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sábado, 3 de dezembro de 2016

Comoção, por Jorge Moraes

COMOÇÃO

“Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.” John Donne

Muitos de nós ignoramos não só o nome de nossos vizinhos de porta, assim como quem e quantos são? O que representam em nosso convívio? E por que saber? Entretanto, de nossos ídolos, e talvez não seja por menos, ainda que distantes e com os quais jamais tenhamos contato, dispomos de expressivo conhecimento de suas vidas. Apoderamo-nos, como se donos fôssemos, desse transparente arquivo. Cremos ter primazia. Julgamos até que as informações são confidenciais e somos um dos poucos a saber. E nessa cumplicidade absorvemos data e lugar de nascimento, parentes e familiares, acontecimentos significativos. Tomamos ciência do temperamento, dos pratos preferidos, dos sinais particulares e animais de estimação. Opinamos sobre suas vestes e a cor do cabelo. E no silêncio, dialogamos com eles. Orgulhosamente vibramos com os sucessos; sofremos e choramos com os reveses.

Reverências, quase todos prestamos: santificações, líderes religiosos, educadores, escritores, cientistas, clubes, atletas, notadamente jogadores de futebol e pilotos; políticos (raramente), cantores, músicos, atores, animais... E as revelamos, dentre outras formas, através de monumentos, de camisetas estampadas, bonés, toalhas, pôster, imagens, vídeos, áudios, impressos...

Parece-nos, e respeitamos o adverso, que em se tratando de fontes televisivas, algumas novelas, ainda que a olhos tantos sejam promíscuas ou perniciosas, monopolizam, sistematicamente, nossa atenção. Aos programas informativos ou recreativos permitimo-nos laços efêmeros e superficiais. Julgamos a fonte como prestadores de serviços: relações tênues, sem comprometimento. O vínculo se renova na celeridade dos fatos e notícias. As informações não são exclusivas de um canal e perduram na extensão da importância. A perda de um capítulo de novela, em especial na fase conclusiva, diferencia-se, substancialmente, da, de um telejornal.

As novelas voejam com asas do fascínio. Inebriam, seduzem, entorpecem, embriagam. Hora nos levam a beber nas fontes edênicas do amor, hora nos conduzem à turbulência das águas procelosas. A aprovação e o desprezo transpõem o antagonismo da antítese. Condicionam-nos à perenidade da expectativa. Muito de seu contexto, repetidamente, segue o lugar comum; com uma pitada de imaginação chega-se ao final. Cada um redige o seu epílogo. Assim convém às faces envolvidas. A complexidade de linguagem e a necessidade de reflexões afastam o grande público. Os venerados realizam nossos sonhos. E nós, como se lá estivéssemos, (e com tanto sonhamos) temos a solução. Queremos exemplares punições à vilania; aos heróis, a insígnia reluz nos louros e medalhas.

Aos ídolos perdoem-se imperfeições. As máculas encontram guarida em nossas incorreções. Ainda que neguemos a discriminação, encontramos na fisionomia de cada personagem o ajustamento à conduta. Os bons têm doçura nos lábios, no coração e no olhar; os maus nem perto. A assertiva de Joãosinho 30 leva a algumas reflexões “O povo gosta de luxo. Quem gosta de miséria é intelectual.”

O apego tem a dimensão da temporalidade e de quanto o protagonista representa ao contexto. ‘Rei morto, rei posto’. A substituição não é incondicional. Umberto Magnani, ator de Velho Chico, (Padre Romão) morreu aos 75 anos, acidente vascular encefálico, no dia de seu aniversário. No enredo, padre Romão é informado de que passará a ser sacerdote emérito. A idade e o acometimento consolaram o inevitável. Por quanto tempo foi lembrado? O consagrado ator Carlos Vereza (Padre Benício) assumiu a paróquia de Grotas.

Em setembro de 2016, aos 54 anos, Domingos Montagner, ator de Velho Chico, (Santo dos Anjos), precocemente, sucumbe às águas do rio São Francisco. Certamente, a partida foi extemporânea. Um adeus sem beijos, abraços ou mãos se agitando delimitou a ficção, imergindo à realidade. A finitude despertou a incredulidade. Havia tanto a fazer! Nossos ídolos são eternos. Se viajarem, há de ser bem tarde. E por motivo plausível. Domingos foi muito cedo, cedo demais. Não era apenas um vizinho de porta: diariamente, sem mesmo bater, tomava assento em nossa intimidade. Feneceram os esgares e caretas. Há um vazio no picadeiro. As cortinas não mais se abrirão.

Outubro – 2016

 

Jorge Moraes, natural de Rosário do Sul RS, cidadão pelotense; Professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira; Membro das academias Sul-brasileira de Letras e Pelotense de Letras.

jorgemoraes_pel@hotmail.com

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sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

ADEQUAÇÕES LINGUÍSTICAS, por Jorge Moraes

ADEQUAÇÕES LINGUÍSTICAS

Sem pretensões de andejar pelo preciosismo, menos ainda de ser um arauto do linguajar escorreito, até porque nossos cochilos, omissões e erros não são menores e menos intensos que os de outros tantos, mas sim objetivando, quem sabe, a adequação vocabular e linguística, tentaremos discorrer sobre algumas expressões que, hoje, transitam em nosso linguajar.

Como se sabe, mesmo respeitando o advento de neologismos, e acatando a espontaneidade da linguagem popular, a valorização e o regramento de estruturas vocabulares constituem indispensáveis suportes à cultura e enriquecimento de todo o idioma.

