A poesia delira ao diapasão e, logo, intenta aos acordes da lira. Poesia que tanto descreve saliva de beijo, bem como a imagem do pensador com o queixo poisado nos dedos. Poesia pode andar no eixo para não ouvir queixa, mas pode andar fora e criar desavenças. Há poesia das crenças, poesia do lixo, poesia pretensa, poesia das gentes, poesia dos bichos. Ela é o amálgama do mundo, verte por tudo. É ofício dos nobres, sedução dos espertos, marofa dos pobres e sina dos vagabundos. Também vive escondida na língua dos analfabetos. Poesia é isso tudo e mais outro tanto, no entanto, poesia não é absurdo. Absurdo é querer-se mudo; absurdo é querer-se surdo; absurdo é querer-se cego. (Tudo e mais outro tanto - sacharuk)

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sábado, 25 de junho de 2016

sorvida


sorvida

sublime
sobreveio seu sabor
salpicado suor
silvestre salgado
salsa
sálvia

seu sexo
selou sensações
singular sinfonia
sem sentido
sem sequência

seu sorriso
simulou sinos
soou sincero
somente sorriso
simplesmente satisfeito

sacharuk


3 
ilustração: Mihály Von Zichy

nave

nave

saibas, guria
não quero anarquia
não quero barraco
quero uma escuna
uma nave um barco
que faça fortuna
que navegue poesia
que viaje no espaço

sacharuk

images (1)

sombras gasosas

sombras gasosas

meus versos de emboscadas
respiram nas nebulosas
bebem o leite das vias
viajam no espaço poesia

meus versos sem rosas
movem coisas paradas
param coisas movidas
misturados às prosas

meus versos acendem dias
nas imbatíveis porfias
são fugitivos das trovas
trevas da noite calada

meus versos são derrocada
cascata de rimas leprosas
galáxia de estrelas vadias
das dores da afta e azia

meus versos de veias nervosas
assaltam à mão armada
poeiras que não dizem nada
sinapses de sombras gasosas

sacharuk


quinta-feira, 23 de junho de 2016

breu

breu

noite sem lua
paira assim
...desnecessária

carece de adrenalina
uma emoção à toa

noites sem lua
são todas iguais
não têm fim

o gato preto
contra o fundo escuro
esvanece
sobre o telhado do galpão
um vulto
na falta de luz

no céu
duas ou três estrelas opacas
derradeiro brilho
de um apelo iluminado

sei que há vida oculta
segredada na noite escura

e um grito na rua
reverbera trôpego
entre as paredes das casas
vira esquinas
atravessa ruas
que grita gosto de medo
e cheiro de orvalho

na noite sem lua
o gato do telhado
observa atento
os cães famintos
loucos na madrugada
que brigam ferozes
por um pedaço de vida

sacharuk


quarta-feira, 22 de junho de 2016

santificada

santificada

preservo-te a paz
a zelar que o sal 
tuas águas não turve
e o inferno do céu 
não pese tua cabeça

sei de ti no papel
plasmada de poesia

santificada
que não esmoreças
de viver fantasias
renovar as promessas
que nunca fizeste

não preciso aprender-te
eu sei ler-te às avessas
posso sempre achar-te
onde perco palavras

sacharuk

encontro casual

encontro casual

meia pé pé sapato
calçada pedra buraco

pé pé pé pé
rua
ótica óculos
espelho
cartão máquina
senha nota

rua 
calçada pedra buraco

pé pé pé pé
mulher
olhos boca nariz

blusa peitos
saia quadris
coxas

olhos
mão ombros
mão mão
olhos olhos
boca boca

casa
sapato sapato
calça camisa
cueca
blusa
saia calcinha
boca boca
mão 
mão

boca língua
pau
bunda

sacharuk


pulsante

pulsante

rasgo-te estradas
cruzo-te entranhas
a saltar-te horizontes
teu semblante
simula artimanhas
e razões depravadas

falo-te mais nada
penso ouvir-te cantante
canções que cantaste
calada
que muda calaste
sonante

permaneces pelada
eu continuo ofegante

e entremeio-te os flancos
enroscado nos brancos
lençóis contrastados
com tons elegantes

satanizo-te os santos
teus pecados e encantos
articulo-te nas veias
ao entrar-te pulsante.

sacharuk


O corredor

O corredor

nesse momento, minha primeira sensação é o frio na barriga. E, logo, sentirei um calor insano nas bochechas. O oxigênio escasso irá produzir uma secura que me tomará os pulmões, enquanto minha visão se tornará turva. Assim sempre acontece. Minha rotina emocional bem organizada e previsível faz minhas mãos suadas tremerem. E hoje faz calor. Sei o que se aproxima. Eu posso ouvir os passos de botinas confundindo os meus batimentos cardíacos. 
Um padre e sua bíblia. E poucos dentre nós são cristãos, senhor.
Maldonado deu apenas um grito seco, como disse que o faria. Espero que o tenhas amparado. Foi rápido. 
Que seja assim também quando chegar a minha vez. Amém.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

alface

alface

Nado nado
sei nada não
não estou aqui
você não está me vendo

continuo nadando
vi nada não
não era eu
era alguém parecido
comigo

sou a viva alma
mais honesta
d'alface
da terra

sacharuk

domingo, 12 de junho de 2016

chave de poesia

chave de poesia

o baú envelhecido
madeira dura
metais oxidados

hermético
fechado
e do orifício
da pequena fechadura
a imagem do esperado

um giro firme na chave
e o voo da liberdade

chave de poesia
tão verdade
e perto
que se pode tocá-la

mas ninguém a tem

sacharuk

sábado, 11 de junho de 2016

alguém de verdade

alguém de verdade

da fatalidade
o atilado castigo
revés na minha história
rasgo na memória
da morte tu és
o víés

vens de arcanos antigos
desafio das idades
na roda dos signos
temerário convés
donde aporta a vontade

chegas num riso blasé
sem segredos
com liberdades

nas insanidades
e medos
és cúmplice e refém
és alguém
de verdade.

sacharuk


terça-feira, 7 de junho de 2016

sem coração


sem coração

há quem diga
que ateus
são demônios 
sem coração

tal se amor
fosse monopólio 
de um deus
ou da religião

há quem pense
que heresia
é rumo da ovelha negra
ou da alma perdida 
sem salvação

e obedece as regras
para a falta de vida
que brota onde falta razão

sacharuk

domingo, 5 de junho de 2016

o louco

o louco

andarilho, bobo da corte
verso fútil o teu caminho
pedinte da própria sorte
de um parco naco de pão
e um cálice de vinho

arcano da branca rosa
da liberdade e da prosa
da trouxa de conhecimentos
ainda não conquistados
sob o firmamento

andarilho, bobo da corte
dos cães vadios enroscados
à barra das tuas calças

engoles borboletas
que anunciam tua morte
sobrevoam a miséria
da tua vida obsoleta
sobre campos adubados
pelos restos da matéria

sacharuk