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A poesia delira ao diapasão e, logo, intenta aos acordes da lira. Poesia que tanto descreve saliva de beijo, bem como a imagem do pensador com o queixo poisado nos dedos. Poesia pode andar no eixo para não ouvir queixa, mas pode andar fora e criar desavenças. Há poesia das crenças, poesia do lixo, poesia pretensa, poesia das gentes, poesia dos bichos. Ela é o amálgama do mundo, verte por tudo. É ofício dos nobres, sedução dos espertos, marofa dos pobres e sina dos vagabundos. Também vive escondida na língua dos analfabetos. Poesia é isso tudo e mais outro tanto, no entanto, poesia não é absurdo. Absurdo é querer-se mudo; absurdo é querer-se surdo; absurdo é querer-se cego. (Tudo e mais outro tanto - sacharuk)

OFICINA DE ESCRITA LITERÁRIA INSPIRATURAS - on line - novos desafios - inscreve-te! Integra conceitos, técnicas e inspiração em desafios lúdicos e escreve poesia, crônicas e contos

sacharuk escreve em inspiraturas.org

Papão

Papão

bicho Papão?
sei não
se é bicho bonito
ou se é bicho feio
se assusta com grito
gigante ou anão
herói ou vilão
ou se tem algum cheiro

mas comeu tanto pirulito
esqueceu da escovação
perdeu os dentes do meio

então onde mora o papão?
talvez no espaço infinito
maior que o mundo inteiro
vive lá com outros mitos
das tramas de ficção
no mundo da imaginação
papão não é brasileiro

não precisa ficar aflito
é só um bicho bobão
ele nem é verdadeiro

sacharuk



prece nº 13

prece nº 13

no corredor
passinhos lentos de botinas
o padre e a sua bíblia
ouviu o grito seco
que deus sustente
a mim também
quando chegar minha vez
amém

sacharuk



Vermelho


Vermelho 

Meu último gole no chá de flores na cantina do mercado público e consultei, em vão, o relógio do smartphone. Bastou perceber a atmosfera melancólica retratada na cor do céu para inferir que a tarde se esmorecia. Só isso me interessou no momento. Os afazeres estavam esgotados. 

É nessa hora aproximada que, invariavelmente, no caminho para casa, busco o sentido da vida nos acontecimentos. Minha rotina se dilui no tumulto das ruas centrais. Às sextas-feiras o movimento é assustador. Os flashes dos faróis ocultam os indivíduos em silhuetas que circulam em meio à multidão. Aguardei a melhor oportunidade para cruzar a rua. É sempre assim! A espera, bem acomodada no cotidiano, já não cansa mais, e dizem: “o seguro, de tão velho, morreu”. 

Seu Ademir, da padaria, ergueu o corpanzil por detrás do balcão frigorífico e me passou o pacote de pães, mas não perdeu de vista a senhora baixinha que saía do estabelecimento em direção a banca 26. O padeiro bradou: 

─ Até mais vê-la Dona Edith. Obrigado pela preferência. Amanhã teremos sua torta, pode confiar, minha amiga. 

Aquelas palavras portavam uma estranha certeza. As coisas seriam novamente como planejadas, Seriam como ontem e como será durante a semana inteira. E, mais uma vez, Dona Edith acenou com a cabeça ostentando um sorriso tão formal quanto carinhoso ao cumprimento acalorado do comerciante. 

─ É excelente senhora essa Dona Edith. Freguesa antiga e fiel. ─ Disse o homem com simpatia bem adestrada enquanto terminava de fechar um pacote. 

Dentre outras frutas, a 26 tem maçãs que parecem pequenas se comparadas as demais expostas no mercado, entretanto, são muito vermelhas. Dizem que as frutas vendidas ali são livres de química agressiva, no entanto, mais caras. Pequenas maçãs são vítimas de preconceito por parte do consumidor. A aparência das grandes impressiona mais. E as gôndolas carregadas quebram a frieza do corredor revestido de azulejos portugueses fomentando uma interessante competição entre a arte e os apelos do marketing. Por fim, de certa forma, quase todas as imagens são ignoradas no caleidoscópico mercado público. 

Dona Edith escolheu maçãs. Depois de pinçá-las com as pontas dos dedos, cuidadosamente analisou cada uma antes de encaixá-las pacientemente nos espaços vãos do seu cesto de compras. 

─ Pedro, meu querido filho, hoje tem quarenta e quatro anos. Adorava essas maçãs pequenas quando garoto. As bem vermelhas eram suas preferidas. Também dizia que as menores são mais saborosas. 

Flávio, que frequenta comigo o curso de atendimento eficaz, escutou pacientemente a velhinha, enquanto catava vistosas peras importadas fragilmente empilhadas no compartimento vizinho ao das maçãs. 

Sempre que os administradores do mercado acendem as grandes lâmpadas brancas, religiosamente às dezoito horas, as frutinhas mais indefesas passam a perder o viço. Mas aquelas maçãzinhas eram muito vermelhas. 

Eu que já não tenho o mesmo vigor de antes, toco a vidinha exatamente igual a de todos lá da firma. Decepção após decepção. Angústia seguida de angústia. Vou perdendo a raiz. Onze anos longe de minha velha e, ainda, meu pai teve a desfaçatez de partir dessa para melhor antes de me ver caminhar sozinho pela primeira vez. Talvez tivesse a intenção de não me ver andar, afinal, coisas que se movimentam sempre causam algum incômodo. 