Em assim o sendo, vejamos: ‘ Justo agora que não tínhamos condições financeiras, ofereceram-nos o veículo a preço promocional’. ‘ Justo agora, faltou energia elétrica’. Ainda que não tenhamos domínio das classes gramaticais e de suas respectivas derivações e vinculações, percebe-se que podemos omitir a palavra ‘justo’, mas não a palavra ‘agora’. ‘Justo’ dá à estrutura frasal acentuada precisão temporal. Se invertermos – ‘Faltou energia elétrica, justo agora’. Certamente, alguns dirão, acatando o apelo fonético: ‘Faltou energia elétrica, justamente agora’. Portanto, ‘Justamente agora, faltou energia’. Se substituirmos a palavra ‘justo’ por um advérbio de sentido equivalente, teremos: ‘pontualmente agora’,‘exatamente agora’, ‘precisamente agora’. Certamente não diremos – ‘pontual agora’, ‘exato agora’, ‘preciso agora’.

Em programas dirigidos, por excelência aos jovens, alguns entrevistados, também jovens, costumam expressar sua admiração por este ou por aquele ídolo, afirmando: ‘sou muito fã desse cantor’. Sabe-se que ‘muito’ expressa uma idéia quantitativa. Dá-nos a dimensão da intensidade: advérbio ou pronome? É fundamental que saibamos pela flexão e pelo emprego.

Sendo advérbio, o ‘muito’ se refere a um verbo, adjetivo ou a outro advérbio e não sofre flexões. Ex.: Elas são (muito) fãs desse cantor. Se afirmarmos: Este cantor tem muitas fãs. Nota-se que houve flexão, por decorrência pronome indefinido. Atentemos a uma curiosa construção: Ontem, andamos muito (advérbio). Ontem, andamos muitos quarteirões (pronome indefinido).

Sintetizando: Sou ‘muito’ fã desse cantor. Somos ‘muito’ fãs desse cantor. Já sabemos que o ‘muito’, neste caso, é advérbio. Mas se vincula ao substantivo ‘fã(s)’, o que contraria a definição dos advérbios. Vejamos, ainda, empregando verbos auxiliares: Somos ’muito’ honrados (adjetivo). Estávamos ‘muito’ honrados (adjetivo). Tínhamos ‘muitos’ fãs (substantivo). Havíamos ‘muitos’ fãs (substantivo). Portanto, só deveremos usar o ‘muito’ como advérbio, com os auxiliares ser e estar, acompanhado de adjetivos. Se os auxiliares forem ter e haver, não é viável empregarmos adjetivos e o ‘muito’ será pronome indefinido.

Naturalmente, poderemos ter, com o auxiliar ‘ser’, o emprego de ‘muitos’ vinculado a substantivos (pronome indefinido). Ex.: Somos/são (nós) ‘muitos’ fãs desse cantor, à procura de ingressos para o show. Neste caso, não é intensidade e sim, quantidade. Se tivermos outros verbos, que não os auxiliares: procedimento habitual. Enfatize-se, ainda, que Somos ‘muito’ honrados (superlativo absoluto analítico), Somos honradíssimos (superlativo absoluto sintético). Salvo que tenhamos mudanças, recomenda-se, tão-somente ‘Sou fã desse cantor ’.

Não são raras as oportunidades em que se ouve, mesmo dentre quem possui discernimento ao bem falar, expressões tais como: ‘Quando soube das medidas econômicas, fiquei pasmo.’ ‘Maria ficou pasma ao receber a intimação judicial’. Curiosamente, ouve-se: ‘Elas ficaram pasmadas com a violência dos policiais’. Parece-nos, que em boa hora, a eufonia reclama e se impõe. Atentemos: pasmado/a/os/as, adjetivo. Tem como sinônimos assombrado, espantado, estarrecido... Pode ser, também, o particípio do verbo pasmar, ficar sem ação, atônito. Pasmo é o sentimento de espanto, surpresa diante de algo que não se espera; admiração, assombro, perda dos sentidos, desmaio (substantivos). E pasma? Cremos que a incorreção afirma-se na procura de construções menores, tidas como mais simples, às vezes mais agradáveis ao ouvido. Considere-se, ainda, o emprego do particípio de verbos abundantes, com os verbos auxiliares. Com ‘ser’ e ‘estar’ recomenda-se o infinitivo regular (fixado, benzido, morrido, pagado). Com ‘ter’ e ‘haver, o infinitivo irregular (fixo, bento, morto, pago).

Decerto, a muitos, ouvidos moucos; a outros tantos, difícil mudar o que está consagrado; a poucos, a possibilidade do enriquecimento; a todos, a liberdade do uso.

 

Jorge Moraes – novembro de 2016 - jorgemoraes_pel@hotmail.com

 

Jorge Moraes, natural de Rosário do Sul RS, cidadão pelotense; Professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira; Membro das academias Sul-brasileira de Letras e Pelotense de Letras.

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quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

problema meu




solitude-3

problema meu

se amo
problema meu
não abras
um universo fechado

não queiras julgar
não queiras julgar
o que a mim pertence

se amo
nada tens a ver
não persigas
meus passos

teu amor
enlouquece
intriga
enfurece
se não sabe
quem sou

não queiras saber
não queiras saber
se amo na alvura
ou na escuridão

se amo
estranhezas
certos fracassos
não há o que dizer

teu amor
enlouquece
intriga
enfurece
se não sabe

se amo
problema meu

sacharuk

bonança


bonança

um vento tranquilo
veio para amainar 
o tempo cruel
e suas correntes

soprou brisa tal consolo
acordou aos crentes
aos idealistas
moralistas
aos tolos

soprou sementes de versos
nos campos dispersos
da nova poesia

soprou sereno
nuvens feitas das águas
do mar das calmarias