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sábado, 3 de dezembro de 2016

Comoção, por Jorge Moraes

COMOÇÃO

“Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.” John Donne

Muitos de nós ignoramos não só o nome de nossos vizinhos de porta, assim como quem e quantos são? O que representam em nosso convívio? E por que saber? Entretanto, de nossos ídolos, e talvez não seja por menos, ainda que distantes e com os quais jamais tenhamos contato, dispomos de expressivo conhecimento de suas vidas. Apoderamo-nos, como se donos fôssemos, desse transparente arquivo. Cremos ter primazia. Julgamos até que as informações são confidenciais e somos um dos poucos a saber. E nessa cumplicidade absorvemos data e lugar de nascimento, parentes e familiares, acontecimentos significativos. Tomamos ciência do temperamento, dos pratos preferidos, dos sinais particulares e animais de estimação. Opinamos sobre suas vestes e a cor do cabelo. E no silêncio, dialogamos com eles. Orgulhosamente vibramos com os sucessos; sofremos e choramos com os reveses.

Reverências, quase todos prestamos: santificações, líderes religiosos, educadores, escritores, cientistas, clubes, atletas, notadamente jogadores de futebol e pilotos; políticos (raramente), cantores, músicos, atores, animais... E as revelamos, dentre outras formas, através de monumentos, de camisetas estampadas, bonés, toalhas, pôster, imagens, vídeos, áudios, impressos...

Parece-nos, e respeitamos o adverso, que em se tratando de fontes televisivas, algumas novelas, ainda que a olhos tantos sejam promíscuas ou perniciosas, monopolizam, sistematicamente, nossa atenção. Aos programas informativos ou recreativos permitimo-nos laços efêmeros e superficiais. Julgamos a fonte como prestadores de serviços: relações tênues, sem comprometimento. O vínculo se renova na celeridade dos fatos e notícias. As informações não são exclusivas de um canal e perduram na extensão da importância. A perda de um capítulo de novela, em especial na fase conclusiva, diferencia-se, substancialmente, da, de um telejornal.

As novelas voejam com asas do fascínio. Inebriam, seduzem, entorpecem, embriagam. Hora nos levam a beber nas fontes edênicas do amor, hora nos conduzem à turbulência das águas procelosas. A aprovação e o desprezo transpõem o antagonismo da antítese. Condicionam-nos à perenidade da expectativa. Muito de seu contexto, repetidamente, segue o lugar comum; com uma pitada de imaginação chega-se ao final. Cada um redige o seu epílogo. Assim convém às faces envolvidas. A complexidade de linguagem e a necessidade de reflexões afastam o grande público. Os venerados realizam nossos sonhos. E nós, como se lá estivéssemos, (e com tanto sonhamos) temos a solução. Queremos exemplares punições à vilania; aos heróis, a insígnia reluz nos louros e medalhas.

Aos ídolos perdoem-se imperfeições. As máculas encontram guarida em nossas incorreções. Ainda que neguemos a discriminação, encontramos na fisionomia de cada personagem o ajustamento à conduta. Os bons têm doçura nos lábios, no coração e no olhar; os maus nem perto. A assertiva de Joãosinho 30 leva a algumas reflexões “O povo gosta de luxo. Quem gosta de miséria é intelectual.”

O apego tem a dimensão da temporalidade e de quanto o protagonista representa ao contexto. ‘Rei morto, rei posto’. A substituição não é incondicional. Umberto Magnani, ator de Velho Chico, (Padre Romão) morreu aos 75 anos, acidente vascular encefálico, no dia de seu aniversário. No enredo, padre Romão é informado de que passará a ser sacerdote emérito. A idade e o acometimento consolaram o inevitável. Por quanto tempo foi lembrado? O consagrado ator Carlos Vereza (Padre Benício) assumiu a paróquia de Grotas.

Em setembro de 2016, aos 54 anos, Domingos Montagner, ator de Velho Chico, (Santo dos Anjos), precocemente, sucumbe às águas do rio São Francisco. Certamente, a partida foi extemporânea. Um adeus sem beijos, abraços ou mãos se agitando delimitou a ficção, imergindo à realidade. A finitude despertou a incredulidade. Havia tanto a fazer! Nossos ídolos são eternos. Se viajarem, há de ser bem tarde. E por motivo plausível. Domingos foi muito cedo, cedo demais. Não era apenas um vizinho de porta: diariamente, sem mesmo bater, tomava assento em nossa intimidade. Feneceram os esgares e caretas. Há um vazio no picadeiro. As cortinas não mais se abrirão.

