displicência, não teme os assaltos. Transita livre entre os traficantes e milicianos do bairro Renascimento. 

Lembra sempre do pequeno bairro em que nasceu, na cidade vizinha de Santo Antônio. Foram seus dias mais difíceis. Mas, agora não há mais do que reclamar. Tiago, o filho, nunca mais passou fome e já tem um bom plano de saúde.

Acorda tarde todos os dias para pegar o menino na escola e, depois, o deixa aos cuidados de Dona Diva, a avó, que assume o neto e a casa enquanto a filha trata dos próprios afazeres.

Samanta sempre soube, intimamente, que a beleza que lhe caia muito bem e seria a razão do seu sucesso. Todavia, Samanta é apenas outro clichê urbano.

sacharuk

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