Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas tu podes treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras ainda não escritas.
OFICINA DE ESCRITA LITERÁRIA INSPIRATURAS - Repaginada para 2020 - novos desafios - inscreve-te! Integra conceitos, técnicas e inspiração em desafios lúdicos e escreve poesia, crônicas e contos

sábado, 31 de outubro de 2015

Voz de brisa, por Rogério Germani




Voz de brisa


Eis que nos pampas a brisa toca sinos

na língua das plantas

o amor passeia na orla da vida

como o cão que brinca livre na praia

como a nuvem que molda sonhos ao redor dos nomes


os segredos nas translúcidas águas se banham

estrelas confidenciam olhares

esvaziam-se nas conchas os silêncios


a alma experimenta novo sentimento:

voz de brisa que e acaricia e perdoa as falhas humanas.


Rogério Germani

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Corolas

A tarde morna avança e o céu, antes nublado,
apresenta um tom rosáceo, tão doce, tão doce
como se as nuvens fossem corolas suaves
que, desprendidas das sépalas pelo vento,
sobrevoam as acinzentadas estruturas
derramando o seu aroma almiscarado
que prepara mãos e olhos, atentos,
para que recebam a noite, calma
por dentro,
serena e azul


- Lena Ferreira -

terça-feira, 27 de outubro de 2015

tela de lua

tela de lua

voo na noite
viagem distante
eu e as corujas
viramos estrelas
intrusas
na janela 
tela de lua
do teu quarto

dormias nua
sem recato
teu semblante
lavado nas águas
da nascente de lágrimas
que de mim
te inundaram

vestimos folhas soltas
de tuas árvores
eu e as aves

e quando veio o dia
eu trouxe na boca
um verso livre
da tua poesia

sacharuk

ciranda dos braços



ciranda dos braços

poetas cantam
ciranda dos braços
quando luzes de versos
envolvem o espaço

quando há poesia
são curtos os laços
cruzados convexos
por todos os lados

poemas refletem
destinos emoldurados
nas mãos que se cruzam
num signo encantado

divinas mãos dos poetas
entrelaçam incertas
o amor desvelado

sacharuk

domingo, 25 de outubro de 2015

"cordascente"

"cordascente"
subi aos céus
junto aos demônios cordascentes
não éramos bichos
não éramos gente
somente brilho faiscante
raio resplandescente
tipo de magia
que mistura poesia
com tragos de aguardente

sacharuk

antes que te esglote

antes que te esglote

melhor salvares teu pescoço
antes que um ataque te esglote
e depois te deslaringe
te mate de desofagia

melhor morreres de poesia
do que de fricote
daí não te finge
e confies na traqueologia

livra-te das renalgias
que te aprisionam os mijos
e os pedregulhos mais rijos
nos autos da bucetologia

sacharuk


bunda mole



Sabes por que:

-teus políticos te roubam?
-te assaltam nas ruas?
-teus filhos são semi-analfabetos?
-teus parentes morrem nos hospitais?
-teu salário é ridículo?
-teu banco te extorque?
-tua escola está em greve?
-tuas prestações estão atrasadas?
-Teu padrão de vida é decadente?
-tua aposentadoria é indigna?


É porque tua bunda brasileira é muito mole.
E teus miolos brasileiros são mais moles ainda.
Porque recusas o conhecimento e a cultura e te preocupes demais com quem está comendo quem na novela das nove. E saibas: em cabeça mole não reside consciência.

E, sem consciência, tu só vais te foder... Merecidamente. Frouxo!

Ficaste furioso? Aí que medo!

gatucho



gatucho

teus olhos gatuchos 
são ingênuos
parecem tão plenos
horizontes de mim

olho-te assim
navegante do futuro
permaneço contigo
viajantes imaturos
distantes do abrigo
longe do porto seguro

enxergo-te em mim
intenso ou ameno
no claro ou escuro
em todos sentidos
no riso incontido
e também nos apuros

sacharuk

sábado, 24 de outubro de 2015

Dança

Coisa que gosto
é essa dança lúdica
da língua
na derme
que
sua
e chama
o nome
do verbo
no imperativo
do pronome
possessivo



 - Lena Ferreira -

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

certas circunstâncias

certas circunstâncias

calo...

