A poesia delira ao diapasão e, logo, intenta aos acordes da lira. Poesia que tanto descreve saliva de beijo, bem como a imagem do pensador com o queixo poisado nos dedos. Poesia pode andar no eixo para não ouvir queixa, mas pode andar fora e criar desavenças. Há poesia das crenças, poesia do lixo, poesia pretensa, poesia das gentes, poesia dos bichos. Ela é o amálgama do mundo, verte por tudo. É ofício dos nobres, sedução dos espertos, marofa dos pobres e sina dos vagabundos. Também vive escondida na língua dos analfabetos. Poesia é isso tudo e mais outro tanto, no entanto, poesia não é absurdo. Absurdo é querer-se mudo; absurdo é querer-se surdo; absurdo é querer-se cego. (Tudo e mais outro tanto - sacharuk)

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quarta-feira, 22 de julho de 2020

abaixo de zero

abaixo de zero

riscaria desenhos
acaso houvesse neve
apenas há cristais agudos
de dura perplexidade

um grande parque morto
de brinquedos absortos
tanto mudo
e surdo

o desvelo
é bater a bengala
num bloco de gelo
para ver o quanto aguenta
esse frio violento

pensaria que é somente
mais um inverno
de água e vento

e aquela pressão
que aumenta e diminui
ora dentro
ora fora
e parece que surge
de todos os lados

seria simulacro de coração
que soa cristalizado
se o calor vai embora

sacharuk

´'... e na cabana de madeira, os estalidos do gelo ecoam na penumbra azulada. Lá fora, o mar branco corta na sua agudeza de ser apenas branco, escrachado e afiado, não cortante, e o céu exibe o tom quase amarelo, cinzento brilho de algo mais. Na frente da casa, as marcas do caminho de ontem sumiram. Tudo uniforme, liso. Gotas caem do telhado, pingos grossos, escorrem e saltam ao infinito, antecipando o novo, que acontece... surge  o raio amarelo, fininho,  que incide sobre à arvore mais próxima, os estalidos aumentam e a luz se faz... cá dentro, agora, a lenha seca crepita mais forte, refletindo o sol em cada faísca.’  (Dhenova)

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