A poesia delira ao diapasão e, logo, intenta aos acordes da lira. Poesia que tanto descreve saliva de beijo, bem como a imagem do pensador com o queixo poisado nos dedos. Poesia pode andar no eixo para não ouvir queixa, mas pode andar fora e criar desavenças. Há poesia das crenças, poesia do lixo, poesia pretensa, poesia das gentes, poesia dos bichos. Ela é o amálgama do mundo, verte por tudo. É ofício dos nobres, sedução dos espertos, marofa dos pobres e sina dos vagabundos. Também vive escondida na língua dos analfabetos. Poesia é isso tudo e mais outro tanto, no entanto, poesia não é absurdo. Absurdo é querer-se mudo; absurdo é querer-se surdo; absurdo é querer-se cego. (Tudo e mais outro tanto - sacharuk)

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quarta-feira, 27 de março de 2019

poeta nu - acróstico

poeta nu - acróstico

Pelado!
O maldito poeta
Esteta
Trafegava
Alamedas e anseios

Na alma trajava
Um verso livre

sacharuk


quinta-feira, 7 de março de 2019

Elba e Valdir - acróstico

Elba e Valdir

E lba de sol e malmequer
L ançou pétalas pelos canteiros
B ravia dama tal fosse o cardeiro
A mãe-natureza disposta em mulher

E m rara beleza viveu seu amor

V aldir nutriu-lhe calor em luzeiro
A primavera do seu bem querer
L ume de sonhos em pleno esplendor
D essa magia de amor verdadeiro
I ncandescências fizeram irromper
R ebentos tão lindos da sua flor

sacharuk



quarta-feira, 6 de março de 2019

presente grego

presente grego

chama os viventes
as pitonisas
os consulentes
ao casamento da nereida

chama os imortais
hierofantes
o soberano de Atenas

Afrodite entregou Helena
ludibriou Menelau
Páris ganhou a guerra
e Tróia
seu cavalo de pau

sacharuk


princesa de areia

princesa de areia

ela era a princesa
do reino da freguesia
e seus dotes de musa
orgulhavam a realeza
que a mantinha reclusa

eu a observava de cima
sobre castelos de areia
e sempre lá estava ela
a mais linda donzela
de toda a aldeia

eu a olhava disperso
entre o dia e a ceia
e ela lia meus versos
entre a ceia e o dia
trocávamos poesia

quisera jogasse tranças
tal a linda Rapunzel
eu teria mais esperança
de tirá-la dessa cadeia
da mente que devaneia
em mundos de papel

sempre a vejo
como a Cinderela
ou a princesa Bela
aguardando adormecida
que o meu beijo
restitua sua vida

sacharuk



qualquer distinto poeta

qualquer distinto poeta

se nalgum desses dias
qualquer distinto poeta
bater em retirada
    que ninguém se preocupe

não é mais que nada
quando há coisas mais
notoriamente importantes
com o que se preocupar

se nalgum desses dias
qualquer distinto poeta
inventar de fazer revoada
    que ninguém se perturbe

vem de asa quebrada
novamente na busca da paz
sempre tão distante
que nunca consegue alcançar

sacharuk

quem dera

quem dera

a fome persevera
tramo o novo cortejo
na ansiedade da espera
de bater à tua porta

tua dor de menina
não é dor de mulher morta
quando teu corpo inclina
tu te convertes em fera

devoras e desatinas
tu mandas e eu obedeço
sou de natureza torta
teu castigo me ensina

tua boca exaspera
dentes lábios desejo
tolo espero um beijo
mas não me pertence
quem dera

sacharuk




terça-feira, 5 de março de 2019

sementes irresponsáveis

sementes irresponsáveis

existo enquanto escolho o significado dos meus feitos
a mim não compete determinar

coisas prontas fogem às mãos
pertencem ao mundo das percepções
minha existência aufere significado
nenhuma viagem nenhuma passagem ou lapso de tempo pode evitar

jogo sementes irresponsáveis pela janela do avião
vingam apenas as que quedam sobre o estrume das vacas
mas as restantes não caem em vão

