Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas tu podes treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras ainda não escritas.
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quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

brado

brado

bendita!
baiúca bem bandoleira
beirando baita baderna
balcuciando boas besteiras
Babaquice babilônica
balbúrdia, boatos, balelas
Brasil beirando Babel
baita bafafá... berros!

bispos batizam bacuris
barganhando bagatelas
bagulho baixada bem barato
barganhando bagatelas
barnabés bobos batalham
barganhando bagatelas

bagunça banalizada
baile barracão
bajulando bacanal
baba baby
bate boca

bate bateria
batuca
bum bum bum
bota barulho batucada
bota balanço bamba

brasileira bonita
bota balda
balança bunda boazuda
bole bole balaio
bota banana
bamboleia

bando bestial
bandidos bizarros
botam banca
bendizendo Brasília

bondade banida
bandeira brasileira
beirando bancarrota

bom
brasileiro bacana
benevolente bocaberta
bebe barril birita bagaceira
bafejando budum...

bonança!
bom botar beiços bipartidos
baseado boleado
bota brasa
bota barato!
buuuuuuuuuuu!

sacharuk

BqI9jHHIEAAuPEY

meus tons

meus tons

algo em mim tem tom lúgubre
caverna escura insalubre
para guardar os meus eus

também cintilo um tom vivo
certo calor radioativo
retido sob os meus véus

minha face é tão pálida
de melanina inválida
para clarear o meu céu

meu sentimento é tão blue
rústico ríspido e cru
matizes frios dos meus breus

e eu me dissolvo nas cores
máscaras das minhas dores
em tons que não são meus

sacharuk

churrasco

churrasco

chamado para a indiada
regalo a los hermanos
o calor desprendido da brasa
guaipecas na volta da casa

alemães, italianos, serranos
indiada da nossa invernada
a gaita encanta a mateada
milongueio com os castelhanos

amizade que nunca defasa
distrai o peão haragano
acolhera toda a tropeirada
a trote na cavalgada
honra a liberdade
de qualquer orelhano

a cana sempre repassa
enquanto a costela
ainda assa
fumaça da lenha queimada
afugenta qualquer desengano
e enaltece a terra amada

 sacharuk

costelao2015.11_140815-800x430

da solitude

da solitude

da solitude sou voluntário
não aceito tudo o que vejo
eu não divido minhas crenças
vivo com minhas diferenças

fui escravo do desejo
fui prior e fui templário
fui de um mundo imaginário
pregador de desapego

nas conclaves da indecência
forjei união de fé e ciência
do mundo aprendi o segredo
por isso hoje sou visionário

fui outra vítima do medo
fui guardião do meu relicário
fui mancebo do rei ordinário
a imagem de um arremedo

da vida entendi a urgência
que a busca não finda cedo
e que sou um rebento diário
recriado da própria essência

sacharuk

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quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

a surpresa tem cara de falsa

a surpresa tem cara de falsa

como pensas surpreender 
a quem tudo pode esperar?

o que não sei não me surpreende
minha fascinação 
são imagens desfeitas

espelhos diluídos
encantos quebrados
escondidos nos cantos 
do quarto

me surpreende
o que já sei
se o vejo diferente
o que não sei não surpreende

estilhaço estátuas
quebro paredes
busco resquícios de vida
na massa que une tijolos

me surpreende 
o que sei que está dentro
onde não sei onde está

o que nunca sei 
não me desmente
logo, não surpreende

pois a surpresa
tem cara de falsa
de mentirosa
argumento liquefeito

o que não sei não me é
o que não ouvi não me ecoa
o que surpreende 
rasga a garganta silente
e abre ranhuras
nos muros da mente

pelo resto não me fascino
sequer pela vida dura
que renasce no limo
que encobre as ruínas
e tal fênix
revolve a cinza da vida

não há surpresa
na coisa que verte
tão salva e linda
tatuada com a marca
da experiência
sal extraído das lágrimas
que depois se converte
em sorrisos e brilho

o que surpreende 
é o verme imundo 
borbulhante nas gotas 
do sangue mais podre
e habita o hiato da descrença

me interessam
a fraqueza confessa
e a feiura

logo, não me causes espelhos
a refletir lindas faces
tu os engoles
e nunca te engasgas
portanto, engolirás para sempre
para que não te percas de ti

o que me surpreende
apenas seduz
transmutando belezas
as quais eu já sei

sacharuk

domingo, 27 de dezembro de 2015

hoje Rebeca fez



hoje Rebeca fez

hoje Rebeca fez
um pacto de amizade
e foi para valer
pois Rebeca quer ter
somente amigos de verdade

com a nova amiga
Rebeca não quer briga
e fica muito à vontade
até sente saudade
quando estão separadas

hoje estão encantadas
com a nova possibilidade
dessa nova amizade:

