A poesia delira ao diapasão e, logo, intenta aos acordes da lira. Poesia que tanto descreve saliva de beijo, bem como a imagem do pensador com o queixo poisado nos dedos. Poesia pode andar no eixo para não ouvir queixa, mas pode andar fora e criar desavenças. Há poesia das crenças, poesia do lixo, poesia pretensa, poesia das gentes, poesia dos bichos. Ela é o amálgama do mundo, verte por tudo. É ofício dos nobres, sedução dos espertos, marofa dos pobres e sina dos vagabundos. Também vive escondida na língua dos analfabetos. Poesia é isso tudo e mais outro tanto, no entanto, poesia não é absurdo. Absurdo é querer-se mudo; absurdo é querer-se surdo; absurdo é querer-se cego. (Tudo e mais outro tanto - sacharuk)

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sexta-feira, 17 de julho de 2020

a solitude tem lágrimas secas

a solitude tem lágrimas secas

aprende, menina:

a solidão convertida em rosas usa espinhos como escudo

do que sabe o jardineiro, afinal? perfurar a pele nos espinhos da tragédia?

a solidão se isenta do perfeito sacrifício em favor do outro. consolida-se
rosa seca de haste dura e grossa que, imperfeita, se acomoda entre as páginas de um livro velho guardado no canto da estante

não compreende o desvelo dos jardineiros, mas dos bibliotecários, cuja colheita abarca as memórias amareladas e condensadas

lembra, menina, os solitários que cultivam flores são desprovidos de solitude

eis que a beleza das flores nega a solidão

rosas transmutadas no sépia dos tempos esqueceram dos próprios aromas
desidratadas habitam superfícies artificiais distantes às suas cheirosas roseiras
as cores definham lentas

a solitude tem lágrimas secas, menina
tal os líquidos que deixam seus invólucros derradeiros

na morte das coisas que se contempla solitude. bem sabes

pouco importa a natureza das coisas... ficam rastros das formas e conceitos
e a vida sempre será o acalanto de todas as mortes

entre o frescor e a secura há um tempo de ida e outro de volta
um sempre canta para o outro ninar
no aconchego do ninho
entre o viço e a senilidade dos galhos

sacharuk


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