A poesia delira ao diapasão e, logo, intenta aos acordes da lira. Poesia que tanto descreve saliva de beijo, bem como a imagem do pensador com o queixo poisado nos dedos. Poesia pode andar no eixo para não ouvir queixa, mas pode andar fora e criar desavenças. Há poesia das crenças, poesia do lixo, poesia pretensa, poesia das gentes, poesia dos bichos. Ela é o amálgama do mundo, verte por tudo. É ofício dos nobres, sedução dos espertos, marofa dos pobres e sina dos vagabundos. Também vive escondida na língua dos analfabetos. Poesia é isso tudo e mais outro tanto, no entanto, poesia não é absurdo. Absurdo é querer-se mudo; absurdo é querer-se surdo; absurdo é querer-se cego. (Tudo e mais outro tanto - sacharuk)

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quarta-feira, 1 de julho de 2020

Daquele em que se sucedeu uma inusitada travessia, de Tim Soares - www.inspiraturas.org

Aquele barqueiro já fizera inúmeras travessias durante todo esse tempo, assassinos, advogados, todo tipo de gente ruim que possa-se imaginar. Naquele dia, tudo seguia na mais perfeita normalidade, ele fumava um daqueles cubanos quando um homem surgiu e logo indagou com rispidez:
- É você que faz a travessia?
- Sim sou eu.
- Então vamos partir logo, tenho urgência nisso.
- Urgência? O senhor por um acaso sabe aonde é que essa barca irá levá-lo?
- Sei sim, e peço que não demores e que faça o teu serviço logo.
O barqueiro achando aquilo tudo muito estranho tratou de iniciar a travessia. O sujeito era um senhor com uns quarenta anos, era gordo, branquelo, trajava roupas sociais mas totalmente desalinhado, estava nitidamente nervoso e esfregava uma mão na outra compulsivamente, até que resolveu abrir a boca de novo:
- Quanto tempo até chegarmos do outro lado?
- Uma hora.
- Uma hora? Não pode ir mais rápido?
- Lamento senhor...
- Astolfo, me chamo Astolfo de Alcântara e você?
- Já não me lembro, estou aqui faz tanto tempo que já não lembro meu nome e nem quem eu era. E a propósito como foi que o senhor desencarnou?
- Como eu o quê?
- Desencarnou.
- Como assim desencarnou?
- Eu quero saber como foi que o senhor morreu?
- E quem disse que eu morri?
- O QUÊ? O senhor está vivo?
- Completamente vivo e gozando de plena saúde, exceto por uns problemas estomacais, pressão alta e uma hérnia para a qual já marquei uma cirurgia para semana que vem.
O pobre barqueiro simplesmente não podia acreditar no que estava ouvindo, havia um homem vivo no inferno e com pressa em chegar.
- Espera aí, o senhor sabe para onde essa barca está indo?
- Mas é claro que sei!
- Mas então...
- Ouça aqui, estou indo justamente para onde preciso ir. Preciso ver o seu chefe.
- O meu chefe?
- É, o Diabo, Capeta, Belzebu...
- Você quer ver o Senhor Lúcifer?
- Exato!
- E o senhor acha que é simples assim, "Ah, vou descer ao inferno para prosear com Lúcifer"
- Prosear é o cacete! Não vim aqui prosear, tenho mais o que fazer. Vim aqui cobrar uma dívida.
- Então ele está lhe devendo?
- Está sim, fiz um acordo com aquele filho da puta e ele me enganou.
O barqueiro entendia cada vez menos tudo aquilo e quando se deu por si, já tinha concluído a travessia e o tal Astolfo já tinha pulado da barca e seguido o seu rumo. O barqueiro então sentou atordoado com tudo aquilo acendeu um cubano e pensou:

- Porra, tem um cara vivo aqui no inferno e simplesmente não existe um protocolo pra isso!


Tim Soares

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