A poesia delira ao diapasão e, logo, intenta aos acordes da lira. Poesia que tanto descreve saliva de beijo, bem como a imagem do pensador com o queixo poisado nos dedos. Poesia pode andar no eixo para não ouvir queixa, mas pode andar fora e criar desavenças. Há poesia das crenças, poesia do lixo, poesia pretensa, poesia das gentes, poesia dos bichos. Ela é o amálgama do mundo, verte por tudo. É ofício dos nobres, sedução dos espertos, marofa dos pobres e sina dos vagabundos. Também vive escondida na língua dos analfabetos. Poesia é isso tudo e mais outro tanto, no entanto, poesia não é absurdo. Absurdo é querer-se mudo; absurdo é querer-se surdo; absurdo é querer-se cego. (Tudo e mais outro tanto - sacharuk)

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segunda-feira, 29 de junho de 2020

a busca




“Quanto tempo temos antes de voltarem, aquelas ondas?

Que vieram como gotas em silêncio, tão furioso.
Derrubando homens entre outros animais,
Devastando a sede desses matagais.
Devorando árvores, pensamentos, seguindo a linha,
Do que foi escrito pelo mesmo lábio, tão furioso.
E se seu amigo vento não te procurar,
É porque multidões ele foi arrastar.”
(Eternas ondas – Zé Ramalho)

A busca 

É madrugada e se pode claramente ouvir os passos. São curtos e rápidos. Os cabelos da mulher estão totalmente ocultos pelo capuz negro que revela apenas pequena parte da face de pele muito branca. E ela avança pela escura ruela banhada por uma contínua e espessa chuva que promete não se esgotar. Molhadas, as vestes negras aderem totalmente às formas do corpo da mulher.

—É preciso encontrá-lo já e me antecipar ao vento que quer tomá-lo de mim.

As águas que caem do céu encontram o chão de pedras e, quando unidas ao sopro drástico do vento, compõem um misterioso som que se apodera do vazio noturno. A tormenta obriga a pressa dos passos.

—Talvez não haja mais tempo para dissuadi-lo! 

O lado direito revela o caminho que deve ser tomado e conduz inevitavelmente à velha ponte. Faz-se necessária a travessia para quem quer seguir o rumo que alcança o alto do monte. 

O capuz molhado ainda absorve a chuva que se mistura às lágrimas que descem pela suavidade do rosto jovem. 

Passos decididos vencem a travessia da ponte e investem cansados contra o alto. A força supera a pressa e no frágil corpo transparece toda a angústia e o desespero. Incontáveis passos firmes serão ainda precisos sobre o solo enlameado que conduz ao topo. 

— Estará ele ainda lá? 

A fadiga mina a vontade e debilita a matéria. Ao cessar das forças, a natureza se encarrega de orquestrar o ato final. 

Com os joelhos afundados no barro a mulher tem as lágrimas secas pelo espanto. Por um breve instante cessou todo o medo, mas não há mais fôlego. 

Surgindo pleno de glória da margem do precipício, um homem abre os braços prontos a se agarrar ao mundo e, tal como um corajoso pássaro, desafia a grande chuva e as alturas, em nome da liberdade. 

sacharuk


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