calo conforme coração cede
cutuca célere
comovido
coração caído
consignado
com certas circunstâncias

coração carece calar
cessar consonâncias
cessar calores
carinhos
conversas cantadas

cada certeza
cai calada
carrega consigo
cada conclusão conveniente

calo com companheiros
com compromissos
com conquistas
com carinhos

certas circunstâncias
conduzem corpo calar
consternado
cativo
caindo como casarão centenário
corroído

calo, contudo
continuarei
cortando caminhos
com cabeça competindo
com certas circunstâncias

sacharuk




quinta-feira, 22 de outubro de 2015

acaso parasse a chuva

fotografia: Diário Popular Pelotas


acaso parasse a chuva

se parasse a chuva danada
esperaria mais nada
para esquecer o medo
e abrir a porta

as crianças levariam
os brinquedos
para o quintal

não sei se penso bem
ou se penso mal
mas pouco importa
essa chuva trouxe tristeza
do tipo que corta
levou tanta vida
e tanta beleza

nas hortas
lavouras e pastagens
um espectro da morte
e a sorte
veio na estiagem
o esforço frustrado
o cansaço e o arado

acaso parasse
decerto eu passaria
a plantar existência

talvez vingar semente
que na impermanência
vai morrer pela gente
de chuva ou de negligência

sacharuk

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

A batalha silente de Márcia Poesia de Sá



A batalha silente

E as cobras armaram-se para o bote !
Ampliando guelras imaginarias
descem os abismos ingrimes
rastejando suas pequenices
por entre pedregulhos transparentes

Os pontos de fogueiras acesas
em labaredas gritantes
azulam e avermelham
os olhos já não mais faiscantes

Sopra no vento as vicissitudes
e vestem um manto de voal azul...
englobam sonhos rasurados
prostrado no canto, o uivo rouco
do tempo já totalmente empoeirado...

Telhas revoam caminhos
papiros são apagados,
como por encanto !
alados cavalos bailarinos
cantam os sons espelhados
entre dentes branquíssimos

Nos caminhos tortuosos
que cortam sorrateiros
os veio da mata,
notas de uma fragrância exótica
denotam a passagem da magia
há poucos minutos de agora

Trancafio as porteiras abissais
com cadeados sem chaves e sem brilho
amarrado a eles, as folhas das heras
enquanto o frio agiganta-se
na alma fluida do tempo perdido.

Márcia Poesia de Sá

Conversa com minha mãe



CONVERSA COM A MINHA MÃE

Sabe mãe, eu não sabia
que um dia após outro dia
formasse o nosso rosário

e não sabia também
que todo o amor que se tem
forma enfim o corolário

que quem ama, sente saudade
e que mãe é na verdade
Deus em forma de gente

porque está sempre presente
mesmo quando não se vê
comigo está sempre você

Sabe mãe, eu não sabia
como é grande a serventia
de conversar em pensamento

e, até lhe peço desculpa
se esta filha sempre a ocupa
com bobagens ...e algum lamento

Sabe mãe, o tempo voa
e hoje sei que é coisa à toa
a morte que tanto apavora

pois essa velha senhora,
como a vida, é só ilusão
já que a realidade, mora no coração!

Marisa Schmidt

Amigo poeta, por Paulo Moraes



Desde 2009, contribuir para o desenvolvimento da poesia na internet se tornou meu melhor passatempo. Daí, junto aos amigos, fizemos surgir a Nova Ordem da Poesia para servir de arcabouço para as peças e repositório de grandes amizades. Sabe, eu nem sei ao certo porque faço isso, mas fico feliz em perceber mais gente escrevendo literatura. 
Hoje fiquei muito emocionado com a homenagem do poeta Paulo Moraes, a qual transcrevo abaixo. 
Quando despenca uma ou outra lágrima, passo a perceber o sentido de tantas coisas: carinho, gratidão, amizade, arte e beleza... tudo muito pleno de significados. 
Grato, poeta. Quero saber de meus filhos lendo essa peça no futuro e possam, assim tal eu, passar a compreender os significados.

"AMIGO POETA!!