Outubro – 2016

 

Jorge Moraes, natural de Rosário do Sul RS, cidadão pelotense; Professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira; Membro das academias Sul-brasileira de Letras e Pelotense de Letras.

jorgemoraes_pel@hotmail.com

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sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

ADEQUAÇÕES LINGUÍSTICAS, por Jorge Moraes

ADEQUAÇÕES LINGUÍSTICAS

Sem pretensões de andejar pelo preciosismo, menos ainda de ser um arauto do linguajar escorreito, até porque nossos cochilos, omissões e erros não são menores e menos intensos que os de outros tantos, mas sim objetivando, quem sabe, a adequação vocabular e linguística, tentaremos discorrer sobre algumas expressões que, hoje, transitam em nosso linguajar.

Como se sabe, mesmo respeitando o advento de neologismos, e acatando a espontaneidade da linguagem popular, a valorização e o regramento de estruturas vocabulares constituem indispensáveis suportes à cultura e enriquecimento de todo o idioma.

Em assim o sendo, vejamos: ‘ Justo agora que não tínhamos condições financeiras, ofereceram-nos o veículo a preço promocional’. ‘ Justo agora, faltou energia elétrica’. Ainda que não tenhamos domínio das classes gramaticais e de suas respectivas derivações e vinculações, percebe-se que podemos omitir a palavra ‘justo’, mas não a palavra ‘agora’. ‘Justo’ dá à estrutura frasal acentuada precisão temporal. Se invertermos – ‘Faltou energia elétrica, justo agora’. Certamente, alguns dirão, acatando o apelo fonético: ‘Faltou energia elétrica, justamente agora’. Portanto, ‘Justamente agora, faltou energia’. Se substituirmos a palavra ‘justo’ por um advérbio de sentido equivalente, teremos: ‘pontualmente agora’,‘exatamente agora’, ‘precisamente agora’. Certamente não diremos – ‘pontual agora’, ‘exato agora’, ‘preciso agora’.

Em programas dirigidos, por excelência aos jovens, alguns entrevistados, também jovens, costumam expressar sua admiração por este ou por aquele ídolo, afirmando: ‘sou muito fã desse cantor’. Sabe-se que ‘muito’ expressa uma idéia quantitativa. Dá-nos a dimensão da intensidade: advérbio ou pronome? É fundamental que saibamos pela flexão e pelo emprego.

Sendo advérbio, o ‘muito’ se refere a um verbo, adjetivo ou a outro advérbio e não sofre flexões. Ex.: Elas são (muito) fãs desse cantor. Se afirmarmos: Este cantor tem muitas fãs. Nota-se que houve flexão, por decorrência pronome indefinido. Atentemos a uma curiosa construção: Ontem, andamos muito (advérbio). Ontem, andamos muitos quarteirões (pronome indefinido).

Sintetizando: Sou ‘muito’ fã desse cantor. Somos ‘muito’ fãs desse cantor. Já sabemos que o ‘muito’, neste caso, é advérbio. Mas se vincula ao substantivo ‘fã(s)’, o que contraria a definição dos advérbios. Vejamos, ainda, empregando verbos auxiliares: Somos ’muito’ honrados (adjetivo). Estávamos ‘muito’ honrados (adjetivo). Tínhamos ‘muitos’ fãs (substantivo). Havíamos ‘muitos’ fãs (substantivo). Portanto, só deveremos usar o ‘muito’ como advérbio, com os auxiliares ser e estar, acompanhado de adjetivos. Se os auxiliares forem ter e haver, não é viável empregarmos adjetivos e o ‘muito’ será pronome indefinido.

Naturalmente, poderemos ter, com o auxiliar ‘ser’, o emprego de ‘muitos’ vinculado a substantivos (pronome indefinido). Ex.: Somos/são (nós) ‘muitos’ fãs desse cantor, à procura de ingressos para o show. Neste caso, não é intensidade e sim, quantidade. Se tivermos outros verbos, que não os auxiliares: procedimento habitual. Enfatize-se, ainda, que Somos ‘muito’ honrados (superlativo absoluto analítico), Somos honradíssimos (superlativo absoluto sintético). Salvo que tenhamos mudanças, recomenda-se, tão-somente ‘Sou fã desse cantor ’.

Não são raras as oportunidades em que se ouve, mesmo dentre quem possui discernimento ao bem falar, expressões tais como: ‘Quando soube das medidas econômicas, fiquei pasmo.’ ‘Maria ficou pasma ao receber a intimação judicial’. Curiosamente, ouve-se: ‘Elas ficaram pasmadas com a violência dos policiais’. Parece-nos, que em boa hora, a eufonia reclama e se impõe. Atentemos: pasmado/a/os/as, adjetivo. Tem como sinônimos assombrado, espantado, estarrecido... Pode ser, também, o particípio do verbo pasmar, ficar sem ação, atônito. Pasmo é o sentimento de espanto, surpresa diante de algo que não se espera; admiração, assombro, perda dos sentidos, desmaio (substantivos). E pasma? Cremos que a incorreção afirma-se na procura de construções menores, tidas como mais simples, às vezes mais agradáveis ao ouvido. Considere-se, ainda, o emprego do particípio de verbos abundantes, com os verbos auxiliares. Com ‘ser’ e ‘estar’ recomenda-se o infinitivo regular (fixado, benzido, morrido, pagado). Com ‘ter’ e ‘haver, o infinitivo irregular (fixo, bento, morto, pago).

