Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas tu podes treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras ainda não escritas.
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quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Rumo a Pasárgada

Rumo a Pasárgada

Morre em mim todos os dias que amanhecem
Morre em mim a fala suave e o hálito doce
Morre em mim a manhã da primavera
Morre em mim a criação e a canção do luar

Não é mais tempo de plantar nem de colher
Não é mais tempo de ler velhos poemas empoeirados
Não é mais tempo de acreditar que poderá ser diferente
Não é mais tempo de vida que corre nos olhos e nas veias do entendimento

Acabou a festa do conhecimento
Acabou o dia, a tarde e a madrugada de sonhos
Acabou o canto da coruja no galho da manga-rosa
Acabou a letra desse alfabeto em cor

“Vou-me embora pra Pasárgada”
Vou vestido de nudez
Vou livre de amarras
Vou simples, presente e morto de todas as subjetividades do talvez

Morre em mim toda a grandeza que cresce
Morre em mim a inocência da beleza precoce
Morre em mim a destreza felina de uma fera
Morre em mim a atração pelas forças do mar

Não é mais tempo de parar ou de correr
Nâo é mais tempo de rever conceitos enterrados
Não é mais tempo de confiar na sanidade da gente
Não é mais tempo de sentir a ferida que escorre dos olhos num lamento

Acabou a resistência do cimento
Acabou a nostalgia das madrugadas de tons tristonhos
Acabou o poema que sobrepuja a frieza da prosa
Acabou a caneta dessa escritura de dor

"Vou-me embora pra Pasárgada”
Vou liberto das mercês
Vou solto de todas as garras
Vou assim mesmo, engajado em mim, sem certezas e nem porquês.

Diogo Dias Fernandes & Wasil Sacharuk


Tomando veneno

Tomando Veneno

Moro em uma casa de ranhuras
de paredes já escritas em teias
vivo conjugando conjecturas
de um verso mudo de línguas

Como no prato bordado de dó
a miséria de tanta riqueza
entre a polidez coberta de pó
e a lucidez que corta certeza

Falo uma língua dissonante
que com meu som apedrejo
enquanto calo o instante
daquele beijo que não beijo

Sei que me encontro nas ruas
e deito e durmo nas tormentas
único argumento da lógica nua
é bebido em gotas peçonhentas.

Márcia Poesia de Sá e Wasil Sacharuk

Amor, amado pra sempre... tenho um choro calado - acróstico

Amor, amado pra sempre... tenho um choro calado - acróstico

Assim
Matas
O
Romantismo

Até
Mesmo
A
Dor
Omitida

Para
Recuperá-la
Amanhã

Sonho
Encontrar
Minha
Paixão
Resta
Esperar

Talvez
Encontre
Numa
Hora
Oportuna

Um
Meio

Como
Hoje
Ousas
Realmente
Omitir

Chorarei
Amanhã
Lágrimas
Aladas
Dizendo
Olá

wasil sacharuk

reminiscências

reminiscências

eu já fui caça
e pássaro
também devassa
e bálsamo
até já fui benta
e instável
já fui peçonhenta
já fui amável

fui a Jocasta
fui a Morgana
já fui muito casta
também muito insana
a imperatriz insensata
já fui meretriz
já fui beata

fui cristalina
e obscena
fui Messalina
fui Madalena
e a vadia da realeza
acho que fui Maria
não tenho certeza

sacharuk


yin yang

yin yang

o meu esquerdo
é direito
o meu acerto
é o defeito

sou um pagão
que tem fé
eu sou um pão
sem café

sou a clareza
da escuridão
e a fraqueza
do corpo são

tenho a beleza
da minha feiura
sou a sobremesa
da amargura

eu vejo de perto
e tanto distante
eu vivo esperto
e também vacilante

sou silogismo
da contradição
trago o dualismo
da minha vastidão

sacharuk

images

Tolo Homem

Tolo Homem

Sobre os ombros o estigma
da eterna insatisfação
evitou conhecer o espelho
viveu a suplicar de joelhos
por uma oferta de pão

Apenas mais um tolo homem
nem viu que viveu no inferno
jurou odiar o demônio
logo após contraiu matrimônio
a procriação e o respeito terno