(em homenagem ao Poeta Sacharuk, por sua contribuição à poesia
e por estimular e incentivar o surgimento de novos poetas)

Ah meu amigo! 
Eu sei que tu conjuras
flores imaturas
e das tuas mãos saem afagos
de eterna saudação.
Ah meu amigo! 
O sol brilha nas tuas palavras. 
Elas são como um bálsamo
repleto de amanhãs. 
É o teu corpo invencível 
que derrota os malefícios 
e conduz os teu passos firmes 
entre as pedras amigas. 
Já vi tua caneta romper muralhas, 
com a sensibilidade
dos jardins resolutos. 
Entre o sonho e a vigília 
tu preparas o banquete das estrelas. 
É a Lua que te aplaude 
com seu robusto peito de pérola. 
Navegamos juntos, nos mesmos versos, 
colhendo os horizontes de cada dia.
Mas sempre, és tu, 
quem rema com maior entusiasmo. 
Nesta fortaleza estamos amparados, 
por causa da tua incessante generosidade, 
carregando os nossos fardos
de ânsia de poesia.

PAULO MORAES"

terça-feira, 20 de outubro de 2015

sorvete

sorvete

menina
senti dor no córtex
tomei um sorvete gelado
preciso do agente neutralizador
que faça passar
a tal dor

menina
me aqueças da hipotermia
pois posso morrer congelado
na alquimia
infinita das cores
a provar a poesia
de meia centena de sabores
consistentes
sem conservantes
elegantes
e importados

menina
ensina o cuidado
que vinga nas belas frutas
e transmuta
a natureza mais bruta
em doces texturas
de encantos
combinados

sacharuk


segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Proveito de poeta

poetisa Anorkinda


Proveito de poeta

Provei da insipidez 
de um verso branco
de viés desconexo
decalcado no léxico

Provei um verso manco
engasgado
perdido da fluidez
pleno de insensatez
num poema travado

Provei sem descanso
alucinado
sem regra, sem noção
com medo de assombração
objetivo abandonado

Provei da mutação
de um verso manso
de efeito visionário
libertado do imaginário

Anorkinda & sacharuk

domingo, 18 de outubro de 2015

Sobre a forma e o conteúdo

Sobre a forma e o conteúdo

A produção de um texto é bidimensional. Há que se estar atento à forma e ao conteúdo. Enquanto proposta oficinal, a escrita criativa não busca mais do que o desenvolvimento de uma escrita personalizada e eficiente, de forma a abranger as duas dimensões.

A redação deve ser um exercício constante e gradual em busca de uma autonomia. E a principal competência necessária ao escritor é habilidade de leitura oriundo do desenvolvimento da avaliação crítica dos textos.

Cada obra que o escriba pretende concluir deve contemplar um leque amplo de possibilidades. É necessário trabalhar O QUE se pretende dizer e também COMO dizer. O tratamento de um texto deve estar ancorado em alguma metodologia que permita ao leitor empreender uma relação eficaz com o texto escrito. Esse é um bom desafio que demanda a tomada de decisões.

sacharuk

sábado, 17 de outubro de 2015

Navegar é preciso

Navegar é preciso
Pois o poeta não vive
Sem flutuar
Sem decifrar o mistério da órbita

É preciso
Pois a verve é veloz
Voa como pássaro

É preciso
Pois o poeta
Não tem lar
O poeta é do mundo
Assim como seus versos
E seus desejos de gozo

Navegar é preciso
Mesmo que não haja
Uma única gota d’água



(Tim Soares)

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Elementais azuis


imagem: Anorkinda Neide

Elementais azuis

Eu jamais poderia ter feito um céu assim, tão azul. Nele plantei a fada de cabelos cacheados; um pensador carrega um duende hermeticamente fechado numa caixa de isopor;, uma bruxinha do bem, de cor violeta, para contrapor a magia ambígua e contraditória da fada  e, ainda, uma musa bela e míope para inspirar poesia desnorteada. 
Nenhum outro céu vibraria tão bem em acordes de poesia.
Para chegar até lá, construí uma ponte de madeira de lei. Como um esquadro tanto torto, invade o leito das águas e alcança o risco do horizonte.
Hoje, fui até lá sentar junto aos comparsas azulados para beber o vinho das letras em canecas aladas. O tilintar das louças fez a vibração que acorda um mago da poesia, coitado, andava tanto adormecido num cantinho a espera da canção. Então, logo a cantamos. Eu jamais poderia ter cantado assim, nesse tom tão azul.
Sobre a ponte, remeti o verso ao infinito. O danado rompeu camadas celestes para depois cair fofo na nuvem chorona.
Eis que o mago da poesia o alcançou com uns doidos fluidos magníficos que jorravam quando eu e meus amigos enlaçamos nossas mãos.
Capturado, o verso fujão foi fatalmente afixado no meio de um poema caótico. 
E do caos da poesia, erguerei outros céus... tremendamente azuis... ainda que podem ser de outras cores.
Serei eu o artesão de uma nova ordem.