Flávio está, também, envelhecido. Mesmo com a proximidade de sua aposentadoria, ainda insiste no discurso duvidoso sobre reciclagem profissional. Enquanto acomodava as peras, metabolizou com contrição as lamentações de Dona Edith sobre Pedro e sobre ossos descalcificados. Deixou evidente no semblante o cansaço e a paciência que já lhe faz falta. Em breve esse pobre vai, tal os outros, padecer nas garras da previdência social. 

A velha, deslumbrada com a rara oportunidade de interação social, acabou por encher o seu cesto de maçãs. Um exagero. Ficou pesado e vermelho... bem vermelho. Queixou-se dos braços fracos. Osteoporose é um perigo na velhice. E eu, se beber bastante leite talvez me previna contra isso. Não fosse a provável desconfiança da velhinha, eu teria oferecido minha ajuda. Hoje não se confia em mais ninguém e isso me constrange e intimida. 

─ Meu Pedro ainda deve gostar de maçãs. Seu primeiro carro, aquele esportivo, era vermelho e acho que o segundo também... Não lembro, disse Edith a quem quisesse a ouvir. 

Ela abraçou aquele cesto de plástico como quem carrega um tesouro. É improvável que coma tantas. Percebi seus olhinhos marejados por ocasião do esforço ou, quiçá, tenha percebido a amargura que saltava da boca do meu colega Flávio. Palavras ditas ou silenciadas poderiam tê-la deprimido. Discursar sobre as lembranças distantes nem sempre consiste em boa ideia. Não é sequer assunto inteligente ou produtivo. Não entendo a razão dos velhos que perdem tanto tempo com isso. Depois, eis o resultado: tristeza, olhos marejados e vermelhos. 

As vivências do passado não retornam, bem, pelo menos não do jeito como foram antes. Elas só existem no pensamento de algumas pessoas. Há tanta gente nesse mundo respirando o passado. O curioso é que sobrevivem, tal quem bete os braços vigorosamente num mar revolto de lembranças. 

A velha de fisionomia enigmática tateou nervosamente a niqueleira lilás e espalhou um punhado de moedas e cédulas amassadas sobre o balcão da operadora de caixa. Notei a menina ensaiando a caricatura pintada com um sorriso amarelo enquanto contava as malditas moedinhas. Mas, não pude deixar de notar que Dona Edith desculpava-se em baixo tom e abusava de uma educação admirável. Os jovens contemporâneos abandonaram esse senso de urbanidade. A menina nada respondeu, e assim, não deu margem a qualquer conflito. 

Edith tomou para si a bolsa de plástico com suas frutas acondicionadas e despediu-se da moça, gentil e elegantemente, isentando-se de qualquer inconveniente que pudesse ter causado. O dinheiro tem suas peculiaridades. Por seu valor fazem-se as guerras. Por isso devem-se contar as moedas pacientemente sem esquecer que o cliente tem sempre razão. Aprendi no curso o que a menina aprendeu na sua rotina no mercado. Emprego não está fácil de conseguir. 

A velha valeu-se de ambas as mãos e juntou a bolsa de maçãs ao seu peito e, com as pernas curtinhas e sobrecarregadas, desceu a escadaria do centro comercial em direção à Avenida 13 de Maio, logo em frente aos portões do mercado. Era hora do rush e, como acontece todos os dias, ao fim da jornada de trabalho, a ordem é, novamente, disputar espaço no ônibus, no metrô, nas calçadas, ciclovias e rodovias. 

Tudo aconteceu tão rapidamente. A bolsa de plástico fino, com a logomarca gigantesca da 26 impressa em cores gritantes, não suportou o peso das maçãs e rompeu-se. Ocorre sempre assim. Os eventos imprimem sua marca no nosso destino subitamente e somente sobram as consequências para contar as histórias. 

Fiquei desorientado diante de tanta confusão. Dona Edith, os faróis, o vermelho e o som ensurdecedor. 

E toda aquela gente com pressa? Todos os dias a história se repete: quando chegamos ao nosso destino só encontramos as sobras. Não se toma banho duas vezes no mesmo rio. São resquícios de um rio que já era. O filósofo tem razão. 

Uma maçã, apenas uma maçã... a única que despencou caprichosamente pelas escadarias, machucada, alcançou o tráfego e rolou tal uma bola, quicando um degrau por vez até cessar seu curso junto aos meus sapatos pretos de camurça. Olhei em volta e sequer cogitei recolhê-la. A sobra. 

Desde então, a lua não se escondeu mais de mim e fez as minhas noites mais longas, depois de esgotados os afazeres. 

sacharuk 





antirrábico

antirrábico

conhece o tom da fala
e o olhar opaco dos justos
modelos da sensatez

olha bem suas caras
ouve os discursos
investiga os porquês
dos que não se envergonham
da própria obscuridade

percebe o entrecorte
que separa as vaidades
dos respiros ociosos
cospe tua cachaça
sobre a estupidez
dos crentes raivosos

não lamentes o desprezo
o negacionismo escroto
bate palmas que os loucos
dançarão orgulhosos

sacharuk

fotografia: divulgação ISTOÉ Independente (istoe.com.br)


essa língua

essa língua 

essa língua 
invade-te pelo umbigo 
condena ao êxtase infinito 
degusta-te os poros 
sem perdão ou cautela 
 a mitigar teus sabores 

 logo implode a cidadela 
revela teu ventre de mel 
gira tal carrossel 
desenha borbotões 
espirais para o céu 