Condenado à vida comum
como medíocre enfadonho
por covardia evitou o temor
por pecado sonegou o amor
abraçado ao preceito medonho

Nem no Hades e nem no céu
disputaram sua triste presença
tomou o seu rumo a pé
trilhou o caminho da fé
e morreu na indiferença

wasil sacharuk

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terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Amor melecado

Amor melecado

tolo descarado
galopas no céu

teu cheiro
em meu cheiro
tua boca
nos meus cabelos

tu todo
eu louca
em pelo
de frente de lado

meu presente
é quente
apertado
tão traiçoeiro
quanto delicado

lambida na gruta
o segredo o mal
sou tua puta
és o meu pau

e meu creme de fel
merengue de bolo
amor melecado

wasil sacharuk

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Combinação perfeita

Combinação perfeita

Pétalas vermelhas a perfumarem o leito
Lua prateada, na janela, pendurada
Um lençol de seda produzindo o efeito
Combinação perfeita à sua pele acetinada

O mundo parado para decorar seu jeito
Nua enfeitada, seduzida, enfeitiçada
Garras pontiagudas a arranhar meu peito
Combinação perfeita à sua fome alucinada

O quarto move-se; acompanha seu trejeito
Lua, casta e pura, deixa a janela, ruborizada
Pétalas, suor, cama ardente, lençol desfeito
Combinação perfeita à nossa fome saciada

De todos os sabores que eu provo, satisfeito
Sua boca linda, tão vermelha, tão molhada
O mergulho sedutor do seu olhar suspeito
Combinação perfeita à nossa sede embriagada.

Lena Ferreira & sacharuk

http://redirect.viglink.com/?format=go&jsonp=vglnk_151451346840911&key=172579b97fa4d5e8c1a3c2918a03e499&libId=jbra1d7d01012xfz000DAeq6482dr&loc=http%3A%2F%2Fwww.wasilsacharuk.com%2Fsearch%2Flabel%2FLena%2520Ferreira&v=1&out=http%3A%2F%2Fwww.vaosdiversos.blogspot.com.br%2F%2F&ref=http%3A%2F%2Fwww.wasilsacharuk.com%2F2009%2F09%2Fcombinacao-perfeita-petalas-vermelhas.html&title=Wasil%20Sacharuk%3A%20Lena%20Ferreira&txt=poetisa%20Lena%20Ferreira
Lena Ferreira

domingo, 28 de dezembro de 2014

Desconstrução


Desconstrução

Andei retrucando momentos
revolvendo certezas mortas
andei com saudade do frio
e dos crepúsculos sombrios

Andei revisitando as rotas
remoendo incertos lamentos
andei à procura dos ventos
zumbido frio que me corta

Andei perturbado e senil
resistindo ao fluxo do rio
andei reforçando a porta
com tijolos, areia e cimento

Andei contraordem do tempo
revivendo lembranças remotas
andei com o cérebro a mil
cruzando conversas sem fio

Andei revisando as formas
reescrevendo os meus inventos
andei a testar os argumentos
no rigor científico das normas.

Wasil Sacharuk

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

A quem não me sabe e entende

A quem não me sabe ou entende

Eu não construo minha paz
jogando flores nos túmulos
desses anônimos inocentes
mortos em passeios escuros

Não reverencio os espectros
cujo mote é obscuro
apenas finados viventes
ou qualquer coisa diferente
de ar circunspecto

Não cultivo o dialeto
que pronuncia minha gente
com argumentos confusos
nenhum viés eloquente

Não levo fé nos presidentes
seus vassalos e abusos
e nesse povo repleto
de burrice condescendente

Não me acho mais esperto
além do que é aparente
eu tenho traços escusos
mas meus motivos são retos

wasil sacharuk

domingo, 14 de dezembro de 2014

O Riso da Feiticeira

O Riso da Feiticeira

Ela queria texturas
impressas no mundo 
das suas ideias
de luar defletido
multicor na areia
em poema inspirado
de Márcia e Andréa

quis saber o motivo
da vida ser bela
e ser assim tão feia
de olhar corrosivo
mas alegre e arteira
quis saber o que era
e leu a coisa inteira

conheceu as maneiras
das bruxas e fadas
as mocinhas e as malvadas
agora ri de faceira
pois não sabia de nada.