Decerto, a muitos, ouvidos moucos; a outros tantos, difícil mudar o que está consagrado; a poucos, a possibilidade do enriquecimento; a todos, a liberdade do uso.

 

Jorge Moraes – novembro de 2016 - jorgemoraes_pel@hotmail.com

 

Jorge Moraes, natural de Rosário do Sul RS, cidadão pelotense; Professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira; Membro das academias Sul-brasileira de Letras e Pelotense de Letras.

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quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

problema meu




solitude-3

problema meu

se amo
problema meu
não abras
um universo fechado

não queiras julgar
não queiras julgar
o que a mim pertence

se amo
nada tens a ver
não persigas
meus passos

teu amor
enlouquece
intriga
enfurece
se não sabe
quem sou

não queiras saber
não queiras saber
se amo na alvura
ou na escuridão

se amo
estranhezas
certos fracassos
não há o que dizer

teu amor
enlouquece
intriga
enfurece
se não sabe

se amo
problema meu

sacharuk

bonança


bonança

um vento tranquilo
veio para amainar 
o tempo cruel
e suas correntes

soprou brisa tal consolo
acordou aos crentes
aos idealistas
moralistas
aos tolos

soprou sementes de versos
nos campos dispersos
da nova poesia

soprou sereno
nuvens feitas das águas
do mar das calmarias

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

mamilla



CYMERA_20161128_180130

mamilla

se desejas deixar
a espiral da galáxia
terás de entrar
no centro do bojo central
pelo mesmo duto
que verte leite estelar

decerto sucumbirás
no centro da supermassa
perdido no buraco negro

se desejas deixar
a via láctea
terás de beijar
até que se abra
o disco galáctico
entre as nebulosas
e a poeira estelar

sacharuk

sábado, 26 de novembro de 2016

bestiário

bestiário

tão rude, o leão
se fecha as asas
faminto de abstração
ruge por carne
sangue
e compaixão

o leão, sua alteza
esquece a delicadeza
que fala ao coração
se é inútil dizer sim 
se é útil dizer não
reflete a juba nas águas

caça na selva intrépida
pelas terras azuladas
locus das bestas aladas
famintas egoicas
por um tanto de vida
e alguma paixão

sacharuk



sexta-feira, 25 de novembro de 2016

tum tum

tum tum

a vida passa tão rápida
surfa lépida
asas do tempo

o instantâneo
o flash
raro momento

mas
a vida passa 
tão rápida
e passa 
ainda mais rápida
se o coração bate lento

sacharuk


quinta-feira, 24 de novembro de 2016

umbrella

umbrella

flor que floresce
da última chuva
nasce flor que parece
flor guardachuva

quando acontece
abre o pedicelo
da frieza das trevas
ao yang amarelo

onde Apolo
o belo
inspira fogos
sopra lascivas ondas
à Afrodite passional

umbrella archangelica
sedutora das sombras
benfeitora do umbral

sacharuk


onde dorme oceano

onde dorme oceano

onde dorme oceano
o vasto manto
abraça
sou abduzido
na dança
e não nego
quando dizes

te levo

te levo
suavemente
te levo
repousar na vertente
te levo
onde dorme oceano

voar soberano
sem rota
eu voo leve
gaivota
costa do mar

lá enroscam
fios de cabelos
aos cachos
costa do mar

onde dorme oceano
o vasto manto
abraça
sou abduzido
na dança
e não nego
quando dizes

te levo

te levo
suavemente
te levo
repousar na vertente
te levo
onde dorme oceano

voar soberano
sem rota
eu voo leve
gaivota
costa do mar

sacharuk


terça-feira, 22 de novembro de 2016

cafuné

cafuné

chegas fagueira
promessa e desvelos
vestes nudez
tu toda inteira
eu todo apelos
a foda inspira

 o que espanta a dor
é o timbre da lira
dançam teus dedos
nos meus cabelos

sacharuk



segunda-feira, 21 de novembro de 2016

predestinação

predestinação

enquanto existo
fundo minha essência
absoluto da história
absoluto da sorte
apenas trago memórias
somente elas persistem
à morte

enquanto existo
minhas escolhas me recriam
continuamente
consciência da liberdade
que atesta incessante
a responsabilidade
de sempre escolher

sacharuk


ato e potência

ato e potência

sou necessariamente
tudo o que sou
do jeito que sou
genuíno
ato puro
algo equivalente
ao que dizes divino

sou aquilo
que pode vir a ser
para a totalidade
um ser necessário
dispenso causas
para existir

encontro em mim
as razões suficientes
os fundamentos do nada
sou apriorístico universo
das possibilidades

sacharuk


domingo, 20 de novembro de 2016

Lição de Gary Provost


Esta frase tem cinco palavras. Aqui há mais cinco palavras. Usar cinco palavras é legal. Mas várias juntas ficam monótonas. Escute o que está acontecendo. A leitura se torna tediosa. O som começa a zumbir. É como um disco riscado. O ouvido pede mais variedade.