 dela emana a seiva 
que faz o verbo pulsar 

sacharuk

cerca viva

cerca viva

flameja sol
decompõe e decanta
o pacote das cores
teu prisma lapida falésias
e saches de pétalas singelas
resguardam o perfume das flores

manhãs de glória ipomeia
cerca viva entre cancelas
azul veneno da exuberância
demarca limite às coisas

sacharuk



caótico

caótico

Saturno
por seu turno
procrastinado e soturno
ruminou argumentos
criou os inventos
mais absurdos

bigbang dos tempos
supernova ao vento
um traçado confuso
de trópicos e fusos

organismo caótico
de viventes robóticos
retratos bucólicos
e princípios imundos

sacharuk



coordeno orações

coordeno orações

procuro-te
logo te acho
entregas-te
depois me escapas
chamo-te
então te despacho
enrolas-te
assim me desatas

peço paixão
ofereces motivos
queres um cristão
e eu sou herético
peço-te vírgula
tu dás conetivo
pedes ação
entrego-me sindético

leio tuas rimas
somente as bonitas
finjo que entendo
deixo-te aflita
e caio em subordinação

o que te escrevo
foge a tradição
faço amor
relevo a estilística
tua língua é padrão
falo sociolinguística
emendas períodos
coordeno orações

a ti morena
tenhas certeza
que escrevo rimas
para te possuir
provar tua beleza
sacharuk


de tudo o que te pertence

de tudo o que te pertence

o vento minuano
pronunciava teu nome
soprava leveza em minha face
sussurrava verdades
ora contava segredos

o vento minuano
atendia aos apelos
embalados no tempo e no espaço
sua mão abria verdades
sua mão fechava os segredos

das noites
de tudo o que te pertence
por natureza e legitimidade

o vento minuano
cantava-te em versos
por inspiração e vaidade
tua voz contava vontades
minha voz cantava meus medos

o vento minuano
vertia-te da pele
banhado na luz intensa
teu ventre jorrava vontades
meu ventre vingava meus medos

das noites
de tudo o que te pertence
por natureza e legitimidade

sacharuk


pampa de terra e areia

pampa de terra e areia

noite de lua velhaca
trapaça de doce afago
abraço envolvente no dia
espalhado pela cercania

hermanos em outro trago
costela na ponta da faca
piquete bambu e estaca
laguna arroio ou lago

pajada na pescaria
para acolherar poesia
um verso por um pescado
uma rima pela ressaca

fogueira frente a barraca
silêncio reina no pago
chaleira eterna que chia
enlace com a ventania

parceiros no mate amargo
rebrilham a vida opaca
fazem a tristeza mais fraca
nas prosas de índios vagos

sacharuk


a chuva chora

a chuva chora

a menina acorda
na noite de insônia
falando aos santos
das causas impossíveis
ela só pretende
saber o que diz
a voz da mente
que fala ao coração

a menina quer
aprender a simplicidade
nos livros de yoga
nos pratos frugais
já testou os pesos
conferiu as medidas
e lavou a alma
com um tanto de vinho

a menina quer
desvendar os segredos
que roubam seus sonhos
dentre a escuridão
sobre sua face
hoje a chuva chora
chora agora
mas logo sorrirá

ela ainda tem a poesia
que a poesia é o que restou
sobre sua face
hoje a chuva chora
chora agora
mas logo sorrirá

a menina cochila na sua rede
após longas horas
abraçando estrelas
a menina vertida
da inspiração
avança as horas
do novo dia

é preciso estar preparada
para a felicidade
ter as janelas abertas
a alma desvelada
canções antigas aprender cantar
dizer palavras bonitas
e esquecer os erros

ela ainda tem a poesia
que a poesia é o que restou
sobre sua face
hoje a chuva chora
chora agora
mas logo sorrirá

por ela
o universo intercederá
quebrará regras
cessará sacrifícios
sobre sua face
hoje a chuva chora
chora agora
mas logo sorrirá

sacharuk


estive perdida



Estive perdida

Naquele dia tu estavas de costas para mim com teus cabelos castanhos longos e escovados. Como invariavelmente faziam as meninas da tua turma, trocavas ideias com Anelise sobre paixões adolescentes durante o intervalo das aulas da oitava série. Vocês sorriam sem permissão e especulavam acerca de beijos roubados. Confessavam uma à outra os pequenos desejos de consumo e de felicidade. Vocês eram alegres e ilustravam aos bons ventos a doçura colorida dos sonhos e promessas.

No meu voo fulminante, ainda pude ver que o tempo as contemplava e contava sem pressa. Ele é justo e infalível, mas apenas o destino é capaz de interceder.

Logo após a minha chegada, Anelise disse ao repórter que, vez por outra, tu vestias o jaleco branco do teu irmão enfermeiro e, secretamente, brincavas que eras uma grande cirurgiã. Salvavas inúmeras vidas com a presteza das ressuscitações de emergência e com cortes perfeitos, simulando o bisturi com a faquinha de pão.

Verdadeiramente humana e sensível, tu, doutora, fazias a diferença. Disse também que a vida real não era tão mágica assim. Era preciso ter muita sorte para sair da comunidade e ser alguém na vida. Anelise exibiu sua madura lucidez de quatorze anos.

Ocorreu que em meio aos estampidos de fogo, eu cortei rasante pelos ares fétidos do Morro das Vassouras. Não sei ao certo se quem me enviou era mocinho ou bandido, afinal, espoletei-me de dentro daquele tubo de aço e lancei-me furiosa contra qualquer desses corpos que transitam indiferentes. Foi hoje, terça-feira pela manhã, quando insana, risquei linha reta pátio adentro da Escola Fundamental Paulo Freire. Disparei num poderoso súbito e me alojei vitoriosa no pequeno furo que abri no teu cérebro encantado. Eu que andava perdida, fui prontamente achada por ti, doce criatura, que sequer me procuravas.