dividir boas risadas

e amar com sinceridade

sacharuk

A Cartomante, de Machado de Assis

A Cartomante
 
Machado de Assis
 
Hamlet observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de Novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras.
— Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: "A senhora gosta de uma pessoa..." Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade...
— Errou! Interrompeu Camilo, rindo.
— Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria de mim, não ria...
Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou que lhe queria muito, que os seus sustos pareciam de criança; em todo o caso, quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois...
— Qual saber! tive muita cautela, ao entrar na casa.
— Onde é a casa?
— Aqui perto, na rua da Guarda Velha; não passava ninguém nessa ocasião. Descansa; eu não sou maluca.
Camilo riu outra vez:
— Tu crês deveras nessas coisas? perguntou-lhe.
Foi então que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que havia muito cousa misteriosa e verdadeira neste mundo. Se ele não acreditava, paciência; mas o certo é que a cartomante adivinhara tudo. Que mais? A prova é que ela agora estava tranqüila e satisfeita.
Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se, Não queria arrancar-lhe as ilusões. Também ele, em criança, e ainda depois, foi supersticioso, teve um arsenal inteiro de crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos vinte anos desapareceram. No dia em que deixou cair toda essa vegetação parasita, e ficou só o tronco da religião, ele, como tivesse recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dúvida, e logo depois em uma só negação total. Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento; limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando.
Separaram-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser amada; Camilo, não só o estava, mas via-a estremecer e arriscar-se por ele, correr às cartomantes, e, por mais que a repreendesse, não podia deixar de sentir-se lisonjeado. A casa do encontro era na antiga rua dos Barbonos, onde morava uma comprovinciana de Rita. Esta desceu pela rua das Mangueiras, na direção de Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela da Guarda velha, olhando de passagem para a casa da cartomante.
Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura, e nenhuma explicação das origens. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infância. Vilela seguiu a carreira de magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra a vontade do pai, que queria vê-lo médico; mas o pai morreu, e Camilo preferiu não ser nada, até que a mãe lhe arranjou um emprego público. No princípio de 1869, voltou Vilela da província, onde casara com uma dama formosa e tonta; abandonou a magistratura e veio abrir banca de advogado. Camilo arranjou-lhe casa para os lados de Botafogo, e foi a bordo recebê-lo.
— É o senhor? exclamou Rita, estendendo-lhe a mão. Não imagina como meu marido é seu amigo; falava sempre do senhor.
Camilo e Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos deveras. Depois, Camilo confessou de si para si que a mulher do Vilela não desmentia as cartas do marido. Realmente, era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa. Era um pouco mais velha que ambos: contava trinta anos, Vilela vinte e nove e Camilo vente e seis. Entretanto, o porte grave de Vilela fazia-o parecer mais velho que a mulher, enquanto Camilo era um ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo, como os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição.
Uniram-se os três. Convivência trouxe intimidade. Pouco depois morreu a mãe de Camilo, e nesse desastre, que o foi, os dois mostraram-se grandes amigos dele. Vilela cuidou do enterro, dos sufrágios e do inventário; Rita tratou especialmente do coração, e ninguém o faria melhor.
Como daí chegaram ao amor, não o soube ele nunca. A verdade é que gostava de passar as horas ao lado dela; era a sua enfermeira moral, quase uma irmã, mas principalmente era mulher e bonita. Odor di femina: eis o que ele aspirava nela, e em volta dela, para incorporá-lo em si próprio. Liam os mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios. Camilo ensinou-lhe as damas e o xadrez e jogavam às noites; — ela mal, — ele, para lhe ser agradável, pouco menos mal. Até aí as cousas. Agora a ação da pessoa, os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele, que os consultavam antes de o fazer ao marido, as mãos frias, as atitudes insólitas. Um dia, fazendo ele anos, recebeu de Vilela uma rica bengala de presente, e de Rita apenas um cartão com um vulgar comprimento a lápis, e foi então que ele pôde ler no próprio coração; não conseguia arrancar os olhos do bilhetinho. Palavras vulgares; mas há vulgaridades sublimes, ou, pelo menos, deleitosas. A velha caleça de praça, em que pela primeira vez passeaste com a mulher amada, fechadinhos ambos, vale o carro de Apolo. Assim é o homem, assim são as cousas que o cercam.
Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura; mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos! Não tardou que o sapato se acomodasse ao pé, e aí foram ambos, estrada fora, braços dados, pisando folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, sem padecer nada mais que algumas saudades, quando estavam ausentes um do outro. A confiança e estima de Vilela continuavam a ser as mesmas.
Um dia, porém, recebeu Camilo uma carta anônima, que lhe chamava imoral e pérfido, e dizia que a aventura era sabida de todos. Camilo teve medo, e, para desviar as suspeitas, começou a rarear as visitas à casa de Vilela. Este notou-lhe as ausências. Camilo respondeu que o motivo era uma paixão frívola de rapaz. Candura gerou astúcia. As ausências prolongaram-se, e as visitas cessaram inteiramente. Pode ser que entrasse também nisso um pouco de amor-próprio, uma intenção de diminuir os obséquios do marido, para tornar menos dura a aleivosia do ato.
Foi por esse tempo que Rita, desconfiada e medrosa, correu à cartomante para consultá-la sobre a verdadeira causa do procedimento de Camilo. Vimos que a cartomante restituiu-lhe a confiança, e que o rapaz repreendeu-a por ter feito o que fez. Correram ainda algumas semanas. Camilo recebeu mais duas ou três cartas anônimas, tão apaixonadas, que não podiam ser advertência da virtude, mas despeito de algum pretendente; tal foi a opinião de Rita, que, por outras palavras mal compostas, formulou este pensamento: — a virtude é preguiçosa e avara, não gasta tempo nem papel; só o interesse é ativo e pródigo.
Nem por isso Camilo ficou mais sossegado; temia que o anônimo fosse ter com Vilela, e a catástrofe viria então sem remédio. Rita concordou que era possível.
— Bem, disse ela; eu levo os sobrescritos para comparar a letra com a das cartas que lá aparecerem; se alguma for igual, guardo-a e rasgo-a...
Nenhuma apareceu; mas daí a algum tempo Vilela começou a mostrar-se sombrio, falando pouco, como desconfiado. Rita deu-se pressa em dizê-lo ao outro, e sobre isso deliberaram. A opinião dela é que Camilo devia tornar à casa deles, tatear o marido, e pode ser até que lhe ouvisse a confidência de algum negócio particular. Camilo divergia; aparecer depois de tantos meses era confirmar a suspeita ou denúncia. Mais valia acautelarem-se, sacrificando-se por algumas semanas. Combinaram os meios de se corresponderem, em caso de necessidade, e separaram-se com lágrimas.
No dia seguinte, estando na repartição, recebeu Camilo este bilhete de Vilela: "Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Era mais de meio-dia. Camilo saiu logo; na rua, advertiu que teria sido mais natural chamá-lo ao escritório; por que em casa? Tudo indicava matéria especial, e a letra, fosse realidade ou ilusão, afigurou-se-lhe trêmula. Ele combinou todas essas cousas com a notícia da véspera.
— Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora, — repetia ele com os olhos no papel.
Imaginariamente, viu a ponta da orelha de um drama, Rita subjugada e lacrimosa, Vilela indignado, pegando na pena e escrevendo o bilhete, certo de que ele acudiria, e esperando-o para matá-lo. Camilo estremeceu, tinha medo: depois sorriu amarelo, e em todo caso repugnava-lhe a idéia de recuar, e foi andando. De caminho, lembrou-se de ir a casa; podia achar algum recado de Rita, que lhe explicasse tudo. Não achou nada, nem ninguém. Voltou à rua, e a idéia de estarem descobertos parecia-lhe cada vez mais verosímil; era natural uma denúncia anônima, até da própria pessoa que o ameaçara antes; podia ser que Vilela conhecesse agora tudo. A mesma suspensão das suas visitas, sem motivo aparente, apenas com um pretexto fútil, viria confirmar o resto.
Camilo ia andando inquieto e nervoso. Não relia o bilhete, mas as palavras estavam decoradas, diante dos olhos, fixas; ou então, — o que era ainda peior, — eram-lhe murmuradas ao ouvido, com a própria voz de Vilela. "Vem já, já à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Ditas, assim, pela voz do outro, tinham um tom de mistério e ameaça. Vem, já, já, para quê? Era perto de uma hora da tarde. A comoção crescia de minuto a minuto. Tanto imaginou o que se iria passar, que chegou a crê-lo e vê-lo. Positivamente, tinha medo. Entrou a cogitar em ir armado, considerando que, se nada houvesse, nada perdia, e a precaução era útil. Logo depois rejeitava a idéa, vexado de si mesmo, e seguia, picando o passo, na direção do largo da Carioca, para entrar num tílburi. Chegou, entrou e mandou seguir a trote largo.
— Quanto antes, melhor, pensou ele; não posso estar assim...
Mas o mesmo trote do cavalo veio agravar-lhe a comoção. O tempo voava, e ele não tardaria a entestar com o perigo. Quase no fim da rua da Guarda Velha, o tílburi teve de parar; a rua estava atravancada com uma carroça, que caíra. Camilo, em si mesmo, estimou o obstáculo, e esperou. No fim de cinco minutos, reparou que ao lado, à esquerda, ao pé do tílburi, ficava a casa da cartomante, a quem Rita consultara uma vez, e nunca ele desejou tanto crer na lição das cartas. Olhou, viu as janelas fechadas, quando todas as outras estavam abertas e pejadas de curiosos do incidente da rua. Dir-se-ia a morada do indiferente Destino.
Camilo reclinou-se no tílburi, para não ver nada. A agitação dele era grande, extraordinária, e do fundo das camadas morais emergiam alguns fantasmas de outro tempo, as velhas crenças, as superstições antigas. O cocheiro propôs-lhe voltar a primeira travessa, e ir por outro caminho; ele respondeu que não, que esperasse. E inclinava-se para fitar a casa... Depois fez um gesto incrédulo: era a idéia de ouvir a cartomante, que lhe passava ao longe, muito longe, com vastas asas cinzentas; desapareceu, reapareceu, e tornou a esvair-se no cérebro; mas daí a pouco moveu outra vez as asas, mais perto, fazendo uns giros concêntricos... Na rua, gritavam os homens, safando a carroça:
— Anda! agora! empurra! vá! vá!
Daí a pouco estaria removido o obstáculo. Camilo fechava os olhos, pensava em outras cousas; mas a voz do marido sussurrava-lhe às orelhas as palavras da carta: "Vem já, já..." E ele via as contorções do drama e tremia. A casa olhava para ele. As pernas queriam descer e entrar... Camilo achou-se diante de um longo véu opaco... pensou rapidamente no inexplicável de tantas cousas. A voz da mãe repetia-lhe uma porção de casos extraordinários; e a mesma frase do príncipe de Dinamarca reboava-lhe dentro: "Há mais cousas no céu e na terra do que sonha a filosofia..." Que perdia ele, se...?
Deu por si na calçada, ao pé da porta; disse ao cocheiro que esperasse, e rápido enfiou pelo corredor, e subiu a escada. A luz era pouca, os degraus comidos dos pés, o corrimão pegajoso; mas ele não viu nem sentiu nada. Trepou e bateu. Não aparecendo ninguém, teve idéia de descer; mas era tarde, a curiosidade fustigava-lhe o sangue, as fontes latejavam-lhe; ele tornou a bater uma, duas, três pancadas. Veio uma mulher; era a cartomante. Camilo disse que ia consultá-la, ela fê-lo entrar. Dali subiram ao sótão, por uma escada ainda pior que a primeira e mais escura. Em cima, havia uma salinha, mal alumiada por uma janela, que dava para os telhados do fundo. Velhos trastes, paredes sombrias, um ar de pobreza, que antes aumentava do que destruía o prestígio.
A cartomante fê-lo sentar diante da mesa, e sentou-se do lado oposto, com as costas para a janela, de maneira que a pouca luz de fora batia em cheio no rosto de Camilo. Abriu uma gaveta e tirou um baralho de cartas compridas e enxovalhadas. Enquanto as baralhava, rapidamente, olhava para ele, não de rosto, mas por baixo dos olhos. Era uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos. Voltou três cartas sobre a mesa, e disse-lhe:
— Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O senhor tem um grande susto...
Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo.
— E quer saber, continuou ela, se lhe acontecerá alguma coisa ou não...
— A mim e a ela, explicou vivamente ele.
A cartomante não sorriu; disse-lhe só que esperasse. Rápido pegou outra vez as cartas e baralhou-as, com os longos dedos finos, de unhas descuradas; baralhou-as bem, transpôs os maços, uma, duas, três vezes; depois começou a estendê-las. Camilo tinha os olhos nela, curioso e ansioso.
— As cartas dizem-me...
Camilo inclinou-se para beber uma a uma as palavras. Então ela declarou-lhe que não tivesse medo de nada. Nada aconteceria nem a um nem a outro; ele, o terceiro, ignorava tudo. Não obstante, era indispensável mais cautela; ferviam invejas e despeitos. Falou-lhe do amor que os ligava, da beleza de Rita... Camilo estava deslumbrado. A cartomante acabou, recolheu as cartas e fechou-as na gaveta.
— A senhora restituiu-me a paz ao espírito, disse ele estendendo a mão por cima da mesa e apertando a da cartomante.
Esta levantou-se, rindo.
— Vá, disse ela; vá, ragazzo innamorato...
E de pé, com o dedo indicador, tocou-lhe na testa. Camilo estremeceu, como se fosse mão da própria sibila, e levantou-se também. A cartomante foi à cômoda, sobre a qual estava um prato com passas, tirou um cacho destas, começou a despencá-las e comê-las, mostrando duas fileiras de dentes que desmentiam as unhas. Nessa mesma ação comum, a mulher tinha um ar particular. Camilo, ansioso por sair, não sabia como pagasse; ignorava o preço.
— Passas custam dinheiro, disse ele afinal, tirando a carteira. Quantas quer mandar buscar?
— Pergunte ao seu coração, respondeu ela.
Camilo tirou uma nota de dez mil-réis, e deu-lha. Os olhos da cartomante fuzilaram. O preço usual era dois mil-réis.
— Vejo bem que o senhor gosta muito dela... E faz bem; ela gosta muito do senhor. Vá, vá tranqüilo. Olhe a escada, é escura; ponha o chapéu...
A cartomante tinha já guardado a nota na algibeira, e descia com ele, falando, com um leve sotaque. Camilo despediu-se dela embaixo, e desceu a escada que levava à rua, enquanto a cartomante alegre com a paga, tornava acima, cantarolando uma barcarola. Camilo achou o tílburi esperando; a rua estava livre. Entrou e seguiu a trote largo.
Tudo lhe parecia agora melhor, as outras cousas traziam outro aspecto, o céu estava límpido e as caras joviais. Chegou a rir dos seus receios, que chamou pueris; recordou os termos da carta de Vilela e reconheceu que eram íntimos e familiares. Onde é que ele lhe descobrira a ameaça? Advertiu também que eram urgentes, e que fizera mal em demorar-se tanto; podia ser algum negócio grave e gravíssimo.
— Vamos, vamos depressa, repetia ele ao cocheiro.
E consigo, para explicar a demora ao amigo, engenhou qualquer cousa; parece que formou também o plano de aproveitar o incidente para tornar à antiga assiduidade... De volta com os planos, reboavam-lhe na alma as palavras da cartomante. Em verdade, ela adivinhara o objeto da consulta, o estado dele, a existência de um terceiro; por que não adivinharia o resto? O presente que se ignora vale o futuro. Era assim, lentas e contínuas, que as velhas crenças do rapaz iam tornando ao de cima, e o mistério empolgava-o com as unhas de ferro. Às vezes queria rir, e ria de si mesmo, algo vexado; mas a mulher, as cartas, as palavras secas e afirmativas, a exortação: — Vá, vá, ragazzo innamorato; e no fim, ao longe, a barcarola da despedida, lenta e graciosa, tais eram os elementos recentes, que formavam, com os antigos, uma fé nova e vivaz.
A verdade é que o coração ia alegre e impaciente, pensando nas horas felizes de outrora e nas que haviam de vir. Ao passar pela Glória, Camilo olhou para o mar, estendeu os olhos para fora, até onde a água e o céu dão um abraço infinito, e teve assim uma sensação do futuro, longo, longo, interminável.
Daí a pouco chegou à casa de Vilela. Apeou-se, empurrou a porta de ferro do jardim e entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seis degraus de pedra, e mal teve tempo de bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela.
— Desculpa, não pude vir mais cedo; que há?
Vilela não lhe respondeu; tinha as feições decompostas; fez-lhe sinal, e foram para uma saleta interior. Entrando, Camilo não pôde sufocar um grito de terror: — ao fundo sobre o canapé, estava Rita morta e ensangüentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão.

