A poesia delira ao diapasão e, logo, intenta aos acordes da lira. Poesia que tanto descreve saliva de beijo, bem como a imagem do pensador com o queixo poisado nos dedos. Poesia pode andar no eixo para não ouvir queixa, mas pode andar fora e criar desavenças. Há poesia das crenças, poesia do lixo, poesia pretensa, poesia das gentes, poesia dos bichos. Ela é o amálgama do mundo, verte por tudo. É ofício dos nobres, sedução dos espertos, marofa dos pobres e sina dos vagabundos. Também vive escondida na língua dos analfabetos. Poesia é isso tudo e mais outro tanto, no entanto, poesia não é absurdo. Absurdo é querer-se mudo; absurdo é querer-se surdo; absurdo é querer-se cego. (Tudo e mais outro tanto - sacharuk)

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quarta-feira, 1 de julho de 2020

NO SEIO DA TARDE, de Lena Ferreira - www.inspiraturas.org

NO SEIO DA TARDE

Há um pássaro miúdo pousado no seio
da tarde que, esticada em agitadas esperas,
estende os seus longilíneos olhares
além do futuro em ansiosas revistas

A ave, roçando as asas na derme do tempo,
atrasa os seus passos, dispersando o vento
e, aproveitando um átimo entre abstrações,
subtrai, silente, o peso das previstas penas

A tarde se deita, então quase tranquila,
e, debruçada em consideráveis reflexões
adormece coberta pelas esperas amenas
enquanto o pássaro expira miúdo seu canto

- Lena Ferreira -




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