Agora ouça. Vario o comprimento de cada frase, e crio música. Música. A escrita canta. Tem um ritmo agradável, uma cadência, uma harmonia. Uso frases curtas. E uso frases de comprimento intermediário. E às vezes, quando estou certo de que o leitor está descansado, o envolvo com uma frase de comprimento considerável, uma frase que arde com energia e que sobe com todo o ímpeto de um crescendo, do rufar de tambores, do choque dos címbalos – sons que dizem: ouça isto, é importante.


Portanto, escreva com uma combinação de frases curtas, médias e longas. Crie um som que agrade ao ouvido do leitor. Não escreva apenas palavras. Escreva música.

Gary Provost

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

enquanto cantam sirenas

enquanto cantam sirenas

fecham-se as cortinas
dos tempos insones
eu canto aos suspiros
enquanto cantam as sirenas
meu nome

escorrido em gotas
na vidraça da janela
sou deserto iluminado
universo alquebrado
enganos do dia

rasgam-se memórias
dos versos infames
eu canto aos suspiros
enquanto cantam as sirenas
meu nome

enterro solene
pássaros mortos
no quintal de terra
arranco a casca leve
das estranhas magias
com sentenças breves
escritas sem letras

e transporto
clichês borboletas 
sobre as asas
da minha poesia

 sacharuk


terça-feira, 15 de novembro de 2016

xerófila

xerófila
resta a seca
se a vida
agoniza
sem coragem

resta a seca
após a estiagem
deságuam pingos
esquálidos

resta seca
a seiva dos verdes
as vertentes
dos rios
são versos áridos

sacharuk



quarta-feira, 2 de novembro de 2016

presságios escritos nas paredes

presságios escritos nas paredes

insights estranhos
consulta aos arcanos
eco dos tempos
som dos lamentos
vislumbres insanos
junto ao trânsito
na cidade

chamaste meu nome

serena
mataste minha fome
no canto da sala
e recitamos poesia

noutro dia
plantei orquídeas negras
no parapeito da janela
que emoldura o meu vale
e confina em canções
presságios escritos
nas paredes

sacharuk



labirinto

labirinto

algoz eu fui
dos versos cadentes
torrentes
da ansiedade
deslizes do instinto

assassinei os versos
sem qualquer piedade
no seu labirinto

ninguém viu
quando cortei o fio
logo matei Ariadne

sacharuk

Imagem: Dora Maar and Man Ray- 1936, The Years Lie in Wait for You


melacueca

 melacueca

não há
na minha ilha
mel mais doce
que o da paixão

e não há
em qualquer outra ilha
igual iguaria
tal sabor da tua boca
tal o gosto do beijo

não há outra
assim tão louca
ninguém mais desafia
a verve do meu desejo

 e não há
amor comparado
ao doce melacueca
de rosto colado
num só quadradinho
do salão

sacharuk


não digas nada

não digas nada

preciso
mergulhar-te os confins
desse olhar diamante
estender uma ponte
unindo nossas pupilas,

não digas nada
negra

deixa-me querer
nada é impossível
as três da manhã
ainda despencam pétalas
das hastes

visito os ninhos
das garças estabanadas
pelas rotas abandonadas
pelos dias que passam
batendo as asas

preciso
tuas mãos frias
sobre minha fronte
ver tuas ancas
serpenteando dilemas
salvando meus sonhos

não digas nada
negra

agora sozinho
no escuro das estradas
pelas noites devastadas
os camaradas passam
e não dizem nada

preciso
tuas mãos frias
sobre minha fronte
e não digas nada
no meu último dia,
negra

e não digas nada

nada

sacharuk

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

canção da maré

canção da maré

ela habita 
a estranha floresta
brinca com focas
diverte pinguins
sobre a lava diluída
do meu vulcão

sua cabeça verte
emaranhadas folhas
rosa trepadeira

meu olhar sobre o dela
nossos pés na areia
dançamos
a canção da maré

ela habita
o alpendre de madeira
transita nas tocas
conhece os cupins
e os caminhos de formiga
do meu chão

as suas mãos ofertam
arranjos de flores
rosa trepadeira

meu olhar sobre o dela
nossos pés na areia
dançamos
a canção da maré

dançamos
a canção da maré

sacharuk

fotografia: pashapixel


domingo, 30 de outubro de 2016

aziago

aziago

atro
o contrato
com a sorte
o corte
a ceifa
cabeça
coração
o ouro

atro
o agouro
o olho
soslaio
a morte
o desmaio
infausto
funesto

à sombra da lápide
pelo campo ominoso

sacharuk


terça-feira, 18 de outubro de 2016

insônia

insônia

insônia invencível
invoca imagens
indaga
infere
intriga

insônia impetuosa
ímpia imunda
intenção indecorosa
imersa
intrusa
infielmente íntima