Ainda foste recepcionada na unidade de pronto atendimento da comunidade pelo teu irmão, mas infelizmente, não resististe ao ferimento. E eu permaneci inerte, num sono nefasto, entranhada nos tecidos dos teus sonhos dissolvidos na fatalidade do nosso breve encontro, até que fui removida pelo pessoal da balística. Causa mortis. Se te conforta saber, tudo acabou ali para mim também.

Antes das férias, em tua homenagem, Anelise e as outras meninas dançarão numa apresentação de hip hop durante o festival escolar pelos direitos humanos.

sacharuk



partículas mágicas

partículas mágicas

a simulação
de alguns versos
reverbera emoção
em rimas toantes
dispersas em sílabas
equidistantes
afinadas no mesmo tom

Cada poema
para ser completo
tem sua prática
calcada no dom
mimético
ou catártico
mas decerto
é repleto
de partículas
mágicas
de som

sacharuk


para firmar o cambicho

para firmar o cambicho

chama logo o padre
bagual
e te acolhera com a prenda
tu vais de bombacha
que é teu normal
e ela vai de vestido de renda

o carancho véio fará perguntas
tu concordas com tudo
o que ele diz
pois doutro jeito tu não te juntas
e a gauchada quer festa feliz

chama os viventes da cercania
escreve o convite em poesia
e garante uns tragos
para o gaiteiro

para festejar o lindo cambicho
vamos alugar o salão do bolicho
e levantar poeira
um dia inteiro

sacharuk

de doer por teu amor

de doer por teu amor

lança-te a mim
demônio
come tudo
mastiga e engole
logo regurgita-me 
por intriga

não importa
se não suportas
o fardo do amor
ainda me fazes
a mais bonita
a mais maldita
a mais mulher

amordaça-me
malfeitor
sacia a fome
que sinto de ti

vivo cansada
de doer por teu amor

monstro cruel
a ti interessa
castigar-me sem pressa
e tua cegueira
te guia ao veneno
do teu fel
se sou o teu fim

lança-te a mim
demônio
o tanto que quiseres
o que for preciso
eu te aguento
estou preparada

estende em mim
tua onda furiosa
de impiedoso inverno
congela-me o ar

vivo cansada
de doer por teu amor

tuas garras 
meus pulsos
o prazer de sangrar

vivo cansada
de doer por teu amor

sacharuk


fragmento de um texto censurado

Faltavam-lhe palavras. Ela bem queria que jorrassem de qualquer inesgotável fonte, somente as boas, já que as más ela relegara aos quintos da moralidade. Sabia que as palavras são como aquela poeira reunida semanalmente sobre o raque do televisor, a qual ela limpa com ardor e sofreguidão.

Talvez fosse conveniente abrir a grande janela da sala e espiar a rua. Seu pobre gato Divino não fala e nem lê, contudo não é cego. Acomodaria-se sobre o parapeito para observar as histórias diversas e que não lhe dizem respeito desfilando pelo passeio público. Possivelmente sua imaginação felina complementasse a narrativa urbana. Mas ela também não queria saber que, no fundo, o problema era outro e, novamente, dispensara outra ideia pictórica flamejante de falos e bocetas. As palavras, sempre elas, a incomodavam às raias da agressão. A humanidade perdeu-se do caminho e eu estou contaminada, justificava ela. Naturalmente, manteve a janela fechada.

Voltou logo ao quarto, recolheu a bíblia sagrada de cima do criado mudo e abriu numa passagem qualquer. Nos versículos jaziam as mesmas velhas palavras que, todos os dias, a curavam de si mesma.

(fragmento de um texto censurado – sacharuk)


veromar

veromar

chegarei sem vestígios
dar banho nos peixes
esconder os mariscos
sem intertextos
e discursos prolixos
´
vou ver o mar
vou ver o maaaar




evoé, amore mio

evoé, amore mio

evoé
amore mio
que te embriagues
na ânfora de vinho
na minha morada
vivo sozinho
nem lembro mais nada

se Baco
baila no espaço
rock moderno
não baila sozinho
insanos festejos
pelos desterros
do nosso inferno

sacharuk

maria das dores



maria das dores

desata-te das dores
maria
expulsa a amargura
para longe do barraco

se amor não tem poesia
só pode ser simulacro
a vida não deve ser dura
o brilho não deve ser fraco

inventa outro dia
maria
de um amor singular

amor que ocupa espaços
amor que dança
amor companhia
que conduz os teus passos

depois canta
o tanto que pode ser vasto
o mesmo amor que te mata
é o que estende o braço
onde vais descansar

sacharuk

cruz e caldeirinha

cruz e caldeirinha

deus
diabo
o que dá
o que tira
traço dos tempos

os mitos laboram eventos
pressupóem estranhezas
a história e os rompantes
que de tudo são antes
mera invenção

na escala da razão
o melhor senso
é não perder tempo
em discutir religião

sacharuk

não havia nada nesse mundo tal aquela criatura



não havia nada nesse mundo tal aquela criatura

ainda que o reprovassem
jamais hesitava exacerbar a descrença. crítico ferrenho das instituições, das corporações e ideologias, definia a existência ao declínio das teologias, das ciências e filosofias.