Este conto foi publicado originalmente na Gazeta de Notícias - Rio de Janeiro, em 1884. Posteriormente foi incluído no livro "Várias Histórias" e em "Contos: Uma Antologia", Companhia das Letras - São Paulo, 1998, de onde foi extraído.

sábado, 26 de dezembro de 2015

A ceia de Rogério Germani em INSPIRATURAS in-versos

CeiaPressinto uma luz de seus beijosa acalmar meus passos sobre as águas profundastalvez um poema colhido na lá...

Posted by Rogério De Souza Germani on Sábado, 26 de dezembro de 2015

Marisa Schmidt e outra história de Natal


quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Rogério Germani e o "Sagrado vento"


Sagrado ventoA ternura de um pássaro acendeu o sol no olhar emblemáticoda estátua de jadee as velas no templo,...
Posted by Rogério De Souza Germani on Quarta, 23 de dezembro de 2015

sábado, 19 de dezembro de 2015

saliva-me

saliva-me

despenca aos rios
saliva louca
sussurrada da boca
enlaça-me aos fios

despenca dos brios
tatua as roupas
plasmada nas coxas
misturada ao cio

saliva-me entranhas
a morte
a arte
as manhas

me apanha
na tua língua

saliva-me à míngua
engulas
pela cabeça
alcança a base
minha fraqueza
teu destempero
meu desespero
aos jatos

sacharuk




fundição

fundição

no lapso resvalo
até o córrego
fiapos líquidos
escorrem trôpegos
a inundar os declives

deslizam suaves
ao anel negro diamante

na cavidade
o ferro forjado
em brasa ardente
encontra o encaixe

sacharuk


quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

limão azedo



limão azedo

ah, perdoa
o ego que me consome
logo, sei que não mentes
mas não acredito
merecer tua dedicação

não sou digno
de atenção
sequer de amor
problema de autoestima
garantia da rima
com a dor

acaso tens
um amor barrigudo?
velho?
doente?
maluco?

tens não...

queres algo diferente
alguém que chupa limão

sacharuk

domingo, 13 de dezembro de 2015

"virgulinidade"