insônia intuitiva
instante inusitado
instável ideia
incorpora
imagina
indica

insônia insistente

insiste...
insiste
              insiste

sacharuk

sábado, 15 de outubro de 2016

fábrica

fábrica

no divã
vertem lágrimas
doidivanas
e nos lenços
nos travesseiros
nos quadrantes da cama

a cada louco
ainda é pouco
o que a mente fabrica

acho até que tem coisa
que nem freud explica

sacharuk


domingo, 9 de outubro de 2016

cinzento

cinzento

escreve poesia
das manhas
e armadilhas
das artimanhas
tudo que desabona
tua imagem

escreve poesia
sem inocência
das tuas viagens
da indecência
que ocultas
e te incrimina

escreve poesia
da impertinência
tua mente assassina
mas não a descrevas
nas cores perfeitas
da hipocrisia

sacharuk


sábado, 8 de outubro de 2016

quando flui mansa

quando flui mansa

amigo
licença
percorro lugares
tal cometa
perfuro os ares
mas corrente de rio
quando flui mansa
que me embala
que me encanta

jogo sementes
num imenso quintal
de magnólias
e gerânios
nada mal
à velha águia
que cruza oceanos

mas se fico parado
perco o ônibus

mas se fico parado
perco o ônibus

amigo
nem a ciência
decifra a emoção
que veste o sabiá
de tanta eloquência
na corrente de rio
quando flui mansa
que ele canta
e ela dança

mas se fico parado
perco o ônibus

mas se fico parado
perco o ônibus

sacharuk
http://www.simonleechphotography.com/blog/trip-report-feldberger-seenlandschaft-east-germany/

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

quando só resta caminhar

quando só resta caminhar

iça estrelas
profundas nos olhos
calado do mar
nas pupilas

escuta a ira
a falta de ar
os pedregulhos
que sempre se pisa
mas nunca se vê
quando só resta
caminhar

as coisas belas
traços formosos
luz de luar
jardim de orquídeas

toca a lira
o poeta a cantar
amor e orgulho
que a verve inspira
iça estrelas
profundas nos olhos
calado do mar
nas pupilas

sacharuk
[Image: One-of-a-Kind Places on Earth]

deixei de poupar energia



deixei de poupar energia

sabes da luz
que apagaste em mim?
pois é... acendi novamente

dispenso a penumbra
das maquinações imundas
e por fim
sou um poeta diferente

sabes da luz?
pois é... acendi

deixei de poupar energia
pago a conta com a poesia
que ainda eu não escrevi

sacharuk

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

o beijo do súdito

o beijo do súdito

suavium 
o beijo
da ágil serpente 
nos lábios
da fêmea indelicada

cerimonial sem decoro
pétalas orvalhadas
tensão projetada
sobre os joelhos

a mão que doma
subjuga
pelos cabelos
surra de aromas
mistura fluida
de desvelos

sacharuk



segunda-feira, 3 de outubro de 2016

quando escolheste a dor

quando escolheste a dor

liberta-me
se a vida verter
pela última vez
nave sem rumo
levarei-te comigo
com gosto

o mais bendito
rasgo na pele
meus dentes
minhas marcas
minhas garras
perfuraram teus olhos

plantei na tua fronte
sementes de escuta
e dos sentidos
para germinar
minha sina

agora desfalecida
vê o que fizemos
quando escolheste a dor

ofertas a garganta
tuas vísceras
não foges
da tua desgraça

e nua danças
sobre a cadeira
teus pulsos abertos
gotejam minha boca

e logo te tenho
inerte e livre

livre

sacharuk
Japanese actress Asami

sábado, 1 de outubro de 2016

cascata cachos graúna

cascata cachos graúna

meu amor sempre fala das horas
conduz meus dedos pelos bancos
de areias brancas
sutileza
suave textura

despenca cascata
cachos graúna
nas minhas coxas
ouço comovido 
murmúrios de encantos
numa língua insana 
de outro planeta

meu amor desprende 
poeira radioativa
das suas dunas
enquanto colhe maçãs inglesas 
pelo parque

mas o que eu mais gosto
e gosto muito mesmo
é quando meu amor
me escreve em poesia.

sacharuk




carbonos coloridos

comandante chegou com camburão cujas criaturas com capacetes continham carabinas. Cão cheirador chegou crispado. Chegaram chutando cadeiras, conferindo coisas, cara cara com Catilinas. Cão cheirou cozinha, cheirou copa, cheirou congelador contendo carne cozida congelada, cheirou cama, carpete. Catilinas, conquanto calado, continuava calmo. Cão cheirou caixinha condicionada com charmoso cadeado cintilante. Comandante corrompeu cadeado conferindo conteúdo. Catilinas conduzido cadeia central. Certamente conseguira condenação. Caiu cana condenado com caixinha contendo cinco centigramas carbonos coloridos.