ainda que o reprovassem
era adepto ao amor. Philos, Ágape, Eros. entendia ódio tal amor em ruínas.

ainda que o reprovassem
da sua sementeira voavam minúsculos grãos. nutriam os estômagos logo após o crivo da terra. sabia que plantar era necessário e viver não era uma escolha.

ainda que o reprovassem
dia desses ofertou aos pássaros e borboletas uma rosa escancarada. dela desprenderam sorrisos de néctar.

tudo porque ele sabia
que amor não tem dono
que a fé não frequenta igrejas
que o conhecimento é um mutante vivo e sagaz.

não havia nada nesse mundo tal aquela criatura
quando desatava os nós com seus dedos carinhosos
quando cobria os gelados, os mortos e os calculistas com imenso cobertor.

e não contava nada disso a ninguém. nada. nada.
era ele expectador dos próprios méritos. singular autor de seu anonimato. singular tal as outras criaturas. e singular sabia ser.

e por isso o reprovavam.

tudo por que sabiam
com toda a força do mundo
que ele odiava a hipocrisia.

sacharuk

requiescat in pace



requiescat in pace

a poesia morta
foi velada num barco
navegou errante
viagem da sorte
por águas simplórias

ficou rígida e fria
não existe mais
história remota
se talvez existisse
ecoaria silêncios
pelas noites abissais

morreu no último verso
como havia de ser
nenhum aiaiai
nenhuma saudade
ou infames promessas

partiu livre a poesia
para ser lida às avessas
bem como tanto queria

lírica alma
saltitante pelas calçadas 
encontrou a floresta
e lá descansou

com um sorrisinho 
no cantinho da boca

sacharuk

coleta do chão minhas vísceras

coleta do chão minhas vísceras

amor meu
organiza
coleta do chão
minhas vísceras

não me deixes meio
me faças inteiro

ajunta-te comigo
no meu purgatório
trocaremos fluidos
do freio
e o óleo

sacharuk

'istopor'

istopor

istopor
bicho polimerado
monstro anormal
monômero de estireno

fenômeno termoplástico
rígido e quebradiço
de estranha textura
protetora armadura
dos eletrodomésticos
e dos equipamentos
informáticos

istopor
não é aromático
não tem cor
nem sabor
mas pode ser prático

se isolar o calor
da minha ânsia de amor
sobre teu gelo estático

sacharuk

perpetuum mobile

perpetuum mobile

tão esquivada
dos meus sentimentos
me vi solitária
na multidão

tanta tristeza
tanto lamento
me vi revirada
pela emoção

mas é assim mesmo
que sopram meus ventos
dançam com a flâmula
da solidão

continuo estranha
nos últimos tempos
presa às raias
da busca em vão

sacharuk


simpatia


simpatia

sorriso
simples e claro
branco de neve
tal algodão
dentadura
e brancura

liso
singelo e caro
doa-se leve
tal a emoção
que se esconde
na brandura

sacharuk

ao redor da caverna

ao redor da caverna

não estou confinado na geometria
não sou outro adepto das idolatrias
nenhuma promessa de mundo melhor

e nada me priva da luz do sol
qualquer juízo não é ameaça
qualquer vela de chama escassa
não se compara ao meu arrebol

não tenho a posse da sabedoria
recuso ao batismo da hipocrisia
nem sei recitar escrituras de cor

sou o compromisso da vida que passa
pelas sombras impressas numa parede
se eu não sair para caçar serei caça
não vou morrer sem matar minha sede

não estou sob um jugo à revelia
não sou silenciado e digo heresia
não sou outro escravo do teu senhor

meu trato com a vida rompe grilhões
sem fundo de poços e longe do abismo
ao redor da caverna há tantas paixões
há o entendimento sem determinismo

eu sou uma essência que induz poesia
sou os versos latentes da ontologia
que só admite o poder do amor

sacharuk

Caverna-de-Platao

jardinagem

Jardinagem

Hoje, ele voltou ao jardim e, enfim, pousou a mão sobre a indelicada rosa vermelha.

Tão linda, abriu-se inteira. Desejou e exibiu suas belezas aos viventes da estação; e o jardineiro, feito abelha, deslizou satisfeito pela seiva conquistada com paciência e manipulada com paixão.

Seus dedos cálidos de humores percorreram a umidade da lírica flor. Resvalou nas vontades e sucumbiu entre as pétalas. Tanto calor. Estava ela lá, lânguida rosa indecorosa, liberta e plena, tal a poesia.
sacharuk

mujer-rosa

ao Trancarrua das Almas


ao Trancarrua das Almas

quero entender os agouros
dialética das minhas dores
e a solidão dessas luas
meu senhor trancarruas
hospedeiro das almas

quero poisar outras cores
na noite de negro e ouro
a espera do dia vindouro
fronteira da vida e da morte
acaso sejam contrárias

quero uma capa igual a tua
senhor trancarrua das almas
sobre meu túmulo sem flores
a esconder meus tesouros
medalhas das minhas batalhas

quero um evento simplório
evite outro circo dos horrores
a mentira que se insinua
a verdade que se diz crua
apenas a pena que valha
quero cerrar os meus olhos
morrer atento aos rumores
no berço dos meus esplendores
guardados junto aos entulhos
e viver das migalhas

sacharuk




sozinha

sozinha

aquilo que busca
a palavra em tua boca
perfaz poemas vertidos
borrifadas umbrellas
perfumados vestígios
harpa tosca
das vozes singelas

da janela
sempre sozinha
lançada ao vago
observas os astros
plasmados no espaço
com inveja das asas
das andorinhas