"virgulinidade"

tua virgulinidade...
demarca minhas pausas
eu respiro
e a ti eu denoto
inflexões da minha voz

virgulinidade enfática
saltitante acrobática
delineia tuas expressões
períodos das tuas orações

virgulinidade tua
te constrói em significados
nua verdade
contra a ambiguidade

que de mim
separas incólume
sindéticas coordenadas
que me explicam
e que me concluem
entre consecutivas orações
divides meus elementos
de mesma função

virgulinidade 
eu respiro
e a ti eu denoto
inflexões da minha voz.

sacharuk


bailarinando

bailarinando

breves rodopios
sutis deslocamentos
vejo-te bailarinando
ao vento

tão leve
te inseres
nos meus pensamentos
teus movimentos
dançam na esteira
dos tempos

teus pés tocam lentos
em pontos incertos
mas voas ligeira
bailarinando
faceira

sacharuk

a verborrágica exagerada

a verborrágica exagerada

verborrágica é a vivente
que se vale da verborragia
a incrível arte oratória
de dizer muita merda
sem filosofia
ou qualquer poesia

a que gasta vocabulário
com argumentos otários
de viés insignificante
repleta idiossincrasia
e nada importante

emprenha-te os ouvidos
a verborrágica exagerada
parece um autofalante
que tenta ser eloquente
e não diz nada com nada

sacharuk

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

sublime



sublime

fico assim
louco
se te faço louca
enlaçoteu corpo

todo espaço
nesse quarto
é pouco
ao desacato
devasso e obsceno
que, amoral
é tão pleno
portanto,sublime

aos olhos santos
somos crime
de encantos
nos contornos das coxas
das bundas e bocas
do pau da boceta
doutras vias

 quando o sol desperta
 gentil inocenta
nossa sodomia
diamante mais bruto
sob a luz desse dia
tu te sentes repleta
eu me sinto poesia

sacharuk

domingo, 6 de dezembro de 2015

meia tigela de versos batidos

meia tigela de versos batidos

quero dar meu caloroso abraço
e fazer uma colocação
aos que estão no fundo do poço
ou na rota de colisão

quero abrir com chave de ouro
sua mente e seu coração
pelas raias da emoção
vamos quebrar o protocolo

quero uma atuação impecável
nos palcos da vida real
que tenha importância vital
não seja perda irreparável

quero respirar aliviado
jamais ser vítima fatal
e viver além do normal
visivelmente emocionado

quero inserir no contexto
e logo entregar a você
o poema de versos clichês
coroado com êxito

sacharuk



Black Jack

Seria o céu o limite?
Eis a derradeira questão
que me ocorre enquanto
eu trago um cubano
e tomo mais um gole do uísque mais vagabundo
antes de apostar mais um pedaço de mim em uma mão de Black Jack.
É assim mesmo, ás vezes você perde um pedaço de si mesmo, às vezes você ganha um pedaço de um outro alguém.
Hoje eu perdi, mas foda-se.
Há muito mais de mim para apostar!


Tim Soares

sábado, 5 de dezembro de 2015

meu porrete

meu porrete

meu porrete
é milagre de santo
é mistério e remédio
aos sais do pranto
aos males do tédio
um risco no lombo
dos faniquitos

meu porrete
é o cacete
que come no couro
num relance
perfura cudouro
derrete cudoce

sacharuk

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

um desejo me consome

um desejo me consome

um desejo
me consome
de beijo
de fome
possuir-te a alma
o cortejo
com calma

do desejo animal
fazer mais do que sonho
um tanto sensual
outro tanto bisonho

mas não é isso somente
que motiva

plantei uma semente
de sempreviva
no lindo canteiro
do meu quintal
entre a arruda
o jasmim e a sativa
e espero o fim
do ciclo outonal

sacharuk

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nenhuma crendice é meu desatino

nenhuma crendice é meu desatino

quero o melhor ceticismo
para reverter toda crença
que não seja só cinismo
que não traga desavença

quero o caminho alargado
da existência excomungada
planar sob céus de pecado
tal guia pagão na estrada

o seu preconceito
é sua contradição
revelada num hino
na cruz em seu peito
no rosário na mão

sou eu mesmo o artífice
do meu próprio destino

quero viver o ateísmo
sem ouvir palavras pretensas
contradizer o determinismo
daquele que crê e não pensa

e não preciso ser julgado
por qualquer lei forjada
e só quero ter respeitado
o solo das minhas pegadas

eu tenho pleno direito
a não ter religião
pago caro desde menino
não representa defeito
ser ateu ou pagão

nenhuma crendice
é meu desatino

sacharuk


famigerada figura

famigerada figura

famigerada figura
feneceu feio
feito fome
fazia furor febril
face fervente
foi fanático
fomentou fúria
foi fervoroso feito fé
fumegante feito fumaça
flamejante feito fogo
fogo fátuo
foi funesto fato

famigerada figura
forçou felicidade
forçou...
felicidade finalmente
fez foguinho fraco
faiscou fagulhas feridas

fez fabulosa fortuna
financiou farras
fanfarras
fisgou fêmeas fadadas
famosas financiadas
fantásticas formosas
fodedeiras frescas
feito fúteis fadas
fumegando falos

faliu fábricas
forjou falácias
falsificou
foi facínora
formou falanges

favoreceu falsidades
fez feitiçarias
finalmente foi fisgado
fichado

fígado foi furado
faca faiscante
fincada fundo
facada fatal

finalmente
faleceu
fatigado

feneceu faceiro
foi feliz
foi fácil
foi fagueiro

foi famigerado fariseu
fiel fanfarrão
fatalmente
fará falta

sacharuk

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

"tarsentilho"

"tarsentilho"

tarsentilho insone
das luas

cruzarruas
e explode
balastros

longos passos
no escuro
graúna

nas ruínas
arranhões
e esgarços

tarsentilho espaço
e lacuna

pega a unha
e irrompe
em cabaços

rompe lastros
a glande infortuna

lava a burra
a alma
e os rastros

sacharuk

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Hora estreita

Eivados por um mar de ardente chama
dois corpos sem castidade nenhuma
sorvendo gota a gota, uma a uma
da sede que possui quem muito ama

Nessa hora estreita e intensa que conclama
à entrega absoluta, a que consuma
a energia fluida e se resuma
num líquido efeito e se derrama

Em ondas que, entre avanço e recuo,
embalam os corpos lisos, e intuo
alimentando a sede pelo doce

Das ondas que, em explosões perfeitas,
convocam espasmos nessa hora estreita
que deita como se passar não fosse




- Lena Ferreira -

Marcos da Alma

Maria Sofia


Marcos da Alma

Eu sou eu, simples assim 
e você é você...
Simples assim

Sou um, do início ao fim
assim tal você

Simples assim

Somos barqueiros 
e embarcadores
sábios e aprendizes

Feios e bonitos
Silêncios e falas

Somos arteiros
e encantadores
de risos e cicatrizes
mansos e aflitos
picos e valas

Coragens e medos
vidas e mortes
pontos e partidas

Colagens de enredos
fracos e fortes
voltas e idas

Enfim, somos nós 
em construção sempre.

Maria Sofia e Sacharuk

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

lama tóxica aos cachorros do Pavlov

Lama tóxica aos cachorros do Pavlov

Está pronto e divulgado o laudo técnico especializado que calcula o teor da contaminação produzida pela lama samarco? Não, né? Talvez as autoridades imaginem que o estudo seja dispensável, afinal, qual a dimensão do sinistro da lama para quem já vive atolado na merda?

Mataram o rio... não dá para comprar outro e botar no lugar. E se desse, não haveria dinheiro... os vagabundos levaram todo. E apenas quem pagará a conta é a qualidade cada vez mais indigna das nossas vidas. Vai ficar nisso mesmo: sem culpados, sem penalidades, sem consciência...

Se o evento ocorresse num país digno, do tipo sério, a análise já estaria pronta e medidas efetivas de recuperação sendo tomadas e os administradores da catástrofe sendo presos.