carbonos coloridos

cada canalhice
conduz consequência
converte castigo

conheci cada cristo
cada capeta
cada canhestro
com carinha contente
com consciência certinha

cada canalhice
conduz consequência
converte castigo

conheci cafajestes
comungados com crentes
com coxinhas
capitalistas
conquanto comunistas
comiam criancinhas

canto certas coisas
com coração cortado
chamuscando cabeça
com carbonos coloridos
com carinhos
civilmente condenados

cada canalhice
conduz consequência
converte castigo

sacharuk



quinta-feira, 29 de setembro de 2016

caprichosa cura

caprichosa cura

carecia contar certos causos
com considerações concernentes
contos contados
com conclusões certeiras

carecia conhecer ciências
considerações coerentes
conjugar conhecimentos
com coisas convincentes

carecia cativar corações
costurar cortes
curar convalescenças
conduzir crenças
com carinhoso critério

carecia cantar
comovente canção
com cuidado
caprichosa cura

carecia companhia
câmara com cordas
colorida com clarinetas
contrabaixos
cítara
címbalos
condução competente

carecia conjugar
coisa com coisa
crença com conhecimento
ciência com coração.

sacharuk

foto: sacharuk






toquei flauta
colori as matas
em busca da essência
elixir da vida
mera sobrevivência

sacrifiquei as pernas
nas tristes cruzadas
noites desenganadas
bobo tarológico
trilha de piano
meloso e bucólico

percorri arcanos
dancei com as ninfas
desafiei a fogueira
lumiar das vaidades

fui executado
morto enforcado
mas estive sorrindo
diante da fatalidade

e na poesia
embalo as verdades
em versos de gritos

e nela ressuscito
todos os dias

sacharuk


Impune e devagar

impune e devagar

estanque o tempo 
agora
e a ti
esfola
áspera
a barba 

tua nuca
retruca
reclama
a fome
esgana
meus dentes
tua pele

beijo
estrela cadente
cai impune
cai devagar

o mesmo ar
que respiras
respiro
de outro abrigo
de outro habitat

e o que queres
fazer comigo
quero contigo
no mesmo lugar

sacharuk


emboscada da lua

emboscada da lua

enclausuradas rimas
insistentes
desperdiçam tempo
iguais às dos outros viventes

mas não sei
se realmente sei
não sei
se reviro poemas
de poetas mortos
talvez vanguardistas
solenes vigaristas
dos versos tortos

o sol desembarca depressa
no mesmo porto
 tão previsível

a lua tímida
no entanto
arma emboscada
noutro canto
infalível

 sacharuk


mizifia

mizifia

levanta daí mizifia
é noite de poesia
então melhor fazer festa
tudo o que resta
é esse monte de porcaria

sacharuk



noites repletas de uma só voz

noites repletas de uma só voz

hoje pergunto
da insistência
de ter feito
o tempo divagar
fazer do intento
um lugar qualquer
qualquer outro lugar

hoje sinto
pesar os minutos
a sutura do rasgo
iminente de um grito
e do riso absurdo
delirante de orgasmos

eu busco
eu procuro
espero
que o escuro
não vire
teu brilho
ao avesso

hoje atravesso
mares mais calmos
a estrada mais longa
da distância abstrata
reviro noites estreladas
tão quietas
repletas
de uma só voz

eu ouço
eu quero
espero
que o sol
não queime
tuas costas
pelas frestas
da janela

sacharuk


versos de premonição

versos de premonição

quando um dia
lembrar desse tempo
debruçado à árvore
que guarda teu quarto
meu sangue em poesia
verterá supernovas
que te vigiarão
da janela

minhas letras singelas
flanarão memórias
de contos de sherazade
outras belas estórias
que contaste nos campos
ou deitada na canoa
sob o voo das garças
as brancas e as pardas
e os martin-pescadores

as marcas deixadas
pelo açoite das dores
juntarão oceanos
farão arder fogueiras
nas pupilas distantes
descansarão no arcano
do teu olhar diamante

contemplarei tua dança
aos demônios de um rito
respostas aos sonhos
em vermelho escritos
na forma de versos
infinitos
de premonição

quando um dia
esse tempo falar
no poema e na canção
acerca de flores
e o cão no quintal
derramarei as sementes
que brotarão a ti
e às coisas que te pertencem

quando um dia
esse tempo calar
quedará uma era sem nome
perpetuada tal signo
tatuado em setembros
descansará solene
sob um solo de orquídeas

sacharuk



Rosa Elétrica "Jazigo das orquídeas" (sacharuk-moskito-mathus)

catando restos de mim

catando restos de mim

quero a liberdade
para deixar de acreditar
e que o voo do pensamento
reconstrua minha unidade

apenas ser o que sou
merecer o que tenho
poder rir ou chorar

quero a ida
quero o sono
quero o sonho
só quero estar
catando restos de mim

quero a volta
das formas retas
das formas tortas
só quero estar
catando restos de mim

quero a liberdade
andar nas ruas da cidade
sorrir ao carteiro
abrir minha porta
e não morrer
de morte idiota

quero a ida
quero o sono
quero o sonho
só quero estar
catando restos de mim

quero a volta
das formas retas
das formas tortas
só quero estar
catando restos de mim

apenas ser o que sou
merecer o que tenho
poder rir ou chorar

sacharuk



segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Poesia e poema são sinônimos? Não para Octavio Paz