Wasil Sacharuk

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Navegante solitário–acróstico

Navegante Solitário

Navegar obscuros oceanos
Ancorado nas esperanças
Velas vãs voltadas ao norte
Esperando na proa dos anos
Girar o leme das lembranças
Ao mando da estrela da sorte
Naufragar repetidos enganos
Tempestades ou bonanças
Encontrar as águas da morte

Solitário se fez navegante
Os ventos como companhia
Longa vida em mares distantes
Iluminado pelo horizonte
Timoneiro da capitania
Ámigo das correntezas
Refugiado entre céu e terra
Investido dessas profundezas
Onde a vida se encerra

wasil sacharuk

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Corro e morro



Corro e morro

No corredor escuro a correr
Canso mas não esmoreço
Não sei mais o que fazer
Continuo a correr sem tropeço

O escuro é tão denso e palpável
Posso até pegá-lo com as mãos
Não sei se abertos ou fechados
Os meus olhos agora estão

Parei um pouco para respirar
Mas o ar está demasiado pesado
Há mais pessoas a me acompanhar
Neste lugar tão apertado...

Não quero nem ver para crer
Com medo eu não adormeço
A alma está para vender
No inferno alguém paga o preço

Eu corro caminhos acidentados
Com vapores que brotam do chão
Que queimam os desenganados
No fogo feroz da anunciação

Eu quero mas não posso parar
E percebo que estive parado
Se correr sem sair do lugar
Meu sangue será consagrado

Mas a curiosidade é vilã
E olho para traz por um instante
Vejo vaga luz no afã
Esperança de um rompante

Assimilo que ninguém mais a vê
E percebo que ainda tenho chance
Se correr do lado contrário
A salvação talvez me alcance

Mas ao olhar direito luz que despontava
Percebo que era somente ilusão
Corri sem sair do lugar, sem nenhuma passada
Me ajoelhei de desgosto nessa fração

Corro e morro repetidamente
Sufocada pelas muralhas quentes
Abafada por todos os descrentes
Que fazem parte dessa corrente

Dani Maiolo & Wasil Sacharuk

Sou feito daquilo que você invejou


Sou feito daquilo que você invejou

sou só defeito
vida de pobre é dura
perco a envergadura
você perde o direito

imperfeito
intranquilo
fuzuê
abalou

sou o sujeito
que não tem frescura
a mim falta cultura
a você falta proveito

meu jeito
sem estilo
e você
arrasou

sofro preconceito
de qualquer criatura
provo da amargura
você prova despeito

sou feito
daquilo
que você
invejou

wasil sacharuk

Libertino


Libertino

Busquei letras na fonte da ideia
dos desejos fiz verso conciso
escandi as grades dessa cadeia
rimando essa vida de improviso

De quatro estrofes fiz uma teia
com um longo fio de verso liso
saiu derramando sangue da veia
libertino e solto como um riso

Comecei suspirando rima cheia
risquei uma métrica boca e meia
e joguei num contexto impreciso

agora eu rezo que alguém leia
que não me apresente cara feia
e se acaso goste deixe aviso

wasil sacharuk

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

A poesia perdeu a pose, por Luiz Henrique Gurgel


Um fenômeno cultural está tomando conta das periferias de cidades brasileiras: os saraus. Nesses encontros, livres de qualquer afetação, é possível ler o que quiser, quando quiser e como quiser. Na Ponta do Lápis conheceu três deles que existem há alguns anos em bairros da cidade de São Paulo. Veja por que atraem cada vez mais gente – principalmente professores e estudantes – para ler, ouvir e falar sobre versos.
Luiz Henrique Gurgel
 
Estamos em pleno século 21 e um fenômeno literário típico dos salões aristocráticos do século 19 está se repetindo, de maneira transfigurada, em bairros populares e periféricos de grandes cidades brasileiras. É o antigo sarau. Se até meados do século passado a poesia era vista como arte da elite, agora falar ou escrever versos, construir rimas e deixar fluir o “eu lírico” tornou-se algo bem mais popular. O uso da palavra e a criação poética foram democratizados. “Literatura pode ser feita em qualquer lugar”, diz Sérgio Vaz, poeta e um dos criadores da Cooperifa (Cooperativa Cultural da Periferia), entidade que agitou a vida de comunidades que vivem nos extremos da Zona Sul da capital paulista. A televisão, com suas novelas, séries, programas de auditório ou jogos de futebol, deixou de ser a única opção de cultura e lazer dessas regiões.
 
