A poesia delira ao diapasão e, logo, intenta aos acordes da lira. Poesia que tanto descreve saliva de beijo, bem como a imagem do pensador com o queixo poisado nos dedos. Poesia pode andar no eixo para não ouvir queixa, mas pode andar fora e criar desavenças. Há poesia das crenças, poesia do lixo, poesia pretensa, poesia das gentes, poesia dos bichos. Ela é o amálgama do mundo, verte por tudo. É ofício dos nobres, sedução dos espertos, marofa dos pobres e sina dos vagabundos. Também vive escondida na língua dos analfabetos. Poesia é isso tudo e mais outro tanto, no entanto, poesia não é absurdo. Absurdo é querer-se mudo; absurdo é querer-se surdo; absurdo é querer-se cego. (Tudo e mais outro tanto - sacharuk)

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quarta-feira, 1 de julho de 2020

Rogério Germani em “Inverno” - www.inspiraturas.org



Inverno 

Dependurado no galho de uma árvore, no alto da colina, ele admira a placidez da cidade. Nem mesmo a corda envolta em seu pescoço se destoa do silêncio que invade a noite e as entranhas das casas que abrigam o povoadoque, crédulo, hiberna por ventos de nova esperança. 

As ruas estão vazias. As folhas secas dançam nos olhos dos gatos que miam, ouriçados, ao toque de recolher da lua. Fechadas as portas, as lojas lembram tristes mausoléus esperando a voz de seus donos para novamente alimentarem seus cômodos com a presença viva de seus clientes. 

Neste cenário onde a sombra do voo deuma ave seria uma milagre rasgando o deserto, seus olhos passeiam livres de pecados. Sua alma corre solta, rente às nuvens, e pousa nas frestas das janelas trancafiadas. Não há furtos ou assombros; apenas um último olhar às suas origens, seus pactos de infância que, por ironia da vida, jamais serão cumpridos na fase adulta. 

Ao lado da árvore onde, agora, seu corpo balança feito um aceno de um farol a um barco de sonhos, uma fotografia rasgada, um nome de menina riscado com sangue e perfume de lágrimas recentes: tesouros de um amor ceifado aos doze anos. 

Enquanto ele se despede da terra que fez brotar versos, flores e dor em seu peito, outros anjos o aguardamem meio a uma chuva que se inicia. Não há sorrisos ou luz divina em seus semblantes; de seus dedos, correm fúria e neve. E quando estão zangados, os ossos da cidade congelam. 

Rogério Germani





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