sacharuk
swallow-wall-art

as pequenas coisas

as pequenas coisas

as pequenas coisas
são verdes
ou qualquer outra cor
inocentes
sob o prisma do amor

as pequenas coisas
são brutas
pedras duras
cicatrizes das almas
cerne do mundo

pequenas coisas são tudo
mas cabem na palma
da mão de um amigo

as pequenas coisas
são muito mais
que a calma do abrigo
o desvelo aos animais
vidas de todas as cores

as pequenas coisas
partilham suas dores
com os outros mortais

sacharuk

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Gala Gauthier

fascínio

fascínio

replica-me ao espelho
contornos do belo
impressionante signo
redenção e desígnio
da paixão entorpecida

ama-me atrevida
pelos tantos reflexos
tagarela amaldiçoada
ressonância dos ecos
de ninfa encantada

bebe nas cavidades
dos meus olhos de pedra
o liquor da beleza
lume das profundezas
das águas eternas

replica-me ao espelho
as linhas tenras
a desvendar faces belas
inevitável fascínio
duplo legítimo
da paixão entorpecida

sacharuk

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será sempre caminho

será sempre caminho

aprende, Gafanhoto
observa aos poetas
declinando as letras
golpes na completude
do vazio

escuta versos repletos
o silêncio e a música
das águas do rio

entende, Gafanhoto
a dor é peso morto
despenca pela colina
esvanece na distância

e a poesia se funda na ânsia
de ver através da neblina

Gafanhoto
sente teu corpo
quando danças
cascatas e desatino

no abismo das ânsias
a tua escolha
será sempre caminho

sacharuk

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quando o sol fica ensimesmado


quando o sol fica ensimesmado

o sopro da noite
destrava a cancela
do cavalo confinado
em disparada cabal
bicho selvagem alado
atravessa o açude

amiúde
a lua se vinga
e nunca desama
veste o raio que encanta
quando o sol
fica ensimesmado

a respirar as palavras
a suspirar os sentidos

se o vento da noite
trepida paredes
eleva teus pés delicados
tilinta o cristal
dos lindos sapatos
que decolam pelo ar

apesar
que a lua mingua
e nunca desmancha
é risco de luz que avança
quando o sol
fica lá do outro lado

a respirar as palavras
a suspirar os sentidos

sacharuk

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automático

automático

tango
e retângulo
algo estilístico
de plástico
encontrei no meu drama
uma letra de samba
um nó na garganta
dolorido e drástico

falei no pé o momento
tasquei no incremento
movimentos elásticos

samba não é tango
o último é mais performático
nem toda dança é fandango
nem todo tom é enfático

fiz dos versos lamento
e dancei todo tempo
no modo automático

sacharuk

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tsunami

tsunami

eu quis inventar a canção
mas eu tive medo
e quis te prender na prisão
não era mais do que farsa

essa sina oferta
tantas certezas escassas
e hoje acordo mais cedo
para ver se o sol me abraça

manterei a casa aberta
enquanto a chuva não passa
beberei cada pingo do chão
num tsunami que se alastra

sacharuk

ao Psicopompo

ao Psicopompo

vejo teu semblante
sorriso diamante
gadanha que corta
o breu dos meus medos

conto a ti os segredos
essa vastidão 
dos meus eus
engulo a ti nos calmantes
morfinas e relaxantes
na ausência de deus

e deixo a tio que é meu
poesia irrelevante
o barraco navegante
tudo o que não morreu

sacharuk




delicadamente acetinada

delicadamente acetinada

quero saber das tuas coxas
imperfeitamente 
bem torneadas

mas, precisamente
penso em tua bunda
delicadamente
acetinada

lembro dela
evidente
e redondinha
sob a calcinha
cor de rosa
de algodão
não transparente
eu acho

eu espiava 
os flancos
por baixo
procurando vestígios
de boceta 

sou poeta
sinto gosto da pele
na ponta da língua
pela caneta

tens coxas belas
nem parecem 
desse planeta
mas penso em tua bunda
delicada e redondinha
enchendo a calcinha

e eu de vadiagem
como quem nada quer
transgredindo tua imagem
de linda mulher

sacharuk


escreve Literatura

Escreve Literatura

Desejo que te expresses. Que digas e, não importa o que digas… Escreve, e não importa como o fazes. Mas, desejo que te expresses.

Escolhe as melhores palavras. Aquelas que dizem. As que te significam. As que revelam teus símbolos, escondem teus enigmas e tatuam teus emblemas. Prefere palavras  coloridas, saborosas, cheirosas… que cada qual traga um universo interior plasmado em si.

Não fales na língua geral, usa o teu dialeto, aquele que falas no teu universo imaginário. Garanta-lhe a fineza artística da sutileza e da perspicácia para que seja agradável e não perde o contato com o mundo real.

Ama o dicionário e adora a gramática, mas não te entrega a eles! As letras são livres durante o sonho, logo, permite que algo primordial aconteça.

E, se quiseres que leiam, enfeita! Sejas o artesão das belezas e dos significados.

Deixa que teu fluxo desate na continuidade de um fio, cuja beleza em prosa habite nos meandros do desenredo ou, então, que imprima sua síntese em versos de poesia, tal pequenas pinceladas imbuídas de emoção e subjetividade. Mas, que te elabores no percurso e te faças cadente e musical tal as águas que quedam das pedras.

