A poesia delira ao diapasão e, logo, intenta aos acordes da lira. Poesia que tanto descreve saliva de beijo, bem como a imagem do pensador com o queixo poisado nos dedos. Poesia pode andar no eixo para não ouvir queixa, mas pode andar fora e criar desavenças. Há poesia das crenças, poesia do lixo, poesia pretensa, poesia das gentes, poesia dos bichos. Ela é o amálgama do mundo, verte por tudo. É ofício dos nobres, sedução dos espertos, marofa dos pobres e sina dos vagabundos. Também vive escondida na língua dos analfabetos. Poesia é isso tudo e mais outro tanto, no entanto, poesia não é absurdo. Absurdo é querer-se mudo; absurdo é querer-se surdo; absurdo é querer-se cego. (Tudo e mais outro tanto - sacharuk)

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terça-feira, 21 de julho de 2020

Comoção, por Jorge Moraes - www.inspiraturas.org



COMOÇÃO 

“Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.” John Donne 

Muitos de nós ignoramos não só o nome de nossos vizinhos de porta, assim como quem e quantos são? O que representam em nosso convívio? E por que saber? Entretanto, de nossos ídolos, e talvez não seja por menos, ainda que distantes e com os quais jamais tenhamos contato, dispomos de expressivo conhecimento de suas vidas. Apoderamo-nos, como se donos fôssemos, desse transparente arquivo. Cremos ter primazia. Julgamos até que as informações são confidenciais e somos um dos poucos a saber. E nessa cumplicidade absorvemos data e lugar de nascimento, parentes e familiares, acontecimentos significativos. Tomamos ciência do temperamento, dos pratos preferidos, dos sinais particulares e animais de estimação. Opinamos sobre suas vestes e a cor do cabelo. E no silêncio, dialogamos com eles. Orgulhosamente vibramos com os sucessos; sofremos e choramos com os reveses. 

Reverências, quase todos prestamos: santificações, líderes religiosos, educadores, escritores, cientistas, clubes, atletas, notadamente jogadores de futebol e pilotos; políticos (raramente), cantores, músicos, atores, animais... E as revelamos, dentre outras formas, através de monumentos, de camisetas estampadas, bonés, toalhas, pôster, imagens, vídeos, áudios, impressos... 

Parece-nos, e respeitamos o adverso, que em se tratando de fontes televisivas, algumas novelas, ainda que a olhos tantos sejam promíscuas ou perniciosas, monopolizam, sistematicamente, nossa atenção. Aos programas informativos ou recreativos permitimo-nos laços efêmeros e superficiais. Julgamos a fonte como prestadores de serviços: relações tênues, sem comprometimento. O vínculo se renova na celeridade dos fatos e notícias. As informações não são exclusivas de um canal e perduram na extensão da importância. A perda de um capítulo de novela, em especial na fase conclusiva, diferencia-se, substancialmente, da, de um telejornal. 

As novelas voejam com asas do fascínio. Inebriam, seduzem, entorpecem, embriagam. Hora nos levam a beber nas fontes edênicas do amor, hora nos conduzem à turbulência das águas procelosas. A aprovação e o desprezo transpõem o antagonismo da antítese. Condicionam-nos à perenidade da expectativa. Muito de seu contexto, repetidamente, segue o lugar comum; com uma pitada de imaginação chega-se ao final. Cada um redige o seu epílogo. Assim convém às faces envolvidas. A complexidade de linguagem e a necessidade de reflexões afastam o grande público. Os venerados realizam nossos sonhos. E nós, como se lá estivéssemos, (e com tanto sonhamos) temos a solução. Queremos exemplares punições à vilania; aos heróis, a insígnia reluz nos louros e medalhas. 

Aos ídolos perdoem-se imperfeições. As máculas encontram guarida em nossas incorreções. Ainda que neguemos a discriminação, encontramos na fisionomia de cada personagem o ajustamento à conduta. Os bons têm doçura nos lábios, no coração e no olhar; os maus nem perto. A assertiva de Joãosinho 30 leva a algumas reflexões “O povo gosta de luxo. Quem gosta de miséria é intelectual.” 

O apego tem a dimensão da temporalidade e de quanto o protagonista representa ao contexto. ‘Rei morto, rei posto’. A substituição não é incondicional. Umberto Magnani, ator de Velho Chico, (Padre Romão) morreu aos 75 anos, acidente vascular encefálico, no dia de seu aniversário. No enredo, padre Romão é informado de que passará a ser sacerdote emérito. A idade e o acometimento consolaram o inevitável. Por quanto tempo foi lembrado? O consagrado ator Carlos Vereza (Padre Benício) assumiu a paróquia de Grotas. 

Em setembro de 2016, aos 54 anos, Domingos Montagner, ator de Velho Chico, (Santo dos Anjos), precocemente, sucumbe às águas do rio São Francisco. Certamente, a partida foi extemporânea. Um adeus sem beijos, abraços ou mãos se agitando delimitou a ficção, imergindo à realidade. A finitude despertou a incredulidade. Havia tanto a fazer! Nossos ídolos são eternos. Se viajarem, há de ser bem tarde. E por motivo plausível. Domingos foi muito cedo, cedo demais. Não era apenas um vizinho de porta: diariamente, sem mesmo bater, tomava assento em nossa intimidade. Feneceram os esgares e caretas. Há um vazio no picadeiro. As cortinas não mais se abrirão. 

Outubro – 2016 



Jorge Moraes, natural de Rosário do Sul RS, cidadão pelotense; Professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira; Membro das academias Sul-brasileira de Letras e Pelotense de Letras. 

jorgemoraes_pel@hotmail.com 













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