imitam pó de estrela grudam com o orvalho
que deita sobre os telhados e derretem ao sol do meio-dia

sacharuk


vitruviano

vitruviano

vitruviano cânone
da proporção áurea
e linhas harmônicas

tua beleza clássica
perfaz matemática
dos corpos torneados

vitruvianos ângulos
da perfeita estética
dos traços formosos

a ti
e aos homens nus
o inverno impiedoso
chegará outra vez

sacharuk


sexta-feira, 1 de março de 2019

Viagem ao interior, por Eva Crochemore




Viagem ao interior

Preciso ir para fora, fora da cidade, fora do meu eu urbano e conturbado. Há uma latente ruralidade a me inquietar, sempre me chamando com sua força viva.  Tão logo sair da gaiola, qual bicho do mato do século XXI me embrenharei no matagal cerrado por toda espécie de árvores. Quero filmar as frondosas, bem copadas, jogando-se com a força de todos os ventos sobre as mais frágeis, por vezes fustigando-lhes os galhos, colocando em risco os ninhos dos passarinhos e jogando longe indefesos insetos antes abrigados em suas folhas.  Focarei as pequenas touceiras acotovelando-se, na disputa do melhor espaço para assistir ao espetáculo do astro rei, esquivando-se das sombras do arvoredo que, com o passar das horas, teimam em impedir seu banho de sol.
   
Abrirei ouvidos, coração e microfone para absorver e gravar as ondas sonoras de todos os naipes agudos da passarada desassossegada, que empreende sem cessar os voos de sobrevivência na sua efêmera vida, enquanto orquestram no tapete verde, a céu aberto, inéditas sinfonias, árias inimitáveis apresentadas em consertos diários, que cessam a cada anoitecer para recomeçar na madrugada seguinte.  Então é chegada a vez dos pássaros noturnos; com sons graves intermitentes, repetem todas as noites as mesmas canções sinistras que infundem pavor aos notívagos ou, ainda, despertam um sombrio mistério aos insones românticos.
   
Será fascinante acompanhar o joão-de-barro em construção; ele e a parceira, em revezamento, do barreiro até o local escolhido, começam a obra, com prazo exíguo para entrega.  Ao longo de poucos dias, projeto e execução vão se concretizando. Ele vai, e volta com seu bico cheio e, enquanto deposita aquele primeiro tijolinho, ela voa até o barreiro e já retorna com o segundo. Assim, após centenas e centenas de viagens, no mais laboroso vaivém, na mais sincronizada força-tarefa, vão edificando a casa. Diferentemente dos muambeiros, podem passar muitas vezes por aduanas; ninguém desconfiará de contrabando, nem lhes confiscará a bagagem. O casal já tem data para as núpcias. Aquele ninho de amor primaveril acolherá uma única ninhada, e estará, num ato benevolente, disponível a outros de qualquer espécie, que estarão à espreita para usufruir do benefício gratuito assim que possível.
   
Reencontrarei o envolvente vento verde com suas invisíveis rajadas de ar puro, que inspirarei inflando os cantos mais remotos de meus pulmões. Sorverei os mistérios da mata virgem escondidos no emaranhado das raízes, que serpenteiam o subsolo; nas folhagens fantasmagóricas, que levantam as mãos verdes para me assustar; na impenetrável trama de galhos do espinheiro, que crescem em direção aos espaços livres para vedá-los; na disfarçada quietude dos insetos em incessante labor; no cheiro úmido da fertilidade; no infinito burburinho da natureza em ritmado agito de proliferação.
   
Escutarei o córrego que, com sua imponência arterial, corta e irriga o chão, e, em pulsação frenética, jorra vida riacho afora.  Preciso guardar áudios daquele chuá fresco e cristalino das águas correndo entre as pedras; certamente me serão terapêuticos quando me pesar a rotina.
   
De alma e mala prontas, aceitei o convite da anfitriã natureza. Até mais, cidade grande. Voltarei, não antes de dissipar por lá a minha nostalgia, de cantar em prosa e verso minha alegria e de fazer ‘selfies’ de te causar inveja.
       
Eva Crochemore