Veste-te das tuas figuras, das tuas pessoas, incertezas e anseios. Pontua para respirar entre cada emoção e mantém um ritmo. Quebra-o, quando preciso. A estética no palco da beleza é livre para cantar e dançar. É onde a liberdade da criação encontrará a identificação com aquele que lê.

Sensibiliza-te para que saibas sensibilizar.


o sentido da poesia

o que há de belo na poesia?
poucos entendem a sua beleza
ela não segue a um padrão
sequer se conforma à razão

seja clichê de céu turquesa
ou estrelado de idiossincrasia
recorte instantâneo do dia
com alguma ou nenhuma certeza

poesia respira e inspira emoção
trajada na lógica ou na abstração
na sua forma revela a fineza
e até mesmo se acalma na rebeldia

poesia que brilha na ousadia
e nos encantos da delicadeza
no colo sagrado da construção
onde a beleza apreende a lição

mas ser poeta não põe mesa
então, qual o sentido da poesia?
É ser surpreendido algum dia
surpreso com a própria surpresa!

sacharuk

bonança


bonança

um vento tranquilo
veio para amainar 
o tempo cruel
e suas correntes

soprou brisa tal consolo
acordou aos crentes
aos idealistas
moralistas
aos tolos

soprou sementes de versos
nos campos dispersos
da nova poesia

soprou sereno
nuvens feitas das águas
do mar das calmarias

problema meu




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problema meu

se amo
problema meu
não abras
um universo fechado

não queiras julgar
não queiras julgar
o que a mim pertence

se amo
nada tens a ver
não persigas
meus passos

teu amor
enlouquece
intriga
enfurece
se não sabe
quem sou

não queiras saber
não queiras saber
se amo na alvura
ou na escuridão

se amo
estranhezas
certos fracassos
não há o que dizer

teu amor
enlouquece
intriga
enfurece
se não sabe

se amo
problema meu

sacharuk

sétimo

sétimo

dos rústicos sentidos
desde os despertos
aos adormecidos
há um sétimo
tão cáustico
e drástico
do qual eu não sei

sou apenas humano
portanto uma lástima
tal os outros
para servir de consolo
vivo de enganos
e estou sujeito às leis
dos tolos

algum sentido me faz absorto
em tom grave circunflexo
entre insights desconexos
penso falar com os mortos
monologar a minha loucura

palavras surgem obscuras
não sei se são híbridas
sequer se são puras
provém dos desígnios da noite
e relatos de bruxas

desfilam versos sem roupa
na poesia mais tímida
ou na prosa mais dura
na dor do sétimo açoite
a cortar o dorso da lua

ouço pitonisas loucas
reescrevendo o curso da vida
com promessas de cura
com mensagens urgentes
e nuas

(o sétimo carece sentido)

se solta um grito retido
que suplica pelo lume
ou qualquer sabedoria
serão apenas queixumes
no hades da poesia

sacharuk


a sapiência dos sapos

a sapiência dos sapos

pergunta ao sapo
acerca do que sabe
 ele dirá:

nada, nada, nada

a sapiência dos sapos
ensina a nadar
entender o alarido
nas águas turvas
do lago dos girinos

lá o vento
não faz curva
mas ensina
a romper oceanos

lamento
amigo destino
se não tracei planos
à minha sina

sacharuk

Ilustração: Piliero Adesivos

bicho carpinteiro

bicho carpinteiro

bicho carpinteiro
é o bagunceiro da escola
coleguinha "sem noção"
nunca aprende a lição

chutou tão forte a bola
sequer havia goleiro
arrancou a flor do canteiro
o monstrinho está por fora

é um bichinho bobão
que não sabe ouvir "não"
nunca escuta a professora
briga durante o recreio

quando o bicho diz nome feio
os seus amigos vão embora
adora bancar o machão
é criador de confusão

e todos esperam a hora
do bicho ser menos arteiro
se não mudar isso agora
jamais terá companheiros

sacharuk

rio oceano

rio oceano

sobrevoo o rio
martim das asas azuis
da linha da vida o risco
do norte até o sul
costura rasgos sombrios

então oferto às águas
todas as coisas que sou

percorro córregos mansos
pelos teus recantos
até beber o oceano
vertido sobre teus olhos

sobrevoo o rio
ave intrusa
asas que não encolhem
sequer sob a chuva
que queda por nós

então oferto às águas
todas as coisas que sou

percorro tuas rotas
por todos cantos
até beber o oceano
vertido sobre teus olhos

sacharuk





trôpego

trôpego

verso errático, trôpego
cego, afônico e átono
dado a chiliques encefálicos
para morrer proparoxítono

de pontacabeça, fálico
revelou-se cálido e rústico
encamisado com plástico
logrou-se meio estapafúrdio

depois tombou epiléptico
parabólico e estrambótico
movimentou-se tanto elíptico
entre cambaleios drásticos

e desfaleceu lânguido
cabisbaixo e cáustico
para anoitecer esquálido
enternecido e estúpido

sacharuk

chuva no quintal

chuva no quintal

o entardecer esteve comigo
choramos cristais e neblina
já não haviam gnomos
somente uma fome de paz
rondando o gramado do quintal

quiçá não houvesse sentido
em descansar sobre o húmus
e querer entregar minha sina
a um tolo lamento cabal

me vi finalmente rendido
enquanto esperava o escuro
só queria fechar a retina
para não ver nunca mais
meu novo mundo abissal
sacharuk

tristeza arraigada

tristeza arraigada

hoje sou homem apenas
simples tal a palavra
mas verdadeiro amigo
que te convida a voar
fazer da lua o abrigo
e travessuras no ar

sorver da noite 
a delicadeza
descansar na beleza
desatar nossos medos
e logo acordar mais cedo
com meia dúzia de rimas
contra a dor

nem tirano nem mestre
ou professor
(te despojo em minhas asas
como ao solo a flor)
apenas frágil humano

arrancarei do engano
essa estranha tristeza
vertente de águas
nem de amores ou mágoas
quero ser águia ou anjo
voaremos até quando
despencarem segredos

