A poesia delira ao diapasão e, logo, intenta aos acordes da lira. Poesia que tanto descreve saliva de beijo, bem como a imagem do pensador com o queixo poisado nos dedos. Poesia pode andar no eixo para não ouvir queixa, mas pode andar fora e criar desavenças. Há poesia das crenças, poesia do lixo, poesia pretensa, poesia das gentes, poesia dos bichos. Ela é o amálgama do mundo, verte por tudo. É ofício dos nobres, sedução dos espertos, marofa dos pobres e sina dos vagabundos. Também vive escondida na língua dos analfabetos. Poesia é isso tudo e mais outro tanto, no entanto, poesia não é absurdo. Absurdo é querer-se mudo; absurdo é querer-se surdo; absurdo é querer-se cego. (Tudo e mais outro tanto - sacharuk)

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segunda-feira, 20 de julho de 2020

Poesia e poema são sinônimos? Não para Octavio Paz - www.inspiraturas.org

Poesia e poema são sinônimos? Não para Octavio Paz


Em sua obra-prima “O arco e a lira”, o crítico literário, poeta e ensaísta Octavio Paz volta seu olhar ao estudo da poesia e do poema, da criação poética e da história da poesia. No entanto, ao trabalhar com tais questões, sentiu necessidade de delimitar o que é, de fato, o poema e a poesia, termos costumeiramente tomados como sinônimos. Para o estudioso, há poesia sem poemas. A poesia pode estar numa paisagem, nas pessoas, em fatos cotidianos, isto é, a poesia pode estar em nosso dia-a-dia em momentos, vivências e coisas que são poéticas. Ela pode acontecer por acaso, sem passar pelas mãos de um poeta e sua vontade criadora. Podemos nos deparar com o poético em acontecimentos simples, frutos do acaso.

O poeta, por sua vez, pode ser o fio condutor responsável por transformar a poesia (como uma paisagem, um acontecimento – belo ou não – etc) em elementos poéticos dispostos no poema. A poesia, por meio de um ser humano com intenções artísticas, transforma-se em produto humano ao adentrar no poema.

E o poema? O poema é obra literária, é criação artística e é linguagem erguida. Pode ser construído de acordo com regras métricas e rítmicas e pode possuir uma forma literária específica, como, por exemplo, o soneto. Entretanto, Paz defende que o poema não é uma forma literária em si, mas, sim, o ponto de encontro entre o ser humano (poeta e até o leitor) e a poesia. Poema, nesse sentido, é um organismo verbal, que pode conter, suscitar ou emitir poesia. Paz ainda chama atenção para a questão de que, muitas vezes, a poesia é denominada a soma de todos os poemas de um determinado autor ou período. Na visão dele, isto é errôneo, uma vez que cada poema é único e irredutível. Não se pode reduzir criação poética à poesia. O poema é um objeto único, permeado por uma técnica específica de cada poeta, a qual possui um estilo específico, marcado tanto pelo individualismo de seu criador quanto pela sua época, estilo literário de seu tempo e vivências sociais e históricas.

Cada poema é palavra e é história, único em uma totalidade de uma obra literária e, por meio dele, em maior ou menor grau, pulsa a poesia. Dentro do poema, a poesia é enxergada de acordo com aquilo que cada um carrega dentro de si, ou seja, o poema é uma possibilidade aberta a todos, e essa participação do leitor na leitura do poema é, por si só, algo poético. Ao reviver o poema, ao visitá-lo e revisitá-lo, o leitor faz uma viagem dentro de si e além de si. 

Para finalizar aqui esta matéria trazemos algumas de suas definições de poesia e poema de modo poético: "A poesia é conhecimento, salvação, poder, abandono. Operação capaz de transformar o mundo, a atividade poética é revolucionária por natureza; exercício espiritual, é um método de libertação interior. A poesia revela este mundo; cria outro. Pão dos eleitos; alimento maldito. Isola; une. Convite à viagem; regresso à terra natal. Inspiração, respiração, exercício muscular. Súplica ao vazio, diálogo com a ausência, é alimentada pelo tédio, pela angústia e pelo desespero. Oração, litania, epifania, presença. Exorcismo, conjuro, magia. Sublimação, compensação, condensação do inconsciente. Expressão histórica de raças, nações, classes. Nega a história: em seu seio resolvem-se todos os conflitos objetivos e o homem adquire, afinal, a consciência de ser algo mais que passagem. Experiência, sentimento, emoção, intuição, pensamento não-dirigido. Filha do acaso; fruto do cálculo. Arte de falar em forma superior; linguagem primitiva. Obediência às regras; criação de outras. Imitação dos antigos, cópia do real, cópia de uma cópia da Idéia. Loucura, êxtase, logos. Regresso à infância, coito, nostalgia do paraíso, do inferno, do limbo. Jogo, trabalho, atividade ascética. Confissão. Experiência inata. Visão, música, símbolo. Analogia: o poema é um caracol onde ressoa a música do mundo, e métricas e rimas são apenas correspondências, ecos, da harmonia universal. Ensinamento, moral, exemplo, revelação, dança, diálogo, monólogo. Voz do povo, língua dos escolhidos, palavra do solitário. Pura e impura, sagrada e maldita, popular e minoritária, coletiva e pessoal, nua e vestida, falada, pintada, escrita, ostenta todas as faces, embora exista quem afirme que não tem nenhuma: o poema é uma máscara que oculta o vazio, bela prova da supérflua grandeza de toda obra humana!" - Octavio Paz – O Arco e a lira 

ESTELA SANTOS

http://homoliteratus.com/poesia-e-poema-sao-sinonimos-nao-para-octavio-paz/

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