Já sabemos de antemão que nada será feito. Seria necessário uma quantidade mínima de cidadãos para exigir qualquer medida de reparação. E no parlamento da cidadania, não há quorum.

A lama tóxica que emporcalha a consciência dessa gente é que perfaz o maior dos desastres ambientais. É apenas brasil, terra de políticos corruptos e analfabetos, empresários ladrões e povo abostado... muito abostado.

Vai ficar tudo por isso mesmo... vai virar arquivo audiovisual da rede globo para os zumbis do futuro chorarem a triste sina.

Logo chegarão as festas natalinas, o bigbrother, o carnaval... e nossa gente subserviente e burra estará alegre e festiva a sambar com a bunda de fora sobre um mar envenenado. Que não reclamem mais, afinal, temos a medida exata do retorno das nossas frouxas ações.

sacharuk

foto: jornal O Dia - reprodução de tv

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Curso da Poesia

escritora Maria Sofia

Curso da Poesia


Era um dia feito outro qualquer
estendido em caldas de leses
quando o desejo insano de ser
converteu-se em algo diferente
na luz de um sombrear claudicante
o morno se fez instante consciente.

Era o novo sabor de um instante
me vi em outro cais num outro revés
estendido em cais os navegantes
borbulhavam em ondas e marés
a verve soprou suas sementes
e os versos brotaram nos pés.

A alcova que antes era doente
flertou o sol no mais belo poente
e a natureza não pode conter
e sorriu em luminosa poesia
vestida da lese a perdurar instantes
com gestos nobres de maestria.

Maria Sofia e Sacharuk

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

mulher multidão

mulher multidão

mulher multidão
malemolente malabarista
mergulha mar movimentado

manipula misérias
maneja migalhas
manobra mentiras

misericórdia, mundana!
monta meninos
moços
maduros
mulheres

molesta matrimônios

mutreta

mulher matadora

sacharuk


Cavalgada

Maria Sofia

Cavalgada

Os longos dos anos vividos
entre porteiras abertas da estrada
os meus momentos todos perdidos
entre a esperança e o nada
entre o silêncio e a despedida
vislumbre de tal vista regata.

Daí anunciei meu pedido
no meio da noite enluarada
uma canção que fizesse sonata
por entre a brisa apanhada
venci os entraves do medo
e a poesia não se fez calada.

Raiou o sol ante a madrugada
vestida de aura tão delicada
fez do meu medo arremedo
fez da minha prece toada
em um galope de cavalgada
na despedida da alvorada.

Maria Sofia e Sacharuk

domingo, 22 de novembro de 2015

mago das letras

mago das letras

delegaram-lhe a alcunha
o tal Mago das Letras
e confirmou na poesia
que não é dado a mutretas

quando a rima conversa
e declama
a arte honesta
é reversa
engana

já matou leão à unha
nem precisou fazer careta
é fechado contra bruxaria
abateu o boidacarapreta

quando a sina engasga
retranca
o mesmo poema
que rasga
destranca

quem o conhece testemunha
que já viu céu e sarjeta
mudou o norte da estrela guia
mais rápido que um cometa

quando a vida reclama
esperança
a história escrita
na lama
descansa

nenhuma questão acabrunha
os versos que a vida arrebenta
dos reversos ele faz alquimia
em toques de tecla ou caneta

quando a musa canta
não cansa
a deusa das letras
que dança
encanta

sacharuk

blog (2)
Admiráveis águas de março
(Inspirado na canção "Águas de março" de Tom Jobim)

É pau, é pedra...
Março traz novas águas
Agora pestilentas, raivosas
E fedendo à desgraça
Essas águas devoram cidades
Deixando apenas o inebriante
Perfume do caos
Águas que ceifam vidas
De algum João
De algum José
De um Véio China
São as águas de março
Fechando o verão

E deixando o vazio no meu coração



Tim Soares

Poeira de Estrada

Maria Sofia



Poeira de Estrada

Em algum lugar distante daqui
poeira queimou chão e alforje
foi o fogo maior que eu vi
fez tudo o que pode e não pode
e o corcel saltou galopando
queimando estrada e poeira.

E não estava de brincadeira
sequer estava armando galope
mas foi por uma tal cerqueira
que meu cabresto saiu por sorte.

Escapei do abraço da morte
esqueci qualquer dor passageira
foi uma tal garça aventureira
que na estrada velha de poeira
fez tal corcel perder a direção
cavalgando pelos trilhos da mão.

Eu cavalgo não é por esporte
mas sim por vontade faceira
cavalgo por relvas e noites inteiras
com meu cabresto solto na cernelha.

Maria Sofia e sacharuk

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

De profundis

De profundis

Há um restolhal onde cai uma chuva negra.
Há uma árvore castanha que está sozinha.
Há um vento sibilante que gira à volta das cabanas vazias.
Como é triste esta noite.

Ao lado da aldeia
A doce órfã ainda colhe espigas raras.
Os seus olhos redondos e dourados percorrem o crepúsculo
E o seu colo aguarda o noivo celestial.

De regresso a casa
Os pastores encontraram o doce corpo
Decomposto no espinhal.

Eu sou uma sombra, aldeias distantes e obscuras.
Bebi o silêncio de Deus
Na fonte do bosque.

Na minha fronte galopou um metal frio
Aranhas procuram o meu coração.
Há uma luz que se extinguiu na minha boca.

À noite dei comigo numa charneca,
Cheio de lixo e poeira de estrelas.
Nas avelaneiras tilintavam de novo
anjos cristalinos.

Georg Trakl
versão em português por Luís Costa

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

molemar

molemar

adocei melamor
a amargador
dessa rimacu
sei de cor

lancei corpomol
sobromar
desandou molemar
molemar

malamor, mintenda
vertente rebolenta
dos beiços caldeados

molemar malamor
locamor
malamor molemar
molemar

malamor, miscuta
teu jeito disputa
sereia do mar

molemar malamor
locamor
malamor molemar
molemar

adocei melamor
a amargador
dessa rimacu
sei de cor

sacharuk


domingo, 15 de novembro de 2015

otimismo

otimismo

é a crença ridícula no incerto
é poema de versos do absurdo
o pretexto infalível dos sortudos

otimismo é conceito confuso
nos meandros da poesia
onde impera
certa delicadeza
traduzida em versos

é igual àquela certeza
de que se pode virar a mesa
e fazer tudo dar certo

sacharuk



Ozônio

Estive morto nos últimos dias,
a alma inerte,
o coração era apenas músculo.
Agora tudo que tenho é estrada
hostil, débil e vulgar.
Na maleta, um velho casaco,
um maço de cigarros meio cheio... Ou meio vazio?
Um caderno velho, Wilde e Kerouac.
E na cabeça, uma canção de Leonard Cohen
O ar é úmido e o silêncio é ozônio para o meu sangue.
Não há placas, mas estou apenas indo, flutuando por aí.
Estou vivo.
Estou viajando.

Estou caçando loucos.


Tim Soares

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Como quem recebe a brisa

Recebo-te como quem recebe a noite
de lua adversa purpurinada de estrelas
solícita em líquidos aromando a calma
banhada em luzes, entregas e tulipas
vestida de pele e pelos e esse olhar ileso
aceso incenso em fragrante delito

Silente e, devotada, aspiro tuas rezas
embebendo o rito, perfumo o vínculo
entre a boca e o verso, espaço estreito,
disperso o vento que o alvorecer divisa
dispenso a prece, o verbo e te ajeito
no vão difuso entre o peito e o gesto

- recebo-te como quem recebe a brisa -




 - Lena Ferreira -

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

hoje ele não voltou

Hoje, ele não voltou

E então, Sônia vê seus sonhos revirados. Está aos auspícios de novos tempos.

Acende outro cigarro. Sempre o faz como pretexto para pensar. Tal pensar, para Sônia, carecesse pretexto.
Bafora despudorados clichês literários mesclados às nuvens negras das longas tragadas. A mesma cena e o mesmo cenário...sempre. Os seus devaneios culminam em eventos felizes, divertidos, sensuais, junto àqueles que intimamente elege. Cria histórias transcendentais, protagonizadas por sujeitos habitantes das suas memórias, das recentes e das antigas.