A estimativa é que só em São Paulo e cidades vizinhas existam mais de quarenta encontros desse tipo. A maioria surgiu nos últimos cinco anos. Na Ponta do Lápis foi conhecer alguns desses saraus. Descobrimos professores de escolas públicas, de língua portuguesa e de outras disciplinas, que participam dos encontros, levam seus alunos ou realizam o caminho inverso e criam o sarau dentro da escola, transformando- o em estratégia eficiente de trabalho para o estímulo à leitura, à escrita, além de servir de atalho para a literatura.
■ Sarau da Cooperifa
Um botequim típico de bairro. Bebidas alcoólicas atrás do balcão e, sobre ele, uma estufa com pastéis e coxinhas. A primeira surpresa está numa parede lateral, onde fica uma estante forrada de livros. Jorge Amado, Machado de Assis, Ernest Hemingway, entre outros, ao lado de Sidney Sheldon e Paulo Coelho; muitos livros infantis e de poesia, João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira, além de autores do próprio bairro. A outra surpresa é que ali no Bar do Zé Batidão, região do Jardim São Luís, periferia de São Paulo, funciona ininterruptamente, desde outubro de 2001, o Sarau da Cooperifa, um dos mais conhecidos da cidade. Ficou tão famoso que já recebeu atores, cineastas, jornalistas e vários autores. Até o escritor moçambicano Mia Couto, um dos principais nomes contemporâneos da literatura de língua portuguesa, foi conhecer o evento. Nem por isso o sarau perdeu suas características. Operários, pedreiros, office-boys, empregadas domésticas, donas de casa, aposentados, cantores de rap, estudantes e professores continuam se apresentando e lendo suas criações, textos de amigos e poesia de autores clássicos.