Poesia e poema são sinônimos? Não para Octavio Paz


Em sua obra-prima “O arco e a lira”, o crítico literário, poeta e ensaísta Octavio Paz volta seu olhar ao estudo da poesia e do poema, da criação poética e da história da poesia. No entanto, ao trabalhar com tais questões, sentiu necessidade de delimitar o que é, de fato, o poema e a poesia, termos costumeiramente tomados como sinônimos. Para o estudioso, há poesia sem poemas. A poesia pode estar numa paisagem, nas pessoas, em fatos cotidianos, isto é, a poesia pode estar em nosso dia-a-dia em momentos, vivências e coisas que são poéticas. Ela pode acontecer por acaso, sem passar pelas mãos de um poeta e sua vontade criadora. Podemos nos deparar com o poético em acontecimentos simples, frutos do acaso.

O poeta, por sua vez, pode ser o fio condutor responsável por transformar a poesia (como uma paisagem, um acontecimento – belo ou não – etc) em elementos poéticos dispostos no poema. A poesia, por meio de um ser humano com intenções artísticas, transforma-se em produto humano ao adentrar no poema.

E o poema? O poema é obra literária, é criação artística e é linguagem erguida. Pode ser construído de acordo com regras métricas e rítmicas e pode possuir uma forma literária específica, como, por exemplo, o soneto. Entretanto, Paz defende que o poema não é uma forma literária em si, mas, sim, o ponto de encontro entre o ser humano (poeta e até o leitor) e a poesia. Poema, nesse sentido, é um organismo verbal, que pode conter, suscitar ou emitir poesia. Paz ainda chama atenção para a questão de que, muitas vezes, a poesia é denominada a soma de todos os poemas de um determinado autor ou período. Na visão dele, isto é errôneo, uma vez que cada poema é único e irredutível. Não se pode reduzir criação poética à poesia. O poema é um objeto único, permeado por uma técnica específica de cada poeta, a qual possui um estilo específico, marcado tanto pelo individualismo de seu criador quanto pela sua época, estilo literário de seu tempo e vivências sociais e históricas.

Cada poema é palavra e é história, único em uma totalidade de uma obra literária e, por meio dele, em maior ou menor grau, pulsa a poesia. Dentro do poema, a poesia é enxergada de acordo com aquilo que cada um carrega dentro de si, ou seja, o poema é uma possibilidade aberta a todos, e essa participação do leitor na leitura do poema é, por si só, algo poético. Ao reviver o poema, ao visitá-lo e revisitá-lo, o leitor faz uma viagem dentro de si e além de si. 

Para finalizar aqui esta matéria trazemos algumas de suas definições de poesia e poema de modo poético: "A poesia é conhecimento, salvação, poder, abandono. Operação capaz de transformar o mundo, a atividade poética é revolucionária por natureza; exercício espiritual, é um método de libertação interior. A poesia revela este mundo; cria outro. Pão dos eleitos; alimento maldito. Isola; une. Convite à viagem; regresso à terra natal. Inspiração, respiração, exercício muscular. Súplica ao vazio, diálogo com a ausência, é alimentada pelo tédio, pela angústia e pelo desespero. Oração, litania, epifania, presença. Exorcismo, conjuro, magia. Sublimação, compensação, condensação do inconsciente. Expressão histórica de raças, nações, classes. Nega a história: em seu seio resolvem-se todos os conflitos objetivos e o homem adquire, afinal, a consciência de ser algo mais que passagem. Experiência, sentimento, emoção, intuição, pensamento não-dirigido. Filha do acaso; fruto do cálculo. Arte de falar em forma superior; linguagem primitiva. Obediência às regras; criação de outras. Imitação dos antigos, cópia do real, cópia de uma cópia da Idéia. Loucura, êxtase, logos. Regresso à infância, coito, nostalgia do paraíso, do inferno, do limbo. Jogo, trabalho, atividade ascética. Confissão. Experiência inata. Visão, música, símbolo. Analogia: o poema é um caracol onde ressoa a música do mundo, e métricas e rimas são apenas correspondências, ecos, da harmonia universal. Ensinamento, moral, exemplo, revelação, dança, diálogo, monólogo. Voz do povo, língua dos escolhidos, palavra do solitário. Pura e impura, sagrada e maldita, popular e minoritária, coletiva e pessoal, nua e vestida, falada, pintada, escrita, ostenta todas as faces, embora exista quem afirme que não tem nenhuma: o poema é uma máscara que oculta o vazio, bela prova da supérflua grandeza de toda obra humana!" - Octavio Paz – O Arco e a lira 