Alberto trabalha tanto. Saí cedo de casa para retornar tarde da noite. Viaja, todos os dias úteis, cerca de oitenta quilômetros até chegar. Ultimamente, reclama da tristeza e do cansaço.
Sônia lembra da formatura de Alberto. Sacrifício! Na época, teve de trabalhar muito enquanto o marido concluia a faculdade de direito. Por sorte, não tiveram filhos e, consolidados e estáveis, conquistam facilmente os objetos dos seus desejos. Mas Alberto trabalhava tanto!

No mês passado, Alberto, em duas oportunidades, teve o carro enguiçado e, naquelas noites, não voltou do trabalho. Dormiu num hotel. Mas, na última semana, aconteceu mais duas vezes... e hoje, ele não voltou.

Sônia banha-se demoradamente. Quente e refrescante. Hidrata demoradamente as pernas recém depiladas. Escolhe a meia negra. Com a perda dos três quilos durante a última semana, voltou a caber na sainha.
Pega os cigarros, acende um, as chaves do carro e sai.

sacharuk

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

o sol que pinga


o sol que pinga

bem cedo
o sol que pinga é diferente
pinga em concisão
remédio
remédio que dá fim na dor
e no tédio

agora eu via o sol
pela tonteira da visão
e a cor
a cor do raio é o calor

quando pinga
pinga energia na gente
bem no coração
acolho
o que abre o chakra e o olho

agora eu via o sol
tão no coração
bem quente
quente a manhã
de fogo ardente

o sol consome a morte
e a semente
fácil e sem perdão
aquece
aquece a memória do karma
e esquece

sacharuk

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Cavalgadura, com Márcia Poesia de Sá


Cavalgadura

Sento no banco
na anca fria da vida
que cavalga e engasga
trancada na lentidão de um dia
que nunca acorda !

Um gigante sendo sisudamente
devorado por vermes e formigas
bactérias de gravatas
na latrina da cegueira !

Na mídia, mentem mornamente
exalam fétidos sentidos
esdruxulo embrulho
goela a baixo

Sacolejo a cabeça
para acertar a centelha
que na telha prateada
como abóboda de um circo
vomita mentiras
escarradas

Levanto do muro indignada
que vergonha ser chamada de nada
pelo nada que tem horário pago
para falar asneiras
em meus tímpanos
surdos !

É, lá longe onde o clima é seco
secam os poços da minha paciência...
em velhas latas de manteiga
da padaria de sr, Joaquim

E até que enfim
comprei outra passagem
para o mundo dos mortos
vou nas asas dos urubus

já que esses,
de barriga estufada
se negam a comer carcaças
deste febril mundo imundo.

Márcia Poesia de Sá.

De borboletas e mariposas, por MARISA SCHMIDT


DE BORBOLETAS E MARIPOSAS

Borboletas desenhadas
nos muros da liberdade
batem as asas apressadas
abrem furos por onde o vento
leva nos braços a mensagem
e só quando muito desatenta
não se bandeia na aragem

Mariposas quedam teimosas
na lâmpada no alto da sala
ofuscadas por luzes operosas
são sombras que a nada abala
o tempo passa, a luz se apaga
e na presença do sol, ceratosas
são varridas, sem dó nem paga...

Marisa Schmidt

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

algodão-doce

algodão-doce
ensacado
açucarado
de tão doce
deixa enjoado
no entanto
o palito espetado
traz infãncia
de melequenta repugnância
e corante rosado

geralmente se gosta
quando se é criança

algodão-doce
pueril poesia
ou um passo de dança
de leveza e a alegria
memória da diversão
ingênua abstração
e beijo roubado

sacharuk

texto inacabado

texto inacabado

O portão de ferro. Na sua metade inferior, a ferrugem contempla pequenos pedaços quase soltos do ferro oxidado. O chão de cimento cru, sem revestimento, revela um vasto caminho que leva até o fundo. Na metade do percurso há uma velha porta de madeira, tal o portão de entrada, apodrece lentamente por baixo, e sua pintura branca tem manchas de sol. O teto parece ter sido branco, tal as paredes. Nessas despencam nacos de tinta velha no chão de cimento.
Paredes em farelos.
Um ventilador de teto com teias de aranha. Recostada à parede, uma estreita escadinha de madeira. Sobre seus degraus, copos, garrafas já abertas, uma carteira de documentos, chaves diversas e o aparelho celular.
O televisor antigo de onze polegadas permanece ligado. Na tela, homens discutem e vestem gravatas.
Uma poltrona funda e ampla guarnecida por travesseiros.
O homem sentado tem a cabeça caída sobre o ombro direito parece dormir. Entre seus dedos, uma caneta. Logo a sua frente, na escrivaninha de ferro, um caderno. Nele repousa um texto inacabado.

sacharuk


Valsa

É doce e aflito o pulsar que ora me chega
por esse vento que me vem de longe e, leve,
vem e reclama as feitas frases fracionadas
vem insistente num compasso claro e vivo
vem sussurrando em sibilantes aliterações


Como orquestrasse uma valsa vienense

os seus acordes rodopiam pelos rubros salões,
incitam intensas vibrações nas doidas cordas
e, acordando as sensações então dormentes,
valsam-me enquanto verto, em verso, ebulições



 - Lena Ferreira -

sábado, 7 de novembro de 2015

cada crença corresponde com cada cadáver

cada crença corresponde com cada cadáver

corriqueiramente
coveiro chega capela
coloca cruz centralizada
castiçais com chamas
 convenientemente cintilantes
conquanto consome
 caneca com café
conforme chamusca cigarro

cabe coveiro
corresponder corpo
com caixão contratado

convém colocar cravos
condecorando casaco

como colaborador com cemitério
conforme chega
coloca chapéu contra claridade
cava... cava
cem centímetros
construindo cova

conforme correm cerimônias
conduz criaturas chorosas
consanguíneas com cadáver
conduzirem corpo
carregando caixão
coberto com camiseta
correspondentes com clube
cujo cadáver contribuía
cantam canções comovidas
como cadáver cantava
choram copiosamente
conquanto cuidadoso coveiro
coloca cobertura 
cerrando caixão
centraliza com cova

coisa comum
caírem crisântemos
como chuva colorida

contudo
certamente
cadáver continuará calado
completamente chateado
com culto cretino

sacharuk

                     



 Sob o olhar da lua

      Minha vida é um bungee jump onde a lua sempre me traz à tona.  É esta certeza, talhada como uma estrela em meu peito, que ilumina meus passos perdidos nesta selva de rostos vazios de afeição.

     Algumas pessoas nascem em berço esplêndido, já com um roteiro pronto de sucesso na vida posto debaixo do braço, e nunca se lembram de agradecer o quanto são felizes. Nunca tive a mesma sorte. Sei-me órfã desde os meus sete anos de idade e até hoje uma plantação de lágrimas inunda meus sonhos com a imagem dos meus pais sendo mortos, “por engano”, pelos fardados que deveriam nos proteger da violência urbana. Para continuar nas ruas, tive que fazer da tristeza o meu cajado e fortaleza. A sombra que restou em cada centímetro de minha pele me protege do mundo. Herança que, todos os dias, obriga-me a dar graças à lua, depois que fugi de mim mesma.

     Minha rotina resume-se numa única palavra: sobrevivência. Vivo perambulando entre as pessoas como um fantasma que não deixa rastros. Se, involuntariamente, acabo esbarrando em alguém, sigo em frente, acelerando cada vez mais os meus passos, sem nunca olhar para trás; sem permitir que o tempo registre meu rosto nos olhos dos desconhecidos. Tática eremita que me consentiu chegar aos quinze anos, ilesa da maldade humana, quase uma ilha flutuante numa cidade sem um único farol que acene esperança às almas náufragas.