Foto:Vinícius Carlos;
Foto da caixa: Marcia Minillo
O movimento começa pouco antes das 19 horas, toda quarta-feira. Mesas de plástico são dispostas no salão do bar e um pedestal com microfone é instalado. Enquanto aguardam, jovens, aposentados e casais com filhos experimentam um “escondidinho”, prato nordestino com carne-seca, apropriado para uma noite fria. A equipe da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro chega ao sarau exatamente no momento da arrumação para o evento e encontra os participantes no aquecimento. O aposentado Jorge Esteves é um deles. Concentrado em uma das mesas, lê em voz baixa o poema que iria apresentar dali a pouco. O bar foi se enchendo e não sobraram lugares para se sentar. Sérgio Vaz abre o evento, saúda a plateia e já oferece o microfone para quem quiser ler ou recitar versos. Nas próximas duas horas, sem intervalo, um a um, uma a uma, gente vai se sucedendo na apresentação dos poemas.
O encontro mescla famílias, crianças, jovens, adolescentes e idosos. “Temos hoje, contra nós, a garoa, a novela, mas o que importa é a literatura”, vibra Sérgio Vaz, agitando o público. Seu Jorge é um dos primeiros a ir para o microfone. O jeito de declamar lembra Patativa do Assaré. Lê o seu poema “Carta fora do baralho”, relatando sua história de vida e a sina de aposentado. Jovens também se revezam, leem poemas ou improvisam versos de um rap. Falam da condição social e apresentam a visão de mundo própria de quem vive na periferia. Jéssica Lazzare, 17 anos, pensa em cursar letras. Começou a frequentar o sarau com 12 anos, acompanhando a mãe, que trabalhava no bar. Pegou gosto ouvindo os poemas, veio a vontade de escrever. Apresentou nesse dia uma paródia, costurando trechos do Hino Nacional com críticas à realidade dos jovens no país. “Sempre falo da periferia e me inspiro em coisas que vejo acontecer.”
No sarau também ocorre lançamento de livro e o organizador é o professor de língua portuguesa Fábio Barreto, que participa da Olimpíada. Ele trouxe seus alunos do 9º ano da Escola Estadual Francisco de Paula Conceição Júnior, do bairro de Campo Limpo, para vivenciar um momento único: vinham lançarRacismo é o Ó... Unidos contra o preconceito racial, livro escrito por eles mesmos, num projeto coordenado por Fábio. “Queria fazer a publicação circular e o sarau era uma boa oportunidade”, explica. Inspirado na metodologia da Olimpíada, o professor criou uma sequência didática cujo tema era a discriminação racial. Ele trabalhou com poemas, crônicas e contos, além de promover debates com os alunos sobre a questão. No final, o trabalho rendeu um livro com os textos produzidos pelos estudantes.
Fábio gosta de frequentar esse tipo de encontro, que, segundo ele, promove o direito à literatura. “Durante muito tempo as pessoas acharam que literatura era algo a que não se tinha direito, cuja compreensão e cuja fruição eram restritas a poucos. Representa a democratização da palavra: ler o que quiser, quando quiser; também escrever o que quiser, recitar o que quiser, onde bem entender!” A atividade proporciona para seus alunos outro tipo de contato com a literatura: “[Temos] leituras de diferentes gêneros – peça teatral, romance, poesia, conto, crônica – em espaços diversificados: salas de aula, bibliotecas, estacionamentos, ruas, escadão, pracinhas, e com o propósito do entretenimento – sem resenhas, perguntas, provas. O sarau, nesse contexto, representa uma possibilidade real de envolvimento com literatura”.
■ Uma roda de poesia no Grajaú
Foto: Márcia Minillo
Não muito longe dali, na Casa de Cultura Palhaço Carequinha, no Jardim Grajaú, também na Zona Sul de São Paulo, Maria Vilani, professora da Escola Estadual Adelaide Rosa Ferreira, promove não apenas saraus, nos sábados à noite, mas também cafés filosóficos, encontros abertos com debates livres, que discutem temas como “A religião no contexto da periferia”, “Drogas: uma reflexão”, entre outros. Já o sarau, que funciona há dois anos, se chama Roda de Poesia. Os livros ficam no centro de um círculo formado pelos participantes e qualquer pessoa pode pegar, escolher um poema e ler para as outras, sentada, em pé, interpretando ou cantando na forma de um rap. Vale qualquer tema, e nem só de amor ou problemas sociais vive a poesia da periferia. Claro que a vida complicada, a violência, os preconceitos estão sempre presentes. Mas até de temas não tão poéticos como o videogame podem surgir versos. “A gente faz poesia por poesia”, conta Clayton Cavalcante Gomes, filho de Maria Vilani e também professor de língua portuguesa de escolas públicas, que apresentou de cor o poema “Desencanto”, de Manuel Bandeira. “Quando a gente ia imaginar que num sábado à noite as pessoas viriam se reunir para ouvir e falar poesia?”, indaga. A pergunta faz sentido, pois a maioria dos frequentadores é de jovens de 16 a 22 anos. Ainda mais porque numa sala ao lado do sarau havia um curso de dança e seu convidativo baile era embalado por música pop e eletrônica. Mas isso não foi capaz de desviar a atenção de aproximadamente trinta pessoas, que ficaram até as 22 horas lendo e ouvindo poesia.
E autores, do próprio bairro ou de outras regiões da cidade, que lançaram seus livros de forma independente ou por pequenas editoras, aparecem para as leituras. O professor Adenildo Lima é um dos mais assíduos frequentadores e também o organizador das leituras na Roda de Poesia. Ele criou a Editora da Gente para lançar seus trabalhos e de outros autores da periferia. Outro ativo integrante é o rapper Márcio Ricardo, do grupo Semblantes, que bolou outra estratégia para divulgar seus poemas. Ele lançou o livro Felicidade brasileira na escola em que estudou e em outras da região, com direito a show de rap. Márcio, de 22 anos, conta que foi por causa do ritmo – gênero musical preferido entre jovens da periferia – que começou a escrever. Ele mostrava suas letras para a professora Vilani, recebia dicas e o incentivo para continuar a escrever e ler outros autores. Foi assim também que chegou à poesia de Vinicius de Moraes e de Cecília Meireles. Atualmente, ele e o grupo percorrem escolas da região oferecendo gratuitamente oficinas de poesia e de rap. “A gente mostra que também é da periferia e que faz poesia. Eu olho para os alunos e vejo a vontade que eles têm de mostrar um lado literário”, conta.
■ Sarau dentro da escola: um por todos e todos por um