(quero ter pés descalços
e palavras desnudas)

vem, abre as asas
não deixa-as mudas
rasga no céu um caminho
voa sobre as casas
não me deixa sozinho
prometo que não te deixo 
olhar para baixo

acima das certezas
e também incertezas
tu me verás cabisbaixo
eu pedirei um sorriso
ou talvez outro abraço

tua face no meu ombro
teus enganos, fardos 
talvez se reduza o espaço
entre os escombros
dos mundos encantados

apenas repousas
e também me acolhes
me sinto confortável
no teu toque delicado

quero colher um lindo sorriso
entre as tuas preocupações
que nascerá clandestino
cheiro forte como bálsamo

e quando eu voltar
cantarei tortas canções
no reverso da estrada
tentando esquecer os refrões
dessa tristeza arraigada

sacharuk

O Último Charrua

O Último Charrua

No alto de uma coxilha
Viu-se um índio repontando horizonte
Um lobo sem sua matilha
O último cocar de sua brava gente

Filho de Tupan, esquecido pelo tempo
Preso a miséria da civilização escassa
O cusco ovelheiro, seu único alento
Índio cor de cobre, esteio de sua raça
Em uma bombacha e encarnado lenço
Pés descalços e pobre, domava que dava graça

Modesto Charrua, a coronilha da raça
Que sina a sua, a última alma que passa

Parecia com pingo sem tropilha
Viveu de saudade sem canga errante
Mas não se reculutou na pandilha
Viu o encanto nativo cada vez mais distante

O rebenque da sorte guasqueou o intento
Entendeu que na lida há o dia da caça
E cantou solito aporreando o relento
A milonga tristonha de esperança escassa
Se o desejo do homem é cambicho sedento
A bonança de um é do outro a ameaça

Modesto charrua, o fim é o livramento
Que sina a sua, espírito xucro do vento.

Decimar Biagini e Sacharuk

águas claras–acróstico

águas claras

Ah se as marés são das luas
Gelarão coesas em cristais
Utópicas moléculas espúrias
Águas sujas em mananciais
Sequestradas na boca das ruas

Claras não são sempre as águas
Lacrimais vertentes de oceanos
Águas empurram as mágoas
a romper ribeirões pelos canos
Assim somente desaguam
Seus correntes instintos insanos

sacharuk

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ao sopro norte dos ventos

ao sopro norte dos ventos

índia menina
nas terras da dor e da rima
da tribo dos versos rasgados
trazes tristeza enlaçada
nos cabelos entrançados

quero estar
nos traços da lua 
por querer te saber
por querer

viveste sonhos tantos
duraram dias inteiros
atravessaram janeiros 
ilusões e desencantos
desenganos e devaneios

índia, todos os dias
escreve no chão
um verso de poesia
no arroubo da perfeição
que de tão perfeito
provoque algum medo

deslizo os dedos
entre teus cabelos
beijo as madeixas
deitadas no meu peito
acarinho tuas queixas
afago as lembranças
liberto os lamentos
e desfaço tuas tranças
ao sopro norte dos ventos

sacharuk

moldando a água


moldando a água

lavei tristezas
moldando a água
segurei as belezas
para que não fugissem
pelos vãos

se foram as mágoas
as incertezas
numa correnteza
fez com que sumissem
quando abri as mãos

na vida espalmada
fatalmente molhada
de dentro da pia
de água moldada
escrevi poesia

sacharuk

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Shinichi Maruyama

esqueletos

esqueletos

naveguei tantos mares
explorei outras terras
remei o dó nas galeras
com dores nas costas
e de olhos tristonhos
em busca do porto
para ancorar alguns sonhos

marés de tantos azares
outras de sorte ou quimeras
abandonei causas velhas
pisei na fama e na bosta
mirei destinos tacanhos
joguei pérolas aos porcos
servi senhores estranhos

separei dos meus pares
fui ovni entre estrelas
ficamos eu e as panelas
pois eu perdi as apostas
que fiz com deus e demônio
vi meus sonhos aos ossos
de esqueletos medonhos

Capuchinho

Capuchinho

rubro era o seu pecado
tingido na vã inocência
passeava só sem licença
com docinhos confeitados
de sabores atávicos

trazia o cesto de enlaces
com sonhos de chocolates
deleites aos vícios
com poemas riscados
de versos rasgados
falantes de falos
e orifícios

perseguia auspícios
cordeiros em pele de lobos
seduzidos aos sonhos
de comê-la

e ela pequena
melindrada cobria a cabeça
com rubros panos
para que o dó dos enganos
jamais lhe apareça

sacharuk



poema de água de rio

poema de água de rio

poema de água de rio
estrofes de mágoa e de frio
versos secos ao vento
salpicados de areia

poesia lírica sereia
canto onírico e lamento
melódico fio que cai lento
rimas que cursam as veias

poema maré lua cheia
ritmo gelado sombrio
num tom engasgado e senil
sem significado ou intento

poesia sem nó argumento
enlace de versos vazios
dor que corrente entremeia
as palavras mais feias

sacharuk