sacharuk

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Das sagas

Eis aqui as minhas sagas
Nesta confronto o meu eu mais perverso
Derroto-o e assino um pacto com todas as variáveis
Já não há mais leis de tempo/espaço
No mesmo verso, bebo vinho, gozo e sangro
Na página seguinte visito todos os Países das maravilhas
Cada um com sua Alice
Vejo o meu eu confuso 
Mergulhar nas águas pitorescas
Beijo as linhas raivosas da poetisa
E depois? Aí já é outra saga



Tim Soares

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

inflação



"Se ocorresse um vendaval de moedas
faria um colar em forma de terço" (Lu Leal)
Oficina INSPIRATURAS/APCEF Regional Sul- "Inflação"- desafio de poesia livre

inflação

moedas quedam vendaval
de euros, francos
dólares, yens
muito mais
e além

se eu contar
até aborreço

nada mal
do dinheiro fiz um colar
de metal verdadeiro
em forma de terço
e do $Real
eu só fiz um chaveiro

sacharuk

meu eu oculto - acróstico

meu eu oculto - acróstico

Máscaras de mim
Ergui, por fim
Uma a uma

Escondi sobre as vigas
Úmidas contendas

O que sou ninguém liga
Coisa que cala a mim mesmo
Um verso solto, a esmo
Libertador das distâncias
Terra fértil das ânsias
Onde plantei meus rebentos

sacharuk

metal

metal

luzes vermelhas, azuis, amarelas... de mercúrio e neon.
O asfalto e a dança dos faróis.
No céu, lua cheia, noite cristalina.
A mulher anda pela direita, passadas largas, rápidas.
O homem, á esquerda, pouco atrás, ritmo equivalente.
Empunha, o homem, objeto pontiagudo, metal brilhante.
A mulher veste casaco - um grande - gorro de pele, luvas.
Os passos apressados cessam junto à parede do casarão. Manchas vermelhas.
O homem sobre o meio-fio. A mão entreaberta ainda segura o metal.
A mulher abotoa o casado, livra-se das luvas e segue.

sacharuk

A Tipologia de Friedman - Narrador câmera

  A Tipologia de Friedman - Narrador câmera
Câmera (The camera)
 
A última categoria de Friedman significa o máximo em matéria de "exclusão do autor". Esta categoria serve àquelas narrativas que tentam transmitir flashes da realidade como se apanhados por uma câmera, arbitrária e mecanicamente. No exemplo de Friedman, de Goodbye to Berlin, romance-reportagem de Isherwood (1945), o próprio narrador, desde o início, se define como tal: "Eu sou uma câmera".
O nome dessa categoria me parece um tanto impróprio. A câmara não é neutra. No cinema não há um registro sem controle, mas, pelo contrário, existe alguém por trás dela que seleciona e combina, pela montagem, as imagens a mostrar. E, também, através da câmera cinematográfica, podemos ter um ponto de vista onisciente, dominando tudo, ou o ponto de vista centrado numa ou várias personagens. O que pode acontecer é que se queira dar a impressão de neutralidade. Cristopher Isherwood, que é um repórter, descreve no livro citado por Friedman, com minúcia e exatidão, as suas experiências de Berlim, mas são as suas impressões da cidade. A exatidão não apaga, embora possa disfarçar, a subjetividade.
O noveau roman francês também se adequaria a esse estilo de narração tão afim ao cinema, não pela neutralidade, mas pelos cortes bruscos e pela montagem.
  
LEITE, Ligia Chiappini Moraes. O foco narrativo (ou A polêmica em torno da ilusão). São Paulo: ática, 1985. Série Princípios. (p. 25-70)


metal

Luzes vermelhas, azuis, amarelas... de mercúrio e neon.
O asfalto e a dança dos faróis.
No céu, lua cheia, noite cristalina.
A mulher anda pela direita, passadas largas, rápidas.
O homem, á esquerda, pouco atrás, ritmo equivalente.
Empunha, o homem, objeto pontiagudo, metal brilhante.
A mulher veste casaco - um grande - gorro de pele, luvas.
Os passos apressados cessam junto à parede do casarão. Manchas vermelhas.
O homem sobre o meio-fio. A mão entreaberta ainda segura o metal.
A mulher abotoa o casado, livra-se das luvas e segue.