O Sarau dos Mesquiteiros começou com o trabalho de um professor com seus alunos. Virou atividade aberta para toda a comunidade do bairro.
Foto: Marcelo Castro
Mas alguns saraus e grupos literários surgem na própria escola, fruto do trabalho de professores. É o caso dos Mesquiteiros, nome do coletivo artístico e cultural criado em 2009 e formado por jovens e adolescentes de Ermelino Matarazzo, bairro da Zona Leste de São Paulo. O nome faz referência à Escola Estadual Jornalista Francisco Mesquita, espaço em que o grupo se formou e onde até hoje realiza um sarau aberto para a comunidade todo último sábado do mês.
Foi a partir do projeto “Literatura (é) possível”, trabalho desenvolvido na escola desde 2006, pelo professor de história Rodrigo Ciríaco, que o projeto e o grupo deslancharam. Trata-se de um trabalho “artístico e pedagógico”, explica o professor em seu blog (http://efeito- -colateral.blogspot.com.br), e “tem como finalidade a valorização da leitura, da escrita e da criação através da literatura, principalmente a chamada ‘literatura periférica’”. Mas o projeto é mais abrangente e utiliza-se de outras linguagens, como o teatro, a música, a fotografia, o cinema, entre outras. A proposta dos jovens mesquiteiros é ousada. No blog do grupo (http://mesquiteiros. blogspot.com.br) afirmam ter por objetivo “incentivar, difundir, promover e problematizar a cultura da periferia a partir da Escola Estadual Jornalista Francisco Mesquita para a sua comunidade”. Para isso, realizam oficinas de literatura e teatro, encontros com escritores, produção de espetáculos lítero-teatrais, saraus, além do desenvolvimento do selo editorial Um por Todos, que edita, produz e divulga a criação de seus integrantes e colaboradores.
O comum em todos esses projetos e entre seus protagonistas é a vontade e a necessidade de expressão e a consciência de que a língua também é um patrimônio da periferia, superando todos os preconceitos. São iniciativas espontâneas que estimularam a si mesmas, gerando um movimento. Mas também é possível entender tudo isso de forma mais simples e direta, como explica Sérgio Vaz: “A gente faz porque dá prazer”.
Revista Na Ponta do Lápis
Ano IX
Número 22
Agosto de 2013

texto compilado de: https://www.escrevendoofuturo.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=1431:reportagem-a-poesia-perdeu-a-pose&catid=23:colecao&Itemid=33




















Rogério Germani – poeta da NOVA ORDEM DA POESIA

Rogério Germani – poeta da NOVA ORDEM DA POESIA

 

“Antes mesmo de ser alfabetizado- lá pelos 4 anos de idade- fui enfeitiçado pelo reino das letras. Iniciei meu gosto pela literatura através de folhas avulsas de gibi e impressos de quaisquer assuntos. Já na fase escolar, escrevi meus primeiros poemas aos 9 anos para me enveredar nos namoricos infantis- é a mulher que nos põe amor nos olhos. Desde então, apaixonei-me por versos e, até hoje, escrevo meus sentimentos brotados na alma. Tenho 5 livros publicados: Ao primeiro instante de beleza , Outros Amores, Eu Tu Anônimos, Por detrás dos olhos e o livro de crônicas, Quase sem querer. Participo de várias antologias brasileiras, com destaque ao projeto bilíngue Letras Contemporâneas, da Editora Abrace. Sou membro-correspondente da Academia Cachoeirense de Letras-ES, colunista do site cultural Papokult e diretor cultural de uma associação de moradores em Ibiporã-PR. E por último, porém minha realização maior: sou colaborador ativo da NOP, o maior celeiro virtual de poesia contemporânea, legítima fraternidade de poetas amigos.”

Rogério Germani – poeta da NOVA ORDEM DA POESIA 

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