ESTELA SANTOS

http://homoliteratus.com/poesia-e-poema-sao-sinonimos-nao-para-octavio-paz/

domingo, 25 de setembro de 2016

imago

imago

belbellita lepidoptera 
asas delicadas
riscadas
coloridas
no caderno

voa leve
pela vida
voo eterno

belbellita crisálida
fases pálidas
da lagarta aos lilases
e turquesas celestes

voa breve
pela vida
voo eterno

sacharuk


PHOTOGRAPH BY CARY WOLINSKY


parindo futuros

Parindo futuros

Ando rasgando certezas
dissimulando conceitos
refazendo o tear

Ando apagando belezas
percorrendo os intentos
anunciando degredos

Ando bipartindo medos
parindo sonhos como fazem as nuvens
quando venta
reduzindo abstratas formas
a novas descobertas

Ando abrindo vielas
mordendo desilusões e as digerindo
engolindo frações das coisas complexas
com sentimentos mais puros

Ando alucinadamente
parindo futuros.

Marcia Poesia de Sá & sacharuk


sábado, 24 de setembro de 2016

calendário

calendário

certo dia
ontem talvez
um traço de poesia
solapou a cadência
num grito consciente

mostrou transparência
toque eloquente
falou sobre tudo
acerca das gentes
dos seus absurdos
das tantas doenças
do fim desse mundo

certo dia
hoje talvez
inconcebível poesia
debocha das ciências
num riso inconsequente

mostra petulância
num tom implicante
zomba sobre tudo
se faz repugnante
desfruta os abusos
 da inocência das crenças
e faz planos imundos

certo dia
talvez amanhã
um buquet de poesia
abrirá pétalas tenras

no dia incandescente
mostrará abundância
de cores vibrantes
verterá sobre tudo
se fará radiante
derrubará muros
romperá desavenças
e tomará o seu curso

sacharuk


quinta-feira, 22 de setembro de 2016

chuva de meteoros

chuva de meteoros

uma história pitoresca
sobre flores do quintal
eu escrevo às avessas
e não achas 
nada mal

perco os sapatos
esqueço o nome
depois me perco
em qualquer lugar

no nosso quarto
a nossa fome
sob a chuva
de meteoros

escrevo sobre os poros
sobre frutas do quintal
te conheço às avessas
e não achas 
nada mal

perco os sapatos
esqueço o nome
depois me perco
em qualquer lugar

no nosso quarto
a nossa fome
sob a chuva
de meteoros

uma história pitoresca
sobre flores do quintal
eu escrevo às avessas
e não achas 
nada mal

eu escrevo sobre os poros
sobre frutas do quintal
te conheço às avessas
e não achas 
nada mal

sacharuk

http://coolinterestingstuff.com/meteors-across-the-uk

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

das biocoisas

das biocoisas

tudo ilumina
no brilho
cintilante nas faces
das fatais biocoisas

me caem dos bolsos
os butiás

pela baroteia
agregado de estrume
ando solto
pela cidade
retroalimento biogás
sem massa ou volume
ou densidade
calculada
nas tabelas

vejo a vida tão bela
sem certeza de nada

sacharuk


meu castigo

meu castigo

lancei um pedido
nas águas do mar
estive perdido
para me encontrar

tanto fui louco
a dialogar tuas mãos
por espaços
de coisas
fora do lugar

vivo escondido
na esteira do tempo
para nao sentir
tua falta
nunca mais

vivo escondido
detras da tua porta
para nao sentir
tua falta
nunca mais

eu sei
pioggia
meu castigo
pioggia

eu choro
pioggia
meu castigo
pioggia

eu vivo escondido
por espaços
de coisas
fora do lugar

lancei um pedido
para nao sentir
tua falta
nunca mais

eu sei
pioggia
meu castigo
pioggia

eu choro
pioggia
meu castigo
pioggia

sacharuk

elisabetta buonanno - il mare d'inverno

domingo, 18 de setembro de 2016

bilhete na garrafa

bilhete na garrafa

pelas águas
átomos mensageiros
tempos alvissareiros
saudades sem máculas
perpassam oceanos

os mares
irrompem meridianos
continentes avessos
conduzem os versos
 amores insanos
e seus cursos intensos

sacharuk

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Lançamento do Livro 'Minha Lua", de Angela Madono, na Oficina da APCEF

Num clima descontraído, em plena noite de lua cheia, "Minha Lua", de Angela Madono, nos chegou como um grande presente! Grata à autora pela partilha e por tanto carinho.

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