A poesia delira ao diapasão e, logo, intenta aos acordes da lira. Poesia que tanto descreve saliva de beijo, bem como a imagem do pensador com o queixo poisado nos dedos. Poesia pode andar no eixo para não ouvir queixa, mas pode andar fora e criar desavenças. Há poesia das crenças, poesia do lixo, poesia pretensa, poesia das gentes, poesia dos bichos. Ela é o amálgama do mundo, verte por tudo. É ofício dos nobres, sedução dos espertos, marofa dos pobres e sina dos vagabundos. Também vive escondida na língua dos analfabetos. Poesia é isso tudo e mais outro tanto, no entanto, poesia não é absurdo. Absurdo é querer-se mudo; absurdo é querer-se surdo; absurdo é querer-se cego. (Tudo e mais outro tanto - sacharuk)

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domingo, 26 de julho de 2020

a umidade da noite

A umidade da noite

Brinquei com o nariz da noite na pontinha do meu indicador. Ela, surpresa, mirou gentilmente bem dentro dos meus olhos e sorriu pelo canto da boca. Há dias que a noite acorda no jardim, contando estrelas inocentes. Então eu sorri para ela também.

Corremos, dançamos e, depois, mergulhamos desnudos numa gota de orvalho. Exploramos profundamente. Apneia de sete segundos.

E a noite, toda molhada, se abriu toda, estrelada e lânguida. Logo, percorri com meus dedos, bem dentro, dos cachos dos seus cabelos, que enroscados num canto da lua, despencavam incertos pelo breu.

Ela, a noite, generosa, beijou meus lábios de fogo e eu, fascinado, a penetrei pelos olhos.

sacharuk





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