A poesia delira ao diapasão e, logo, intenta aos acordes da lira. Poesia que tanto descreve saliva de beijo, bem como a imagem do pensador com o queixo poisado nos dedos. Poesia pode andar no eixo para não ouvir queixa, mas pode andar fora e criar desavenças. Há poesia das crenças, poesia do lixo, poesia pretensa, poesia das gentes, poesia dos bichos. Ela é o amálgama do mundo, verte por tudo. É ofício dos nobres, sedução dos espertos, marofa dos pobres e sina dos vagabundos. Também vive escondida na língua dos analfabetos. Poesia é isso tudo e mais outro tanto, no entanto, poesia não é absurdo. Absurdo é querer-se mudo; absurdo é querer-se surdo; absurdo é querer-se cego. (Tudo e mais outro tanto - sacharuk)

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quarta-feira, 22 de julho de 2020

o servo


O servo

Ele lutou, relutou, denunciou fatalidades vivas e pulsantes ao passo que deglutiu tamanha raiva canina. Bebeu café, assistiu aos clientes, bebeu outro café e, logo depois, acalmou-se.
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Questionou o objetivo das coisas. Ouviu novamente as tantas e tantas verdades servidas nas mesas, pregadas nos cultos, na cardiopatia que acomete a sociedade dos sentidos repleta de sentimentos nobres. Por fim, ainda que sem respostas, repetiu orgulhoso cada discurso floreado das melhores intenções. 

Acreditou na justeza dos advogados, na ética dos comerciantes, da pureza dos pastores, nos médicos, no irmão, no vizinho.  

Pretendeu colher pérolas virgens daquelas ostras escancaradas. Pernoitou de novo com a compreensão e com a esperança.

Concentrado, conduziu seu carro novinho e brilhante, contabilizou resultados e aguardou ansioso que o próximo fruto viçoso surgisse dependurado no galho seco. 

Vendeu seguros. Desejou estar seguro. 

Buscou por um senso de justiça que não o tocava. Limpou a mente da torpeza dos preconceitos que jamais adquiriu. 

Assistiu a novela, o futebol, o jornal. Serviu uísque, fumou um baseado. Falou com as horas na espera que o dia acabasse de novo e de novo e de novo. Agradeceu ao Deus, já que é necessário, mas também ao Mamom, o único que sempre surge para conversar.

sacharuk

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