Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas tu podes treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras ainda não escritas.
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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

mamilla



CYMERA_20161128_180130

mamilla

se desejas deixar
a espiral da galáxia
terás de entrar
no centro do bojo central
pelo mesmo duto
que verte leite estelar

decerto sucumbirás
no centro da supermassa
perdido no buraco negro

se desejas deixar
a via láctea
terás de beijar
até que se abra
o disco galáctico
entre as nebulosas
e a poeira estelar

sacharuk

sábado, 26 de novembro de 2016

bestiário

bestiário

tão rude, o leão
se fecha as asas
faminto de abstração
ruge por carne
sangue
e compaixão

o leão, sua alteza
esquece a delicadeza
que fala ao coração
se é inútil dizer sim 
se é útil dizer não
reflete a juba nas águas

caça na selva intrépida
pelas terras azuladas
locus das bestas aladas
famintas egoicas
por um tanto de vida
e alguma paixão

sacharuk



sexta-feira, 25 de novembro de 2016

tum tum

tum tum

a vida passa tão rápida
surfa lépida
asas do tempo

o instantâneo
o flash
raro momento

mas
a vida passa 
tão rápida
e passa 
ainda mais rápida
se o coração bate lento

sacharuk


quinta-feira, 24 de novembro de 2016

umbrella

umbrella

flor que floresce
da última chuva
nasce flor que parece
flor guardachuva

quando acontece
abre o pedicelo
da frieza das trevas
ao yang amarelo

onde Apolo
o belo
inspira fogos
sopra lascivas ondas
à Afrodite passional

umbrella archangelica
sedutora das sombras
benfeitora do umbral

sacharuk


onde dorme oceano

onde dorme oceano

onde dorme oceano
o vasto manto
abraça
sou abduzido
na dança
e não nego
quando dizes

te levo

te levo
suavemente
te levo
repousar na vertente
te levo
onde dorme oceano

voar soberano
sem rota
eu voo leve
gaivota
costa do mar

lá enroscam
fios de cabelos
aos cachos
costa do mar

onde dorme oceano
o vasto manto
abraça
sou abduzido
na dança
e não nego
quando dizes

te levo

te levo
suavemente
te levo
repousar na vertente
te levo
onde dorme oceano

voar soberano
sem rota
eu voo leve
gaivota
costa do mar

sacharuk


terça-feira, 22 de novembro de 2016

cafuné

cafuné

chegas fagueira
promessa e desvelos
vestes nudez
tu toda inteira
eu todo apelos
a foda inspira

 o que espanta a dor
é o timbre da lira
dançam teus dedos
nos meus cabelos

sacharuk



segunda-feira, 21 de novembro de 2016

predestinação

predestinação

enquanto existo
fundo minha essência
absoluto da história
absoluto da sorte
apenas trago memórias
somente elas persistem
à morte

enquanto existo
minhas escolhas me recriam
continuamente
consciência da liberdade
que atesta incessante
a responsabilidade
de sempre escolher

sacharuk


ato e potência

ato e potência

sou necessariamente
tudo o que sou
do jeito que sou
genuíno
ato puro
algo equivalente
ao que dizes divino

sou aquilo
que pode vir a ser
para a totalidade
um ser necessário
dispenso causas
para existir

encontro em mim
as razões suficientes
os fundamentos do nada
sou apriorístico universo
das possibilidades

sacharuk


domingo, 20 de novembro de 2016

Lição de Gary Provost


Esta frase tem cinco palavras. Aqui há mais cinco palavras. Usar cinco palavras é legal. Mas várias juntas ficam monótonas. Escute o que está acontecendo. A leitura se torna tediosa. O som começa a zumbir. É como um disco riscado. O ouvido pede mais variedade.

Agora ouça. Vario o comprimento de cada frase, e crio música. Música. A escrita canta. Tem um ritmo agradável, uma cadência, uma harmonia. Uso frases curtas. E uso frases de comprimento intermediário. E às vezes, quando estou certo de que o leitor está descansado, o envolvo com uma frase de comprimento considerável, uma frase que arde com energia e que sobe com todo o ímpeto de um crescendo, do rufar de tambores, do choque dos címbalos – sons que dizem: ouça isto, é importante.


Portanto, escreva com uma combinação de frases curtas, médias e longas. Crie um som que agrade ao ouvido do leitor. Não escreva apenas palavras. Escreva música.

Gary Provost

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

enquanto cantam sirenas

enquanto cantam sirenas

fecham-se as cortinas
dos tempos insones
eu canto aos suspiros
enquanto cantam as sirenas
meu nome

escorrido em gotas
na vidraça da janela
sou deserto iluminado
universo alquebrado
enganos do dia

rasgam-se memórias
dos versos infames
eu canto aos suspiros
enquanto cantam as sirenas
meu nome

enterro solene
pássaros mortos
no quintal de terra
arranco a casca leve
das estranhas magias
com sentenças breves
escritas sem letras

e transporto
clichês borboletas 
sobre as asas
da minha poesia

 sacharuk


terça-feira, 15 de novembro de 2016

xerófila

xerófila
resta a seca
se a vida
agoniza
sem coragem

resta a seca
após a estiagem
deságuam pingos
esquálidos

resta seca
a seiva dos verdes
as vertentes
dos rios
são versos áridos

sacharuk



quarta-feira, 2 de novembro de 2016

presságios escritos nas paredes

presságios escritos nas paredes

insights estranhos
consulta aos arcanos
eco dos tempos
som dos lamentos
vislumbres insanos
junto ao trânsito
na cidade

chamaste meu nome

serena
mataste minha fome
no canto da sala
e recitamos poesia

noutro dia
plantei orquídeas negras
no parapeito da janela
que emoldura o meu vale
e confina em canções
presságios escritos
nas paredes

sacharuk



labirinto

labirinto

algoz eu fui
dos versos cadentes
torrentes
da ansiedade
deslizes do instinto

assassinei os versos
sem qualquer piedade
no seu labirinto

ninguém viu
quando cortei o fio
logo matei Ariadne

sacharuk

Imagem: Dora Maar and Man Ray- 1936, The Years Lie in Wait for You


melacueca

 melacueca

não há
na minha ilha
mel mais doce
que o da paixão

e não há
em qualquer outra ilha
igual iguaria
tal sabor da tua boca
tal o gosto do beijo

não há outra
assim tão louca
ninguém mais desafia
a verve do meu desejo

 e não há
amor comparado
ao doce melacueca
de rosto colado
num só quadradinho
do salão

sacharuk


não digas nada

não digas nada

preciso
mergulhar-te os confins
desse olhar diamante
estender uma ponte
unindo nossas pupilas,

não digas nada
negra

deixa-me querer
nada é impossível
as três da manhã
ainda despencam pétalas
das hastes

visito os ninhos
das garças estabanadas
pelas rotas abandonadas
pelos dias que passam
batendo as asas

preciso
tuas mãos frias
sobre minha fronte
ver tuas ancas
serpenteando dilemas
salvando meus sonhos

não digas nada
negra

agora sozinho
no escuro das estradas
pelas noites devastadas
os camaradas passam
e não dizem nada

preciso
tuas mãos frias
sobre minha fronte
e não digas nada
no meu último dia,
negra

e não digas nada

nada

sacharuk