    Do mesmo modo como me infiltro nas artérias citadinas, desenvolvi um furtivo hábito de conseguir a minha alimentação. Nas feiras livres, assim que amanhece o apetite voraz que molda a sociedade, obtenho o meu sustento. Frutas e legumes que jamais desfilariam nas mesas dos afortunados, após serem colhidos no lixo ao lado das barracas, caminham saborosos no meu paladar pouco exigente. Combustível suficiente para envolver meus pensamentos com as críticas engrenagens responsáveis pela evolução das espécies, análise rápida antes da boca faminta aceitar a fria realidade do menu rotineiro. Quando não há feiras e não resta nenhuma fruta nas árvores plantadas nos canteiros da cidade, pesco migalhas nas grandes lixeiras dos condomínios, a grande represa onde os excessos da civilização pululam. Mar de entulhos onde também recolho peças de roupas usadas, livros com gravuras e até brinquedos quebrados. Banquete que aquece o corpo e os olhos cansados.

     Para aumentar a minha camada de invisibilidade perante as pessoas e nunca delas depender, de tanto enxergar – sempre camuflada atrás de algum poste ou árvore próxima – crianças bem vestidas sendo levadas pelos pais até os portões luxuosos das escolas particulares, desejei incluir o reino das letras em meu arsenal. Através de uma cartilha ilustrada de alfabetização, “por coincidência”, jogada na lixeira de uma dessas instituições de ensino por um aluno mais desatento, iniciei minha jornada solitária para galgar os degraus do conhecimento. Tamanhas eram minha fome e necessidade que, estudando em praças desertas ou em casas abandonadas, alfabetizei-me em pouquíssimos meses. Tudo para escrever e ficar remoendo com a leitura constante a palavra que ainda me dói: SAUDADE.

    Em escassas ocasiões onde a tristeza deixava de umedecer meus ouvidos com seus lamentos, sempre que possível, lia os cartazes dos filmes e eventos culturais que estavam sendo exibidos nos cineteatros da cidade. Como uma nuvem cinza em busca de uma nesga de sol, meu intuito era encontrar um rosto conhecido nos enormes expositores publicitários, Ana Botafogo, a bailarina mais famosa do Brasil. Claro que a graciosidade do ballet da celebridade carioca impressionava meus olhos já habituados a vê-la dançar em apresentações gratuitas nos parques, mas, numa espécie de encantamento, a enorme semelhança entre a face da bailarina famosa e a imagem de minha falecida mãe, carinhosamente armazenada em meus sonhos, funcionava como um ímã em meu coração.  
         Dentro do palco vermelho, enquanto um ritmo suave desenhava uma coreografia de luz nas frestas do céu, o espetáculo gerado pelos sorrisos maternos nunca saíra de cena. Miragem adocicada que, ao cair da tarde, extraía e ainda extrai minhas lágrimas mais cristalinas e pesadas, verdadeiro dilúvio para as cúmplices formigas dos dias em que a saudade une-se com a arte para afagar minha vida enevoada. E, novamente refém dos sussurros tristes trazidos pelo vento, da mesma maneira que me aproximo dos cartazes, saio sempre sem ser notada pelos transeuntes.

      Volto a me recolher do mundo.  

       
************            *************          


      Gosto da lua e suas falas maternas. Gosto da proteção que sua penumbra oferece às almas solitárias, um manto leve e sagrado que afasta as dores do dia e devolve-me à vida que carrego nos labirintos dos olhos desde o momento em que me tornei órfã, mágico cenário onde ainda sou parte de uma família reunida. 

     Diferente dos outros mortais, não temo nem mesmo as fases mais sombrias da lua; sinto, sim, um hálito de liberdade acariciando meus pelos quando ouço os passos da noite se aproximando. Com menos pessoas caminhando na cidade, o deserto das ruas alivia minhas artimanhas para fazer-me invisível. Volto à minha infância despreocupada, escalo muros, desenho anjos, fadas, bichos de pelúcia, canto alegre em total desatino e banho-me nos chafarizes das praças até não restar mais nenhuma mágoa do cotidiano em meu corpo.

     Ainda sem sono, pesquiso o interior das latas de lixo, como restos de lanches e agradeço pelo cardápio farto e colorido. Com sorte, além de alimentos, encontro verdadeiros tesouros esquecidos no lar dos descartáveis. Igual ao dia em que me deparei com um par de sapatilhas gastas jogadas na lixeira do teatro municipal, um troféu dado para quem consegue sair ileso das batalhas diárias. Mais um presente da lua, mágica ponte que me une às lembranças da mulher que me trouxe à vida e me ensinou os primeiros passos de ballet.  

     Epicentro das alegrias lunares, vago zombando da sisudez imposta às estátuas vigilantes das praças. Corro imitando o voo das moscas nas ruas pouco iluminadas, colho algumas flores no jardim das casas antigas e, próximo ao décimo segundo badalar do relógio incrustado na mais alta torre da cidade, com um sorriso mais belo que o da Mona Lisa, abro os portões do cemitério. É hora do espetáculo. 

       Protegida pelo silêncio e pela falta de guardas noturnos na acolhedora necrópole, caminho até o sepulcro onde os meus pais estão enterrados. Religiosamente, trago à luz o par de sapatilhas de ponta e, enquanto delicadamente o calço, sorrio para a foto de minha mãe fixada na fria lápide. Em seguida, numa desenvoltura clássica, subo no túmulo de mármore- único local liso que mantém a integridade do frágil calçado- e inicio meu ballet em homenagem aos meus progenitores. Sob o olhar da lua e acompanhando as batidas em meu peito, o primeiro tendu  assemelha-me a uma garça; abaixo-me em lento plié e recolho uma das flores que deixei ao lado da lápide, seguro-a com a boca e desenho nos holofotes das estrelas uma coreografia de jetés, rond de jambés, frappés, grand battements, em dehors e adágios. Danço, danço, danço até o cansaço tatuar um sorriso infinito em meu rosto em êxtase. Mesmo usando roupas velhas e rasgadas, sinto-me revestida de nuvens neste momento. Exata hora em que a zelosa lua vem recolher sua corda invisível, trazer-me de volta ao sono que perdoa as errôneas pegadas que deixam cicatrizes no caminho de todos os seus filhos.



Na cidade grande, os sonhos ceifados escorrem nas avenidas. Artistas de circo que teriam um futuro promissor oferecem seus dons de encanto por míseros trocados nos semáforos. Músicos com voz de anjo contam moedas lançadas dentro de seus chapéus em busca de migalhas celestes. Atores e bailarinas interpretam a beleza esquecida nas principais praças em troca de sorrisos e aplausos.  Meninas impúberes carregam seus filhos sem nenhuma esperança nos olhos. Moradores de rua sonham em um dia reencontrar suas famílias, reestruturar a vida órfã de alento. Sonho que também habita os ecos em minha alma solitária.

Mesmo para quem optou em abraçar as sombras em dias ensolarados, ouvir sempre a própria voz reverberando no entorno da civilização nada dignifica a existência; às vezes sinto-me moldura de um quadro vazio prestes a desmoronar nos arenosos dedos do tempo. Só ganho cores no final da tarde, quando a lua me empresta suas invisíveis asas e me convida para dançar num palco feito de caiados sepulcros e silêncio. Único momento onde a saudade de meus pais falecidos cede lugar para uma paz que revitaliza a seiva em minha árvore genealógica. Paz necessária aos meus pés cansados de tanto se esquivar do mundo.   

Indo na contramão da aridez humana, ainda bebo, por sorte, os ensinamentos deixados por meus entes queridos antes de serem assassinados. Diversos foram os tesouros filosóficos enterrados em meu caráter. Com meus progenitores, além do gosto pela arte, aprendi a ruminar esperanças: “O destino pode ser mais doce, os passos podem ser mais leves; tudo depende da coreografia que você escolher para a sua vida” é o adágio que ainda floresce em meus olhos, todos os dias, enquanto escrevo minha jornada nas frestas do destino.