sacharuk

ao poema conselheiro

ao poema conselheiro

liberdade em cascatas
despenca em palavras
fetiches e bravatas
oferendas ao amor
descrito nos versos

poeta ao avesso
linhas do despudor
penetra travesso
estocadas
líricas e obcenas

tu, poema, acenas
logo te peço
a passagem

ventos da viagem
lambem as asas
borboletas e fadas
recitam de cor
poemas diversos

poeta ao avesso
rimas de esplendor
penetram travessas
estocadas
em música e letra

tu, poesia, não esqueças
 te aviso
sou apenas passagem

sacharuk

sábado, 3 de outubro de 2015

A dança

A dança

     Sempre que a chuva dança suave na folhagem submissa, meus olhos traduzem seu rosto, querida Carmen, nos vidros das janelas cúmplices do mar de silêncios que se tornou minha vida. Depois que os palcos celestiais clamaram seu nome, Carmesita, o que me salva é o pranto das nuvens ungindo a paisagem em volta da casa.

     Hoje, nem mesmo a música colhe sorrisos em minha face; sozinho, falta-me o paladar, o desejo por timbres refinados: meu coração, agora, é gaiola livre de pássaros, rochedo açoitado por ondas de perene solidão.

     Já com um pouco mais de setenta anos, corpo e mente só se nutrem de memórias. Às vezes, nas raras ocasiões em que ouso caminhar na praia, nosso quintal e moldura dos dias felizes de outrora, sinto sua alma, amada espanhola, de mãos entrelaçadas com as minhas,  indo nutrir seus versos com o balé doce das águas. E, nestas fases de encantamento poroso, ainda encontro forças para contemplar o sol que habitava seu olhar, como num sonho bom onde os anjos nos veem como crianças brincando descuidadas.

     “José!” Uma voz melíflua resgata-me dos pensamentos naufragados em melancolia. Com a mão esquerda, numa espécie de continência autônoma sobre minhas sobrancelhas trêmulas, avisto a silhueta de uma flor flamenca sussurrando meu nome em cada gota que farfalha perfume na terra molhada: Carmen!

    “José, traga o violino... a natureza suplica sua música!”

     Sim, Carmesita! Meu corpo inusitadamente ágil responde, já segurando o instrumento delicado e abrindo a porta da sala. A suavidade da chuva é um convite irrecusável, tão terno quanto à beleza de minha amada iniciando seus passos graciosos. Feito um spalla sedutor, entrego ao vento a voz mais sublime que meu arco consegue esculpir no violino escravo de minha paixão. Percebo os galhos finos das roseiras vergando, desencadeando no deslumbre de suas flores a emoção de estarem vivas.

     “Aproxime-se, José. Não tenha medo... Vamos dançar a nossa música.”

     Em transe, obedeço. Deixo cair o violino e, flutuando, abraço o enigmático corpo de Carmen. Mesmo com a praia deserta no momento do enlace de nossas almas, ouço uma familiar melodia, tão bem orquestrada que me imaginei bailando em Musikverein, ao som da filarmônica de Viena. Os longos cabelos pretos e macios de minha amada, sua pele lasciva, seus lábios tingidos de rubro pecado, a feminina obra perfeita capaz de inebriar meus sentidos.

     E assim continuei dançando. Mesmo quando as pétalas das rosas coroaram meus olhos, mesmo quando a chuva suave encobriu o tímido murmúrio de meu coração exausto no acorde de nossa última canção. Continuei dançando com Carmen até restar na brisa marítima somente o meu nome.



Rogério Germani


sexta-feira, 2 de outubro de 2015

noites de estrela cadente

noites de estrela cadente

eu te procuro
nas noites quentes
de estrela cadente
que um dia plantei
no fundo do quintal

mas nunca eu sei
quando chega o sol
sei apenas ouvir
latidos dos cães
mas se gritas
ainda posso te ouvir

passo o tempo a sentir
e imagino que sintas
o teu próprio cheiro
impregnando as flores
deliciadas
em tua volta

no ballet dos amores
vejo-te solta
como nos sonhos
caindo comigo
sobre lençóis
azuis cor de mar

são tantos sóis
para me acordar
dessas noites
de estrela cadente
que certo dia plantei
no fundo do quintal
 
sacharuk