Assim como um náufrago saboreia a imagem do nascer do sol num horizonte não muito longínquo, aprendi em minha ilha de solidão a idolatrar a lua. Não por sua poesia que encanta sonhadores enamorados. Amo-a por sua face acolhedora, seus conselhos e alento nas horas em que o corpo exausto necessita se recolher do mundo para não ser devorado pelos lobos; assemelho-me a um minúsculo barco que avança sobre a fúria dos mares com a certeza de, no outro lado da margem, a calmaria de um arco-íris ser o portal que resgatará os cantos de glória guardados no peito aventureiro. Enquanto alguns são adotados por famílias distintas, detentoras de status e bens patrimoniais, sou alma sem âncora. Pirata às avessas que refuta as riquezas que não nasçam primeiro no coração. Não careço de rótulos robustos ou certificados de aceitação da sociedade para minha humilde existência; minha família é a lua, sou irmã das estrelas que vagam sem destino.

Animal que lambe a cria para sanar as feridas dos pós tombos e encorajá-la em novas tentativas de manter-se em pé, a lua oferece-me os grãos que sustentam a pedra angular do meu cotidiano. Desde os alimentos e vestuário que obtenho em lixeiras até a injeção de sonhos que aplico nas veias sempre que me deparo com os prazeres da arte, a mão zelosa de minha guardiã noturna pousa em meus ombros. Pluma que tece versos de esperanças para minhas inúmeras páginas em branco na ponte do futuro.


                                 
Todo mundo tem sua rotina, seu modo de se enxergar no espelho e, com o tempo, aprender a lapidar a própria sombra projetada na face; no fundo, no fundo, não importa a forma, todos buscam novos ângulos para suavizar os tropeços diários. Eu danço sob o olhar da lua enquanto direciono meus sorrisos e beijos aos meus pais. Só lamento o desdém estático em suas fotografias eternizadas no mármore frio que agasalha suas lembranças.

A arte herdada de minha mãe é que me faz diferente na vida. O ballet me faz tocar nas estrelas sem precisar retirar os pés do chão. Um harmonioso combate que me leva e traz de volta dos palcos da infância. Dom que, também pela graça da lua, certa noite, retalhou a espessura de minha solidão nas garras do breu.

 Coincidência ou não, foi numa destas datas em que dizem que o azar é senhor dos destinos que um gato preto cruzou meu caminho. Lembro-me de sua curiosidade felina perscrutar minha alma no momento do último plié em agradecimento aos meus pais, de seus ronronares e macios passos vindos em minha direção lentamente, da maneira como cativou meu coração e dele fez seu habitat.  Acredito cegamente que foi a orfandade mútua que nos irmanou desde então.

Qualquer servo da sociedade, como num protocolo uterino, teria arranjado um nome para o novo cúmplice de minhas horas sombrias. Dispenso formalidades, não posso correr o risco de exilar-me de minha criação. Enigmática presença assim o quero: sabê-lo apenas breu é liberdade purificadora. Eu e o gato somos símbolos distintos do mesmo novelo que nos remete à lua: um labirinto de silêncios.

Nada de telepatia para celebrar nossas novas aventuras. Cada qual respeita o limite de sua jornada e as cicatrizes escondidas em cada segredo abandonado nos braços do sol. Somos irmãos se reúnem à noite, quando a voz telúrica da lua convida-nos a bailar até as dores serem esquecidas.

                              

A cidade é selva em tempos festivos, as armadilhas espreitam os transeuntes assombrados em cada lâmpada acesa nos postes curvados; caleidoscópio de cores e sabores improfícuos para quem se acostumou com a migalha dos sonhos dançando nas ruas desertas.

Naquela noite, além dos alardes sobre o festival de arte contemporânea que seria apresentado gratuitamente no parque principal da cidade, transfigurado nos rostos dos desconhecidos, o medo emitia seus grunhidos variegados. Mesmo querendo observar secretamente o espetáculo, obedeci aos clamores felinos auscultados em meu peito. Regressei mais cedo para o único local onde a escuridão era um bálsamo, o túmulo de meus pais.

Diante da entrada do cemitério, pasmei. Os portões abertos com vergalhões retorcidos eram mau presságio. Estranhamente o silêncio voava viscoso na copa das árvores, espécie de morcego embebecido em sangue de alcoólatra anônimo. Aprumei os olhos em busca de feição amiga. Sorri aliviada quando a lua indicou o esconderijo de meu gato preto. Após retirar o felino de dentro de um vaso de flor vazio e aninhá-lo em meu colo, encorajei-me a seguir os atalhos entre as tumbas.

Alguns passos adiante, já próxima do local onde as almas de meus pais descansavam, o ódio acendeu suas labaredas em meus olhos. Feito pútridos ratos tendo um banquete sobre uma mesa real, dois vultos saqueavam em extrema barbárie a última morada de meus progenitores.

A raiva era um mar que inundava meus poros contemplando os sinistros abutres. Meu primeiro desejo foi pular sobre os desconhecidos e rasgá-los com meus dentes repletos de fúria acumulada desde os meus sete anos de idade. Mas não consegui; minha alma novamente salgou-se na dor. Novamente me vi menina indefesa. Novamente chorei vendo a imagem de meus pais lançada no chão.

Ouvindo o pranto desenfreado, os profanadores souberam de minha presença na escuridão e, para desgraça maior, decidiram correr atrás de mim.    

Recolhi lágrimas e gato em meu peito em brasas e fugi como o pavio aceso de um rojão prestes a iluminar o céu com seu grito de liberdade.

Sem olhar para trás, avancei as ruas tomadas de gente interessada em assistir o festival de arte contemporânea. Ouvia pessoas gritando, rindo de minhas vestes de bailarina maltrapilha, mas não mais me importava com isto. Eu e o gato preto tínhamos oito vidas para defender. E, quando se trata de sobreviver, a aparência fica em segundo plano.

Descobri que, naquele momento, minhas sapatilhas tinham o poder de desafiar a gravidade. A cada salto no ar, podia jurar que a lua afagava meus cabelos encapelados. Energia propulsora que me levou até o parque principal da cidade. Esconderijo talhado em arte naquela noite.

No meio do festival, a música apresentada pela orquestra sinfônica relentava o coração dos espectadores. O mundo parecia dar trégua para as dores da humanidade. O público dobrável em doçura pelos acordes de Beethoven jamais desconfiaria que, naquela noite, uma bailarina anônima era a estrela maior em busca da coreografia perfeita. Uma vida nova para novos sorrisos.

Enquanto todos estavam entretidos com a apresentação no palco principal, meu desespero me levou para um canto mais afastado do parque. O gato preto ronronou uma prece em meu colo, sinal de que a lua nos guiava para a segurança. 

Após confirmar a ausência de pessoas ao redor, corri para um gigante colorido que adormecia na penumbra. De tanto vê-los nos livros e noticiários, os balões comerciais eram um encantamento tão vivo em meu âmago quanto o meu desejo de rever meus pais. Sem titubear um segundo, saltei para dentro do cesto de vime. Como o dirigível já estava pronto para decolagem, apenas atado em cordas fixadas no gramado, a tarefa de retirar as amarras e levantar voo tornou-se um lírico instinto.

Sob o olhar da lua, enquanto a cidade permanecia em transe admirando o festival, eu e o gato preto ganhávamos altura. Profanadores, assassinos e tantos outros problemas iam diminuindo, ficando no esquecimento à medida que o balão subia tatuando suas cores nas nuvens.

Mais aliviada ao perceber uma distância onde a maldade humana não mais pudesse me ferir, abri os meus braços querendo o carinho da lua. Em meus olhos, além de lágrimas de felicidade pelo sucesso na fuga, havia o esplendor de uma certeza: estava mais próxima de meus pais. Sentia-os emoldurados no aconchego do pelo macio do gato preto.

O imenso balão colorido não transportava apenas duas almas indefesas, permitia, sim, que os sonhos chegassem até a lua e, lá de cima, admirassem a beleza da Terra mergulhada na arte.
  
      
    
 Rogério Germani